05/06/2016

Bang-bang em Campo Mourão Anos 50

 
A História de um homem mau com Roberto Carlos

Entre os anos de 1950/60, Campo Mourão/PR, que compreendia a extensa região do sertão entre os rios Piquiri e Ivaí, foi marcada por muito derramamento de sangue na guerra dos posseiros contra os jagunços e grileiros de terra, em nome da ganância. 

Narrativa de Silvestre Stanisziweski:
‘Eu vi a morte do Octávio Rocha na frente do Hotel Brasil quando eu subia a Rua Araruna. Levava meus filhos ao antigo Instituto Santa Cruz, que ficava ao lado da Igreja de São José. 
Também cheguei quase na hora no dia que o Gaspar Negreiro matou o Elias Xavier do Rego, em frente da Inspetoria de Terras (hoje Sanepar), em plena luz do dia, na Capitão Índio Bandeira. Estavam construindo o Hotel Bandeirantes (do Cavalcante) quase na esquina da R. Santa Catarina e um carpinteiro foi atingido com um dos tiros, no pé. Saiu pulando igual saci e gritando igual doido. Esses tiroteios aconteciam de dia, com sol quente. Era cena de filme de bang-bang mesmo. De longe você via a fumacinha da pólvora dos tiros e, uns segundinhos depois, escutava os estampidos.”  
A novidade do dia, nessa época, era quando não morria ninguém.

Diorque Nogueira conta:
"Eu vinha pela Avenida Capitão Índio Bandeira, passava em frente a Farmácia Likes, quase no Bradesco, escutei uns tiros e senti alguma coisa queimar o dedão do meu pé. Vi um alvoroço em frente a Quitanda Avenida, na esquina... um homem caído no chão e um soldado que saiu meio correndo de revolver na mão. Fui medicar meu pé na farmácia e contaram que o soldado Rocha tinha uma encrenca antiga com o Santão (pistoleiro) e ao passar por ali viu seu desafeto encostado na parede, comendo caqui e se olharam, tipo "vou te matar". O Rocha sacou primeiro, atirou e matou o Santão.

 
Rubens Luis Sartori conta...

"Eu estava no início de minha advocacia, com escritório no primeiro andar do prédio próximo do local. Eu fiquei olhando a correria pela janela. Não demorou muito encostou ali uma camioneta com carroceria; vi que pegaram o corpo do Santão (ele era gordo), pelas pernas e pelos braços, balançaram o corpo inerte; o jogaram na carroceria e o levaram à Delegacia."  contou o advogado e promotor Rubens Luiz Sartori.


 Jorge  Fernandes de Moraes conta que: "O Delegado, Capitão Bompeixe, mandou transferir o soldado Rocha pra Peabiru. O soldado não gostou. Foi até a casa do seu chefe e quando esse saiu na janela, Rocha disparou dois tiros, mas o delegado se safou com vida.
Em seguida Bompeixe telefonou à delegacia e ordenou ao sargento Agenor e dois soldados – um me lembro que era Hugo – prender o Rocha. Ele já estava meio bêbado quando chegou aqui ao nosso bar”, revela seu Jorge, dono do pioneiro Bar Aparecida. 
“Eram duas horas da madrugada. O Rocha estava sentado ali naquela mesa, longe das portas. Tomava cerveja quando a patrulha chegou. O sargento deu voz de prisão. O Rocha se levantou, de vagar, de costas pras portas e já se virou atirando. Baleou o sargento, que morreu na hora, em frente do bar. Os soldados acertaram vários tiros no Rocha, que veio cambaleando e caiu no chão, bem aqui no fim do balcão. Levaram ele ainda vivo, mas morreu no hospital”, mostra o local da queda, perto da copa. “Nesse tiroteio só estava aqui o balconista Antonio, que ficou duro de medo. Depois ganhou o apelido de Rocha... Rochinha. O menino tremia igual vara verde!! - É um menino bom!! - Hoje ele tem a Churrascaria do Rocha, mas esse sobrenome não é dele. É uma lembrança do soldado morto”, detalha seu Jorge, proprietário do lendário Bar Aparecida, que ficava em frente ao edifício Antares, no coração de Campo Mourão.

Conta Amélia de Almeida Hruschka: "Sabe...  entre 1950/60 Campo Mourão era um farvestão melhor que filme americano. Era tudo ao vivo, real e a cores. Matavam muito, todo dia pelos matos e até na cidade. 
Uma das vítimas desse bang-bang mourãoense foi o pai de uma amiga minha. Mataram ele dentro de uma churrascaria. Pedi ao meu pai se deixava eu ir no velório com ela?! Ele não deixou, de jeito nenhum. É que acreditava que nesses velórios de gente 'matada' dava muitos bandidos que marcavam as pessoas testemunhas, e depois as matavam" - (queima de arquivo).
Tinha um tal de Pedro Candido (Candinho) que matou até a mulher. Esse pistoleiro era piolho de velório. Ele atocaiava (se escondia) no caminho que a pessoa passava, e matava a traição (pelas costas). Á noite ele ia no velório só pra escutar os comentários e ouvir se alguém falava da 'coragem' e da 'fama' dele. Era sádico.
Uma certa manhã eu eu vi que mataram um tal de Dutra (não o soldado, esse era outro), na rua Araruna, pouco abaixo do antigo Hotel Brasil, da dona Dalva. Não sei porque cargas d'água, me chamaram a fim de cuidar do corpo ali estendido no pó... sol quente demais. 
Campo Mourão não tinha funerária. Pegamos o homem, todo melecado de sangue misturado com poeira e o tiramos do meio da rua... levamos pra uma casa ali perto. Eu estava tirando aquele roupa imunda dele, e parei na cueca. Pedi que algum homem a tirasse... pra mulher não pegava bem fazer isso, sabe?. A casa lotou de curiosos e parentes... sei lá quem eram!! Mas ninguém quis tirar. Aí chamei um policial presente, apelei pra autoridade dele, e ele me ajudou. Dei banho no corpo, numa bacia grande de latão. A água ficou mais cor de sangue e mingau de pó, do que água. Dei dois banhos de sabão, no morto, pra ficar bem limpo. Pedi e me deram uma camisa e uma calça... vesti ele (sem cueca), descalço e o pusemos em cima de uma mesa de madeira, esticadão. Tinha vários balaços pelo corpo e um tiro no meio da testa, que não parava de verter sangue. Entupi o buraco com algodão, mas não estancava. Peguei uns palitos de fósforo e calquei bem o algodão, tipo uma rolha... daí parou... fazer o quê?
Arrumei o velório e fui pra casa preparar almoço. Nem comentei nada com meu marido (Alfonso Hruschka). Estávamos comendo... eu usava uma aliança larga, de ouro, cravejada de diamantes... -Naquele tempo podia, né? -Não tinha assaltantes como hoje!.. rindo.
Fui dar uma ajeitada na aliança, que estava meio virada, olhei e vi...(écaa)... estava cheia de sangue encalacrado, assim por baixo das pedrinhas de diamante, sabe?.. disfarcei... abaixei a mão, esfreguei e aliança e limpei no vestido, em cima da coxa... olhei de novo, estava limpinha, brilhando e continuei almoçando! 
Um outro dia fui procurar a Lucila Traple, que era sócia da boutique A Triunfal, do Beno Nadolne, na Irmãos Pereira. Era ao lado do antigo Armarinhos Continental. Em frente da loja vi uma vaga. Estava manobrando meu fusca vermelho... tinha um carro preto na frente e um jeep/60, cinza, atrás. O Celso e a Greice eram pequenos e estavam sentadinhos no banco traseiro... aí ouvi uns tiros bem pertinho de mim, quase no meu ouvido esquerdo... olhei e vi um tal de Manézinho do Pinhalzinho (Janiópolis) com o revólver na mão, fumegando. -Atirou e matou o rapaz que estava sentado no jeep... morreu na hora, de cara sobre o volante.
Rapidinho juntou gente por ali. Teve alguém que me disse: -some daqui dona, senão vai sobrar pra senhora! - Me mandei e até esqueci o que eu tinha pra falar com a Lucila".
"Mas, entre 1950 e 1960 isso parecia normal em Campo Mourão. Teve um mês de dezembro, entre o Natal e Ano Novo, que ocorreram 36 mortes - seguidinhas - por facas e tiros, só na cidade. No mato não sei".
"Em 1950/51, quando a gente vinha com papai e amigas minhas de Londrina, em direção à nossa fazenda em Goioerê, eu falava pras meninas: agora todo mundo se abaixa... estamos passando por Campo Mourão!! Elas se encolhiam, assustadas, e perguntavam: porr quêê isso Améélinha?? E, eu dizia: é por causa dos tiros. Aqui sai bala pra todo lado, toda hora!!
Moço, coloca aí The End, igual dos filmes de bang bang, tá?!"... sorrindo.