30/07/2015

Fatos e Mitos de Campo Mourão – A Ervinha – 17

 
- “Vosmeces se lembram do menino com nome de russo, Demir, que depois de Campo Mourão foi marinheiro e, diz que até  aviãozinho de favela e boca de fumo era. Sabem aquelas estórias de ganhar dinheiro fácil? - Levam às drogas e ao crime, né?!
- Mas a vida sofrida do Demir e o que ele passou - deusmelivre – não quero nem pro meu pior inimigo,” lamentou nho Juca.
 “Ele casou teve filhos, mas demorou sair dessa vida de drogado. Ele me disse que muitas vezes sentava e conversava com o diabo, coisas muito estranhas e que boas não eram. Chegou uns tempos que a droga consumia tanto o Demir que ele já não atinava nada. Perdeu a empresa de reciclagem de lixo e a mulher mandou ele embora de casa, de mala e cuia. Abandou ele.
O coitado vagava pelas ruas, implorava por droga pra fumar e cheirar, até que uma certa manhã, um moço bem apessoado, de ar angelical,  se aproximou dele e disse:

- Hey rapaz. Faz tempo que te observo, Demir. Você é um cara honesto. Nunca te vi roubar ou assaltar a fim de sustentar teu vício, mas cá entre nós, você está um caco, hein?! Se quiser sair desse inferno e sarar desse vício do demônio, eu posso te ajudar. Se você quiser, claro!
- Pô meu, manda aí cara, é o que eu mais quero na minha vida, acima de tudo resgatar o aconchego da família e das amizades da gente.
- Você já ouviu falar ou conhece a “Ervinha” de curar drogados?
- Não cara. Explica aí coméquié?!
- Eu posso te levar onde está a Ervinha. Quer ir?
- Pô meu. Não embassa. Já te falei que quero sarar cara!
- Então, primeiro, vamos ali no Carrefur fazer umas compras.
Foram e o 'amigo' comprou duas super cestas básicas. Pediu endereço da casa do Demir e mandou entregar uma lá. A outra ele colocou no carro, o Demir entrou de boa e rodaram até perto de Antonina, litoral do Paraná. 
Quando lá chegaram, bela casa de praia, o moço encostou o carro, pegou a caixa de mantimentos e a colocou na lancha que estava ancorada logo ali no trapiche, na beira do mar.

Embarcaram, o moço deu partida e a lancha foi pro alto mar. Coisa de uma hora, tipo meio-dia, encostou numa pequena ilha e um senhor veio recebe-los. Era  Tio Tonho, um caiçara parnanguara, que morava ali com a mulher (Antonia) e cuidava da ilhota pertencente ao misterioso moço.
Desceram, descarregaram as compras; o moço chamou o pescador de canto, falou baixinho com ele, saiu, passou perto do Demir sem falar nada, embarcou na lancha e se mandou mar adentro.
Anoiteceu e nada do moço voltar.
O Demir começou ficar nervoso, sentiu falta das drogas, do baseado.
A bondosa mulher chamou ele pra jantar.
Respondeu, emburrado, que não queria.
Lá pela meia-noite deu uns ataques no Demir que começou gritar e rolar na areia igual um possesso tomado pelo diabo. Urrava. Pedia droga. Ficou medonho.
O pescador pediu pra ele se acalmar senão ia lhe aplicar uma sova. E não deu outra. Demir apanhou até ficar quieto num canto, com cara de mau. Parecia o satanás quando chupa meia e babava.

Até o cigarro do Demir acabou logo. O casal não fumava. Aí piorou de vez. Cada ataque de histeria que dava nele, o pescador lhe aplicava uma tunda de vara de taquara de pescar. Em seguida vinha a mulher, que sempre deu uma de conselheira do bem, e estimulava o Demir a se manter calmo, cuidava das feridas dele e o alimentava.
Quase seis meses se passaram, e o Demir já andava tranqüilo na praia igual o Robson Crusué. Aprendeu a pescar de tarrafa, ajudava Tio Tonho e fazia todas tarefas que lhe pediam na maior boa vontade.
Uma coisa que ele nunca notou, é que no casebre tinha telefone, o que só descobriu quando aquele moço da lancha e da ‘ervinha curadora’ apareceu de volta e disse que telefonava diariamente, a fim de saber da sua situação. 
Aliás, o Demir nunca viu essa ‘ervinha’ e mesmo assim sarou dos vícios das drogas e do fumo.
O moço se aproximou, educadamente o cumprimentou e perguntou: 
E aí meu bom rapaz. Tudo pronto pra voltarmos a Curitiba?
- Pô meu, não via a hora. Pensei que ia morrer aqui, mas agora está tudo bem, masss só me conte uma coisa que martela na minha cabeça esse tempo todo: cadê a tal da ervinha que você disse que ia me mostrar pra me curar?
- Meu jovem, Ervinha é o nome dessa Ilha, não sabia?! riu e acrescentou: 
- Se você tiver síndrome ou recaída vou te mostrar a Ervinha, outra vez !! Combinados ??
- Ooh loco meu, bora logo, quero ver minha família... Ervinha??? Tôoo Fora!!!!!!
E lá se foram com  acenos felizes ao bondoso casal morador da bela “Ilha da Ervinha”.
Demir não recaiu. Reconciliou com a família, fez concurso e hoje é servidor público, trabalha na área da Educação Municipal. Mora bem e feliz, na região metropolitana de Curitiba.
Ele é meu sobrinho, com muito orgulho.