26/06/2015

Fatos e Lendas de Campo Mourão - ET Alerta - 06


O Azulzinho de Urânio

Nhô Juca tava acocorado perto da porta do rancho. Olhava pras mãos... enrolava um ‘paiero’, pensativo. Demorou fazer o cigarro de fumo picado, lambeu a palha pra firmar o pito, acendeu e deu uma longa baforada que quase escondeu a cara. Até parece que a tragada funda lhe devolveu a fala.

Os amigos estavam na costumeira rodada de chimarrão, mas quietos também, meio desconfiados com o tipo sério do nhô Juca, que deu uma pigarreada, cuspiu de lado - pareceu um fio de barbante fino saindo da boca dele - e abriu o bico:
-Gente do céu!!.. e foi se erguendo, empinou o corpo franzino, enfiou as mãos nos bolsos de trás da calça surrada, esticou a barriga pra frente e começou tagarelar do seu jeito lento e arrastado:
- Não sei se devo ou não devo... se conto ou não conto... porque não é do meu feitio botar susto e medo nos amigos. Vosmecês sabem muito bem disso!
-O quê aconteceu nhô Juca? Perguntou, sério, compadre Pedro.
-Olha... não sei se foi sonho ou alguma coisa que passou a noite de conversa comigo sobre assuntos que me meteram medaço. Já passei tantos apuros, mas esse foi de lascá o cano da garrucha!!
-Já ouvi causos de gente do outro mundo que veio de disco-voador pelas bandas da Campina do Amoral e não faz muito tempo, visse?.. eu nem duvido desses assuntos!
-Vocês conversaram sobre o quê, compadre? Perguntou Tonico.
-Bom! Eu mais ouvi do que falei. Fiquei atordoado, escutava e não dormia. A prosa foi longa! Eu ouvia... as vezes respondia, mas não via... estão me entendendo??
-Eita que hoje nhô Juca tá enrolado, sô! rateou Armênio.

- Pois bem... esse alguém que botou prosa com eu, disse que é de um planeta azul que chama Urânio. Já ouviram falar? Nem eu... Ouvi ontem! Perguntei onde fica esse trem e ele respondeu que é longe pra xuxu e que estava na Terra, com mais uns, em missão de paz, com mandado de salvar o que ainda resta de útil por aqui.
-De que jeito esse Urânio vai salvar, compadre? voltou Tonico.
-Ele não vai salvar picirica alguma. Nós é que temos que dá jeito, porque o Azulzinho disse que a Terra é uma giganta viva, bem grande, enorme, que tem suas defesas e usa suas armas quando os insignificantes humanos agridem, machucam e fazem feridas nela.

- É aí que ela reage para se manter viva e põe violências no chão e nas águas. Bota fogo pelas ventas, explode as montanhas e faz a terra tremer debaixo dos pés de gente má, derruba tudo, cidades, casas e mata pilhas de gente, sem dó. 

- Ela sopra as águas pesadas dos grandes mares com tamanha força que vem água e vento erguidos derriçando tudo que está pela frente e mata mais um monte de vidas. 
-Se vosmecês tem lembrança, a Mãe Terra não andava braba assim, igual hoje em dia.
É de uns tempos pra cá que garrou ficar violenta demais.
-Tá tudo desmudado mesmo, né compadre? observou seu Claudio. 

- Reparem que ela escondeu tudo que não é de comer e faz mal pra quem mora em cima dela: petróleo, chumbo, carvão, ouro, diamantes. Essas coisas são pra ficar enterradas, pois além de matar os seres vivos pelo veneno, levam as pessoas a se matar entre si, por causa da cobiça destas bobiças.

- O Azulzinho me falou que o homem não vai salvar nada. Vai piorar tudo... a Terra vai ficar mais nervosa... vão judiar demais dela e ela vai reagir com força mais bruta também, e acabar com a raça de homem mau, igual já fez em outros tempos: uma vez acabou tudo, com fogo... outra vez com água e outra com gelo, depois fez coisas novas e boas, até ficarem ruim, como estão de novo. Ele ainda me falou que vão passar muitos tempos, mas bota muitos nisso, e a Terra vai se recobrir outra vez, pura e saudável... limpa da imundície humana e vai criar novas vidas pra desfrutar de um novo paraíso.
–Hoje tá de chorar, mas esse mundo já era. Tem volta não meus compadres. Aproveitem enquanto tem restinho de vida porque de repente, ‘babau Terra’, disse o homem de Urânio.
-Não riam não, mas ele até me convidou pra fazer uma visita rapidinha no Urânio dele, quem sabe morar lá se eu gostar, mas eu agradeci... dispensei e respondi: por quê vosmecê não vem morar aqui na Terra pra dar jeito nela junto com a gente?!
Eu não vi, mas ouvi. Ele grunhiu uma gargalhada estranha e me retrucou: Não sou besta não, nhô Juca. Onde moro é tudo limpo e bem cuidado... 
E escafedeu-se assim... nem vi nem ouvi barulho de nada... evaporou-se!!
–Oh diacho! dá um mate aí...
- Será que sonhei ?!