17/06/2015

Campo Mourão, Império da Erva-Mate

     


1900 – No limiar deste ano, o argentino Júlio Tomás Allica, formou um verdadeiro império ervateiro que abrangia a imensa região dos Campos do Mourão no mesopotâmico vale entre o rio Ivai e, estendido, mais ao longo do rio Piquiri, pelo qual se faziam as travessias por barcos e balsas e também os maiores transportes fluviais das mercadorias colhidas, pelas divisas do Brasil com Paraguai e Argentina, até o Porto de Buenos Aires onde eram comercializadas e exportadas ao exterior por navios mercantes.

 

Os invasores argentinos - sem autorização brasileira - realizaram atividades intensas na extração e contrabando de erva-mate, com a formação de vários acampamentos estratégicos, dentre os quais: Memória, Lupái, Boicai, Central Santa Cruz e Porto Piquiri. Na margem esquerda do Piquiri surgiram: Ronquita, Catatumba de Folhas, Inhampecê, Pensamento, Don Canuto, Sununu e Natividad. Este último recebeu tal nome pelo fato de ter sido montado durante o Natal. Era o principal povoado, onde havia armazéns e a maior concentração de ranchos.

Era de Natividad que saíam picadas na direção de acampamentos menores, todos empenhados na extração da erva-mate, que depois de sapecada era enviada aos portos do Piquiri e do rio Paraná, comercializadas e exportadas em larga escala, transações que duraram até a chegada dos revoltosos que passaram pela região, perseguidos pelos federalistas, que não deram tréguas ao acampamento de Natividad.

A localidade conhecida como Campina do Amoral, na época era chamada de Tapera de Sinhá Ana Coita (nome de uma senhora que residia no local). Havia uma picada de Natividad a esse lugar e, a partir daí, era possível seguir até Pitanga ou Campo Mourão, pelo Picadão. Os ervateiros tinham mais contato com moradores de Campo Mourão que iam a Natividad vender seus produtos pelo caminho de sinhá Coita.

  

Devido aos maus tratos e a situação de miséria em que viviam, decidiram fugir. Após se organizarem, foram até sinhá Coita. 
Alguns debandaram na direção de Campo Mourão e não foram alcançados pela patrulha do sanguinário feitor Santa Cruz (cunhado de Allica); apenas dois ou três, seguiram para Pitanga e não tiveram a mesma sorte. Foram massacrados pelos homens leais ao cruel Santa Cruz. O lugar ficou conhecido por “Las Cruces”. Os corpos ficaram abandonados e só foram sepultados quando brasileiros passaram por ali e sentiram o mau cheiro. 
A força tarefa, do argentino Allica, chegou na região através das “picadas” abertas pelos paraguaios e índios, com mesmo interesse de monopolizar o comercio dos capões de erva-mate a perder de vista, que se aglomeravam pelas imensas campinas entre Mambore, Campo Mourão e sul do Paraná afora.

1924 - Acontece a Revolução Paulista e as tropas legalistas de Arthur Bernardes se defrontam com as tropas de resistência comandadas pelo general Izidoro Dias Lopes e pelo tenente João Cabanas. Uma das batalhas mais sangrentas aconteceu na serra dos Medeiros, entre Cascavel e Laranjeiras do Sul, com as tropas da resistência derrotadas. O tenente Cabanas e seus homens, após a derrota, fugiram pelos acampamentos Central Santa Cruz, Pensamento e Haamam Amburê na tentativa de alcançar Campo Mourão e seguir a Mato Grosso através da estrada conhecida como: do Camargo ou Boiadeira. O plano fracassou porque antes de chegarem a Campo Mourão, foram surpreendidos pelas forças do governo, que os cercaram no Picadão de Pitanga.


O tenente Cabanas retornou a Haamam Amburê e tomou o rumo do Paraguai, via Foz do Iguaçu. Com ele foram os paraguaios e argentinos que sobreviveram, expulsos do Brasil. Na fuga desesperada, destruíram pontes, afundaram canoas e balsas para evitar perseguição. Nesses entreveros, ranchos e depósitos, com erva-mate estocada, ficaram abandonados.

 
Após anos de exploração, Júlio Allica foi perseguido e deixou a região. Seu truculento cunhado e capataz, Santa Cruz, foi morto numa emboscada, na região de Quatro Pontes. Ficaram apenas algumas evidências das atividades pelos arredores de Mambore. No cultivo da terra foram encontradas trincheiras, munições e armas. Na região do Gavião, até poucos anos, havia sinais da existência de um “carijo” (tipo forno aberto) usado na sapecação das folhas de erva-mate. 
  
O Império Verde da Erva-Mate entrou em decadência devido à revolução paulista. Os federalistas atacaram os paraguaios e argentinos nos acampamentos e os perseguiram, em insana matança, até a margem direita do rio Piquiri. A maioria dos ervateiros foi morta. Alguns conseguiram escapar. Outros embrenharam-se nas matas.


Hammam Amburê (Natividad) deu origem a Mambore.
Se refez, anos mais tarde, com as primeiras casas construídas em volta da praça das Flores onde ficava o centro principal e o maior barracão da Empresa Allica. Os novos habitantes foram atraídos pela floresta das araucárias e dezenas de serrarias foram instaladas, o que marcou o primeiro ciclo econômico de Mambore.
1900 – A partir deste ano e até por volta de 1910, foram abertas regulares picadas e estradas que tiveram como principais trechos: o do Picadão (BR-158) Pitanga/Campo Mourão, e a mais conhecida Estrada Boiadeira sob orientação do engenheiro Manoel Mendes de Camargo, entre uarapuava/Campo Mourão/Mato Grosso. Além do comércio, estas picadas e estradas vicinais tinham a intenção de facilitar a entrada de moradores e aumentar a população pelos sertões do Oeste e Centro-Oeste do Paraná, com ponto de referência Campo Mourão.
1940 - O poder público estadual implementou um plano geral de colonização que resultou na criação de varias colônias na região, sendo as principais as de Campo Mourão, Colônia Muquilão, São Domingos, Sem Passo e Colônia Goio-bang. Eram fiscalizadas e atendidas pela 5ª Inspetoria de Terras, com sede em Campo Mourão.

  
1947 - Foi fundado o município de Campo Mourão que, até o início da década de 1955, detinha grande área territorial entre os rios Piquiri e Ivaí que divisava com Pitanga, Laranjeiras do Sul, Mandaguari, Apucarana e Foz do Iguaçu.
1960 - A região, outrora ervateira, de Mambore separou-se de Campo Mourão em 1960, com população de 10.276 habitantes, sendo 80% na área rural.
1970 - A derrubada desenfreada das matas seguiu-se por vários ciclos econômicos na região que, muitos anos depois da febre verde da erva-mate, se iniciou com extração da madeira e, logo substituída pelo plantio de café e, por volta de 1970, pela  agricultura mecanizada e, em escala bem menor, pela pecuária em locais de morros e pedras, impróprios à lavoura.


  
N.A. - A fim de enriquecer esta narrativa, leia também: http://wibajucm.blogspot.com.br/2011/03/mambore-fruto-da-erva-mate_23.html 
  
Vejamos o trecho por ele descrito quando chegou no acampamento Central de Mambore - PR. Trata-se de uma passagem terrível que João Cabanas narra em seu livro - A Columna da Morte - com impressionantes detalhes sobre a situação sub-humana das miseráveis famílias colhedoras de erva mate que encontrou, em 1926, na região de Campo Mourão:
“(...) determinei (...) aos capatazes presentes, que fossem a todos os ranchos ervateiros e trouxessem (...) a totalidade dos empregados (...) inclusive mulheres e crianças (...). Passados quatro dias começou a chegar o pessoal, formando-se depois uma multidão de mais de mil indivíduos andrajosos, tendo cada um em si, os característicos da vida miserável que passavam sem os mais rudimentares cuidados de higiene; uns bestializados pelos maus tratos riam alvarmente, olhar parado, em ponto fixo imaginário.
A grande maioria com os joelhos deformados pelos bichos de pé, faces entumecidas pela ancilostomíase ou pelo mal de Chagas, moviam-se lentamente; mulheres cabisbaixas, quase inconscientes sofrendo idênticos males, deixando aparecer pelos rasgões das saias, pernas esquálidas; sentavam-se aos grupos pelo povoado, tendo ao redor crianças cor de âmbar, ventres crescidos, sonolentas e tristes como velhos chineses desesperançados da vida.
No meio desse rebanho humano que parecia ter surgido de ignotas paragens onde o sol não penetra, e não existe civilização, destacam-se arrogantes, supurando saúde, bem vestidos, finíssimos e franjados ponchos ao ombro, vistoso lenço de seda ao pescoço, botas de estilo carnavalesco, retinindo as esporas de prata, os famosos capatazes, modernos e sanhudos feitores, sem alma e sem consciência, brutais até a violência, encarregados de exaurir as forças daqueles escravos até o aniquilamento, para extrair da mata bruta, a preciosa folha que remetida aos moinhos de Buenos Aires, se transformava em ouro. O trabalhador do Herval é sem dúvida alguma um verdadeiro escravo olvidado pela lei de 13 de maio de 1888, que dele não cogitou. Na generalidade, nasceu ele na hospitaleira República do Paraguai, onde a fortes quantias adiantadas, é arrebanhado para além das fronteiras da sua pátria e internado nos ervais do Oeste do Paraná, sendo depois entregue a um capataz que o recebe, mostrando ao desventurado, as insígnias de mando a que tem de sujeitar-se, conforme o caso: um chicote e um revolver calibre 44. De aí em diante o estrangeiro a quem acenaram com as libérrimas leis brasileiras, perde a sua individualidade nas mãos de estranhas gentes.
O capataz em matéria de autoridade é um ser único, sui generis; nele se concentram as atribuições que vão desde um soldado de polícia até o Supremo Tribunal Federal e possui dentro do cérebro estúpido, um código de castigos que começa no pontapé e segue até o fuzilamento, e às vezes a autoridade do brutamonte estende-se também pelos domínios da religião, impondo ao escravo a sua própria crença (...) o sistema de escravatura nos referidos ervais toca o auge quando o escravo tem família; pois as premissas da virgindade de suas filhas são o fruto opimo que permeia a atividade do capataz e mesmo a esposa ou companheira, não é jamais respeitada, tendo o desafortunado trabalhador de aceitar tudo isto sorrindo ao seu algoz, como agradecido pela preferência que deu à sua família, distinguindo-a com a desonra. Se, com humildade, o escravo reclama contra a má alimentação; se na hora do acesso da malária ergue os olhos súplices ao capataz implorando um descanso; se de seu peito oprimido brota um suspiro, traindo a nostalgia que lhe vem na alma, em qualquer desses casos, sente imediatamente no dorso nu e encurvado, caírem as correias causticantes do vil instrumento de suplício empunhado pelo impiedoso capataz; e, se revolta-se contra o vergonhoso cativeiro a que o sujeitaram (...) rápido como um raio, um tiro o abate." (Cabanas, 1926)

O instinto Animal
“O homem na guerra adquire instintos ferozes e seu maior prazer é matar o seu semelhante. E requinta essa ferocidade quando surpreende o inimigo. Se na surpresa faz tombar muitas vítimas, então ri e zombeteia. Não há religião que tenha força suficiente e bastante para deter o homem no declive de suas inclinações perversas. Em tempo de paz é um mascarado. Em tempo de guerra, arranca a máscara da face e apresenta-se tal qual é: inimigo de seus semelhantes, feroz no extermínio, até de seus próprios amigos e irmãos.”  (Cabanas, 1926)

CONSULTEI: 
CORRÊA, R.L. O Espaço Urbano. São Paulo, Ática, 2ª Ed, 1999.
FERREIRA, João Carlos Vicente. Municípios paranaenses : origens e significados de seus nomes. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 2006.
FRESCA, Tânia Maria.  Rede Urbana, Níveis de Centralidade e Produção Industrial: Perspectivas para um Debate.
HESPANHOL, Antônio Nivaldo. A Formação sócio-Espacial da região de Campo Mourão e dos Municípios de Ubiratã, Campina da Lagoa e Nova Cantu-PR. In: Boletim de Geografia. Maringá, v 11, n° 01, p.67-88, dezembro de 1993.
MORAES, Osnir. Armando Alves de Souza “Meu jovem”. 
A história do eterno prefeito de Mamborê. 1ª Edição- Campo Mourão. Sisgraf, 2003. BCDD 923.832
OLIPA, Vilson. História de Mamborê. (Mamborê, s.n), 1998.
Formação histórica da região de Campo Mourão-PR
Jonas Henrique / 5 de março de 2013 – Internet copy 2015.
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