26/06/2015

Fatos e Mitos de Campo Mourão - Lagoa Preta - 05


O Mistério da Lagoa Preta


 
Lagoa Preta perto de Campo Mourão

"Conheci um rapaz por nome de Rogério do Prado, que depois de grande virou fotógrafo igual o seu irmão Iduarte. Mais tarde mudou pra Goioerê onde fazia quadros de vidro, com molduras de madeira pra colocar fotografias e imagens, a maioria de santos. Anos passados foi pra São Paulo – contou sua irmã Joilce – e lá virou vidraceiro e daí não soube mais dele.
O pai do Rogério, que morava numa casa de madeira tosca, com cerca na frente,  por ali onde tem o Bradesco, ajudava o padre Aloísio construir a igreja de São José no ponto mais central e elevado de Campo Mourão, região de cerrado nativo. Isso foi lá pelos anos 40.
Ele ia e vinha por um caminho que cortava ali onde tem a praça e, numa dessas vindas pra casa, no entardecer, foi picado por uma jararaca. 

Ele viu a cobra. Sofreu, delirou a noite toda e dia seguinte morreu sem recurso nem socorro médico. Aqui ainda não tinha.
Mas nosso causo é o Rogério que quando menino era puxador de porco e conhecia bem as passagens rasas dos rios, picadas, as sendas dos índios e dos padres, caminho que ele usava pra chegar até Apucarana onde os safristas de Campo Mourão e outras cidades vendiam suas porcadas engordadas.
Muitas vezes o Rogério passou pela Vila Rica do Espirito Santo (que hoje é Fênix - PR) e eu ouvia ele contar pro meu mano Rubens, que quando os padres fugiram daquele lugar, onde estavam há mais de 50 anos na Missão de  catequizar índios, jogaram suas riquezas em ouro e pedras preciosas, dentro de sacos e baus na Lagoa Preta, bem no meio da mata renascida, onde ficava a povoação perto dos rios Corumbatai e Ivaí.

Encontro das águas dos rios Ivaí e Corumbatai em Fênix - PR

Contava também que na fuga desesperada, pra não serem massacrados pelos bandeirantes que invadiram, queimaram e saquearam tudo que puderam pegar por ali, os padres enterravam suas riquezas em panelões ao pé de árvores enormes e tacavam fogo na vegetação ao redor pra marcar o lugar, na esperança de um dia voltar e resgatar seus tesouros.
- Tinha muita peça de celebração das missas, sacrários, castiçais, tudo de ouro! contava Rogério.
Depois do abandono e destruição da Vila Rica, por quase 200 anos a região ficou abandonada, mas não esquecida porque a história foi registrada e os restos ficaram.
Mas o que eu quero contar é que quando começou chegar gente morar nos Campos do Mourão, toda a região fazia parte desse grande município. Tudo era Campo do Mourão, que encolheu sua área de terra, e hoje é Campo Mourão - PR, desde 1947.
Alguns desses sertanejos e aventureiros até vieram só por causa de terem ouvido falar dos tesouros deixados pra trás pelos castelhanos.
Aí é que dá medo e arrepios, pelo que ouvi o Rogério contar nas conversas com o amigo Rubens, meu mano.
-  Esses caçadores de tesouros iam até a Lagoa Preta da Vila, com várias juntas de bois parrudos, cangalhas, cordas grossas e até correntões pra tentar tirar os tesouros do fundo da água muito escura. Uns até conseguiram – contava Rogério - só que quando estavam puxando, os bois faziam muita força até que as cordas e correntes arrebentavam. 
Quando parecia que iam tirar os tesouros e os bois puxavam meio fácil, não sei de onde, era do nada, os homens e os bois começavam a apanhar. Era daquelas surras de lascar o lombo e salgar depois pra sarar; formavam um griteiro e corriam adoidados, igual o capeta quando foge da cruz! Largavam tudo ali e sumiam. Até os bois ficavam. 
-Será que aindam está tudo lá, Rogério?
Que eu saiba, ninguém conseguiu entrar, mergulhar ou retirar alguma coisa preciosa do fundo da lagoa que ali está calma e serena, com um espelho de água escuro, bela e adormecida.
-  E os tesouros enterrados perto das árvores grandes? Perguntou Rubens.
-  Ah, esses os bandeirantes acharam porque foram informados do sistema dos jesuítas, pelos índios sobreviventes da missão da Vila Rica (Hoje Parque Estadual).
  
As Missões tinham um padrão de construção
igual a este perto de Campo Mourão

-  Nunca mais ninguém tentou ??
-  A última vez que eu soube de tentarem tirar alguma coisa da lagoa, eram uns 14 homens liderados pelo João Bento, que foram lá com desculpa de pescar no Rio Ivaí e morreram 11 de maleita (febre amarela), inclusive ele e um filho. Quando chega gente ali, aparece mosquito de nuvens que picam pra chupar sangue e passam a doença nas pessoas. Elas ficam amarelas, tremem de febre sem parar, a coisa ataca o fígado e logo elas morrem... 
- Qualquer dia vamos lá, Rubens? 
- Não Rogério, melhor ficar por aqui mesmo, pobre, mas sadio e vivo! Por falar em coisas sadias, me ensina a fazer fotografias?
-  Ensino sim. Pode ser no teu quarto, se ficar bem escuro! Esse é o segredo! E ensinou mesmo.
Os dois riram e foram grandes amigos. Fizeram muitas fotografias da cidade, que o Rubens guarda a sete chaves, até o Rogério mudar de Campo Mourão pra Goioerê, com a companheira Nair, e depois pra São Paulo, onde sumiu. 
Ele é tio da Lourdes que trabalhou na Livraria Continental do Aroldo Tissot, e do Milton que trabalhou na Coamo e também não vi mais, nem ela nem ele, por essas bandas." concluiu.


 
Fênix foi Distrito de Campo Mourão