26/06/2015

Fatos e Lendas de Campo Mourão - Zé Cascavel - 08


Alma do Zé Cascavel

- "Já ouviram falar em tesouro escondido e por quê alma penada atenta a gente?" perguntou nho Juca.
- "Pois vou contar procês e não duvidem desse causo. É verdadeiro!
 - Conheci um peão de boiadeiro, queimado de sol, magro, alto, de cara amarrada – Zé Cascavel - que passava algumas vezes do ano pelos Campos do Mourão. 
Tocava gado, com tropa de Guarapuava, que o patrão negociava no Mato Grosso. De lá ele trazia gado magro, bezerrada crescida, engordava uns anos e daí retornava pras bandas matogrossenses e revendia por muito mais dinheiro. 
Como aqui tinha muito pasto nativo e água fácil, pra animais e gente, davam uma parada de um dia e uma noite no Campo, depois tocavam em frente. Era muito boi, gente... fazia um tropé danado!
- O Zé Cascavel vez ou outra me visitava e era ‘meio’ meu amigo. Desconfiado e eu também dele! Não me cheirava bem! Ele tinha cara de homem mau, que mata por dinheiro  pra enriquecer fácil.
- Isso ele mesmo revelava nas nossas prosas em volta do fogo, tomando mate e comendo carne assada na brasa. Ele sempre me dava um pedaço bom de carne de primeira da rês que matava pra comer nas paradas. Era conservada com sal grosso, igual charque, enrolada num saco de estopa. 
-Eu afirmo que ele era ruim porque me contava que, em cada tocada de gado, fazia rolo com os compradores, oferecia pelo melhor preço, recebia muitos contos de reis a mais e quando voltava, mentia pro patrão que vendeu por preço menor.
-Ganha muito, nhô Zé ??
- Olha. Eu tiro, por baixo, uns 20$000,00 (vinte contos de reis) por ano, em quatro viagens. Isso com o que me pagam e mais minhas mumunhas com a vacada dos donos.
- Nesse tempo não existia lugar de se guardar dinheiro. Eu, quando tinha, guardava amarrado num lenço branco. Quando viajava, enfiava dentro da cueca ou da bota.
-Como que vosmecê guarda essa dinheirama? perguntei.
-Veja bem, nhô Juca. Essas coisas não se falam... é segredo, mas pro senhor vou confiar. Carrego um tanto na guaiaca pra gastar com a comitiva onde tem bebida, quengas e nas corrutelas. O grosso do dinheiro eu enterro uns passos longe da Estrada Boiadeira, que conheço bem, no pé de qualquer árvore grande, e finco um pau ali pra marcar o lugar.
-E o quê vai fazer com todo esse dinheiro?
-Comprar fazenda de muita terra, pasto e casar, nhô Juca.


- E o tempo ‘avua' neh? 

- Ia pra mais de dois anos que não via mais o Zé Cascavel pelos Campos do Mourão. Uma tarde fui lá pros lados da Santa Cruz rezar na capelinha e visitar meu amigo Zé Pereira, que ia direto pra Guarapuava negociar sua colheita e fazer compras. Ele também conhecia o Zé Cascavel, que umas vezes acampou pelos pastos e aguadas do Ribeirão-19. Lembrei da ‘meia’ amizade dos dois e nhô Pereira me disse que o Zé Cascavel tentou roubar um safrista de porco na Borboletinha, perto de Pitanga, foi baleado no peito e no braço direito, pelo dono da porcada, mas não morreu. Foi levado preso, pra Pitanga.
- Dois dias depois encostou um jeep 51, verde escuro, de capota de lona preta, com um sargento e dois soldados, bem armados, pra levar o baleado pra cadeia de Guarapuava. O sargento Murici conhecia os crimes e as bandidagens do Zé Cascavel. Amarraram as mãos dele nas costas e fizeram embarcar. Ele pediu pra trazerem umas coisas dele que estavam na cela. O sargento respondeu que em Guarapuava ia lhe dar um banho e comprar tudo novo, de loja... tava descalço, camisa esfarrapada, com roupa suja de sangue e encardida de pó de terra.
Quando passaram, perto do que parecia cemitério, pararam. Fizeram o Zé Cascavel descer e foram lá no fundo, quase fora do campo santo, perto de uma cova rasa. O preso pressentiu a morte. Sem medo desandou a falar alto e xingar de covardes os militares.
-Antes de me matar, desamarre minha mão que eu... e, páaa.
Nem acabou de falar e um deles, por trás, deu um tiro na cabeça do Zé que caiu duro no chão. Nem esperneou. Empurraram ele com os coturnos, com terra junto e, mal e mal, esconderam o cadáver.
-Triste fim tem homem mau, hein nhô Juca! comentou Ananias
-Pois é compadre. Mas o Zé Cascavel não morreu direito e andava igual alma penada pelos matos de árvores grandes e pelas beiras da Boiadeira por onde ele passava com as boiadas. Eu não sabia que ele escondeu riquezas e vagava por esses arredores, até que uma tardinha atravessei uma pinguela de palmeira tombada por cima do Rio do Campo pra ir na casa do nhô Eugênio, lá no Pingo de Ouro, na Campina dos Teodoro.
- No primeiro mato que entrei, pela estradinha que atorava por dentro, eu vi um homem que me chamava de uns 20 metros longe de eu. Como dentro do mato escurece mais ligeiro não reconheci quem era e me acheguei mais conforme ele fazia assim com os braços, desesperado. Abri bem os olhos e encarei de perto. Logo vi que ele estava sujo de terra, roupa velha, rasgada, manchado de sangue e um buraco no tampo da cabeça. Horrível !!!
-Poh, Zé Cascavel ?! Arrepiei, óh !!
-Não tenha medo nhô Juca. Só preciso da sua ajuda pra descansar desse mundo! Tá vendo aquele pau fincado ali? Debaixo dele tem uns 30 conto. Pode cavoucar que é tudo seu! Quem sabe, assim, me livra dessa maldição e ajeita sua vida!

- Não tive medo não. A terra tava fofa, puxei o pau fincado e com ele abri o buraco no pé de uma peroba enorme. 
Logo bati num couro duro. Era uma bruaca velha de carregar na anca de burro. Abri e vi que estava esturricada de dinheiro, moedas de ouro, de prata... tinha também um punhal de prata e duas alianças de ouro. Alembrei que o Zé falava em enricar e casar... Oh dó dele!


- Levantei pra agradecer, joguei a bruaca no ombro direito, pesada pra daná!.. Olhei pra trás... corri olho pra lá e prá cá... e nada! O 'coiso' sumiu. Nunca mais ninguém viu e nem ouviu falar do ‘bom’ Zé Cascavel abençoado, que mudou minha vida. 
Mas fiquei metido a rico e garrei jogar carteado, me enroscar com mulherada e não fui longe. Pensava que não ia acabar nunca aquele baita dinheirama do tesouro. Em dois anos de gastança, voltei ao z$ero!
-Melhor assim! Vida de rico não tem sossego! né nhô Juca, falou compadre Pedro.
-Não gosto de nada roubado! Se consolou nhô Juca diante dos compadres que, 'maomeno', sabiam da história, mas não quem eram os ‘quens’. 
Também não sabiam que quem esconde dinheiro e morre, vira alma penada e vaga na terra, atenta os vivos, até que algum 'tongo' aceite sua riqueza mal feita. 
Daí o diacho desencarna!!


     
"O que vem fácil, vai fácil!"