18/05/2011

PEABERU - O SAGRADO CAMINHO DE SÃO THOMÉ - Livro


PEABERU

O SAGRADO CAMINHO DE SÃO THOMÉ

Capa do Livro de Wille Bathke Junior



Traduzido
O pesquisador espanhol, Ruy Diaz de Guzmán, fundador da segunda Vila Rica do Espírito Santo (1775), na foz do Rio Corumbataí com o Rio Ivai (Fênix–PR), traduziu a palavra composta pê abê y u assim: caminho antigo de ir e vir. 
O Peaberu é uma trilha funda, com oito (8) palmos de largura e cerca de cinco mil quilômetros, do Brasil ao Peru, rebatizado, pelos jesuítas, de Caminho de São Thomé. 
Moysés Bertoni, estudioso da cultura Guarani, disse que: “esses índios revestiam as trilhas com gramináceas de sementes glutinosas que grudavam nos pés e pernas dos viajantes e, assim, ao caminhar, ia-se multiplicando o plantio”.


Introdução

Caminho de San Thiago de Compostela

Diversos países têm caminhos famosos mantidos. São considerados símbolos de valores pátrios e sagrados. 
Na Espanha existe o Caminho de San Thiago de Compostela; nos Estados Unidos, o Appallachian Trail; na China, a Rota da Seda; na Itália, a Via Ápia e outras estradas importantes, conservadas em diversos países.
O Brasil orgulha-se de ter o Sagrado Peaberu de São Thomé - antiga rota mística nativa - e grande parte em Campo Mourão - PR. 
As mais antigas trilhas surgiram em conseqüência das migrações dos homens e animais pré-históricos, na busca de aclimatação e sobrevida. Ao mesmo tempo, o ser humano começou a estabelecer estradas primitivas à procura de víveres, água, peregrinações, migrações, comércio e guerras entre as tribos, na luta pela sobrevivência, defesa e domínio de territórios.


Via Ápia

Tudo indica que os cartagineses foram os primeiros a revestir seus caminhos com pedras. 
Alguns séculos antes de Cristo, Apius Claudius - imperador romano - construiu um de aproximadamente 200 km, que liga Roma à Cápua, ao Sul da Itália, revestido por camadas de pedras, até hoje conhecido como Via Ápia. 
A principal função das estradas e trilhas sempre foi a de facilitar os deslocamentos dos humanos e animais.

O Peaberu Milenar na região Inca era calçado

No Brasil, as primeiras publicações a respeito de caminhos tratam do emaranhado de trilhas aborígines de trânsito pedestre, que partiam do litoral em direção ao interior do continente, em todas as direções. Atingia vários pontos do continente sul-americano.
A mais importante de todas é a do milenar Peaberu formado por uma teia de troncos principais e trilhas vicinais, desde Cananéia (SP), Guaratuba (PR), Florianópolis (SC), Guaíra (PR), Potosi (Bolívia), Assunción (Paraguai) e Cuzco (Peru), que permitia o contato das tribos da nação Guarani com as do Norte e Sul do Estado do Paraná, entre elas as que habitavam os Campos de Piratininga (SP), Campos Gerais (PR), Chaco (MS) e os Pampas (RS), além dos Incas e da tribo Tupi com os quais disputava a supremacia do traçado. 
No Peaberu, pelo Brasil afora, existem as rotas: Tupiniquim, Tupinambá, Tamoio, Guaná, Carijó e, principalmente, a Guarani.

 
O Peaberu de São Thomé atravessa a América do Sul

É possível reconhecer, hoje, junções fundamentais que interligam a pré-história e a história contemporânea, no processo dos assentamentos humanos na América, que correspondem ao enorme sistema viário conhecido como o conjunto de peaberus. 
Antes da descoberta do Novo Mundo, havia uma trilha estreita e longa, intensamente usada pelos nativos na guerra, na paz e na busca do paraíso. Atravessava, com incrível facilidade, matas, rios, serras, campos e pântanos, num percurso de aproximadamente cinco mil quilômetros, dos quais, 200 léguas (1.200 km) dentro do Brasil, desde os litorais: paulista, paranaense e catarinense até as barrancas do Rio Paraná. Esta intrincada rota, pouco conhecida e quase nada recuperada, chama-se Peaberu ou Caminho de São Thomé, aberta pelos ameríndios há milhares de anos, sob orientação do santo apóstolo (segundo a lenda).


Troncos

Um dos troncos começa em São Vicente e Cananeia (SP); cruza os estados de São Paulo e Paraná e corta os territórios do Paraguai, Bolívia e Peru. 
Outro procede do litoral catarinense e, na altura dos Campos Gerais (PR) funde-se com o que vem da costa paulista e toma várias direções através de centenas de ramais.
O território de Mato Grosso foi ocupado antes dos invasores europeus pelos nativos, desde a pré-história.
Os peabeyus (caminhos antigos) abertos pelas nações que aqui viviam foram importantes na história da ocupação do Brasil. Esses povos participaram de sangrentas batalhas e deram milhares de vidas, nas lutas em defesa da terra invadida pelos portugueses e espanhóis, através do Peaberu.
Ainda restam lembranças das grandes tribos pré-colombianas, entre as quais as dos: Guarani (guerreiro), Bororo, Caiówa, Guaicuru (cavaleiro), Terena, Guató e Paiaguá (canoeiro), dentre outras.

 
Hoje a minoria indígena aculturada, à maneira dos brancos, não é nem sombra dos bravios guerreiros. Está confinada nas “reservas”. Alguns vagam pelas cidades ou vivem em favelas e as custas de pequenas vendas de trabalhos artesanais.

Tronco do Pe abe y u


Podemos imaginar o tronco e os ramais do Peaberu igual a uma gigantesca árvore arrancada com as raízes. O tronco seria o Caminho principal e as raízes os ramais, ou a uma teia de aranha  concêntrica e variantes por todos os lados.
Geograficamente Campo Mourão situa-se no coração do centro-oeste do Paraná e é sabido que tem o maior entroncamento rodoviário do Sul do Brasil.
Este fato, deve-se a abertura da maioria das estradas naturais sobre os traçados primitivos do milenar sagrado Caminho da Terra Sem Mal que, segundo a crença guarani, os conduzia ao céu.
O fator preponderante deste aproveitamento, pelos europeus, é que o Peaberu não tinha subidas nem descidas abruptas, pois contornava, com suavidade, os acidentes do terreno e seguia sempre próximo aos rios e regiões de caça abundante.
Com certeza o Caminho se formou e se expandiu sobre trilhas primitivas de animais silvestres e pela sua utilização, destes estreitos traçados, pelos ameríndios, com o mesmo objetivo natural de sobrevivência: busca de locais que ofereciam alimentos e água, próximos aos quais construíam suas aldeias.
Quando o alimento escasseava, mudavam-se para outra região distante, enquanto o local, antes habitado e explorado, se refazia pelo processo natural, inclusive as trilhas do Caminho desapareciam onde não mais eram pisadas.
O principal tronco do Peaberu, que cruza Campo Mourão - PR, é a BR-158, a qual se inicia no litoral catarinense, na foz do Itapocu, e termina na região de Guairá – PR, aberta sobre o caminho nativo.
Este é um tronco do Peaberu que os pioneiros transformaram na primeira estrada entre os dois estados sulinos, até hoje não pavimentada. Esquecida pelos mandatários políticos que têm os poderes de decisão e de realização.
Antigamente o 'cacique' mandava abrir os caminhos, construir as pontes, e pronto. Não havia 'burocracia' entre os tupiniquins.

Características do Caminho

 

O Peaberu, no Brasil, não tem nenhum tipo de pavimento. É uma trilha funda, demoradamente talhada pela ação do homem, com cerca de duas varas (1,80 m) de largura e recoberta – em boa parte - por uma grama miúda, macia e farta em sementes pegajosas transportadas e semeadas pelo trânsito de pessoas e animais. É tão fechada, que impede a germinação de outras espécies vegetais e, assim, mantém livre a sua passagem. Este Caminho maravilhoso interliga o litoral do Brasil às cidades incas peruanas: Cuzco e Machu Pichu, na Cordilheira dos Andes.


CAMINHO INCA A MACHU-PICHU E CUZCO

 
A maravilha nativa

Dia após dia, as descobertas históricas e arqueológicas – como a do Peaberu - comprovam o respeitável grau de conhecimento dos povos nativos da América do Sul e ajudam a desmoronar a versão arcaica dos truculentos invasores brancos e dos ideólogos atuais, de que a civilização, a ciência e o bem-estar chegaram à terra sul-americana com os europeus, ou aquela de que os nativos - à exceção dos incas - eram selvagens e pouco mais que primatas sem almas.
Os povos que aqui viviam, antes da ocupação européia, foram chamados por Cabral (1500) de "índios" e o novo continente denominado América, por Colombo (1492), homenagem ao seu patrão, Américo Vespúcio.
Daí em diante os invasores tornaram o Novo Mundo confuso, explorado, manipulado, torturado, humilhado, arrasado, acometido pelo genocídio em massa e injustiças contra homens, mulheres, idosos e crianças que viviam em perfeita harmonia na terra do pau-brasil.
Antes disso era um paraíso secreto, potente, sábio e repleto de poderes psíquicos e espirituais, além de humano, dentro de um perfeito, gigantesco e mágico ecossistema divino. Um desses grandes feitos - prova da inteligência nativa - é o Peaberu, a trilha mais importante da América do Sul para os primeiros habitantes do continente, bem como aos europeus, que apenas buscaram a posse da terra, as riquezas e a destruição da pródiga natureza, até então, intacta, adorada e respeitada pelos silvícolas. 
Na chegada de jesuítas - que a tudo davam nomes de santos - o Caminho da Terra Sem Mal (Guarani) ou a Estrada do Sol (Inca) foi batizado de São Thomé.
Na sua vastidão incomensurável aproximava o Império Peruano às benesses do Brasil, como meio de ligação entre a Nação Guarani e os povos das tribos sul-americanas.
Além de ser uma obra primitiva de grande competência, a existência do Peaberu revela, entre outras coisas, que as nações originárias da América dominavam um conjunto de técnicas sofisticadas, bem mais além do que saber as fases da lua e o calendário anual solar.



Importância do Caminho

O Peaberu aberto e pisado pelos nativos pré-colombianos a milhares de anos foi, para os aborígines, tão importante quanto as modernas rodovias e estradas atuais são para nós. Depois da chegada dos europeus, e a partir do litoral brasileiro, o caminho sagrado dos habitantes naturais, que conduzia à mitológica “Terra Sem Mal", foi invadido por um tráfego intenso de desalmados e gananciosos europeus tidos como civilizados.

 
Mapa anterior as entradas de bandeirantes e jesuítas


Troncos Principais


Um dos troncos cruza o rio Paranapanema, na divisa entre São Paulo e Paraná e segue o rumo Sul quase em linha reta, e o outro atravessa o Rio Iguaçu, próximo ao Rio Santo Antonio, na divisa do Paraná com Santa Catarina. Os dois troncos se fundem nos Campos Gerais. Passa pelo Cerrado Mourãoense, transpõe o Rio Paraná, segue por Mato Grosso do Sul (Pantanal) e viabiliza travessias fáceis, desde a costa do Atlântico, aos contrafortes da Cordilheira dos Andes

Mapa detalhado da Província del Guayrá - 1530

O Peaberu é um verdadeiro feixe de comunicação entre São Vicente e Piratininga, Cananeia e Itapetininga, Paranaguá – Curitiba – Tibagi - Guaíra e Santa Catarina, que demanda às subidas desde o litoral rumo ao planalto. Existem troncos e trilhas que, se embrenham fundo nas matas e sertões, rasgam os acidentes geográficos, o que facilitava a passagem do homem.
Por eles os nativos andavam e seguiam a direção natural e suave dos rios, vales, campos e serras.
Através dessas trilhas primitivas os europeus, notadamente bandeirantes e jesuítas, penetraram em busca de conhecer a nova terra e dela tirar proveitos, capturar nativos para o trabalho escravo e se estabelecer em povoados e vilas, que deram origem as cidades e extinção dos aldeamentos nativos.
Um traçado menor, entre São Paulo/Tibagi, liga os dois troncos principais nos Campos Gerais (PR) com Itapetininga (SP), atravessa a região do Cerrado Mourãoense (PR), alcança Guaíra (PR), Rio Paraná e Assunción (Paraguai).
Há também, um pequeno tronco paulista, que passa entre os rios Pardo e Ivinhema.

Mapa Sul  traçado pelos jesuítas e tropeiros (1630)

Dentre as primeiras estradas abertas pelos europeus a partir do Peaberu, estão as do Padre José; a Calçada do Lorena (Estrada do Imperador); a do Vergueiro; o Caminho do Mar e tantas outras entre a terra firme e o litoral brasileiro.
Muitas ferrovias e rodovias atuais têm seus traçados sobre boa parte das primitivas trilhas dos povos naturais, as quais contribuíram para o desenvolvimento do Brasil e do continente.

A BR-158 aberta sobre o Peaberu 
trecho Campo Mourão/Roncador


Os Incas e o pê a pirú

A efetiva interiorização do Brasil e da América do Sul, pelo homem europeu, começou pelo Peaberu e, ainda, é possível traçar roteiros entre Brasil e Peru. 
Na versão Inca, o nome Peapiru é a resultante da coordenação de pê a pirú, e quer dizer: caminho ao Peru ou, das montanhas da Lua (prata) e do Sol (ouro).
Segundo alguns estudiosos, os incas construíram e pavimentaram a estrada do Peaberu em seu vasto território. Estima-se, que o Caminho Inca tinha uma rede viária que abrangia: Peru, Equador, Argentina, Bolívia e Chile de, aproximadamente, 16.000 quilômetros. 
A partir da Montanha de Prata da Bolívia (Potosi), a estrada Inca segue pelo Rio Desaguadero e, por uma linha paralela mais ao Norte; contorna o Lago Titicaca  e entra no Peru. A bifurcação se une em Cacha e volta a ser uma via única que chega a Cusco, o que leva uma ala de pesquisadores a acreditar que esse caminho teria sido construído a fim de ampliar o Império Incaico até o Oceano Atlântico. 
Em Corumbá (MS) e Puerto Suares (Paraguai) dá uma guinada em direção Oeste. Nesta direção o Caminho, que vem do Brasil, penetra na Bolívia e passa por: Cochabamba, Sucre e Potosi.
É fascinante, misterioso, polêmico e sagrado o longo Peaberu de São Thomé, que nos leva a centenas de ruínas históricas, pontos geográficos e locais importantes do continente sul-americano. 
Além disso, as evidências sobre os contatos entre tribos brasileiras e os naturais peruanos levaram à conclusão de que, efetivamente, existe um longo caminho antes muito conhecido e bastante batido por eles, hoje abandonado, pouco lembrado e, praticamente desaparecido pelo descaso generalizado, do avanço desrespeitoso contra a terra nativa e do moderno progresso dito civilizado.


Estudiosos
O respeitável arqueólogo Igor Chmyz (UFPR) verificou que, curiosamente, o Peaberu dos guarani: “entrelaçava-se” com as estradas construídas pelos incas.
O Barão de Capanema, por exemplo, assegura que: "seria essa estrada, protegida por obras de defesa, devida aos incas, de cujo tempo se afirma existirem vestígios de estradas desde a Bolívia até no Paraguai". Em uma de suas pesquisas sobre o assunto observa que o Peaberu: “encaixa-se perfeitamente ao desenho do sistema de estradas incas, como se fosse seu prolongamento em direção ao Atlântico, a partir do seu império, desde a Cordilheira dos Andes”.
Victor Von Hagen, da Sociedade Geográfica dos EUA, que fez um levantamento completo daquele sistema de estradas na década de 1950 e comparou-o com o dos romanos: “conquanto não se possa negar a Roma seu lugar ao sol da civilização, os incas, que viviam num horizonte de cultura neolítica, presa a instrumentos de pedras, conceberam um sistema de comunicação que se situa num ponto elevadíssimo, em confronto com o romano”. 
Curiosamente os nativos conheciam o ouro e a prata, mas desconheciam o ferro.
Os historiadores, Luiz Galdino, autor de “Itacoatiaras” e Hernâni Donato, que escreveu “Os Incas no Brasil”, asseguram que os incas estiveram no litoral brasileiro, nas praias de SC, PR e SP, com certa assiduidade. Galdino acredita que as viagens dos batedores incas ocorreram pouco antes da vinda dos europeus e que era, realmente, uma tentativa daquele império de colocar um pé no Atlântico. 
“Só que aqui a imensa confederação Guarani no Sul e Tupinambá de Cananeia acima, botaram-nos para correr”, afirma bem-humorado.

Imperador Ataualpa, o Galo

Sobre as novidades europeias trazidas ao litoral brasileiro, há inúmeras histórias interessantes. 
Uma delas é narrada em livro, por Marcus Acquaviva, do South American Explorers Club: “a nossa galinha doméstica introduzida no Brasil em 1502, pouco tempo depois cocoricava perante um assombrado rei peruano, que jamais tinha visto ave tão estranha!”. Admirado com a ave, o imperador Atualpa adotou o nome de galo.
Isso sem falarmos do anzol metálico, que tão logo chegou ao Brasil foi levado pelos incas até Cusco, com o mesmo nome guarani: pindá. 
"Esta rapidez na disseminação dos novos elementos culturais prova quanto eram ativas as comunicações incas através do continente" (Jaime Cortesão).
Foi pelo Peaberu que as tropas lusitanas, vindas pelo Atlântico adentraram o continente e atingiram os Andes. 
Ao expressar a velocidade da penetração por esse Caminho, basta assinalar que o gado bovino e os galináceos trazidos até as vilas de Cananeia e São Vicente (SP) pelos portugueses, já apareciam, em 1503, na Corte Incaica.
Nas palavras do historiador Hernâni Donato - uma das maiores autoridades brasileira no assunto e autor de dezenas de livros - é fundamental olhar o caminho pela ótica dos incas e não apenas pelo prisma dos europeus: “do coração do império, as estradas incas apontavam para os quadrantes da América. As mais importantes eram pavimentadas, protegidas, arborizadas e regadas. Outras, secundárias, meramente de exploração - como o Peaberu – eram menos cuidadas, e preparavam o futuro avanço inca rumo ao Atlântico".

 
Mercadores Incas

Na busca por respostas, alguns indícios vêm à luz dos fatos e nos revelam suspeitas surpreendentes: comerciantes e soldados incas teriam pisado em território brasileiro e mantido intercâmbio e contatos, especialmente, com a grande nação Guarani, que tinha sua maior concentração na região de - hoje Campo Mourão - entre os rios Paraná/Tibagi e Ivai/Piquiri.


Thomé entre as tribos do Brasil


A questão da existência do tipo branco na América pré-colombiana, intriga os pesquisadores. Em todo continente americano, durante a conquista, repetiram-se as mesmas cenas inesperadas. 
Nos primeiros contatos com os nativos, estes ficavam encantados com os cavalos e as armas de fogo. Estranhamente, o fato que deveria ser mais insólito a eles - a cor branca dos invasores europeus - não os surpreendia.
Esse aspecto físico levou-os a uma relação com os heróis míticos das tribos e os espanhóis foram recebidos no México, como descendentes de Quetzalcoatl e de Vira Cocha, no Peru. 
Na tradição mítica brasilíndia são comuns as referências aos civilizadores brancos e a maior figura dentre todas é o Pay Sumé (Apóstolo Thomé).
Este herói se reveste de singular importância, uma vez que a influência dele se faz presente em quase toda a faixa que vai do Rio Grande do Sul ao Maranhão. É o civilizador máximo das tribos Guarani e Inca, descrito como feiticeiro, branco, barbado, que veio pelo mar.
Além do Sumé encontramos o Mairata entre o povo Tupi, com as mesmas características. O Maré, civilizador mítico da raça Aimoré, também era branco e ruivo. A tribo Apinajé se refere a um povo chamado: kupe-ki-kambleg, que significa: "tribo estrangeira de cabelos vermelhos".
Contavam - os nativos - que Sumé falou de um Deus Único e lhes transmitiu uma série de conhecimentos, tais como: a abertura engenhosa do Peaberu, os cultivos da mandioca e do milho, além do uso da erva-mate e da coca como bebidas salutares, “num tempo em que todos se alimentavam de raízes amargas e duras”.

  
Gruta de São Thomé das Letras

No Século XVII o escravo, João Antão, fugiu da fazenda Barão de Alfenas e passou a viver sozinho em uma gruta. Certo dia apareceu um senhor que trajava branco e lhe deu uma carta de alforria, a qual João tinha que entregar ao seu dono e patrão. 
Após ler a carta, o Barão pediu para João levá-lo na tal gruta para conhecer o dono de linhas tão perfeitas, pois, se naquela época era difícil encontrar alguém que escrevia, ver uma pessoa com letras tão bonitas era quase impossível. 
Ao chegarem na gruta, não encontraram o homem, entretanto avistaram uma estátua de Thomé esculpida em madeira. 
O senhorio ordenou, então, que se construísse uma capela ao lado da gruta (hoje a matriz) e, em 1740, formou-se uma vila ao redor dessa igreja, que deu origem a São Thomé das Letras (MG).

Thomé e as Três Pedras

Pelo Peaberu, quando Pai Sumé apareceu no Templo de Botucatu, encontrou os cantores negros rasgando o ventre das mulheres grávidas de onde tiravam os fetos e os ofereciam a Satã. 
Pai Sumé os expulsou e destruiu o templo pagão. Perto das Três Pedras (Bofete-SP) erigiu um novo templo dedicado a Deus.
Por volta de 1760, os jesuítas da Fazenda de Botucatu, da qual eram donatários, quando fugiam para a Vila de São Paulo foram atacados pelos selvagens. Procuraram refúgio nas Três Pedras, onde encontraram uma passagem escondida que leva a uma imensa caverna. Ali depositaram seus tesouros, porém acabaram sendo alcançados e mortos junto aos valiosos pertences e muitas peças em ouro. 
Frei Fidélis escreveu um artigo na revista “O Cruzeiro” (18/05/1968) e tornou públicas as narrativas de inúmeros fenômenos, os quais, ainda podem ser observados ali. Relata que, quando se encontrava sem dinheiro, visitava as Três Pedras, de onde retornava com repentina melhoria financeira.


O Peaberu em Campo Mourão

 
Thomé e a gruta da Santa Cruz de Campo Mourão

O mourãoense Rogério do Prado contava que na década de 40 era tocador de porcos, a pé, de Campo Mourão à Apucarana e nos mostrava trechos do caminho dos jesuítas, na região da BR-158 e da Usina Mourão, por nós percorridos. 
Rogério narrava fatos dos padres e tesouros escondidos na Vila Rica do Espírito Santo, que também eram contados pelos desbravadores, inclusive sobre a passagem de Thomé pela região onde, no Jardim Santa Cruz, até pouco tempo existia um cruzeiro de cedro vivo, que se acredita, fora fincado pelo Santo, na beira do Peaberu que cruza por ali até a travessia rasa do Rio 119 e demanda, pelo trecho ainda existente, até a cidade de Peabiru.
Durante mais de 60 anos, junto ao cruzeiro, todo segundo domingo do mês de maio, era comemorada a Festa da Santa Cruz (13/5) e da Colheita, um dia de Ação de Graças ao alimento e aos milagres recebidos, com missa, batizados, casamentos coletivos, churrascadas, leilão de prendas e um animado fandango que varava a noite. 
A grande festa religiosa reunia as famílias próximas e distantes do mesopotâmico Vale do Piquiri/Ivaí, rios pelas beiras e vaus dos quais seguiam-se as trilhas do sagrado Peaberu de Thomé, hoje de poucos e raros vestígios.
Do madeiro sagrado resta um pouco, com marcas de fogo, pois fora queimado no incêndio da capelinha de sapé (1962) onde hoje é o Jardim Santa Cruz.
Salva do brasido e beneficiado na Marcenaria Introvini, a pequena cruz estava guardada na gruta de pedras construída pelo fundador do Jardim Santa Cruz, Ville Bathke (meu pai de saudosa memória), autor desta relíquia marcante, o qual nos falava do seu “ardoroso desejo de construir o Santuário de Thomé e reviver a Festa da Santa Cruz”, naquele local sagrado.
A neta e filha de pioneiros mourãoenses, Adelaide Teodoro de Oliveira, testemunha que as mulheres grávidas faziam promessas a Santa Cruz e se o parto corria bem: “levavam uma pedra na mão ou no alto da cabeça, e a criança no braço; percorriam grandes distâncias, a pé, pelo Caminho e as depositavam ao lado do abençoado cruzeiro de cedro. Meu pai andou muito a cavalo pelo que ele dizia: o caminho dos incas, quando delegado de polícia de Campo Mourão”.
As graças recebidas, são confirmadas por Justilina dos Santos (dona Santa), viúva do dentista José Antonio dos Santos primeiro prefeito (nomeado) de Campo Mourão. 
Contam, ainda, que pessoas, “com fortes dores de dente colocavam pedrinhas na boca e iam cuspi-las ao pé da Santa Cruz, e saravam milagrosamente”.

Cruzeirinho de Farol próximo a Campo Mourão

No município de Farol tem uma localidade conhecida como Cruzeirinho onde existia uma antiquíssima cruz de madeira de cedro atribuída a Thomé, erguida à margem de uma trilha do Peaberu. Quando caiu, foi recolhida pelo primeiro prefeito farolense Gilmar Cardoso, que desconhecia o valor histórico desse marco. “Eu me lembro do cruzeirinho e preciso ver onde foi guardado e vamos resgata-lo”, garante Gilmar.
Na Vila Brzezinski de Campo Mourão – Alto Alegre – a partir de onde a família Staniziewski chegou a Pinhalão (Farol) pelo Peaberu, antigos moradores comentavam a existência de uma pedra com as marcas dos pés descalços de Thomé, creditando-se o desaparecimento das pegadas e das trilhas do milenar Caminho, ao avanço incontido da agropecuária.  
Muitas vilas surgiram à beira do Peaberu sob o signo da Cruz.

Aleixo Garcia - A primeira expedição

1516 - Passa pela costa catarinense a frota espanhola comandada por Juan Diaz de Solis, que denominou de São Francisco á baía conhecida por Babitonga (morcego) dos índios Carijós.
O branco descobridor do Peaberu e da civilização Inca chama-se Aleixo Garcia, um marujo português que fazia parte da armada espanhola de Juan Diaz de Solis, este último morto pelos nativos, quando desembarcou nas proximidades da Bacia do Rio da Prata (1516).

 
Praia e a Trilha dos Naufragados (SC) 
onde chegou e partiu Garcia

Deste massacre, Garcia e alguns companheiros, que permaneceram no navio e a tudo assistiram de longe, fugiram em um bote, que foi atingido por forte maresia e caíram nas águas do mar, nas imediações da Ilha de Santa Catarina (Florianópolis). A nado, alcançaram as areias firmes da Praia dos Naufragados, assim batizada para lembrar o fato da chegada dos malfadados marinheiros europeus naquela região sulina do Brasil. 
Garcia salvou-se a nado com 11 companheiros dentre eles o negro Pacheco, e caíram nas graças dos Carijós de SC. Viveu oito anos entre os nativos (1516 a 1524), casou-se com uma índia da tribo e teve um filho mestiço (Diogo) transformando-se, assim, em um membro da tribo. 
Durante sua convivência com os nativos, Garcia ouviu diversos relatos sobre a existência de uma serra de pura prata de um poderoso rei branco e do el dorado (o ouro) narrados pelos "irmãos" carijós, os quais o conduziram através do sagrado Peaberu, até Sucre, proximidades de Cuzco, capital do Império Inca.

 
Cusco antiga capital Inca

Guiado pelos silvícolas, ele venceu a Serra do Mar e trilhou, pela primeira vez, um dos troncos do Caminho. 
Em busca de um acesso às riquezas incaicas, entre 1523 e 1525, o português Aleixo Garcia – marujo da esquadra espanhola - a partir do litoral de Santa Catarina, rumou a Oeste, seguiu a trilha indicada e, além Paraná, parou onde fundou a Vila de Nuestra Señora de la Assunción (Paraguai). Foi um ano e quatro meses desde Santa Catarina até chegar, a pé, ao local onde hoje está a capital paraguaia.
A dieta alimentar, durante a jornada, era composta de mel silvestre, palmito, milho, carnes de peixes e caças, além das farinhas de mandioca e pinhão fruto abundantemente encontrado nas araucárias que ladeavam o Caminho. 
Garcia e os cerca de dois mil índios guerreiros atingiram Sucre e postos fronteiriços da capital Inca nas proximidades de Cusco e passou a menos de 150 km de Potosi - a Montanha de Prata - que deu origem à lenda da Montanha da Lua. 
O rei da Montanha de Ouro comentado pelos naturais, era o imperador, Huayna Capac, que vivia em Machu Pichu (Peru) e foi sucedido por Atualpa (Galo).


Morre Garcia

Após saquear as cercanias de Cusco, encher cestos com adornos e utensílios de ouro e prata produzidos pelos incas, o grupo bateu em retirada. 
Entretanto, ao chegar às margens do rio Monday (rio dos ladrões) foi atacado pelos ferozes Payaguás e junto às centenas de mortos quedou-se Aleixo Garcia no local conhecido por Garcia Cuê (lugar de Garcia) perto da Vila San Pedro (Paraguai). 
Dois sobreviveram, que depois de peripécias e fugas diante de inúmeras tribos pelo caminho de volta, retornaram a Santa Catarina, com um pequeno tesouro, que restou dos saques (cerca de 25 quilos) de objetos preciosos levados, em parte, por sobreviventes do massacre – José Pacheco e Francisco de Chaves - até Santa Catarina, onde a notícia do El Dorado logo se espalhou e começou a marcha frenética dos europeus rumo ao Oeste, em busca da Montanha de Prata de Potosi (Bolívia) e do Império do Sol (Peru), que culminou com o saque e a tomada do imenso tesouro Inca pelo espanhol Francisco Pizarro.


 
Pizarro destruiu o Império Inca

Na ótica do historiador Eduardo Bueno: "por intermédio deles, as notícias sobre a serra da prata e do rei branco, também iriam chegar aos ouvidos dos reis de Portugal e Espanha e se tornariam a força motiva que impulsionou a exploração do rio da Prata, até a ocupação do litoral Sul do Brasil." 
Todavia a caravela, que na sua carga transportava a preciosa mostra do ouro conseguido pela expedição de Garcia, e que estava sendo enviada ao rei de Espanha, naufragou no mar revolto e perdeu-se pouco além de Babitonga, na Baia de São Francisco (SC).

 
Machu Pichu


Quem descobriu os Incas

Garcia, antes dos espanhóis, foi o primeiro europeu a descobrir, fazer contato com os incas e a penetrar o interior do Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru, pelo Peaberu. 
Foi, também, o pioneiro homem branco a cruzar o Paraná e a passar pela região de Campo Mourão (1524) contrariando, assim, a história que aprendi na escola, e sei hoje, que a civilização Inca não foi descoberta pelo truculento conquistador espanhol Francisco Pizarro e sim, pelo desventurado aventureiro Aleixo Garcia. 
O sagrado Peaberu possibilitou que os incas fossem encontrados por homens brancos pelo menos oito anos antes dos espanhóis que vieram pelo Pacifico, ao Peru. 
Essa veracidade tem sido levantada por diversos historiadores, entre eles o paraguaio Manuel Dominguez, o argentino Enrique de Gandia, a brasileira Rosana Bond e o sueco Erland Nordenskjold. 
Contudo, hoje não há nenhuma dúvida que, o descobridor da civilização inca (1525) chama-se Aleixo Garcia.

Um dos livros de Rosana Bond

Versão Inca - Um relato inca menciona o surgimento de um homem chamado Garcia que teria sido presenteado com ouro e prata por habitantes circunvizinhos a Sucre e Cusco e logo depois desapareceu.


Começo de Assunção 


Atribui-se a Aleixo Garcia o início da povoação de Iguape e da Vila de Nostra Señora de la Assunción, no local onde a expedição parou por um bom tempo para refazer as energias, plantar roças, reabastecer-se de víveres e prosseguir em busca do El Dorado. Ali, por medida de segurança, permaneceram a mulher e o filho de Garcia.


Invasão pelo Peaberu

Depois da expedição de Garcia, o caminho sagrado, que conduz à paradisíaca “Terra Sem Mal" foi invadido por um contingente imensurável de conquistadores espanhóis, portugueses, jesuítas, bandeirantes e aventureiros movidos pela ganância de riqueza fácil, poder e violência sem limites contra os nativos considerados, pelos europeus, como seres sem alma e que podiam ser tratados e mortos como animais.
Em 1531, deu-se a malfadada expedição a Potosi, de Pero Lobo um dos capitães de Martim Afonso de Sousa, que teve seu exército totalmente dizimado pelos nativos. Por ordem do governador-geral do Brasil, partiu em busca da Montanha de Prata, e encontrou a morte.
A expedição comandada por Pero Lobo levava como guia, Francisco de Chaves – companheiro sobrevivente de Garcia – 40 besteiros e 40 espingardeiros. 
Partiu em 1º de Setembro de 1531 e disse que voltaria em 10 meses com 400 escravos carregados de ouro e prata. Nunca mais foi visto.

 
A região de Curitiba foi mapeada e trilhada por Pero Lobo, em 1531

Essa expedição bandeirante partiu de Cananeia em busca de ouro e prata na região dos Incas, seguindo o Peaberu que passava pelos arredores da atual cidade de Ponta Grossa. A expedição acabou sendo dizimada pelos nativos nas proximidades da foz do Rio Iguaçu, antes da tentativa de atravessar o rio Paraná.

 
A comitiva de Pero Lobo, não mais regressou. 
Com seu séquito foi trucidado às margens do Iguaçu.

 
Nativos Carios - Carijós - SC

Igualmente, os jesuítas como: Pedro Lozano e o padre mestiço Antonio Ruiz de Montoya, utilizaram o Peaberu em suas fainas de construir reduções para as missões de catequese na Província Del Guayrá, e batizaram a trilha como: Caminho de São Thomé.

Em 1541 atravessou Santa Catarina, o Paraná e passou pela região de Campo Mourão, o exército do 'adelantado' - comandante militar - da Província Del Guayrá - rumo a Assunción – o espanhol Alvar Nuñes Cabeza de Vaca.

Doze anos depois (1553), o alemão Ulrich Schmidel fez a travessia complicada e invertida do Peaberu, de Leste-Oeste – Assunción a Santos (SP) - onde embarcou de volta à Alemanha, para visitar um irmão doente, na Baviera.

Várias expedições de europeus tentaram conquistar o Império Inca valendo-se do Peaberu, mas nenhum conseguiu o seu intento. 
O objetivo, depois do português, Alejo Garcia, foi alcançado, oito anos mais tarde, pela frota naval espanhola, sob o comando de Francisco Pizarro (1533) vindo do Norte, em caravelas, pelo Oceano Pacífico, que depois de saquear e conseguir o ouro que queria, matou o imperador inca Atualpa e assumiu o governo do Peru. Pizarro foi assassinado, e assim, pagou pelo crime cometido contra os incas.

Em 1541, nomeado adelantado da Província del Guayrá, o espanhol Dom Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, descreve a sua travessia pelo Peaberu, desde a Ilha de Santa Catalina, hoje Florianópolis, até Assunción (Paraguai), minuciosamente narrada pelo escrivão, Pedro Hernández: “partiu de Santa Catarina, acima do rio Itapucu, dia 18 de outubro de 1541, com 250 homens, dois frades franciscanos: Bernardo de Armeta e Alonso Lebrón e 26 cavalos. Em 19 dias rompeu o caminho, atravessou rios e serras, até chegar ao Campo - do Paraná - onde imperava o cacique Añaryry e, mais adiante, encontraram os caciques Cypoyay e Tucaguassú, todos da nação Guarani. Tomou posse do lugar em nome del Rey de España e o chamou de Província de Vera. Seguiu viagem dia 29 de novembro, e chegou ao rio Yguassú em 1º de dezembro. Dia 3 chegou ao rio Tybaxiva no povoado do cacique Tacapirassú. Daí em diante foi guiado pelo índio Miguel de Assunción. Dia 7 de dezembro a coluna chegou ao rio Tacuary povoado pelo cacique Abangoby. Dia 14, esteve na aldeia de Tücängucir. Em meados de janeiro de 1542 chegou as nascentes do Piquiry. Dia 30 de janeiro, inclinando-se a sudoeste seguiu o curso do Yguassú. Cruzou o Paraná, se internou – pelo Caminho - na Província del Paraguay”, e atingiu Assunción, após quase três meses.



A TRAVESSIA INVERSA DE SCHMIDEL

 
Schmidel, aventureiro alemão esteve na América (1534 a 1553). Ajudou a construir Buenos Aires (Argentina) e o Forte de Assunción (Paraguai). É autor do livro “Vera Historia”

A expedição de Cabeza de Vaca representa o primeiro reconhecimento, em grande estilo, do interior paranaense, e com esta entrada ficou aberto o Peaberu aos europeus. 
Nesse tempo o alemão, Ulrich Schmidel, estava no Paraguay e testemunhou a chegada da comitiva armada espanhola em Assunción, oriunda de Santa Catarina, pelo primitivo caminho.
Schmidel foi o primeiro europeu que viajou, em sentido contrário – de Leste a Oeste - pelo Peaberu recém descoberto, desde Assunción até São Vicente (SP).
Nesta perigosa e arrojada saga registrou em livro, gravuras e mapas, os lugares por onde passou, detalhou um roteiro do Caminho, citou distâncias e locais percorridos nos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Acompanhado por 20 índios da raça Carijó, Schmidel deixou Assunção em 26 de dezembro de 1552. Alcançou o litoral de São Vicente e embarcou para a Europa, depois de viver 18 anos na América do Sul. Retornou à Alemanha quando soube, por carta, que um irmão estava adoentado, na Baviera.
Preferiu escolher, como guias e guardas, índios carijós porque estes sempre visitavam a costa atlântica e conheciam as trilhas muito bem, sobre os quais fez uma referência oportuna: "Este povo viaja mais do que qualquer outro e são ótimos guerreiros".
Aventureiros vindos da costa Sul do Brasil, geralmente abandonavam a Peabina (Peaberu) perto das nascentes do rio Cantu e evitavam transpor o rio Paraná, acima das Sete Quedas com medo da região que era densamente habitada por tribos ferozes e infestada de espanhóis desalmados. Por estas razões, Ulrich Schmidel seguiu pelo tronco Sul do Peaberu e evitou transpor o rio Paraná nos perigosos Saltos del Guayrá (Guita).
Mantendo-nos fiel à grafia original do alemão, o próprio Schmidel descreve os locais e distâncias da sua perigosa epopéia pelo Peaberu:
Deixou Nostra Signora de Assunción em 26 de dezembro de 1552, em canoas. Subiu 26 milhas, pelo rio Parabot (Paraguai) até a foz do Rio Schueschiu (Jejui) e Juegrichsaibe, também assinalado como: Juberich ssbye e Juberich sabai. Aqui dois espanhóis e dois portugueses, que haviam desertado, se juntaram ao grupo de Schmidel, somando-se 25 homens. Juntos subiram 15 milhas pelo rio Jejui até Barey. Mais 4 dias e outras 16 milhas foram vencidas até Gebarerge (Gewarethe). Deste ponto em diante foram percorridas, a pé, mais 54 milhas em nove dias, até Barode (Jbaroti), onde embarcaram em canoas e desceram pelo rio Monday, alcançaram o rio Pamau (Paraná) e seguiram até Ginfle (Gienge). Entre Barode e Gienge, Schmidel estima uma distância de 100 milhas e nesta altura anotou: “começava a terra do Rei de Portugal” (Tratado de Tordesilhas), aonde as canoas foram abandonadas.
Daí em diante iniciaram uma difícil caminhada de seis semanas, por dentro da mata fechada, até a aldeia dos Thopis (Tupi). Em Karieseba, dois dos europeus incorporados ao grupo foram mortos e devorados pelos canibais. De Gienge, passou o povoado dos Thopis, atingiu a tribo de Karieseba, onde Schmidel calculou um percurso de 126 milhas. 
Segue a narrativa: "e daí fúemos 6 dias de viagem em selvas selvagens tais, que durante a minha vida (viajei mesmo muito e longe) não percorri caminho pior nem mais horroroso”, que estas centenas de milhas do Peaberu. “Também não tínhamos nada para comer e tivemos de arranjar-nos com plantas e raízes que achávamos. Nem nos demos o tempo de procurar caça, pois temíamos que os inimigos viessem em nosso encalço. Assim chegamos a uma nação que se chama Biessaie (Mbiazàs). 
Aí permanecemos 4 dias e arrumamos provisões, mas não pudemos nos aproximar, porque éramos tão poucos. Perto deste povoado há uma água que se chama Urquaie.”

 
Caramuru conviveu com nativos Tupinambás

A partir do povoamento dos Biessaie percorreram em torno de outras 100 milhas, sem incidentes. Depois de andarem um mês, aportaram na aldeia de Seherebethueba, onde descansaram por três dias e, mais adiante, conheceram o português Jahann Kaimunelle (João Ramalho - Caramuru), que deu apoio e rumo à pequena tropa. Finalmente, dia 13 de junho de 1553, depois de romper as últimas 20 milhas do Peaberu, chegou à Vila de São Vicente e ao Porto de Santos (SP), onde encontrou o navio que o levou à Europa. 
Após meses de enormes sacrifícios, Schmidel calcula que penetrou cerca de 600 milhas (1.200 km) por caminhos e intrincadas trilhas primitivas pelo Sul do Brasil. Arriscou sua vida para rever o amado irmão doente na Alemanha.
Segundo registros em mapas de Schmidel, os locais mais destacados nesta viagem são: Juegrichsa Íbe, desde onde singrou o rio Sehueschiu (Jejui) até Gabareche. Barade: onde navegou rio abaixo (Mundyay = Monday) e atingiu o rio Paranaú-wassú (Rio Iguaçu) e Gienge. KarÍeseba (Cariesaba): o grande aldeamento Tupi, desde Gienge. Biessaie. Scherebethueba: onde descansou três dias. A morada de Kaimunelle (Caramuru): região de Santo André da Borda do Campo e São Vicente: ponto final e embarque no Porto de Santos, de regresso à Europa.

 
Cananéia começo do Peaberu - litoral santista - SP


Viajem via Peaberu

A primeira trilha do Peaberu a ser utilizada pelos colonizadores, rumo ao interior da Província de Piratininga e do continente sul-americano, parte da costa vicentina (baixada santista), também conhecida como a Trilha dos Tupiniquins que, depois, passou a ser chamada de Caminho do Padre José, em sua variante do rio das Pedras.
No Brasil Colônia, um avanço na construção de estradas pavimentadas foi a Calçada do Lorena, também conhecida como a Estrada da Independência, pois por ela subiu D. Pedro I na memorável viagem de 7 de setembro de 1822. Seu traçado é um zig-zag de 180 ângulos, com bitola média de três metros e revestida com pedras de até 40 cm de largura. Interessante que não cruza, uma vez sequer, nenhum curso d’água e corta os vales no divisor dos rios Perequê e das Pedras. Essa obra marcou o início da técnica em construções de estradas na Capitania de São Paulo e a segurança do trânsito de tropas. Em 1840, a trilha recebeu pavimentação rústica a fim de permitir o tráfego de carroças e passou a ser conhecida como Caminho do Imperador. As pedras colocadas por escravos continuam intactas.

 
Estrada de Lorena - SP

A exemplo de Lorena, outros caminhos começaram a ser calçados e, entre eles, os que demandavam a Minas Gerais, de onde o ouro era escoado até Parati e Angra dos Reis (RJ) pela Trilha do Ouro. Por volta de 1700 já estavam articulados vários caminhos a partir de São Paulo. Lorena é a primeira estrada pavimentada com pedras, pelos escravos, na região da Serra do Mar, ligando São Paulo ao porto de Cubatão, antiga parada obrigatória no percurso até o porto de Santos, construída por ordem do governador Bernardo José Maria de Lorena, que facilitou a exportação do açúcar. A circulação de mercadorias através da Calçada era feita por tropas de mulas. Parte do trecho foi restaurado pela Eletropaulo entre 1989 e 1992, atualmente fechado e, em parte, destruído.São permitidas apenas, visitas de estudantes.


Rota de Contrabando

 
O primeiro governador-geral do Brasil foi Tomé de Souza (retrato).
Chegou em 29 de março de 1549 e governou até sua morte, em 1553.


O segundo foi Duarte da Costa, que governou por quatro anos. O terceiro foi Mem de Sá, de 1557 até 1572. Antes da chegada da família real ao Brasil, em 1808, a colônia Brasil teve 47 governadores-gerais.

A proibição de transitar o Peaberu foi baixada por Tomé de Souza que, a primeiro de junho de 1553, justificou ao rei português as razões do fechamento, assim: “a fácil comunicação entre a Vila de São Vicente com as colônias castelhanas causam um grande prejuízo à Alfândega Brasileira, resultado do contrabando”, que já era exercido naquele tempo, por incrível que pareça.
Nessa época, para guerrear contra o povo Carijó e dominar a rebeldia sulina, o exército lusitano se demorou muito ao não utilizar o caminho proibido e se alongou pelo litoral, para não desobedecer a ordem imposta pelo primeiro governador-geral do Brasil. Tão severamente a lei foi cumprida por meio século – a pena era de morte – que somente se conhece uma transgressão circunstancial. Essa ocorreu em 1603, por necessidade e sobrevivência de quatro soldados paraguaios, que irromperam na Vila de São Paulo, fugitivos do ataque bandeirante à Vila Rica do Espírito Santo e que vieram pelo Peaberu. A população paulista os festejou e, a título de homenagem, os fez acompanhar, na volta, por uma escolta de doze homens encarregados de reconhecer as etapas e reativar a milenar trilha primitiva.
Esse lapso de tempo de obediência à não utilização do Caminho, praticamente acabou com a sua imponência e os cuidados que os construtores nativos dotavam o Peaberu.
Após a revitalização das trilhas, o traçado original passou a ser roteiro de religiosos, bandeirantes, caçadores (encomenderos) de índios para os trabalhos escravos, aventureiros, colonizadores, garimpeiros e marginais, que, retomaram a corrida desenfreada para desbravar o interior do Brasil.


Correio pioneiro

Quando o governador-geral do Brasil, Tomé de Souza, nomeado pela coroa portuguesa, aportou em São Vicente, foi pelo Peaberu que um correio levou a notícia de sua vinda a Vila de São Paulo e retornou a resposta em três dias. Com o envio de rápidos mensageiros, desde São Vicente, se alcançava o Império Inca a uma velocidade de 225 km/dia que, atualmente, um possante automóvel moderno faz em pouco mais de uma hora numa boa rodovia. A pé ou em lombo de cavalgaduras, o Peaberu permitia uma velocidade de trânsito, que em alguns casos bate a do nosso atual serviço de correios.

 
Correio brasileiro

A rede de comunicação dos caminhos, no Brasil, contava com postos (chasquis) alinhados a distâncias de dois a três quilômetros entre um e outro e, em seus dias de bom funcionamento era, provavelmente, o sistema de comunicação mais veloz do mundo.

 
Correio inca (chasqui) anuncia que chegou mensagem

Chasquis, entre os incas, eram atletas-mensageiros, fundistas e de grande resistência física, que venciam longas distâncias pelas trilhas e rotas do Peaberu, em verdadeiras maratonas pedestres, com postos de comunicação estabelecidos a cada 30 quilômetros um do outro, nos cerca de 16 mil quilômetros de estradas mantidas pelos incas, abrangendo a maioria dos atuais países sul-americanos.


Bandeirantes e Jesuítas

No século XVI, o Peaberu foi utilizado pelos europeus para diversas finalidades: a descoberta do Império Inca, as fundações de Assunción e de três vilas espanholas: Ontiveros, Ciudad Real (Guairá - PR) e Vila Rica del Espírictu Sanctu (Fênix -PR), além da implantação de várias reduções jesuítas e a descoberta da maior mina de prata do mundo em Potosi (Bolívia) e do El Dorado no Peru.

 
Ruínas da missão de San Miguel - Província del Guayrá

Depois de 1629, com o início da expulsão dos jesuítas, os bandeirantes entraram no Paraná pelo Peaberu orientados pelos bárbaros guerreiros tupis – aliados aos paulistas – capturaram e mataram milhares de nativos, assassinaram espanhóis e padres, saquearam as cidades castelhanas, destruíram e atearam fogo nas missões jesuíticas, sob as ferrenhas ordens de Manuel Preto, Antonio Raposo Tavares e outros.


O PEABERU PELO BRASIL

Na América do Sul, as primeiras informações sobre o Peaberu, no início da colonização, referem-se às trilhas da Serra do Mar e de um emaranhado de troncos e trilhas no litoral paulista, paranaense e catarinense. Era uma estrada de primitivo sistema viário que: “permitia o contato das tribos da nação Guarani, da bacia do Paraguai, com tribos do Sul do Brasil, entre elas as que habitavam os campos de Piratininga” (Pinto, 1903).


PARANÁ E O PEABERU

Na malha do Peaberu Sul, um desses caminhos, muito usado pelos índios em suas migrações – da costa para o interior - vinha do rio Itapucu e da baía de São Francisco, percorria a faixa litorânea de Santa Catarina através de matas fechadas e levava em direção Noroeste, aos atuais Campos Gerais, trecho muito usado pelos tropeiros paulistas das vilas de Sorocaba e Botucatu, que começaram a povoar o Estado do Paraná. A Noroeste o Caminho chegava nas proximidades de um grande aldeamento Guarani denominado Abapany.

 
Campos de Coaracyberá região de Campo Mourão 

Porém o transcontinental Peaberu começa no litoral paulista de Cananéia/São Vicente. De Piratininga leva para o Sul seguindo o principal formador do rio Ribeira para cima, até os campos de Castro, e de lá, através do rio Tibagi até o Ivai, acima do Salto Ubá na região dos Campos de Coaracyberá (Campo Mourão), depois de transpor a Serra da Boa Esperança pelo vale dos rios Pedra Preta e Tibagi, e alcançar as nascentes dos rios Cantu e Piquiri.

 
Rio Cantu/ região de Campo Mourão

O tronco principal rumo ao Oeste, através dos Campos (Campo Mourão), conduz ao Rio Paraná abaixo das Sete Quedas (Guaíra); passa através do Chaco sulmatogrossense e do planalto peruano e termina nas barreiras dos Andes.
Um ramal cruzava o rio Cantu e os cursos superiores dos rios Piquiri e do Cobre; tangia o rio Iguaçu na foz do Cotegipe, e aportava na grande aldeia guarani Cariescha, na divisa do Paraná com Santa Catarina.
Na época da posse da terra, pelos portugueses, o Brasil era povoado por inúmeras tribos indígenas. No Paraná, os habitantes primitivos formavam grandes grupos e nações, dentre os quais destacam-se: os Jê ou Tapuia; os Tupi e Guarani no centro-oeste; os Carijó e Tupiniquim no litoral; os Tingüi na região de Curitiba; os Camé na região de Palmas; os Kaigangue e Botocudo povoavam o interior do Paraná, e todos utilizavam, intensamente, o Peaberu.
Os primeiros caminhos do Paraná foram abertos pelos nativos e, posteriormente, usados pelos europeus para penetrar no continente e ficaram conhecidos como caminhos: do Peaberu, da Graciosa, de Itupava e Estrada da Mata. Não se sabe exatamente em que época o pré-colombiano Peaberu foi aberto, mas o conceituado arqueólogo Igor Chmyz (UFPR), sugere que: “a obra é milenar e está relacionada à chamada Fase Itararé”.
O professor, Samuel Guimarães da Costa, escreveu nos anos 70, no jornal O Estado do Paraná, que: “se o Egito é um presente do Nilo, a terra hoje paranaense é o legado de um caminho pré-histórico que se apagou na geografia da colônia”. Foi devastado pelas cidades e fazendas que, quase, acabaram com o seu traçado.
Alfredo Romário Martins descreve uma rota do Peaberu: "Era São Vicente, Piratininga, São Paulo, Sorocaba, Botucatu, Tibagi, Ivai, Piquiri, bifurcava-se o caminho indo um ramal para o Sul até o Iguaçu, no ponto em que este rio, na sua margem esquerda, recebe o Santo Antônio"
O padre Antonio Ruiz de Montoya, fundador das reduções jesuíticas na Província del Guayrá (hoje Paraná) escreveu, em 1639: “vi um caminho que tem oito palmos de largura”, que outro não é senão o Peaberu de São Thomé.

Séculos de Abandono

O primeiro abandono, por lei, deu-se no governo- geral de Tomé de Souza e o mesmo ocorreu um século depois das bandeiras paulistas. O Peaberu voltou a ser retomado durante o governo de D. Luís Antônio de Souza Botelho e Mourão, que enviou tropas desde São José dos Pinhais e Curitiba, para verificar se o Paraná não estava sendo invadido pelos castelhanos, a partir do Paraguai, através dos sertões do Tibagi e do Cerrado Mourãoense batizado de Campos do Mourão em homenagem ao governador da Província de Piratininga (São Paulo).


EXPLORAÇÃO DE CAMPO MOURÃO
NAÇÃO GUARANI E POVOAMENTO DA REGIÃO

A DISPUTA PELA POSSE DA TERRA DO CONTINENTE SUL-AMERICANO, ENTRE ESPANHÓIS E PORTUGUESES, COMEÇOU EM 1494 COM O TRATADO DE TORDESILHAS. OS ESPANHÓIS ENTRAVAM POR SANTA CATARINA E SUBIAM PELA BACIA DO PRATA E OS PORTUGUESES PELO LITORAL BRASILEIRO A PARTIR DA BAHIA DE SÃO SALVADOR, DEPOIS SÃO VICENTE (SÃO PAULO), DE ONDE PARTIAM AS TERRÍVEIS “BANDEIRAS” PAULISTAS.
OS NÁUFRAGOS DA EXPEDIÇÃO DE SOLÍS (1516), FORAM UNS DOS PRIMEIROS EUROPEUS NA COSTA DE SANTA CATARINA E OS DEGREDADOS (MARGINAIS PORTUGUESES) OS PRIMEIROS A SE ESTABELECEREM A PARTIR DE PORTO SEGURO (BA).
A ENTRADA DOS BRANCOS PELO PEABERU, NO SENTIDO LESTE/OESTE, COMEÇOU COM GARCIA (1523/25) E DEPOIS, CABEZA DE VACA (1541), SEGUNDO GOVERNADOR (ADELANTADO) DE ASSUNÇÃO, QUE TOMOU POSSE DO TERRITÓRIO DESDE O ATLÂNTICO (SANTA CATARINA) ATÉ AS BARRANCAS DO RIO PARANÁ (ESTADO DO PARANÁ) E PARAGUAI, EM NOME DE ESPANHA.
A VASTA REGIÃO DA ANTIGA “PROVÍNCIA DEL RIO DE LA LATA” (ARGENTINA/URUGUAI) PASSOU A SER DOMÍNIO DA COROA ESPANHOLA E LOGO EM SEGUIDA SE ESTABELECEU A “PROVÍNCIA DEL GUAIRÁ” ENTRE OS LIMITES DOS RIOS TIBAGI/ PARANÁ, IGUAÇU//PARANAPANEMA E, NO CENTRO DESTA PROVÍNCIA ESTAVA O GROSSO DA NAÇÃO GUARANI, NA REGIÃO DOS CAMPOS, NO CERRADO MOURÃOENSE.

GEOGRAFICAMENTE - A PROVÍNCIA DEL GUAIRÁ SE LIMITAVA, AO NORTE PELO “PARAPANÉ”, AO SUL PELO “IGUASSÚ”, A LESTE PELAS SERRAS DE “GUARAYRÚ”  E RIO TIBAGYVA. A OESTE, PELO “RIO PARANÔ, LOGO ABAIXO DO TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO. ESTA PROVÍNCIA (HOJE ESTADO DO PARANÁ) E O PEABERU TINHAM COMO PONTOS DE REFERÊNCIA (NORTEADORES/GUIAS): AS MONTANHAS DE “YBYTYREMBETÁ” (HOMEM BARBUDO), “PEÑA PÔBRE” (PEDRA POBRE) PRÓXIMA A FOZ DO IGUAÇU E, O “SALTO DEL GUAIRÁ” QUE FICA A CERCA DE 30 LÉGUAS DA “PEÑA PÔBRE”. A DUAS LÉGUAS DESTA PEDRA ESTÁ A FOZ DO “PIQUYRY” E A DOZE LÉGUAS ACIMA DESEMBOCA O “HUYBAY” (IVAI). A PROVÍNCIA DEL GUAYRÁ ENCONTRAVA-SE ENTRE AS COORDENADAS DE: 22º 30’ E 25º 30’ DE LATITUDE, E A 49º 30’ E 54º E 30’ DE LONGITUDE A OESTE DE GRENNWICH.

O PEABERU - A REGIÃO OESTE DO PARANÁ COMEÇOU A SER INVADIDA NO SECÚLO XVI PELOS EUROPEUS GUIADOS PELOS NATIVOS, ATRAVÉS DO PEABERU. O TRONCO PRINCIPAL CORTA A REGIÃO DOS CAMPOS GERAIS E DO CERRADO MOURÃOENSE.
NO BRASIL SÃO 200 LÉGUAS (1.200 KMS) DE CAMINHO, COM OITO PALMOS DE LARGURA (OU DUAS VARAS), DESDE SAN VICENTE (SP) ATÉ O RIO PARANÃ (SALTO DEL GUAYRÁ). O SEGUNDO TRONCO VEM DE SANTA CATALINA À FOZ DEL IGUASSÚ, E PASSA PELA REGIÃO DOS CAMPOS DO PARANÁ.
A PROVÍNCIA DEL GUAYRÁ ERA A MAIS POVOADA PELOS NATURAIS DA TERRA. SOMENTE NA REGIÃO DOS CAMPOS DO CACIQUE COARACYBERÁ – CERRADO E MATAS MOURÃOENSES - EXISTIAM MAIS DE 250 MIL GUARANIS ENTRE OS RIOS UIBAHY (IVAÍ) E PYQUIRY (PIQUIRI). NESSE VALE ESTAVA O CORAÇÃO DA NAÇÃO GUARANI.

VILAS ESPANHOLAS: AS MARGENS DOS TRONCOS E RAMAIS DO PEABERU E DAS VIAS FLUVIAIS COMEÇARAM A SER ESTABELECIDAS VILAS DE SUBSISTÊNCIA, ORDENADAS PELA GOVERNANÇA CASTELHANA.

A PRIMEIRA - FOI A VILA DE ONTIVEROS (1554) ENTRE AS DESEMBOCADURAS DO IGUAÇU E DO PIQUIRI, MARGEM ESQUERDA DO RIO PARANÁ, FUNDADA PELO CAP. GARCIA RODRIGUEZ DE VERGARA, COMO PORTO PARA AS NAUS ESPANHOLAS QUE SUBIAM PELA BACIA DO MAR DEL PLATA. TRATAVA-SE DE UM PONTO AVANÇADO CONTRA OS ATAQUES DOS PORTUGUESES E PARA RECHAÇAR OS “ENCOMENDEROS” (CAÇADORES DE NATIVOS PARA O TRABALHO ESCRAVO).

A SEGUNDA - DENOMINADA CIUDAD REAL (1556), FOI FUNDADA PELO CAPITÃO RUY DIAZ DE MELGAREJO, NA FOZ DO PIQUYRY, ABAIXO DAS SETE QUEDAS. FICAVA A TRÊS LÉGUAS DE ONTIVEROS. ERA UM PONTO ESTRATÉGICO QUE DAVA ACESSO AO PEABERU.

Capela jesuíta restaurada próximo à Fênix - PR

A TERCEIRA - FOI A VILA RICA DEL ESPIRICTU SANTO (MAIO DE 1570) NA REGIÃO DOS CAMPOS, A 60 LÉGUAS DE CIUDAD REAL, FUNDADA POR RUY DIAZ DE MELGAREJO E, EM 1575, TRANSFERIDA POR RUY DIAZ DE GUSMÁN, PARA A FOZ DO CORUMBATAI (FÊNIX - PR) QUE DESAGUA NO IVAÍ. VILA RICA FOI O CORAÇÃO DA PROVÍNCIA, EDIFICADA EM LUGAR POVOADO E FÉRTIL, PRÓXIMA DAS MINAS DO CACIQUE COARACYBERÁ.

Coordenadas -Vila Rica do Espírito Santo - Latitude 23° 54' 00'' Sul e Longitude 51° 58' 00'' W-GR - foi posto avançado dos espanhóis na Província del Guayrá, de onde os "encomenderos" partiam, pelas trilhas do Peaberu, na captura de guaranis, para trabalho escravo ervateiro. Após a destruição das Reduções Jesuíticas, pelas tropas da “bandeira” de Antonio Raposo Tavares, a Vila ficou a mercê dos paulistas, que em 1632 massacraram os nativos catecúmenos, padres e a população espanhola, saquearam e atearam fogo em tudo.

Achado valioso - O Delegado de Polícia de Campo Mourão, Joaquim Teodoro de Oliveira, na década de 1940, em diligência à Vila Rica do Espírito Santo, trouxe uma pedra talhada, com a data de 1570, ano da primeira fundação. O Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo, situado no município de Fênix (ave mitológica que ressurgiu das cinzas) foi criado em 17/06/65, em uma área de 353,68 hectares. Preserva vestígios das ruínas e da floresta tropical, com raros exemplares da fauna e flora: urubu-rei, juruva, gavião-carijó, jacu, gato-mourisco, leãozinho-baio, cateto, coati, veado e macaco, que sobrevivem entre perobas, palmitos, figueiras, casca-de-anta e pau-d’alho, dentre outras espécies. Além da beleza natural e trilhas do Peaberu dispõe de pontos de parada e museu arqueológico. Da rodovia, que demanda à Fênix, avista-se uma capelinha em ruínas, sobre uma colina, às margens do Peaberu, que por mais de 400 anos foi ponto de descanso, no Caminho de São Thomé.

Peabiru/São Tomé - A menos de 100 quilômetros de Fênix está a cidade que emprestou o nome do Peaberu (Peabiru) fundada às margens do milenar caminho. Mais adiante – a Noroeste - de passagem por Terra Boa e Jussara, encontramos a cidade de São Tomé, que lembra a passagem do apóstolo de Cristo, pelo sagrado caminho.


Campo Mourão e o Peaberu

No início da década de 70, Chmyz, encontrou um sítio arqueológico, com cerca de 800 anos, em um ramal do Peaberu, no Município de Nova Cantu, com vestígios de adiantada civilização, no local conhecido como Tambo das Minas de Ferro. Este, e outros importantes achados arqueológicos na região de Campo Mourão, do qual resta pouco, foram quase todos destruídos pelos lavradores.

Wille mostra o Caminho

Rosemeire Soares da Silva e Sinclair Pozza Casemiro (foto) acompanham de perto e com vivo interesse, as pesquisas e achados do Peaberu. À tarde de 21 de setembro de 2004, foram as primeiras mourãoenses a verem e pisarem um pequeno trecho intocado do sagrado Caminho de São Thomé, próximo ao centro urbano de Campo Mourão.


Depois de Jozé Luiz Pereira (1903), há mais de um século, o Caminho do Peaberu estava esquecido em Campo Mourão e na região. Atualmente, voluntários, leigos, professores, acadêmicos de geografia e turismo da cidade e região, começaram a se preocupar com a busca e a redescoberta dos troncos e trechos localizados em território mourãoense.

 
Mapa político de Campo Mourão e o Caminho

O trecho de Guaíra a Paranaguá e seus ramais, no sentido Oeste/Leste, com cerca de 800 Km, corta os municípios de: Guaíra, Cianorte, São Tomé, Jussara, Terra Boa, Engenheiro Beltrão, Fênix, Peabiru, Campo Mourão, Roncador, Terra Roxa, Palotina, Assis Chateaubriand, Jesuítas, Nova Aurora, Cafelândia, Ubiratã, Corbélia, Anahy, Campo Bonito, Guaraniaçu, Altamira do Paraná, Laranjal, Campina da Lagoa, Nova Cantu (Ciudad de Tambo das Minas de Ferro), Palmital, Pitanga (um trecho reaberto), Boa Ventura, Cândido de Abreu (antiga Três Bicos), Reserva, Tibagi (Cachoeira - Alto Amparo - Retiro), Castro, Carambeí, Ponta Grossa, Palmeira, Curitiba (Caminho dos Padres- Graciosa), Quatro Barras ou São José dos Pinhais, Morretes e Paranaguá.

 
O principal tronco do Peaberu passa por Campo Mourão 
(vista aérea da cidade)

Eu Vi o Caminho - “Nasci ali, na beira do Rio do Campo, no dia 05 de março de 1916”, narra Quirino Dornelles Barbosa. “Campo Mourão era caminho de índios e tinha muitos toldos ali na Pitanga. Aqui já não tinha mais bugres (índio manso) somente os de passagem pela estradinha chamada Peaberu, que era o caminho deles”, recorda-se Quirino. “Quando rapaz fui puxador de tropas; ia vender e comprar mercadorias em Guarapuava, pelo caminho dos índios”, registra suas passagens pelo Peaberu.

 
Seu Quirino mudou de Campo Mourão a Mamborê e voltou

Geraldo Boz, engenheiro civil e Inspetor de Terras de Campo Mourão na década de 50, conta: “A estradinha de Juranda a Mamborê foi aberta pelos paraguaios que vinham retirar madeira e erva-mate pela antiga trilha do Caminho do Peaberu, que cortava toda a região, e por ele eu passei também. Era um trecho estreito e atravessava o Porto Vera do Rio Piquiri. Esse Caminho - também conhecido como de São Thomé - é o mesmo que partia da Capitania de São Vicente, atravessava os estados de São Paulo e Paraná e seguia até o Pacífico, nos Andes”, descreve Geraldo, no Projeto Raízes do jornal Tribuna do Interior.

Silvestre Staniziweski - “Quando abrimos a Serraria Vitória, no meio da mata, era nítido o Caminho do Peaberu. Cansei de ver o trecho. Era meio fundo de tanto ser pisado, com uns dois metros de largura. Essa relíquia, que ninguém sabia do seu valor histórico, perdeu-se no meio das lavouras, soterrada pela mecanização”, testemunha Silvestre Staniziewski, que entrou na região de Campo Mourão na década de 40, com seu pai Pedro. Nessa época dava para ir de jeep ou caminhão, de Campo Mourão até o Alto Alegre (Vila Brzezinski). “Dali pra frente só montado em cavalgaduras. Os cavalos e burros eram alugados pelo tropeiro, Joaquim Fonseca. Depois abrimos e limpamos a trilha no facão e na enxada, 14 quilômetros de estrada para chegar na Serraria Vitória”, conta Silvestre, em depoimento ao Projeto Raízes do jornal Tribuna do Interior de Campo Mourão.

 
Pedro Staniziewski (chapéu preto e camisa branca)
chegou a Farol pela trilha do Peaberu a partir de Campo Mourão

Históricos, também, são os troncos no território paranaense, que cortam o Estado e atravessam os geminados municípios de Campo Mourão e Peabiru que traceja toda a microrregião Centro-Oeste.

 
Vista da Cidade de Peabiru cortada pelo Caminho

O ramal Sul começa em Santa Catarina, desde Palhoça (Massiambu) até Barra Velha no rumo do rio Itapocuçu, segue por Guaramirim e São Bento, transpõe o rio Iguaçu, na altura do rio Santo Antonio e adentra ao Estado do Paraná. Passa em Castro (Campos Gerais) e segue pelas cabeceiras dos rios Ivai, Cantu e Piquiri na região de Campo Mourão. Chega ao médio Piquiri, indo pela sua margem esquerda até cruzar o rio Paraná. Em Guaíra, atravessa o rio Paraná e vai-se ao Paraguai.

  
O Peaberu atravessa campos, matas, rios suavemente

A primeira rota regular que ligava os campos sulinos às demais regiões do Brasil foi a do traçado do Peaberu, aberta pelos tropeiros no final do século XVII, entre as vilas de Sorocaba e Nossa Senhora da Luz (Curitiba). O trajeto aproveitava o traçado do Peaberu, para vencer a Mata Atlântica e as serras: Geral e do Mar.
Tipos rústicos e impiedosos, os bandeirantes paulistas tiveram papel decisivo no povoamento da região Sul. A fundação de Curitiba (Vila Nossa Senhora da Luz) é atribuída a Matheus Leme, cujo rosto se desconhece, mas que não deveria ser muito diferente desta figura. Á direita as ruínas da redução jesuítica de São Francisco.
A ocupação dos Campos Gerais do Paraná aconteceu no começo do século XVIII, com o ciclo do tropeirismo, percorrendo o Peaberu e as trilhas dos nativos que, atravessavam a região no sentido Atlântico/Pacífico, largamente utilizado pelos exploradores espanhóis e portugueses guiados por batedores índios, até Castro (Vau do Iapó). Pelo regime sesmarias a Coroa Portuguesa concedia vastas extensões de terra às famílias que pretendessem se fixar nos Campos Gerais e no Sertão do Tibagi. O primeiro requerimento dessa natureza feito por Pedro Taques de Almeida, data de 19 de março de 1704. Na ocupação da terra o desbravador disputou o território com nativos bravios, auxiliado nesta luta, por famílias agregadas, parentes, bugres amansados e negros escravos.
"Os caminhos pré-cabralinos têm uma grande importância. Nossa intenção é preservá-los, apesar de a paisagem ter mudado bastante nos últimos 500 anos", disse José La Pastina, superintendente regional do Instituto de Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan).

 
Pitanga - trecho recuperado do Peaberu 
aponta em direção a Roncador e Campo Mourão

“Pequenos trechos do Peaberu ainda resistem nos municípios paranaenses de Nova Cantu e Pitanga (foto), mas correm o risco de desaparecer em breve. Hoje os trechos que restaram no Brasil estão abandonados pelos órgãos que cuidam do patrimônio histórico. O pedaço da trilha ainda preservada está no Paraná que formava, com o Paraguai, o centro do território Guarani. A agricultura apagou a maior parte da trilha. Um dos últimos vestígios do Peaberu foi encontrado no início da década de 1970 pela equipe do professor, Igor Chmyz, do Centro de Ensino e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná. A equipe achou cerca de 30 km da trilha na área rural de Campina da Lagoa. Em Pitanga restos da trilha estão em áreas privadas, em uma extensão de menos de 10 km”. (Wagner Oliveira, corresponde da Folha).
O referido trabalho está publicado na Revista Dédalo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (1971).

Nova Cantu - No sítio arqueológico de Nova Cantu (Distrito de Lunardelli), com cerca de cinco alqueires (segundo Milton Roseira), foram encontradas urnas funerárias e utensílios indígenas feitos de barro (foto), além de sinais de fundição de ferro, nas ruínas do antigo Tambo das Minas de Ferro, que se presume, foi a primeira do continente americano.

Cândido de Abreu - Expedição mostra trecho paranaense do roteiro milenar do Peaberu, que ligava o Atlântico ao Pacífico percorrendo a pé mais de 50 quilômetros entre Cândido de Abreu e Pitanga (PR). O grupo sabe que o Caminho teria sido aberto pelos nativos sob orientação de um homem branco, conhecido dos guaranis como "Pay Sumé" - apóstolo Thomé - há cerca de 2 mil anos. O estudioso e pesquisador que encabeça a caravana é Clemente Gaioski: "Vamos passar por pequenas comunidades, reunindo a população para conscientização, trocar idéias e contar a história de São Thomé, do Peaberu e despertar sobre a importância que este Caminho representa para o desenvolvimento turístico da região”. O grupo liderado por Gaioski quer reconstituir o traçado e preservar as marcas deixadas pelos primeiros peregrinos. Gaioski têm comprovações da veracidade do Caminho. (Do texto original de Dilmércio Daleffe, jornalista mourãoense)


O Peaberu em São Paulo

 
João Ramalho (Caramuru) aponta a direção do Peaberu à Piratininga,
 na chegada do governador Duarte da Costa

Quando os portugueses aqui chegaram, encontraram uma estrada aberta pelos nativos, que ia de São Vicente, litoral Sul de São Paulo, a Cuzco (Peru). É uma via única superior as, então, existentes na Europa, com largura de menos de dois metros, e conhecida como Peaberu. Oriunda da baixada santista, essa trilha passa pelo Vale do Anhangabaú, centro da cidade de São Paulo, ruma à Sorocaba e aos rios Paranapanema, Ivinhema e Corrientes, de onde o caminho demanda às regiões paranaenses de Curitiba, Ponta Grossa, Campo Mourão e Guairá, segue pelos rios Paraná e Paraguai, corta o território mato-grossense, paraguaio e boliviano, até atingir as rotas dos Incas, no Peru. O que pouca gente sabe, especialmente na Baixada Santista, é que São Vicente, além de ser a primeira vila organizada fundada no País, é um dos pontos de partida da rota do Peaberu.

São Paulo foi fundada em 25 de janeiro de 1554, no atual Pátio do Colégio, quando 12 jesuítas vindos de São Vicente pelo Peaberu - entre eles o jovem José de Anchieta - comandados pelo missionário Manoel de Paiva e sob ordens do padre Manoel da Nóbrega, celebraram uma missa inaugural. Foram esses jesuítas que fizeram o aldeamento da Vila São Paulo de Piratininga (peixe podre). A fundação limitou a vila da ''colina histórica'' à região que vai do Vale do Anhangabaú à Praça da Sé onde se encontra o Marco Zero, que aponta o Estado do Paraná e Santos.

Marco Zero - na Praça da Sé - aponta o Paraná e Santos

A primeira fortificação de São Paulo foi projetada pelos jesuítas e construída com a ajuda dos índios dos caciques Tibiriçá e Cauibi, exatamente onde está o Pátio do Colégio.
No início São Paulo era um lugarejo sitiado pela Serra do Mar e servido pela Via do Peaberu pela qual, cavaleiros e burros de carga cruzavam os, aproximadamente, 800 metros de altitude que separam a capital do litoral santista. Algumas iniciativas têm buscado recuperar parte da rota, caso do trabalho do arquiteto Daniel Issa Gonçalves, pela USP, que posiciona o caminho sobre a atual malha urbana da cidade de São Paulo. "As trilhas indígenas são um dos raros testemunhos da vida no período pré-colombiano brasileiro", afirma Issa.
Em 1759, devido à expulsão dos jesuítas do Brasil ordenada pelo Marquês de Pombal, aconteceram grandes transformações.
A então capitania de São Paulo de Piratininga recebeu, como governador, D. Luís Antônio de Souza Botelho Mourão – Morgado de Mateus, o mesmo que determinou o reconhecimento dos Campos do Mourão, no Centro-Oeste do Estado do Paraná, região onde se concentram os troncos principais do caminho sagrado do Peaberu de São Thomé, e o atual maior entroncamento rodoviário do Sul do Brasil, rota turística e comercial, obrigatória do Mercado do Sul (Mercosul), que segue o antigo traçado do Caminho milenar dos naturais.

Cananeia - Os moradores mais antigos de Cananéia (SP) contam que a trilha parte do Rio das Minas em direção da Serra do Cadeado. Outros historiadores garantem que o antigo Peaberu coincide com a estrada conhecida por “Trilha do Telégrafo”. De certa forma ninguém sabe informar o lugar exato do seu começo.

Penha - A história do bairro da Penha se confunde com o mito sobre a origem de seu nome. Passagem obrigatória entre as aldeias de Guarulhos, São Miguel e Tatuapé, a região fazia parte da rota do Peaberu utilizada pelos bandeirantes a caminho do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Conta-se que um viajante francês, seguindo por esse trajeto, certa noite descansou numa colina onde hoje se localiza o bairro. Tinha na sua bagagem uma estatueta de Nossa Senhora da Penha. Ao continuar sua viagem no dia seguinte, sentiu falta da santa e voltou para procurá-la, encontrando-a onde pernoitara. Recolheu a imagem e prosseguiu, mas em pouco tempo notou, novamente, sua falta. Vendo-a na colina concluiu que a santa tinha escolhido o local como morada e ali construiu uma capela em torno da qual o bairro se desenvolveu.

Consolação - Um pequeno povoado começou a nascer na região da Consolação quando, por volta de 1779, devotos de Nossa Senhora da Consolação levantaram uma pequena capela dedicada à santa. Na época a região possuía apenas chácaras e pomares, por onde cruzava o Caminho do Peaberu, com o nome de Pinheiros ou de Sorocaba. Por esse caminho, onde hoje é a rua da Consolação, passavam as tropas de burros vindas de Sorocaba ou que subiam do litoral vicentino para o bairro de Pinheiros, local de feiras de muares de carga e outros animais.

Santo André - As fundações da Vila de Santo André (1553) e do Colégio de São Paulo (1554) proporcionou, além da utilização do Caminho do Peaberu, a abertura das primeiras estradas de comunicação com o litoral e, conseqüentemente, com os portos de Santos e Paranaguá, garantindo o crescimento populacional e econômico das primeiras vilas e freguesias brasileiras.

Sorocaba- A rede de trilhas do Peaberu passa pela área urbana de Sorocaba que, ao começar a ser povoada converteram-nas em ruas e avenidas. Seus monumentos geográficos servem de referencial ao Caminho. O território de Sorocaba foi desenvolvido por fazendas de jesuítas e nobres europeus, na rota de tropeiros.

Itatim/Juréia - A Reserva Ecológica Juréia-Itatim, criada em 1986, apresenta importante papel na colonização do País e é cortada pela trilha do Peaberu, com seu traçado original mantido. O caminho também serviu à Capitania de São Vicente, rumando ao Rio de Janeiro e Paraná.

Cotia (Akú ti) - Existe, oficialmente, desde a criação da Sesmaria de 1580 (em 12 de Outubro) e sob a denominação Koty (do guarani koty: casa ou ponto de encontro) a terra que originou Pinheiros e Barueri abrangendo Carapicuíba, Koty, Embu e Itapevi, atravessada pelo Peaberu. Akú ty era uma aldeia Carijó. A primeira menção de Acutia foi feita pelo marujo alemão Hans Staden (séc. XVI), no seu livro sobre o Brasil. A primitiva aldeia situava-se na Campina do Caiapiá (onde abundavam ervas medicinais de igual nome), nos sertões carapicuibano e itapecericano. A capela da época se encontra na atual praça da Matriz, com traço barroco, que indicava a rota do Peaberu aos desbravadores que, como Raposo Tavares, Fernão Dias Paes, Manoel Esteves e Antonio Pietro exploraram e ajudaram a desbravar o Sul do Brasil.
Salvador-Cuzco - A maior descoberta, que Budwick diz ter feito, foi uma antiga estrada pré-colombiana que ligava a cidade de Salvador (BA) até o Peru e a Bolívia: "a estrada saía de Salvador, passava pela Chapada Diamantina, Mato Grosso e Serra dos Apiakás, até chegar na Bolívia e Peru”. Heinz Budwick defende a teoria de intercâmbio entre os Incas e os povos nativos brasileiros, através do consagrado Peaberu.

 
Parque Nacional Chapada Diamantina - 400 km de Salvador


O PEABERU NA SERRA DO MAR

A ligação de Piratininga ao litoral santista tinha como obstáculo a imponente Serra do Mar, que se estende do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro. Sua elevação máxima atinge 937 metros acima do nível do mar. Para vencer as escarpas em direção a São Vicente, os nativos seguiam os carreiros de antas e outros animais silvestres, que por ali originou um trecho difícil do milenar Peaberu. Os colonos valiam-se da trilha indígena, conforme testemunha o jesuíta Fernão Cardim (1585): "o caminho é tão íngreme que às vezes íamos pegando com as mãos" (engatinhando). Lamenta-se também o jesuíta, Simão de Vasconcelos, das dificuldades encontradas: "o mais do espaço não é caminhar, é trepar de pés e mãos, aferrados às raízes das árvores, e por entre quebradas tais, e despenhadeiros, que confesso de mim, que a primeira vez que passei por aqui, me tremeram as carnes, olhando para baixo", referindo-se ao medo que passou. Mas foi somente em meados do século XIX que - com as construções das ferrovias: Santos - São Paulo - Campinas e Curitiba – Paranaguá (foto) - foi implantada uma nova geografia na Serra do Mar.

 
Fácil imaginar as enormes dificuldades técnicas encontradas nestas empreitadas
Trecho Paranaguá a Curitiba - PR


Depoimentos e Testemunhos

A denominação do Peaberu aparece pela primeira vez no livro - História da Conquista do Paraguai, Rio da Prata e Tucumán - escrito pelo jesuíta, Pedro Lozano, que descreve o Caminho de forma precisa: “oito palmos de largura e forrado com uma grama miúda”. O padre Lozano confirma-o: “pelos tributários do Rio Paraguai, o Peaberu atingia o coração do Peru”.
Taunay, citando mapas de Luís Antônio de Souza Botelho e Mourão (que deu seu nome ao município de Campo Mourão), descreve o traçado assim: "Saindo de São Paulo, passando por Sorocaba, pela Fazenda Botucatu que foi dos padres da Companhia (de Jesus), dirigindo-se a São Miguel junto ao Paranapanema e costeando este rio pela esquerda, tocando em Encarnación, Santo Xavier e Santo Inácio (cita três reduções jesuítas), onde, de canoa descia o Paranapanema, entrava no Paraná e subia Ivinhema até quase as suas margens; aí seguia, por terra pela Vacaria até as cabeceiras do Aguarai ou Corrente onde, tornando-se de novo fluvial, seguia por esse afluente até o Paraguai, pelo qual subia”. Taunay nos fala mais sobre o trecho, extensão e utilização do Peaberu: "como quer que seja, esse caminho existia e muito batido, com uma largura de oito palmos, estendendo-se por mais de 200 léguas, desde a capitania de São Vicente, na costa do Brasil, até as margens do Rio Paraná, passando pelos rios Tibaxiva (Tibagi), Huybay (Ivaí) e Pequiri".

Alfredo Romário Martins descreve uma rota do Peaberu: "Era São Vicente, Piratininga, São Paulo, Sorocaba, Botucatu, Tibagi, Ivaí, Piquiri, bifurcava-se o caminho indo um ramal para o Sul até o Iguaçu, no ponto em que este rio, na sua margem esquerda, recebe o Santo Antônio". "Uma picada de 200 léguas que, com duas varas de largura, ia do Litoral (São Vicente) até Assunção no Paraguai, passa por São Paulo" (Batista Pereira - Carta a Paulo Duarte, Revista do Arquivo Municipal de São Paulo - vol. XXXVIII).

O padre Leonardo Nunes, citado por Serafim Leite (História da Companhia de Jesus no Brasil), fixou o marco final do roteiro iniciado na praia de São Vicente: "Ao poente do Paraná, o caminho prosseguia, atingindo o Peru e a Costa do Pacífico".

O geógrafo Augusto Zeferino, da UFSC, fala claramente dos peabirus existentes em Florianópolis, no seu livro: ”Caminhos e trilhas de Florianópolis”.

O jornalista, Eduardo Bueno, em seu livro “Náufragos, Traficantes e Degredados” (Editora Objetiva, 1998), dá algumas pistas do que foi o Peaberu: "Não se tratava de uma mera vereda na mata: era quase uma estrada, sinalizada por certa erva muito miúda".

Afirma o estudioso paraguaio Dionísio Gonzalez: “a motivação religiosa teria transformado o Peaberu em algo sagrado para os povos Guarani”.

Em 1612, Ruy Díaz de Guzmán, refere-se com autoridade sobre o Peabeyú: “é um caminho bem marcado”, facilmente visível e identificável.

O padre Antonio Ruiz de Montoya, criador das reduções jesuíticas na Província del Guayrá (hoje Paraná) escreveu, em 1639, que viu ”um caminho que tem oito palmos de largura”, que correspondem a menos de dois metros lineares.

Esse caminho é a mais importante via transcontinental da América do Sul pré-colombiana: “O Peabiru é uma estrada indígena com um tronco e uma teia de ramais”, definiu, Reinhard Maack (1959).

O professor, Samuel Guimarães da Costa, escreveu nos anos 70, no jornal O Estado do Paraná, que: “se o Egito é um presente do Nilo, a terra hoje paranaense é o legado de um caminho pré-histórico que se apagou na geografia da colônia”. Foi devastado pelas cidades e fazendas que, quase, acabaram com o seu traçado.

O astrônomo Germano Bruno Afonso, do Departamento de Física da UFPR, notou que existem marcações astronômicas, a maioria feita em pedras, ao longo do Peaberu.

São gravações rupestres e monólitos, com orientação astronômica (indicando solstícios, equinócios, pontos cardeais e até constelações), o que demonstra um conhecimento bastante aprimorado do povo nativo sul americano. Tais pedras, verdadeiras obras científicas, foram trabalhadas por índios brasileiros. Uma dessas pedras, espécie de calendário solar foi localizada pelo professor Germano, em Mangueirinha (PR), numa zona que foi afetada pela usina de Segredo.

Outro conjunto enorme e interessante de pedras orientadas está em Florianópolis, na ponta catarinense do Peaberu.

O explorador e pintor Heinz Budwig, depois de vários anos de pesquisas comprovou ”a existência de uma ampla malha viária ancestral, denominada, pelos indígenas, como Peaberu, que vara grande parte do território brasileiro, conectando-o com a região andina, e os Incas e Vikings usaram esses caminhos de chão pisoteado, com alguns trechos revestidos de grama ou de pedras”, observou.

"Os índios chamavam Pe abe yu a um caminho pré-cabraliano", escreveu Romário Martins (Revista Guairacá, 1941), autor do livro Caminhos Históricos do Paraná.

 
Relógio do Sol - Inca

Nas palavras de Hernâni Donato: "Um friso de praia debruçado pelo muro das montanhas. Nenhuma brecha ou porta que o introduzisse na largueza além serrana, o europeu estava confinado à beira mar! Mas, em São Vicente, existia uma exceção: havia uma estrada antiga, visivelmente transitada. Oito palmos de largura a mergulhar no interior brasileiro”. Para Donato, especialista brasileiro no assunto, “dezenas de personalidades viram, usaram e testemunharam o Caminho do Peaberu”, assegura no seu livro: “Sumé e Peaberu”. Donato menciona dois prováveis trechos pavimentados desse Caminho: “um perto da aldeia Meruri (MT) e outro a 50 quilômetros do rio Miranda (MS)”.

*Edina Simionato - "O Peaberu é Caminho de idas e vindas, caminho da esperança apresentado pelas pedras e gramínea verdejante que o reveste, pela vontade de se conhecer a terra sem mal, onde os nativos acreditavam encontrar o caminho que os levaria ao céu.
Por este caminho em seu tronco e seus ramais transitaram vultos famosos como Aleixo Garcia e Alvar Nunes Cabeza de Vaca, em expedições memoráveis.
Este caminho, cheio de mistérios e magia existiu, tendo alguns trechos preservados, mas existe urgência nesses cuidados, pois poderá ser totalmente devastado pela insensatez do homem.
Eu estive em alguns trechos, do caminho milenar, em Pitanga e no 1º Encontro Nacional dos Caminhos do Peabiru e em Campo Mourão.
Pude sentir o cheirinho da mata que o protege, a cantiga dos riachos e a doce melodia dos pássaros.
A brisa sutilmente passou pela minha face e pude enxergar com os olhos da imaginação o Caminho dos nossos antepassados.
Foi esse Caminho que trouxe a progresso para nossa região, tropeiros e colonizadores.
Hoje pretendemos reverter o quadro de devastação e recuperar este Caminho para nossas futuras gerações.
Wille Bathke Junior registra a história do peaberu neste seu livro, com grande propriedade, fundamentado em documentos, sem distorcer os fatos.
Seu livro é recheado de fotos e ilustrações, levando o leitor a identificar-se com as aventuras através deste Caminho, que deve ser preservado, perpetuado e no caso, a sua história, refletida e refeita.
(*Coordenadora do Museu Municipal Deolindo Mendes Pereira, Pesquisadora e Escritora do Município de Campo Mourão - PR, Membro (16) da Academia Mourãoense de Letras.)

Monte Crista - Segundo Olavo Raul Quandt, em seu livro Peabiru o Caminho Velho: “um dos troncos principais do Peaberu ligava a localidade de Cananéia, no litoral de São Paulo, à cidade de Cuzco, no Peru. Uma das variantes começa no litoral norte de Santa Catarina, junto ao Canal das Três Barras, ou Rio das Três Barras, cruzando a trilha do Monte Crista, seguindo depois por mais de duzentas léguas até o Peru”. Esta vivência no Monte Crista ocorre nos finais de semana mais próximo da Lua Cheia. É um caminho de cura e uma viagem para o interior místico de cada pessoa. Ao pisar os milenares degraus de pedras na subida do Peaberu, são repensados e revividos os passos cotidianos da vida e os caminhos que ficaram para trás. O fotógrafo ambientalista, Marcos Piske, acredita que a trilha do Peaberu tenha sido construída pelos Incas há milhares de anos: “há uma ligação com as ruínas de Machu Pichu (Peru), e os Incas deixaram aqui, no Monte Crista, alguma lição para nós”, e que o seu interior intuitivo sente estar relacionado com o meio ambiente.

Lembra-se das poéticas palavras de Hernani Donato: "Um friso de praia debruado pelo muro das montanhas. Nenhuma brecha ou porta que o introduzisse na largueza além serrana, o europeu estava confinado à beira mar!". Mas em São Vicente, existia uma exceção: Havia uma estrada antiga, “visivelmente transitada... oito palmos de largura a mergulhar no interior Brasileiro”.

O português quando chegou ao Brasil, notou que aquela estrada pouco perdia para as vias de Portugal, e perguntou ao nativo, travando-se o seguinte diálogo:
- O quê é isto?.. - Quem realizou este trabalho?
- Pe abe y u! Respondeu-lhe o Índio.
- E quem abriu este caminho tão longo?
- Pay Sumé! Sendo tudo o que o índio pode dizer.
- Pay Sumé? Mas, é de São Thomé que ele está falando!

TEREZINHA NO PEABERU
Por Paco Cruz

Terezinha Aguiar Vaz (foto), detiene la marcha y se inclina sobre una piedra, su mano comienza a recorrer lentamente las inscripciones.
Cierra los ojos e imagina a los hombres que en una mañana como aquella, pero cerca de 3 mil años atrás, dibujaron sobre la superficie rugosa de una piedra, los signos esperanzados.
Terezinha se siente en deuda con los miles de hombres y mujeres que durante séculos de años recorrieron el camino del Peaberu por el que ahora ella transita, y que a lo largo de sus azarosas existencias fueron fundando pueblos y haciendo historia, y toma una decisión: “desde ese momento, el legendario camino de Peabiru a su paso por la Sierra de Pitanga, quedará registrado en blanco y negro en mi livro”, Lendário Caminho do Peabiru na Serra da Pitanga.
“Ahora, pasados los meses, en un reposado verano habanero, desfilan ante mis ojos los personajes que fueron conformando la historia de Pitanga, ciudad que exhibe toda su belleza en el estado brasileño del Paraná.
Durante a noite de autógrafos e palestra de Terezinha, no mini auditório da Fecilcam de Campo Mourão (23-09-2004) voltada aos acadêmicos de Geografia e Turismo soube, maravilhada, que o Caminho que passa por Pitanga, igualmente atravessa a micro-região 12, polarizada por Campo Mourão (PR).

Uma estrofe:
Pitanga, terra bendita
Rodeada de pinheirais
Toda feita de belezas
Céu de anil e milharais.
Deus, ao desenhar
Seus rios e cachoeiras,
Exagerou!


Ópera Peabiru - (2000, texto de Lélia Rita de Figueiredo), cantata cênica, com soprano, barítono, coro misto, dois pianos, percussão e corpo de baile.
João Guilherme Ripper é compositor, regente e atual Diretor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cumpriu mestrado em Composição. Estudou com Henrique Morelenbaum, Roberto Duarte e Ronaldo Miranda. Cursou especialização em Regência Orquestral com o maestro argentino Guillermo Scarabino, e Doutorado na The Catholic University of América (Washington-DC), sob orientação do compositor e violinista, Helmut Braunlich, e da musicóloga, Emma Garmendia, especialista em música latino-americana.
As obras de Ripper têm sido tocadas em diversas salas de concerto destacando-se as apresentações de Abertura Concertante para oboé, corninglês e orquestra; a ópera de câmara Domitila, no Centro Cultural Banco do Brasil e no Theatro São Pedro (SP); Rio São Francisco – Imagem Sinfônica no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com a Orquestra Sinfônica Brasileira sob regência do maestro chileno Juan Pablo Izquierdo e a cantata Peabiru, apresentada na Igreja da Candelária e no teatro Manoel de Barros (RJ), além de Campo Grande (MS), com regência do autor.

Cantata - Donato frisa que o fascínio por Thomé-Sumé-Viracocha, “fez com que o compositor brasileiro, Villa-Lobos, compusesse a sinfonia Sumé Pater Patrium”. Cantata: Peabiru – A Conquista do Novo Mundo.

Teatro - O palco do Palácio Popular da Cultura, em Campo Grande, o maior e mais bem equipado teatro do MS, trabalha com cerca de 70 artistas e diretores, que dão vida à saga: “Peabiru – A Conquista do Novo Mundo”, de Lélia Rita Euterpe de Figueiredo Ribeiro. O Peaberu é o ponto de partida desta superprodução, baseada no poema de Lélia Rita, com música de João Guilherme Ripper e direção de Rubens Velloso. Segundo Lélia Rita, idealizadora do espetáculo, o objetivo da Cantata é mostrar a rica história da conquista da nova terra, águas, flora, fauna, o bravo guaicuru, a formação e a luta de sua gente, as glórias das descobertas e das conquistas, o esplendor da natureza – “com o fascínio que exercem sobre os viventes de todos os lugares do mundo”. O projeto é uma iniciativa, bem lembrada, da Casa da Memória “Arnaldo Estevão de Figueiredo”. Embora seja uma peça lírica, a Cantata Peabiru apresenta um caráter contemporâneo, pois como os próprios realizadores definem, trata-se de um espetáculo multimídia, que reúne música, dança, artes visuais, acrobacias e história do famoso Caminho.

Peaberu em poesia
(autor Fernando Carreiro Albuquerque)

Ignorante fado enfuna
velas de um vago Bojador
a obsessão vulgar da fortuna
ordem do infante navegador.

Navegou louca ganância
de pés secos, nunca a bordo,
sonhos, mares de abundância
de dores, espectro sórdido.
De ponta sagrada pois erma
debruçou-se, acuado Baco
enebriado de alma enferma
devaneio místico oceânico.
Era a compulsão da conquista
a lança primeiro fremia
num furor escravagista
tudo era assolado à histeria.

Luz de Ceuta doura e linda
faz a negra aura iluminada
Dom Henrique trama a senda
Ter Tânger dilapidada.
Parvo e tôsco mundo cristão
desafiou o mar tenebroso
flanco oculto, orgulho do Islão
tórrido elo bonançoso.

Aspirou povos sem maldades
engoliu culturas altivas
bafejou pelos arrabaldes
vomitou em plagas nativas.
O espírito desbravador
tão altaneiro e truculento,
inato engenhoso empreendedor
ceifa ondas contra frio vento.
Décadas depois, Dom Manoel
afetado por sacro miasma
dos lucros, fez sair barinel,
em busca de rico fantasma.
Nave barinel, vetusta
redondo, redonda vela,
barcha transmutada, astuta
daí a ciência fez caravela.
Por anos a fio arranhavam as costas
da senda tropical , Brasil
uma terra de peles tostas
D'homens largados à sorte vil.

Caboto então cabotava,
desovava degredados
que entre índios se abrigava
cada um destes desterrados.
Então a lenda criou corpo adensado
o rei branco, prateadas serras
copo de ouro e de jóia ornado
com neve eterna em altas terras.

Os charruas e carijós diziam;
Já apontavam os tupiniquins:
Terra adentro olhos se perdiam
Além dos picos, campos e afins.
O Rio Paraná era o caminho.
Após salvo cruzar delta-mar,
Rio da Prata, num bergantinho
ao oeste, o rumo certo tomar.
Mas, zelosos ainda os deuses
do povo inca tão pulcro e baio
fez esconder entre brumas e fozes
o caminho pelo rio Pilcomayo.

Doutro lado, Aleixo Garcia,
numa apoteose inaugural
quase dois mil índios aliciaria,
criando nosso carnaval;
Deixaram a baía dos Patos
rumo firme ao rio Itapocu,
subiram seus vales e matos
e safos, alcançarem o Peabiru.
Belo de fato o rio Ivaí
transpôs-se-lhe pela nascente,
havendo ficado o Tibagi,
se fez o rio Piquiri ao poente.
Restando apenas o Iguaçu,
Passa-lhe perto da sua foz,
Num capricho do Peabiru,
Sem ver a grande queda feroz.

Adentrando pelo vil Chaco
o rio Paraguai atravessando,
a excursão seguia para Cuzco
fez-se aos postos de Sucre;

Lá, intrépidos, saquearam os incas
aparvalhados pelo ataque,
ouro e prata trouxeram em pencas,
do reinado de Huayna Capac.
Mas do séquito arrojado,
Que aos portões de Cuzco chegou,
apenas um gentio estropiado
à baía dos Patos alcançou.
Ao voltar pelo rio Paraguai,
os vulgos piratas das monções
chamados os da tribo Payaguá,
dizimaram os incautos rufiões.
A lenda da serra de prata,
do rei branco milionário,
fez-se febre quase imediata
aos cavalheiros do templário.
Mas o mito logo se esfarelou
pois do inicial alvoroço
A chã vereda não mais se achou,
ao Peabiru fez-se omisso.
Hernan Cortez à Vera Cruz finca,
desvenda as serras de prata,
incendeia vil o império Inca,
da gana vítima inata.

Ver Potosi posse espanhola,
sendo ingrata a rude senda
às estas terras não deu-se bola,
por muito o Brasil foi lenda.
Hoje revendo a trilha do Peabiru
Remonto ser ela ainda ativada,
Levando da Serra do Mar ao Iguaçu
Serpenteia linda, chucra, asfaltada.
Sai de Piçarras, foz do Itapocu,
Sobe a serra do Mar a Ponta Grossa,
daí segue para oeste até Foz do Iguaçu
Na qual ergueu-se "Vila muy Hermosa"
Para Cabeça de Vaca, espanhol louco,
restou o prêmio: achar a foz monumental
do rio Iguaçu, mas não evitou tampouco,
que fosse também de Portugal.
Já percorri todos estes caminhos,
insanos , mágicos mesmo hoje;
as araucárias repletas de pinhos,
veloz cruzo os campos na laje.

Só assim consigo compreender o fato:
ridículo nos pareça até então
bem risível sejam as desventuras
o porte da aventura destes... 

Aos homens sem porto.


SALGUEIRO NO MAR DE XARAYÉS - 
É PANTANAL...É CARNAVAL

Sérgio Murilo e Luciano de Freitas

Nas terras e no Mar de Xarayés, num mundo vasto, imenso, não mais alcançável pelos olhos naturais, surge a civilização do Pantanal. Um universo pleno d’água, fauna diversa e exuberante, flora variável, que só podemos olhar com os olhos da imaginação. E, assim, vá, SALGUEIRO, navegue no seu imaginário fortemente lúdico, que surge do mundo das águas.
O Pantanal é alimentado pelo volumoso Rio Paraguai. Desta forma, encontre, SALGUEIRO, a história das nações indígenas que contribuíram para que o território brasileiro seja bem mais vasto do que era. Descubra a dignidade dos Guaikuru, que se desenvolveram o intercâmbio com o Império Inca, na Cordilheira dos Andes, utilizando-se da malha viária com oito palmos de largura, denominada Peabiru, que ligava a região de Itatins, no Pantanal (MS), com a capital Inca, em Cuzco (Peru) e a São Vicente (SP). Os Guaikuru, os primeiros pantaneiros, foram exímios criadores de gado, utilizadores de armas de caça e fabulosos cavalgadores, os únicos índios cavaleiros dentre as demais nações indígenas do Brasil.
Revele, SALGUEIRO, que esses valentes índios cavaleiros foram ferrenhos inimigos dos jesuítas e espanhóis, que invadiram o atual território sul-matogrossense. Os guerreiros Guaikuru, aliados aos portugueses desde os primeiros contatos e, definitivamente, a partir de 1791, firmaram o "Tratado de Paz e Aliança Eterna" com a Coroa Portuguesa. Sem os guerreiros Guaikuru, hoje não teríamos o Pantanal, que seria do Paraguai.
Da nação Guaikuru, o SALGUEIRO descobre outras tribos de real importância para a história e a cultura dessa região: Guarani, Payaguá, Guaxarapó, Xarayés, Kadiwéu, Nhandewá, Kaiowá, Tupi, Terena e Guató. Espanhóis e portugueses, os colonizadores da região, exercitam a primeira visão do paraíso, entrando pela Bacia do Prata (Rio Paraná) até chegarem ao Pantanal e, desta forma, seguem em direção à Serra de Prata Potosy (Bolívia), considerado, por eles, o Paraíso na Terra.
Nossos índios de fronteira trocam suas vivências com os paraguaios e bolivianos, que passam a ser nossos vizinhos após a definição do território pantaneiro. É preciso navegar, SALGUEIRO, penetrar no universo água-pantaneiro-bugre. É preciso descobrir o povo já misturado de índio, caboclo, negro e branco. E, com a bandeira salgueirense, encontrar as Índias Castelhanas, que, unidas e integradas neste Novo Mundo, construíram lendas e histórias fantásticas da magia pantaneira, bem como seu folclore, sua culinária, seus hábitos cotidianos e sua arte através da pintura, da dança e da música.
Continue, SALGUEIRO, vá navegando. Penetre mais por este universo, já que as águas te dão essa permissão. Vá, e, em lugar de grandes águas, encontre os Kadiwéu, primeiros descendentes dos Guaikuru, naquilo que foi o imenso mar de Xarayés.
Saboreia SALGUEIRO, se farte na abundância da natureza que vai lhe proporcionar uma comida farta e de paladar inigualável. Se enriqueça de prata e ouro. Ouça o canto dos múltiplos tipos de aves e veja seus animais.
O Pantanal, diz o SALGUEIRO, é o Santuário Ecológico da Humanidade por sua grandeza e riqueza de seu povo e de sua natureza, das lutas em favor da independência do homem e do espírito e por ser um dos mais significativos ecossistemas do planeta, que urge e implora, sempre, a sua preservação.
(Enredo da Escola de Samba do Salgueiro do RJ)

 
Desfile da Escola de Samba do Salgueiro - Rio de Janeiro


Zé Ramalho canta Paêbirú e Sumé
Paêbirú - Lula Côrtes & Zé Ramalho
*Texto na revista ShowBizz (Alemanha), setembro/2000.

Tão fantástica quanto suas músicas e letras é a trajetória de Zé Ramalho. Ele gravou um disco que se perdeu no tempo. Trata-se do raríssimo álbum duplo "Paêbirú" creditado a Lula Cortês e Zé Ramalho, gravado entre os meses de outubro e dezembro de 1974, na gravadora Rozemblit, em Recife (PE).
Clássico do pós-tropicalismo, com doses de psicodelia, o álbum trazia seus quatro lados dedicados aos elementos: água, terra, fogo e ar. Nesse clima, rolavam canções como o medley Trilha de Sumé/Culto a Terra/Bailado das Muscarias, com 13 minutos de violas, flautas, baixão pesado, guitarras, rabecas, pianos, sopros, chocalhos e vocais.

 
Pedra de Ingá (PB) com inscrições atribuídas a Thomé

É destaque do álbum a obra-prima, Nas Paredes da Pedra Encantada, Os segredos Talhados Por Sumé, (regravada por Jorge Cabeleira, com participação de Zé Ramalho), com seu baixo sacado de Goin' Home dos Rolling Stones sustentando mais sete minutos do que se pode chamar de psicodelia brasileira.

Disco raro virou lenda - O disco por si só é uma lenda, mas ficou mais interessante ainda pelas situações que envolveram a sua gravação. A gravadora Rozemblit ficava na beira do rio Capiberibe, e o disco, depois de gravado, foi levado por uma das enchentes que assolavam a região. Conta a lenda que sobraram apenas umas trezentas cópias nas mãos de colecionadores, muitas das quais no exterior, onde foram parar a preço de ouro.
Alemanha - Paêbiru lançado em 180 gramas na Alemanha. O raro álbum 'Paêbirú', de Lula Côrtes & Zé Ramalho, lançado em 75, foi reeditado em tiragem limitada na Alemanha, incluindo o encarte original.
Hoje, o álbum valioso no mercado internacional de raridades psicodélicas segue inédito no mundo digital e praticamente desconhecido no Brasil.
Paêbirú, entre os incas, quer dizer "caminho do sol". Esse álbum poderia ser o primeiro de uma série de raridades a ganhar uma fatia no mercado, fundamental para a preservação da cultura musical brasileira.
A primeira vez que o Brasil ouviu Zé Ramalho da Paraíba, foi na voz de Vanusa, que gravou a canção Avohay, em 1977, pela Som Livre. Depois, Zé Ramalho já tocando com Alceu Valença tinha em sua bagagem a experiência de grupos de Jovem Guarda e beatlemania, como Os Quatro Loucos.


Aleixo Garcia dá título à Consulado

 
Cabrochas da Consulado

 - Em Florianópolis (SC), Darcy Deitos, Sinclair Pozza Casemiro, Rubens Bueno, Rosana Bond e Rose Bueno desfilaram pela Escola de Samba Consulado, que foi para a avenida com o enredo, sobre o famoso Peaberu, “Da terra Sem Mal ao Império do Sol: o El Dorado de Aleixo Garcia” inspirado no livro da jornalista Rosana Bond, que iniciou as pesquisas sobre o tema, em Campo Mourão, quando assessora de imprensa da Prefeitura Municipal na gestão Bueno. Os “mourãoenses” fizeram parte da ala que homenageou o milenar Peaberu – o Sagrado Caminho de São Thomé. A Consulado foi a campeã do Carnaval Catarinense 2005, depois de uma longa espera de 12 anos. (fonte www.bocasanta.com.br – Sid Sauer)

Letra da Da Terra Sem Mal ao Império do Sol 
O El'Dorado de Aleixo Garcia:

Pode aplaudir, cantar, sambar
Que a Consulado vai passar
Do Caeira vem essa magia
O Eldorado de Aleixo Garcia
E Novamente aquele show de bateria

Hoje minha escola vem contar
Um fato novo da história
De um caraíba europeu que aqui viveu e suas glórias
Chegou a "terra sem mal"
Lugar igual nunca viu
Um pedacinho de terra perdido
No Sul do Brasil

Conquistou cariós
E seus segredos conheceu
Trilhando caminhos do Peaberu
Descobriu Império divinal
Vou pedir passagem, vou nessa viagem
Em busca de prata e ouro

Lagos, palácios, jardins
Riqueza de um povo ancestral
Incas de terras distantes
Que adoravam o sol
Santuário sagrado, cidade perdida
Hoje a Consulado, mostra na avenida.


Beija-Flor vence com Índios e Missões 

Com o tema, as Missões Jesuíticas, a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis foi a derradeira a desfilar e conquistou o terceiro título consecutivo de campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, no Sambódromo da avenida Marquês de Sapucaí, com a soma de 399,4 pontos.
O tri não é novidade para a tradicional Escola de Samba que repetiu o feito dos anos de 1976/77/78.
Este ano veio com o enredo "O vento corta as terras dos Pampas. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani. Sete povos na fé e na dor... Sete missões de amor" e cantou sobre o tema polêmico das missões jesuítas e do choque cultural dos brancos com os povos nativos no Sul do Brasil.
Nos carros, verdadeiros cenários teatrais, estavam o Cristo ensangüentado e Maria Madalena, com os temas separados com terços do rosário, santos e outras imagens católicas.
Na avenida viam-se alas representando várias tribos dos primeiros habitantes da terra invadida pelos europeus.
Os oito carros alegóricos traziam ricas fantasias e representações sobre o tema do samba enredo: nativos e missioneiros.

 
Guarani Missioneiro Prata de Potosi - Ouro Inca Caçador Pescador

Beija-Flor (samba enredo)

”O vento corta as terras dos Pampas. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani. Sete povos na fé e na dor... Sete missões de amor”.
Compositores: J.C. Coelho, Ribeirinha, Adilson China, Serginho e Domingos P.S. Intérprete: Neguinho da Beija-Flor.

Clareou...
Anunciando um novo dia

Clareou...
Abençoada Estrela Guia
Trás do céu a Luz Menino
Em mensagem do divino

Unir as raças pelo amor fraternizar
A Companhia de Jesus
Restaura a fé e a paz faz semear
Sepé Tiarajú

Braço forte das Missões
Com seu povo e sua crença
Aceitou inovações
Índios, Jesuítas em nome do Criador

Taí o mundo selvagem do tal civilizador
Surgiu...
Nas mãos da redução a evolução
Oásis para vida em comunhão

O paraíso...
Santuário de riquezas naturais
Onde ergueram monumentos
Imensas Catedrais

Mas a ganância
Alimentada nos Palácios de Madri
Com o Tratado assinado
A traição estava ali

O Sonho da Fartura
Propagou a imigração
Um elo de cultura
Costumes, Tradições

Com a força desse povo
Pro sul do meu Brasil
O vento assim cortou os pampas
Em nome do Pai, do Filho

A Beija-Flor é Guarani... 
Sete povos na fé e na dor... 
Sete missões de amor.

 




THOMÉ  - UM CAPÍTULO À PARTE
Thomé Apóstolo esteve aqui


Tomas ou Tomás vem do aramaico Teoma e significa "gêmeo". Outra variante de Tomas, em português, é o nome Thomé, que vem do hebreu. Tomás em grego é Thomas. Em inglês usa-se o Thômas para se referir ao Apóstolo Thomé. "Didimo Judas Tomé" ou "Didimo Judas Thomas" parece nome estranho que, na verdade, é um apelido. Ocorre que, na Palestina de dois mil anos atrás, falava-se três idiomas: o aramaico do povo, o hebraico dos intelectuais judeus e o grego dos comerciantes. Tomé, em hebreu, significa gêmeo. O nome Judas, em hebraico, quer dizer agradecimento. Quando falamos no Apóstolo Thomas, estamos nos referindo ao Apóstolo Thomé.

De pai para filho e por centenas de anos foram transmitidos ensinamentos do pregador Thomé, aos nativos sulamericanos, como este: "a doutrina que eu agora vos prego, perdê-la-ei com o tempo, mas, quando depois de muitos tempos vierem uns sacerdotes sucessores meus, que trouxerem cruzes como eu trago, ouvirão os vossos descendentes essa doutrina".
O jesuíta mestiço, Antonio Ruiz de Montoya, acompanhado de sua cruz, remontou os passos de Pay Sumé citado pelos guaranis. Visitava locais onde existiam pegadas centenárias que ele, alinhavando suspeitas próprias às narrativas indígenas, confirmou serem do Apóstolo Thomé, aquele que, para crer, tocou as chagas de Jesus Cristo, após a ressurreição.
A profecia de São Thomé está contida no livro: Conquista Espritval, do jesuíta Antonio Ruiz de Montoya (1639), que percorreu o sertão paraguaio e o atual território paranaense.
Segundo a narrativa do padre Montoya, o Caminho teria sido aberto, pelos índios, sob as ordens de Thomé.
Os nativos, que transmitiam a história verbal às suas gerações, foram os primeiros a sensibilizarem-se com a causa cristã ao verem os jesuítas aparecerem em suas aldeias, condenando a poligamia e conclamando-os ao batismo, assistir missas, rezar e casar, impondo-lhes, severamente, a cultura espanhola. Tendo cruzado a região há quase dois mil anos atrás, a lembrança indígena de São Thomé ajudou em muito a implantação das primeiras reduções pelos missionários jesuítas, que constituíram a florescente República de Itatins, nas Províncias de Itatim e Del Guairá, primeiro estado industrial, cultural e militar na América Latina, com bases teocráticas. Os jesuítas deram ao Peaberu o nome de Caminho de São Thomé e afirmavam que o Apóstolo ensinou os índios a construí-lo e por ele fazia suas peregrinações e, em nome de Deus, batizava e convertia os nativos, que se referiam ao santo como: Pay Sumé (Guarani) e Zumé (Inca).
A passagem de Thomé pela América foi bastante mencionada a partir do século XVI. Entre os depoimentos estão os dos padres Montoya, Lozano, Manoel da Nóbrega e da Newe Zeitung Ausz Persill Landt (Nova Gazeta da Terra do Brasil) editada na Alemanha (1508).
Mas, foi necessário dizer que o feito era um milagre para explicar que se tratava de uma técnica viária desenvolvida pelos nativos, transmitida pelo Apóstolo, pois aquela engenhosidade - para os portugueses - não poderia ser construção da natureza e muito menos - para eles - obra de um povo: "não civilizado e tão primitivo”.
A figura mística é descrita como a de um homem branco, barbudo, trajando um camisolão e sandálias de couro, que chegou ao Brasil por sobre as águas do Oceano Atlântico e, da mesma forma, se foi pelo Oceano Pacífico. Encontrando caminhos já existentes, os jesuítas os atribuíram à intervenção sobrenatural e concluíram que foram feitos por milagre quando da passagem de Thomé pela América do Sul. Em sua peregrinação, o Santo percorreu trechos do Brasil rumo ao Paraguai e abriu o Peaberu, com a prestimosa ajuda dos nativos.
Sumé civilizador das nações Tupi e Guarani, perseguido pelo povo Tupinambá dirigiu-se ao Paraná, Paraguai e Peru deixando, por onde passou, marcas pelo Peaberu.
Dali continuou a romper o Caminho até os Andes, onde foi chamado de Kon Illa Tijsi, também conhecido por Kon Tiki e Viracocha, pelos Incas. Durante esta caminhada ensinou a abrir uma estrada que ficou conhecida, entre os nativos, como Peaberu.
Segundo Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro: “Visão do Paraíso”, a devoção pela descoberta do Caminho de Thomé foi tamanha, que quase desbancou o de Compostela: “pouco faltaria, em verdade, para que não apenas na Índia, mas em todo o mundo colonial português... essa devoção tomasse um pouco o lugar que... tivera o culto bélico de outro companheiro e discípulo de Jesus, cujo corpo se julgava sepultado em Compostela”, referência ao apóstolo Thiago.
Tenham fé e esperança... se algo em seu interior estiver dizendo, "você terá que ir para o caminho"... é um chamado e tudo acontecerá de maneira inexplicável para que no momento certo este desejo se realize.
Não há obstáculo que irá lhe impedir... talvez no momento que você queira não poderá por algum motivo, mas na hora que o Pai lá de cima determinar... tudo dará certo! Não pense em idades... pois no caminho tive muitas experiências; pessoas com idades muito mais avançadas que eu... caminharam muito bem! Cada pessoa faz o caminho que está escrito... e recebe a lição que necessita!
Nossos pensamentos são os maiores obstáculos, por isso vibre positivamente que tudo dará certo!
Quando estiver no caminho, siga seu ritmo... e a voz que sempre está presente no seu interior!


THOMÉ, O APÓSTOLO DO PEABERU

Thomé, Tomé, Tomas, Quem é e Por Onde Andou?

Na África
Em 21 de dezembro de 1470 (Dia de São Thomé), os portugueses João de Santarém e Pero de Escobar, no arquipélago frontal à Guiné Bissau (África) fundaram São Tomé e Príncipe, duas ilhas de uma só República Democrática abençoada sob o signo do Santo Apóstolo.
Na Índia
No século XVI, a peregrinação ao túmulo de  Thomé, na Índia, era mais intensa que ao de Thiago, apóstolo-guerreiro sepultado em Compostela (Espanha). As relíquias encontradas e a sepultura do Apóstolo Thomé, estão protegidas no museu do mosteiro de Leipzig. Não foi novidade para os portugueses as informações sobre a tumba de apóstolo-atleta na Índia, fato que já era muito citado na Europa durante a Idade Média, inclusive, pelo lendário navegador, Marco Pólo, em suas mirabolantes viagens e descobertas orientais.
Atleta
O apelido de Atleta deve-se ao fato de ter pregado o Evangelho nos pontos mais remotos da Terra. Além da Índia, a sua jornada missionária passou pela China, África e América, convertendo esses povos ao cristianismo.
O que realmente assombrou os europeus, quando aportaram naquela costa indiana, foi a grandeza do  culto nos locais consagrados e os milhares de devotos de São Thomé, desde Bombaim, Madrasta, Ceilão, Camboja; nas inúmeras colônias lusitanas cristãs, até o Mar da China.
Na época, e antes do domínio espanhol sobre Portugal, a sepultura de Thomé era bem mais visitada que o local sagrado de São Thiago, ao tempo que Meliapor atraia não só os fiéis indianos e chineses mas, igualmente, os povos pagãos e gentios que iam, em longas e sacrificantes peregrinações, constantemente  à Índia e ás cidades de São Tomé e Príncipe (África), para louvar o Santo Apóstolo.
Na América
apóstolo Thomé, aquele que só acreditava no que via e tocava, esteve na América do Sul e realizou feitos memoráveis. Quando os portugueses chegaram à Índia, ouviram informações do povo nativo, sobre as pegadas deixadas pelo apóstolo Thomé em diversos lugares do Oriente, as quais também foram encontradas quando da descoberta da América, mais notadamente no Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru, pelo trajeto secular do Peaberu. o Sagrado Caminho de São Thomé.
Sumé do Brasil   
O Caminho do Peaberu, estreita estrada primitiva, com cerca de cinco mil quilômetros, que une o litoral brasileiro ao altiplano peruano, era intensamente usado, conservado e defendido pelos povos das nações Tupi, Guarani e Inca, que tinham um certo  domínio ascendente sobre as demais tribos, obra estradeira atribuída aos conhecimentos de São Thomé, pelo qual deixou marcas de sua passagem. 

 
A primeira ocorrência, sobre a presença de São Thomé no Brasil, foi publicada em 1507. No mapa mundi do alemão Waldseemüler, onde registra claramente: Serra S. thome, S. pauli e S.vincete acima do Rio de cananoni (Cananéia).

Na Imprensa
A primeira versão conhecida da presença de um discípulo de Jesus em terras americanas é citada pela Nova Gazeta Alemã, que se reportou à viagem do navio armado por Dom Nuno Manuel e Cristóvão de Haro, á América, e que no dia 12 de outubro de 1514 atracou de volta, na Ilha da Madeira. A notícia publicada na Alemanha foi filtrada pelo editor, que estava a bordo daquele navio, ao ouvir o que os tripulantes falavam da costa atlântica brasileira e dos nativos ali encontrados aos milhares, os quais se referiam ao homem branco Sumé e às recordações de São Thomé passadas de geração a geração, acrescentando na matéria, que os silvícolas até: ”quiseram mostrar aos portugueses as pegadas de São Thomé no interior do país. Indicam também que têm cruzes pela terra adentro. E quando falam de São Thomé chamam-lhe o deus pequeno, mas que havia outro deus maior (...). No país chamam freqüentemente a seus filhos Thomé", e citam o pregador como Pay Sumé, Xumé ou Zumé.

O Peaberu
As andanças e as obras de São Thomé se difundiram  rapidamente e de tal forma que, em 1516, no Brasil colônia, comentava-se da sua passagem pelas trilhas do Peaberu, de costa a costa da América do Sul, caminho que, segundo jesuítas, foi aberto pelos nativos sob orientação técnica do Santo Apóstolo.

Mapa do Peaberu de São Thomé

Campo Mourão – PR
Existia até por volta de 2005, a Gruta da Santa Cruz em Campo Mourão - PR, à margem do Caminho do Peaberu, que guardava restos do cruzeiro de cedro, que se acredita, foi “plantado” por São Thomé. Essa gruta sagrada declarada por lei "patrimônio histórico" foi demolida – sem nenhuma explicação – pelo padre da Paróquia do Jardim Santa Cruz. Segundo depoimentos os fiéis, a maioria  de famílias pioneiras de Campo Mourão e região, freqüentavam mais a gruta que a igreja próxima ao local.
A gruta substituiu a centenária capelinha de pau-a-pique, que sofreu um incêndio em 1960 e, no mesmo lugar, foi erigida uma gruta de pedras pelo devoto Ville Bathke, de saudosa memória, que guardou a relíquia em seu interior e sonhava em construir um santuário consagrado a São Thomé, neste local.
Testemunhas contemporâneas relatam benesses e milagres recebidos por muitos mourãoenses neste espaço sagrado, que se destacava  no Cerrado Mourãoense – quase esquecido - onde existe um longo trecho do Caminho e a marca da passagem da trilha milenar, pelo raso do Ribeirão 119, no sentido Jardim Santa Cruz ao Município de Peabiru-PR, cidade esta, que nasceu a dos dois lados da trilha secular, bem visível, que corta o centro urbano, hoje uma larga rua.
Outro marco era venerado, a dezenas de anos, no município de Farol – PR, na localidade conhecida por Cruzeirinho, onde havia uma antiguíssima cruz de madeira, atribuída a passagem de São Thomé. Essa cruz foi retirada pelo primeiro prefeito de Farol, Gilmar Cardoso e foi perdida (também é desconhecido o motivo). Em Alto Alegre, no município de Campo Mourão, os moradores antigos comentavam sobre uma pedra com as marcas dos pés de São Thomé em um determinado ramal do Peaberu, que por ali passava, mas que perdeu-se com o advento da mecanização da lavoura.

As pegadas de São Thomé
Além de Alto Alegre, no Paraná, existem registros de pegadas de São Thomé, cravadas em rochas de diversos lugares do litoral brasileiro:  Cananéia/São Vicente (SP), Itapoá (BA), na praia do Toque Toque; Itajuru (RJ) próximo a Cabo Frio e Paraíba, onde Frei Jaboatão, da Congregação dos Frades Menores, afirmou que viu pegadas no lugar do Grojaú de Baixo, há cerca de 42 km de Recife (PE).
Infelizmente o hábito dos crentes em Thomé, que tem o costume de agredir as pedras marcadas, fragmentá-las e fazer relíquias sagradas, fez desaparecer a maior parte dessas formas em baixo relevo. A história registra, que estas rochas serviram, inclusive, de referenciais de limites territoriais em documentos oficiais, como as cartas de doação de terra pela coroa portuguesa aos fidalgos donatários (capitanias e sesmarias).
Os famosos vestígios de cruzes e pés humanos calcados em pedras foram mostrados pelos índios aos primeiros portugueses, que chegaram ao Brasil. Em alguns lugares, como em São Gabriel da Cachoeira (AM), os moradores, ainda hoje depositam velas e fazem preces em torno de uma forma de pegada cravada em uma rocha. Uns a atribuem a um anjo, outros a São Thomé, ou Pay SuméInscrições iguais são encontradas na Bolívia, Brasil e Peru, atestando a presença do herói místico, que partiu em direção aos Andes pelo Sagrado Caminho do Peaberu, que São Thomé ensinou os nativos a construí-lo, com arte e primor.

THOMÉ, TOMÉ, SUMÉ, SHUMÉ, ZUMÉ, XUMÉ, ZOMÉ
Destas formas pronunciadas: guarani, tupi e inca se referiam à memória do misterioso Thomé: “um homem, alto, branco, longa barba,  portador de uma cruz e da nova doutrina cristã”, foi apontado, pelos jesuítas, como o santo civilizador dos povos mais distantes da Terra Santa.
No Brasil era venerado há centenas de anos, bem antes da dita descoberta do Novo Mundo. Ensinou aos nativos sulamericanos o cultivo da terra, os princípios morais e de respeito humano.
Em algumas tribos seus ensinamentos foram rejeitados violentamente, a ponto do Apóstolo ser ameaçado de morte e agredido diversas vezes, como ocorreu entre os tupinambás de onde fugiu. Perseguido pelos ferozes canibais, atravessou o Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru, cumprindo sua missão evangélica.
O Peaberu
Acreditam que desta sua passagem fugaz resultou a feitura do Peaberu, com ajuda dos nativos de paz, até que o Santo abandonou o continente. Segundo narrativas indígenas, “Pay Sumé se entristeceu com a situação hostil e adversa e foi embora por sobre as águas do oceano”, da mesma forma como veio à América, pela costa brasileira.
Peaberu, estrada estreita e primorosamente conservada, passou a ser conhecido em Portugal como o Sagrado Caminho de São Thomé, visitado e largamente usado pelos europeus depois das travessias de Alejo Garcia, Pero Lobo, Cabeza de Vaca e outros aventureiros castelhanos e lusitanos,  nos séculos XVI e XVII.
Antes do domínio espanhol sobre Portugal, o Caminho de São Thomé era mais famoso e visitado do que o de San Thiago de Compostela.  A Espanha proibiu peregrinações pelo Peaberu, daí o seu abandono, no Brasil, por centenas de anos. 

 

Cultos primitivos
Entre os tupinambás visualiza-se o culto à Monan, uma espécie de deus semelhante ao cristão. Mas existia um outro chamado Maire (o transformador), tido como um espírito desenvolvido e conhecedor da natureza, sua ação civilizadora se manifestou na introdução da agricultura entre os avós dos tupinambás e outros povos nativos, aos quais ensinou o trato à terra e lhes entregou sementes de vegetais para produzir alimentos a seus descendentes, exatamente como fez Sumé com os guaranis, Zumé com os incas, Zomé entre os tupis e Aimará com os aimorés e tamoios, que foram encontrados pelos descobridores cultivando e colhendo: milho, mandioca, feijões, abóboras e erva-mate. Mostrou também, ao nativos, as plantas medicinais.
Maire, o transformador dos usos e costumes primitivos, aos que não o obedeciam se impunha de maneira severa e isso ele fez, por vezes, de maneira cruel, o que provocou revolta e ódio contra si, de selvagens que não aceitavam os castigos e mudanças de hábitos arraigados e, irados contra Sumé, pelas punições e transformações, tentaram matá-lo por diversas vezes. 
Os cultos a Maire Monan ou Pay Sumé, entre os nativos brasileiros, foram testemunhados pelos jesuítas, que viam em Sumé a figura de São Thomé, que os incas denominavam de Zumé, um espírito superior que fora, há centenas de anos, guia dos povos nativos da América. Alguns padres loyolistas se diziam sucessores do Apóstolo e a maioria dos selvagens acreditava, porque conheciam a profecia transmitida pelas gerações anteriores.
O mesmo Maire Monan - Thomé em vários sotaques - é citado no Maranhão e na Bahia como o Sumé, o que ensinou o cultivo da mandioca no Nordeste brasileiro e, aos guaranis do Paraná o consumo da erva-mate. Sumé também impôs algumas leis severas, condenando a poligamia e o canibalismo.

Histórias
Têm histórias interessantes sobre o Santo, entre as tribos, como estas:“que alguns índios enraivecidos, pela limitação de suas sexualidades atearam fogo à cabana de Sumé; que foi alvo de flechadas mas estas voltavam ou, ainda, que o amarraram a uma grande pedra e o jogaram no rio, e se salvou”. Dizem, também, que o forçaram a um teste de fogo e teve que caminhar sobre um grande braseiro. “Andou naturalmente, e saiu ileso do outro lado”, prática esta comum, até hoje, em algumas lugares do interior do Brasil, por pessoas de muita fé. 
Os guaranis, incas e tupis diziam que: “Sumé veio e partiu da América por sobre as águas do mar e anunciou voltar um dia para continuar sua obra”.
Para os crédulos nativos, com a chegada dos jesuítas cumpriu-se a milenar profecia de Pay Sumé, o Santo Apóstolo de Cristo.Existe uma versão relatada pela população do Baixo-Amazonas que: "quando S. Tomé esteve entre os índios, meteu-se numa igarité com quatro cablocos reforçados, deu um remo a cada um, ficou no jacuman (remo de leme) e mandou remar rio acima. De vez em quando um cabloco cansava e parava de remar. O santo não dizia nada, batia com o jacuman na traseira dele. E onde o santo batia, a carne ia murchando como por milagre”.
Conta-se, que certa feita, “convidaram-no para uma festa e obrigaram-no a saltar por cima de três fogueiras; depois de bem sucedido na primeira, maire-monan desmaiou na segunda e foi consumido pelas chamas; o estouro do seu crânio queimando, produziu o trovão, enquanto as labaredas do seu corpo, criaram raios”.
Várias lendas, interessantes como estas, se perderam com a devastação dos nativos da América.

Locais  de  São Thomé
São Thomé das Letras é uma cidade mística, edificada sobre uma montanha de pedras, as mesmas utilizadas na construção de casas, no calçamento das ruas, no feitio do artesanato e de utensílios domésticos. Isso dá razão a um dos nomes pelos quais é conhecida: "Cidade das Pedras". Nos arredores da cidade é possível desfrutar dos mistérios das grutas e do frescor das cachoeiras que se espalham por locais diversos.
Acredita-se que São Thomé seja um dos sete pontos energéticos da Terra, o que atrai para o lugar sagrado: sociedades espiritualistas, científicas e alternativas, o que dá razão a outro nome: "Cidade Mística", onde São Thomé apareceu na gruta e escreveu, a carta de alforria do escravo João Antão, que ali estava escondido, depois a levou e foi assinada pelo seu patrão, admirado com tão bela caligrafia.

  
A cidade de Sumé está localizada no sul da Paraíba, sub-região de Cariris Velhos, a 250 Km de João Pessoa e a 130 Km de Campina Grande. O clima é seco, com temperatura acima dos 25'C, na maior parte do ano, e uma população calculada em 17 mil habitantes.

Três Pedras situa-se nas divisas de Bofete, Pardinho e Botucatu (SP), próximas ao Caminho do Peaberu de São Thomé.
A maior atração é esse lado místico. Estudiosos garantem que ocorrem fenômenos inexplicáveis. Pay Sumé lutou contra o demônio na gruta das Três Pedras e os jesuítas tentaram se refugiar no local, quando perseguidos e mortos pelos nativos mas,  antes, esconderam na pedra do meio um enorme carregamento de ouro.

Profecia de Thomé

"Vosso povo viverá em rixas e se espalhará por tribos dispersas por toda a extensão da terra selvagem e áspera, que vos espera; sofrereis por muitas e muitas gerações a perseguição de povos estrangeiros vindos de fora e se abaterá sobre vós a tirania e a desgraça e, até que venha a união de vossas tribos, muito tempo se passará". “A  doutrina que eu  agora vos prego, perdê-la-eis com o tempo, mas quando, depois de muitos tempos, vierem uns sacerdotes sucessores meus, que trouxerem cruzes como eu trago, ouvirão os vossos descendentes esta (mesmadoutrina”. 

A profecia de Pay Sumé dita aos povos nativos da América do Sul veio a se concretizar com a invasão e os ataques em massa dos europeus contra os índios, explorando toda a extensão do Peaberu, em busca de riquezas e poder.


     Lenda de São Thomé

     Era um dos dias mais frios do mês de julho. O nhô Juca, pessoa muito conhecida na região de Campo Mourão, no Paraná, por ser uma figura enigmática, do qual só se sabia que era muito amável com todos que o conheciam, estava em seu rancho, a beira do Rio Piquirí, onde acendeu  uma pequena fogueira para se aquecer. Ia assar pinhão, fruto da araucária, conhecida como o pinheiro do Paraná. 
        Era costume os moradores comer o pinhão e também saborear o chimarrão, erva nativa da região.
       Nhô Juca tinha muitos compadres, pois sendo uma pessoa bem  antiga no lugar, ajudava a todos que o procuravam, com seus remédios caseiros, seus sábios conselhos e seus intrigantes “causos”, por todos apreciados.
       No rústico rancho onde vivia, todos os finais de tarde, recebia seus amigos. Sentavam nos banquinhos e pedaços de troncos, ouviam, comentavam e contavam histórias, principalmente causos de assombração, boitatá, saci pererê, mula sem cabeça e muitas outras. Além da iluminação da fogueira, no centro do rancho usava uma lamparina com um pedaço de pavio de pano torcido e querosene.
       Naquele final de tarde, tal qual um ritual, seus companheiros, após um dia de lida na roça vieram conversar com o compadre Juca e também ver se ele não estava  precisando de nada, pois era sozinho na vida. Dele não se conhecia mulher nem filhos.
      A conversa estava animada, que nem perceberam a tempestade que se aproximava. O vento era tão forte que atravessava de um lado para outro do rancho, e era impossível manter a lamparina acessa. Parecia que tudo ia voar. A turminha ficou com medo danado, porém, nhô  Juca com sua calma começou a lhes contar um história nova. Disse que aquela região onde estavam já havia pertencido aos índios e que estes construíram um imenso caminho, muito importante, que abrangia os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e os países do Paraguai, Bolívia e Peru. Era conhecido por Peaberu (caminho antigo de ida e volta) que, acreditava o povo guarani, conduzia à Terra Sem Mal (paraíso).  Era uma trilha muito antiga e comprida.
     Seu percurso começava no Oceano Atlântico e terminava no Oceano Pacífico pela América do Sul. Tinha mais ou menos 5 mil quilômetros de comprimento e quase 2 mt de largura, mais parecia uma grande valeta no meio da floresta de tanto ser pisado a milhares de anos.
-       E este caminho ainda existe, perguntou Pedro?
        -     Claro que não, seu imbecil, respondeu Armenegildo, você acha que depois de tanto tempo os homens, as chuvas e o mato não destruíram ele?
-     Calma meus filhos, retrucou nhô Juca, deixem eu terminar de contar a história.
       - Pois bom. Os índios, nossos antepassados, tinham a sua sabedoria, não eram bobos não. Eles plantavam nesse caminho uma grama miúda que evitava que a chuva lavasse a terra e, ao mesmo tempo impedia que as ervas daninhas invadissem a vereda. Assim, o caminho ficava sempre limpinho, mais parecia um corredor atapetado de verde, bem fofinho.
-     Ah! Compadre, deixa de contar lorotas, de que jeito que os índios conseguiram plantar toda essa medida que o senhor falou, 5 mil quilômetros, isso é uma tremenda mentira, retrucou  Armenegildo.
-     Não fale assim, disse Pedro, deixe o compadre  terminar.
-     Pois bom. Como eu falei, os índios não eram burros não, essa grama era plantada em alguns trechos e daí se reproduzia e avançava o caminho. E também soltava umas sementinhas melentas que grudavam nos pés e pernas dos animais e de quem por ali passava e, assim, era levada pelo caminho. Dessa forma, as sementes caiam e novos trechos iam sendo gramados.
-     Ah! Que espertos, hein compadre. Disse Pedro admirado.
E a conversa continuou... falaram dos índios, seus usos e costumes e até da sua saída da região expulsos e caçados pelos invasores brancos.
          Nhô Juca, então resolveu contar-lhes sobre a lenda que envolve este caminho antiguíssimo por cima do qual surgiu a maioria das estradas.
-     Sabem compadres, dizem que por este caminho andava muita gente importante na nossa história. Ouvi, certa vez, um moço lá da capital, que abriu uns buracos na beira do rio, procurando sei lá o que, e disse que por aqui passou um homem branco, pois aqui só existiam os índios, e que este homem fez muita coisa boa para os indígenas. Dizem que ele veio das águas, e que seu nome era Thomé ou Pai Xumé dos Guarani.
-     É meio compridinha, mas vou contar: era um homem branco, alto, com longas barbas, usava cabelos curtos com uma rodinha tosada no cocuruto da cabeça, igual que os padres tem. Ele vestia uma roupa branca ia até os pés, amarrada por um fino cinturão de couro na cintura. Nas mãos trazia um livro semelhante ao breviário dos sacerdotes e uma pesada cruz de madeira preta do Jatobá.     Pelos lugares onde passava, ensinava o moralismo, condenava casar com mais de uma mulher e proibia comer carne humana. Ele evangelizava os índios e ensinou que existe só um Deus e seu Filho Jesus Cristo, que nasceu e morreu pregado em uma cruz  pra pagar nossos pecados. Em suas mensagens, ensinou o amor de Deus ao próximo e que só chega ao paraíso quem aceita Jesus pelo batismo. Também ensinou os cultivos da cana-de-açúcar, milho, mandioca, erva mate e uso das plantas que curam. Por pregar a palavra do bem e censurar  a imoralidade, causou grande revolta nos chefes e pajés, que furiosos mandaram perseguir ele. Incendiaram as cabanas onde descansava, atiraram flechas e pedras em Thomé. Se salvava dos atentados pelas águas dos rios ou do  mar, por onde sempre fugia sem deixar rastros. Muitos dos antigos dizem que o homem branco era Thomé, apóstolo de Jesus Cristo, aquele  que duvidou da ressurreição, pois pediu  para colocar seus dedos nas chaga do peito  para sentir o sinal do corte da lança que um soldado cravou Nele. Por isso é que, até agora existe a frase: “sou igual São Thomé: quero ver, pra crer!”. Então, por ter duvidado, Jesus deu pra ele, a dura missão de pregar o evangelho nas terras mais longínquas do mundo. Naquela época, o mundo era povoado apenas no Oriente Médio, na Europa, no Norte da África e na Ásia. Dizem que São Tomé foi pregar na Pérsia, e assim que concluiu suas pregações por lá, entrou num barco de mercadores e viajou rumo as Índias e depois a China. Como chegou na América do Sul, não se sabe, apenas alguns jesuítas contavam sua passagem por nossa terra. Sua vinda e ida começou no Oceano Atlântico e terminou no Oceano Pacífico, pois o Peaberu atravessa a América do Sul de leste a oeste.
-     Nossa compadre, esse cara viajou muito hem? Exclamou Pedro.
-     Pois é, era a sua missão e nada o impedia, porém, certo dia os inimigos conseguiram pegar e amarrar ele numa pedra grande. Furiosos, deram uma  surra e largaram ele desmaiado de tanta pancada que tomou. Foi, então, que 3  águias bem grandes, desceram do céu, cortaram os cipós e livraram ele daquelas coisas. Daí, fugiu por sobre as águas do Oceano Pacífico da mesma forma que chegou pelo Oceano Atlântico, e nunca mais ninguém soube do seu paradeiro. Dizem que depois que ele sumiu. Os aventureiros acreditavam que ele havia enterrado muito ouro e pedras preciosas pelo caminho que passou. Os que se atreviam a cavocar a terra naquele caminho, eram exterminados pela própria ganância, pois, o céu escurecia, uma forte tempestade se formava de repente, com muitos raios que torrava quem fazia buracos por ali.
-     Cruz credo, nem quero saber de chegar perto desse tal caminho – disse Armenegildo.
-     Esse caminho ainda existe compadre? Perguntou Pedro.
-     Olha, eu escutei uns moços, lá no boteco do seu João Grande, com uma falação desse Caminho.Diziam que ainda existe alguns lugares dele. Mas ainda tem mais, o Apóstolo Thomé ou Pai Xumé, como os índios diziam, pediu que era para preservarem o Sagrado Peaberu e quando ele fosse destruído pelos gigantes brancos haveria muita seca, as aves e animais iriam acabar; os peixes e as águas dos rios se tornariam ruim pra beber. Mas depois que o grande pássaro avarento passasse e os jovens reconstruíssem o Caminho da Terra Sem Mal, voltaria a abundância de peixes nos rios, dos animais na floresta e a natureza voltaria a ser bela e exuberante. Ainda deixou uma recomendação: nesse novo caminho só se deve passar a pé, pra refletir e se encontrar  com Deus e a Mãe Natureza. É preciso ver para crer!  finalizou. 


 
PROJETO RESGATE

Recuperar a Via Sagrada do Peaberu de Thomé pode ser um dos mais expressivos gestos de se comemorar a brasilidade quinhentista e promover, por essa meio, a integração do Mercosul, da Fé em Deus e na Paz Total, um sonho mundial, que os nativos sul-americanos já levavam a efeito há milhares de anos atrás, na busca permanente da Terra Sem Mal.
O projeto para a retomada do imponente Peaberu aberto sob orientação de Thomé tem que ser desenvolvido de forma que o peregrino retorne no tempo e vivencie a exuberância da natureza ainda intacta, no contato harmonioso com o homem e os lugares santos, entre nativos, com Thomé, a terra, as águas e as matas. O que nos dificultada os trabalhos de pesquisas e estudos é o fato de que o desenvolvimento urbano e agropecuário acabou por apagar enorme parte do traçado primitivo e nos falta, ainda, o apoio constitucional.
Então, vamos salvar o quê resta, no Paraná? -Junte-se a nós, no Sagrado Peaberu de Thomé!



Agradecimentos às Fontes e autores pesquisados:
Ruy Diaz de Gusmán (pesquisador)
Moisés Bertoni (antropólogo)
Igor Chmyz (arqueólogo)
Barão de Capanema (escritor)
Victor Von Hagen
Luiz Galdino
Hernâni Donato (escritor)
Marcus Acquaviva
Jaime Cortesão (escritor)
Frei Fidélis
Rogério Prado (testemunha)
Ville Bathke (pai) e Rubens Bathke (testemunhas)
Adelaide Teodoro de Oliveira (testemunha)
Justilina dos Santos (Dona Santa) (testemunha)
Gilmar Cardoso (testemunha)
Eduardo Bueno (escritor)
Manuel Dominguez
Enrique de Gandia
Rosana Bond (jornalista)
Erland Nordenskjold
Pedro Hernández (escrivão)
Ulrich Schmidel (narrativa)
Samuel Guimarães da Costa (escritor)
Alfredo Romário Martins (escritor)
Antonio Ruiz de Montoya (jesuíta)
Quirino Dornelles (testemunha)
Milton Roseira (testemunha)
Geraldo Boz (testemunha)
Silvestre Staniziewsk (testemunha)
José La Pastina
Wagner Oliveira (jornalista)
Clemente Gaioski (pesquisador)
Dilmércio Daleffe (jornalista)
Daniel Issa Gonçalves (arquiteto)
Heinz Budwig
jesuíta, Fernão Cardim
jesuíta, Simão de Vasconcelos
jesuíta, Pedro Lozano
Taunay
Batista Pereira
Serafim Leite
Augusto Zeferino
Dionísio Gonzalez
Reinhard Maack
Germano Bruno Afonso
Olavo Raul Quandt (escritor)
Marcos Piske (fotógrafo)
Paco Cruz (jornalista cubano)
Terezinha Aguiar Vaz (escritora)
Lélia Rita de Figueiredo (diretora de teatro)
Fernando Carreiro Albuquerque (poeta)
Sérgio Murilo
Luciano de Freitas
Sérgio Buarque de Holanda (escritor)
Gláucia Cristina (peregrina)

Parceiros e colaboradores:
TV Carajás – (Adjaíme)
Rádio Difusora Colméia (Hosana Ávila Tezelli)
Cida Freitas (poetisa)
Sinclair Pozza Casemiro (professora)
Gráfica Sisgraf (Roberto Vecchi)
Jornal Tribuna do Interior (Dorly e Néri Thomé)
Pedro da Veiga (pesquisador e historiador)
Jornal EntreRios (Milton Roseira)
Paulo Fantinatti (fotógrafo)
Nelson Cerqueira (fotógrafo)

Prefácio

Depois de mais de 50 anos ouvindo depoimentos sobre o Peaberu e andando por trechos do Caminho Sagrado do apóstolo Thomé somei inúmeras informações e “descobertas” que decidi tornar públicas, pois creio não ser justo levá-las comigo. Parto da premissa de que: quem não tem saudades, não tem passado; quem não tem passado não tem tradição e um povo (família) sem tradição, morre a cada geração. Vale dizer também, que a gente só ama aquilo ou a quem se conhece. Daí meu propósito de tornar Campo Mourão e o Peaberu conhecidos de todos. Essa vontade de transmitir conhecimentos começou no Jubileu de Ouro – Campo Mourão – 50 Anos, quando visitei mais de 30 escolas e vários clubes de serviços para contar os 500 anos da História de Campo Mourão – a qual se confunde com a História do Brasil - narrada para mais de 23 mil jovens e adultos, praticamente a metade da população do Município Modelo do Paraná.
Para tanto tive que aprofundar as pesquisas; mergulhar no túnel do tempo e buscar as raízes, a partir do tronco imenso do Peaberu.
Hoje esse livro, que está em suas mãos e diante dos seus olhos, tem dois objetivos principais.
O primeiro é tornar conhecida a milenar via nativa de comunicação mais importante da América do Sul. O segundo é resgatar o sagrado Caminho de São Thomé, que até o século XVI foi mais famoso que o de Santiago de Compostela e que, juntos, vamos recupera-lo como rota turística religiosa, largamente trilhada pelos povos que aqui habitavam e o percorriam em busca da Terra Sem Mal dos Guarani e pelo Caminho do Sol dos Inca. Infelizmente, a chegada dos europeus e a ganância aliada a violência que deles se apossou, quase acabaram com o Peaberu.
A BR 158 está sobre o primitivo Peabiru. De trilha se tornou picada, depois estrada e hoje rodovia abandonada. Justamente o trecho que atravessa a região Centro-Oeste do Paraná - de Roncador à Terra Boa - e as marcas originais visíveis e existentes em Campo Mourão e Peabiru, nos possibilitam comprovar e caminhar sobre o milenar e sagrado Caminho, impregnado de magias e milagres incríveis, que temos que ver para crer.
Do livro, pulamos para o Sagrado Caminho de Thomé e vamos caminhar junto com você, testemunha viva da história.
A verdade não sai do nada porque ela existe.
Deus lhe pague o apoio que nos deu, pelo simples fato de ler este trabalho!
Um abraço amigo do Wille Bathke Junior

Dedicatória:
Esse trabalho dedico à “tolerância” da minha família pelas noites que passei em claro e pela desatenção que lhes dei, enquanto pesquisava e escrevia.
Aos meus filhos e filhas: Rodolfo César, Carlos Henrique, Fátima Cristina, Wille Wilson, Victor e Luciana.
Aos meus netos e netas: Rodrigo, Carlos Augusto, Wille Eric, Camila, Vanessa, Paulo Roberto, Tâmmy, Tamires, a minha bisneta portuguesa, Raquel e ao meu bisneto mourãoense, Guilherme Bathke.
As minhas noras: Noeli, Cláudia, Adriana, Lourdes, Rosilda e Sheila. Agora prometo que vou visitá-las.
E à minha companheira Dolores da Silva (in memória) à qual garanti que agora iria dormir mais cedo, almoçar e jantar.
Na fé e na paz, que Deus abençoe vocês.
Muito obrigado!
Um abraço amigo do Wille.

Wille entre nativos guaranis de Avai- SP, em Campo Mourão


Wille Bathke Junior no Museu de Paranaguá

Wille pesquisou sobre povos nativos, pe-abe-y-us e trilhas indígenas que cortam a Serra do Mar, sentido litoral à terra firme (Graciosa, Itupava, Caminho dos Padres, dentre outros). 
Os nativos subiam do litoral até a imensa região de Core Tyba e Campos Gerais, em busca dos frutos (pinhões) dos vastos pinheirais nativos do Paranã, que eram comidos in natura ou em forma de farinha longa vida.