31/07/2015

Aventuras de Dona Santa em Campo Mourão


Justilina Cardoso dos Santos. Dona Santa de Campo Mourão.

“Quando resolvemos seguir de Ortigueira (PR) até o Campo, compramos  carroça, parelha de cavalos, arreios e tolda, mas o Antonio não sabia dirigir. Lotamos de mantimentos, tralhas de casa, roupas e tudo o mais que precisávamos a fim de começar vida nova num lugar do qual todos falavam muito bem. Mas até chegar no desconhecido Campo da nossa esperança, passamos alguns apuros e escapamos da morte mais de uma vez".

   
Serra da Esperança e Morro do Chapéu

"Quando cruzamos a Serra da Esperança, nas subidas, pelas beiradas dos precipícios, o Antonio ia na boléia e eu atrás, a pé, ajudava empurrar e quando a carroça ameaçava de voltar de ré eu calçava as rodas com tocos de pau e ele apertava o freio. Eu olhava lá pra baixo e via carroças quebradas e esqueletos branquinhos de animais que caíram serra abaixo. Mas a gente não tinha medo e seguimos os traçados meio batidos.
Bem mais adiante, no terceiro dia, atravessamos um rio que chamamos de Ribeirão, mas a passagem era por dentro da água, sobre a laje, não tinha ponte. Justo nesses dias estava cheio por causa das chuvas caídas além da conta. Conforme os dois cavalos puxavam, a carroça ia nos trancos e rabeava, com água quase pela metade, que batia na barriga dos animais. Quase no meio da travessia – o rio era larguinho – o cavalo da direita escorregou, caiu de prancha e começou a se debater e se afogar, enroscado no arreame. 
O Antonio pulou na água e com um canivete aberto conseguiu cortar os tirantes de couro do cabeçalho e ajudou o cavalo a se aprumar. 
A carroça ficou inclinada, quase coberta pela água, e muita coisa que estava dentro, boiou e rodou correnteza abaixo. Tivemos que esperar o cavalo se recuperar. O Antonio trocou os tirantes (tinha de reserva) e com muita dificuldade, mas sem medo e com muito cuidado, saímos do outro lado do Ribeirão. Escorria água por tudo. 
Escuta essa agora: depois o Antonio, que conduzia mal uma carroça, me contou que também não sabia nadar, mas encarou aquele rio bravo pra acudir o cavalo. Nossa, que sufoco! suspirou.
Armei a tenda (barraca) de algodãozinho encerado, bem esticadinha, que podia chover, não passava água de jeito nenhum. Joguei dois pelegos abertos na grama, dentro da barraca, acendi um fogo meio alto pra fazer café, armei a trempe a fim de preparar comida e, por cima dos arbustos, estendi o que podia de panos, cobertas, roupas e separamos os mantimentos que sobraram, no sol, pra secar. Ficamos ali por três noites e dias até secar o que deu.
Na trempe eu pendurava um panelão de ferro, punha água e misturava tudo dentro dele, principalmente feijão, arroz e charque e tacava fogo debaixo até ficar cheiroso e no ponto. Era a tal menestra! explicou.
Nesses dias que tivemos que acampar na marra, vários cavaleiros passaram por ali e nos pediam comida ou um café. A gente dava, barganhava algumas coisas e, enquanto comia, falava dos conhecimentos sobre a viagem, caminhos, estradas a seguir e sobre Campo do Mourão - como era ou seria?! Um ajudava o outro, entende?

A noite era um breu. A gente ouvia urros das onças pelas redondezas e barulho dos mergulhos das enormes antas nas beiras do Ribeirão. Deslizavam pelos carreiros, nas margens do rio, e caiam pesadas na água. Faziam um baita tropel. 
Quando o sol nascia a gente via e ouvia muitos passarinhos que voavam e cantavam. Tinha papagaio, periquito, araras azul e vermelha, até macacos que faziam maior griteiro.
A mata era fechadinha de pinheiros e árvores enormes. Existia muita fruta nativa pelas beiras dos caminhos. A gente catava e comia: amora, gabiroba, araçá, pitanga, ariticum e mais outras. Da carne de anta e capivara se fazia paçoca misturada com farinha de milho, socada no pilão, que se guardava e comia com café. Até hoje eu faço, mas com carne de boi. 
O meu marido e seu Antoninho (Antonio Teodoro de Oliveira) que também foi prefeito, esposo  da Zuleika, gostavam de canja de galinha velha, daquela que deixa gordura grossa e amarelada por cima, e eu fazia pra eles. Eram amigos desde que chegamos e ficamos na casa deles, na cidade. Ele que nos vendeu essa chácara. O lugar, daqui do Rio do Campo até o Rio da Várzea, a gente conhecia por Campina dos Teodoro, hoje é Barreiro das Frutas. Era tudo deles.
Só pra você ter ideia, demoramos duas semanas de Ortigueira até aqui no Campo. Os cavalos chegaram estropiados e nós cansados por demais. Nos instalamos na casa do seu Antoninho. Meu marido começou ter clientela e eu ajuda a Zuleika na casa, que estava sempre cheia de ‘compadres’ e ‘comadres’. Até fazer partos a gente fazia, junto com ela e dona Anita Albuquerque, que conheci depois, uma pessoa muito querida e prestativa.
 
Campo Mourão vista da casa de Dona Santa

Hoje Campo Mourão está muito bonita e eu adoro morar e viver aqui. Só tenho amizades lindas. Graças a Deus tenho muita paz e saúde, aqui no meu cantinho, rodeado de gabirobeiras, de onde avistamos a cidade, em companhia do meu filho” agradeceu Dona Santa - Justilina Cardoso dos Santos - a primeira primeira-dama de Campo Mourão.
Lamentavelmente, Dona Santa faleceu na manhã da quarta-feira de 2 de dezembro de 2009, vítima de ataque feroz do seu cão pitbul, na chácara onde morava. Morreu na Santa Casa e está sepultada no Cemitério Municipal São Judas Tadeu, de Campo Mourão - PR