13/08/2015

Campo Mourão e a lenda da Gralha Azul - 19


Quando estudei em Castro - Pr (Instituto Cristão), pela manhã tínhamos aulas e à tarde tarefas diversas. A minha, principal, era transportar lenha picada da serraria até a cozinha que ficava do lado das estudantes. Fazia o transporte em uma gaiota puxada por um burro branco, velho, teimoso e coiceiro, igual ele só.
Mas o nosso assunto é a esquecida Gralha azul, a principal ‘plantadora’ de pinhões que brotam e se transformam em árvores majestosas. Depois da Gralha azul vem a Cotia que também ‘planta’.
Plantar é o modo de dizer, porque na realidade ambas, após se fartarem com o delicioso pinhão, escondem o que podem a fim de comer depois. Quase sempre a Cotia se lembra onde escondeu, mas a Gralha azul raramente se recorda e a maioria dos pinhões que ela camufla, brotam e dão origem ás imensas florestas de Araucárias do Paraná e Sul do Brasil.


A área mais afastada do imenso chão do Instituto ia até a margem direita do Rio Iapó de onde, quando mandavam, eu puxava areia na gaiota e havia grandes capões de pinheiros centenários que entre março e maio davam muitos pinhões e eu catava pra assar na brasa e dividir com os colegas internos. Nestas catanças várias vezes eu vi Gralha azul em atividade; me escondia e as observava horas e horas a fio. Elas colocam o pinhão em pé, com a ponta para cima e batem com o bico até sumir; em seguida cobrem com folhas e gravetos. Fazem isso o dia todo na temporada das generosas sementes espalhadas pelo chão.

A lenda nos conta que certo dia uma Gralha negra repousava no galho de um velho e enorme pinheiro, quando sentiu pancadas fortes na árvore. Olhou para baixo e viu que um lenhador malvado aplicava violentas machadadas no tronco, disposto a derrubar a magnífica espécie. Sentiu que o pinheiro estava sendo sacrificado sem piedade. Voou o mais alto que pode e se escondeu entre as nuvens para não ver seu querido amigo cair morto. Então ouviu uma voz dos céus que lhe disse para voltar e continuar sua missão de plantar e proteger os pinheirais. Assim ela fez e, ao retornar à floresta, sua penagem passou da cor preta a azul-celeste, menos a cabeça e parte do peito que mantém a cor escura amarronzada.


A Gralha azul é uma ave linda, protegida por lei, proibida de ser caçada ou presa, dada a sua relevante importância divina junto à natureza.

Pinheiro me dá uma pinha.
Pinha me dá um pinhão.
Donzela me dá um abraço,
Que te dou meu coração !!



 
A Gralha amarela é arauto das matas, mas não planta pinhão. Prefere insetos e ovos de outras aves.

Este lindo exemplar de Gralha tem as costas azul marinho, a cabeça e a parte anterior do pescoço, pretas. As penugens da cabeça formam uma almofada saliente, tipo um pompom que arrepia quando está brava. O dorso e atrás da cabeça é azul celeste brilhante. Olhos e parte do bico são azuis reluzentes e as íris amarelo-ouro.  Por baixo as penas são amarelas e claras, até a cauda. Seu tamanho médio é de 34 cm, a metade é o rabo. É esguia, tagarela e faz grande alarde quando sente presenças estranhas na mata. Sabe imitar o chamado de outras aves e animais.

Existia aos bandos em Campo Mourão e raramente são vistas, hoje.

Bota 6 a 7 ovos de cor azul-celeste com manchas brancas. Na época de acasalamento se isola e vive aos pares. Faz ninho em árvores altas e espinhentas, especialmente na copa do Pinheiro, o que evita predadores e garante a reprodução da belíssima e rara  espécie.