6 de junho de 2016

Promotor Poeta de Campo Mourão


Rubens Luiz Sartori de Campo Mourão

Notabilizou-se por suas inúmeras peças jurídicas escritas com o rigor e a precisão que exigem os rituais forenses, porém, em forma de Poesia bem humorada. Na maioria dos casos requeria arquivamento de processos abertos contra pessoas humildes. Vejamos algumas de suas pérolas jurídicas.

1

Autos de Inquérito nº 285/94 - 1ª Vara Criminal
Ladrão de quentão e Tubaína 

Meritíssima Julgadora:

Contém neste relatório,
a notícia furtadora
de garrafas de bebida,
cujo valor é irrisório
e não merece guarida.

O pouco valor constatado
nem de longe o incriminou,
vez que o indiciado é enteado
da pessoa que o denunciou.

Fala-se num botijão de gás
que também fora furtado,
mas nada tinha o rapaz
e nada com ele encontrado.

Dois quentões, duas tubaínas,
não permitem acusar,
pois são bebidas baratas
de consumo popular. 

Não há como denunciar
e movimentar esse poder,
por míseros cinco reais
não vale a pena escrever.

O fato de ter sido preso,
num flagrante desrespeito,
demonstrou muito desprezo
e já humilhou o sujeito.

A polícia, infelizmente,
tomou tudo por escrito,
fez subir aqui pra gente
esse dossiê esquisito.

O certo pra esses casos,
num juizado arbitrário,
seria uma advertência na hora,
num julgamento sumário.

O que nos reserva a vida:
vinte anos de função,
ver um sujeito indiciado,
por tubaína e quentão.

Por isso eu peço à senhora,
me entenda e evite a demora,
processar sem fundamento.
Compreenda que foi desforra,
do padrasto com tormento,
e como não há justa causa,
remeta ao arquivamento.

Este caso foi encerrado e arquivado.
***



Autos de Inquérito nº 225/96 - 1ª Vara Criminal



O acusado, Oscar Ortigara dirigiu-se, na tarde de 18 de outubro de 1995, até a propriedade do deputado Nelson Tureck, às margens da Usina Mourão, em visível estado de embriaguez, quando disparou, para o alto, dois tiros de espingarda e proferiu palavras de baixo calão contra o deputado, de quem é desafeto por razões políticas.

Tiraiada - MM. Juiz:

O fato foi dia dezoito de outubro,
mês de eleição;
numa tarde bem brejeira,
descansar era a intenção.

Pescava o nobre deputado,
em seu barco, com os amigos,
no lago da Usina Mourão,
tranqüilos e sem alaridos.

Eis que chega o desafeto,
seu amigo companheiro,
já bem alto do boteco,
gritando e arruaceiro.
Parando sua caminhonete,
o denunciado bradou:
"venha aqui seu desgraçado...",
e dois tiros disparou.

Como disse Nelson Tureck,
foi pra cima a tiraiada,
e ele feito moleque
ficou torcendo por mais nada.

Tão logo que disparou,
o denunciado fugiu;
bem borracho ele voltou
pro lugar onde saiu.

Tomadas as providências,
o inquérito se iniciou,
mas o acusado, prudente,
a tentativa negou.

Aliás, há de se registrar
um inquérito bem montado,
com fotos e bom relatório,
pois a vítima é deputado.

Na tentativa de morte,
não posso aqui acusar,
pois atirar para o alto
não pode ninguém matar.

Portanto, a coisa é ladina,
mas nada de comoção;
o procedimento de rotina
é o tipo: contravenção.

Contravenção de disparo,
em habitado lugar,
no art. 28, equiparo
o ato de detonar.

Então o que se há de fazer,
com os tiros do vagal?
Se não este remeter
ao Juizado Especial!

A Lei é a 9.099,
que surgiu para abreviar
os casos de pouca monta
pra rapidinho julgar.

Assim descrito, Excelência,
só vejo um itinerário,
seguir este à ciência
ao Juizado sumário.
*** 

3
APOSENTADORIA

Excelentíssimo senhor
Doutor Gilberto Giacota,
digno geral-procurador,
onde o 'parquet' se apóia:

Venho por meio desta,
à augusta procuradoria;
chapéu tapeado na testa,
pedir a aposentadoria.

Cumpri minha sina gaudéria,
fui promotor trintenário.
Sempre esclareci a matéria.
Sempre cumpri meu horário.

Comecei nos anos setenta,
com a máquina manual,
sem ter telefone, nem fax,
faltava até material.

Iniciei por Marialva;
não conto nada por prosa.
Trabalhei em São Jerônimo,
fui o primeiro de Barbosa.

No começo dos oitenta,
eu fui pra Engenheiro Beltrão,
lá eu fiquei por três anos,
e mais de quinze em Campo Mourão.

Em tom de despedida

Campo Mourão, com amor,
abrigou-me desde piá:
de açougueiro a promotor.
Os meus ossos guardará.

Termino aqui em Maringá,
boa terra onde me formei;
meu filho hoje cá está,
no Direito que lhe ensinei.

Para minha filha caçula,
que dos dezoito já passou,
e vai ser Engenheira Química,
a minha benção a ela dou.

Agradeço à minha Jussara,
esposa de bom coração.
Ao seu lado tudo sara,
até a dor da ingratidão.

Ao meu pai, o seu Gastone.
À minha mãe, a dona Olga.
Como som de gramofone,
Casal simples, mas que empolga.

A minha beca desbotada
foi a estola de meu centro;
quanta vez saiu suada,
dos debates noite adentro.
Sai bem rota, mas honrada.

Continuo no magistério,
lecionando na Fecilcam;
ensinando, sem mistério,
o alunado da Comcam.

Sei que é cedo pra ir embora,
mas eu já estou de tardezinha.
Fiz da minh'alma minha espora,
pra cavalgada que é só minha.

Vou-me apenas pra mais perto,
dos meus dias nesta terra.
E saio firme e mui esperto,
para o só meu tempo de espera.

Sempre fui do interior.
Nunca corri em promoção.
Fiz carreira um penhor:
"Ser promotor com paixão".

Deixo o cargo consciente
de que não fui muito brilhante;
porém, sempre independente;
jamais fui inoperante.

Devo tudo o que eu sou
à nossa Instituição;
"até sempre" e a Ela dou,
minha eterna gratidão.

Ao meu Ministério Público,
não desejo dizer adeus.
Quero, e o coração em júbilo,
rogar-lhe a bênção de Deus.

Obrigado, meus colegas,
do trabalho e da verdade;
sempre tenham deste amigo
o respeito e a amizade.

E assim descrito, Excelência,
singelo, e sem rebuscamento,
dê-me ir-me com decência;

dê-me, enfim, deferimento.

 
Rubens Luiz Sartori sentenças em versos
o0o

Veja também:
http://wibajucm.blogspot.com.br/2016/06/promotor-poeta-de-campo-mourao.html

RUBENS SARTORI poeta de Campo Mourão

 
Rubens Luiz Sartori, nasceu em Ouro-Capinzal/SC, dia 20 de outubro de 1953. Filho de seu Gastone Antonio Sartori e dona Olga Perez Sartori. Na infância e mocidade trabalhou com seu pai.

1957  Chegou a Campo Mourão/PR, com seus pais, que abriram um açougue. Estudou o primário no antigo Instituto Santa Cruz entre 1961 e 1964. Foi aluno do Ginásio Campo Mourão, hoje Colégio Estadual de Campo Mourão, entre 1965 e 1968. No mesmo colégio estudou o Científico de 1969 a 1971. Formou-se em Direito pela Universidade Estadual de Maringá - UEM entre 1972 e 1976. Quando estudante ajudou a fundar a União Mourãoense de Estudantes Secundários - UMES. Nesse tempo, o jovem universitário, participou da política estudantil como líder. Organizou o Diretório Acadêmico Nelson Hungria da Faculdade de Direito de Maringá.


 
Família catarinense de Rubens Sartori

1976 - Militou na política mourãoense, no antigo Movimento Democrático Brasileiro MDB, pela resistência contra a ditadura militar. Foi candidato a vice-prefeito, na chapa de Luiz Gonzaga de Oliveira, no pleito de 1976, mas foi eleito José Pochapski, pela Aliança Renovadora Nacional ARENA.

Sua veia poética se manifestou cedo. Em 1968, ainda ginasiano, escreveu a poesia
Ser Pai no primeiro domingo de maio daquele ano, que declamava até os dias de hoje.

1977 – Recém formado, advogado, foi professor na antiga Facilcam, paralelamente ao exercício da Advocacia.

1978 - Prestou concurso a Promotor de Justiça. Alcançou a 5ª colocação no Estado do Paraná, dentre 983 concorrentes, sendo, na ocasião, o Promotor de Justiça mais jovem do Estado.



Mas, a peleia poética da infância sempre o acompanhou também na vida profissional. Inovou o gênero jurídico, pelos seus pareceres em forma de poesia, entre as quais: “A denúncia do Furto de uma Bicicleta” e os arquivamentos “Furto das Tubaínas” e “Furto do Alicate”. Participou de três Varais de Poesia” realizados pela antiga Fecilcam. Em dois deles ficou em 1º lugar e noutro, em  3º. Fez parte das coletâneas: “Caminhos in Versus”da Associação Mourãoense de Escritores - AME e “Vivência” do clube “Amigos da Poesia”.

1986 - Exímio letrista musical, produziu páginas premiadas em festivais gauchescos destacando-se as músicas: Gerações no Festival Cante Terra de 1986; Taipas do Tempo no IV Canto Nativo de Santo Augusto/RS em 1987 e Neblina da Serra na Seara da Canção Nativa de Carazinho RS em 1989.


 

É co-autor do Hino da Escola Rural Municipal Manoel da Nóbrega, Km 128, margem  da Estrada Boiadeira, região onde possuía propriedade rural. Também se destacou no gênero narrativo por publicações em jornais da imprensa. 

No movimento cultural gaúcho foi presença marcante, sendo um dos fundadores do Centro de Tradições Gaúchas Índio Bandeira, de Campo Mourão/PR. Presidiu a Federação do Estado do Paraná - MTG/PR; a Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha CBTG e a Confederação Internacional da Tradição Gaúcha- CITG. Criou o Festival Paranaense de Arte e Tradição Gaúcha FEPART que tem o troféu principal, mérito aos vencedores, com o nome gravado de Rubens Luiz Sartori.

 
1980 - Iniciou atividades radiofônicas na Rádio Humaitá de Campo Mourão. Atuou na rádio Colméia, convidado no Programa Anísio Moraes Notícias, com participação semanal em que prestava orientação jurídica, ao mesmo tempo em que tratava de assuntos da atualidade. Na mesma emissora foi comentarista esportivo, conhecido pela frase: Rubens Sartori Doutor da Bola - o comentário com justiça.

Desde a infância destacou-se como orador o que lhe valeu o carinhoso codinome: Xiru das Falas.

Presentemente encontrava-se aposentado como Promotor - Poeta - de Justiça, tendo voltado às lides advocatícias e às atividade de magistério superior. Famoso pelas defesas judiciais em forma de versos. 


 

1997 - Exerceu função diretiva da Unespar/Fecilcam - Campus de Campo Mourão. Foi Vice-Diretor no período de maio de 1997 a maio de 2001 e de junho de 2001 a 2005, diretor da mesma Instituição. Foi eleito, por seus pares, 1º Presidente da Academia Mourãoense de Letras - AML, instalada em 21 de maio de 2002.


 
Filha, esposa e filho de Rubens Sartori

Rubens Luiz Sartori faleceu a noite de  25/08/2013 (domingo), aos 59 anos, vitima de AVC (derrame cerebral). Repousa no Cemitério Municipal São Judas Tadeu, de Campo Mourão/PR.
O cidadão - mourãoense de coração - advogado e promotor poeta era casado com Jussara e deixou um casal de filhos: Claudia e Rubens Jr, e o neto Rafael.




Pedido do Poeta

"Campo Mourão, com amor,
abrigou-me desde piá;
de açougueiro a Promotor.
Os meus ossos guardará".
"E assim foi feita a vontade de meu pai". (Cláudia Sartori)


"Meu caro Wille, amigo e professor.
Quem não tem saudade, não tem passado,
Me disse certa vez na Fecilcam, o senhor.

Peço que eternize meus versos, meu legado
Publique-os, se possível, por favor.

Um abraço do seu amigo Rubens,
filho do seu Antonio, amigo do pai Ville,
a quem boa carne e mate vendi
e sempre, com correção, recebi".
(7/Jan/2000)

***
Leia também:
http://wibajucm.blogspot.com.br/2016/06/promotor-poeta-de-campo-mourao.html