28/06/2015

O Burro Preto de Campo Mourão - 13

História do Burro Preto



-“Tio Chico tinha um burro preto marchador, de nome Picaço, que pisava rápido e macio no duro chão da estrada. 
O cavaleiro parecia que flutuava em riba do animal. Não sentia nem um tranco, igual dão os tucuras ruins de rédeas, apelidados de passarinheiros, que se assustam com qualquer coisa que se mexe pelo caminho, até uma folha soprada pelo vento. E o pior, têm queixo duro, não obedecem e derrubam o cavaleiro nos pulos que dão, de repente, por causa dos assombros.
Poiss bãoo... Tio Chico gostava demais do Picaço, mas se viu obrigado a se desfazer do animal, que vendeu prum amigo safrista lá das bandas de Figueira, onde também tinha fazenda.”
-“Vendeu por que, nho Juca?” perguntou Tonico.
-“Vou explicar compadre. Tio Chico tinha uns par de filhos e filhas, e os nascidos primeiro começaram a entrar naquela fase do: quero me casar. Os que estavam mais acesos eram os dois mais velhos.
Numa noite de chuva, o de mais idade roubou sinhá Maria que vinha namorando só de olhar. O pai dela dizia que era muito nova, mas o moço não quis saber. Vestiu chapéu e capa de boiadeiro, encilhou o burro preto – já tava tudo combinado – foi na Lagoa Seca, entremeio Campo e Peabiru e, debaixo daquele temporal, roubou a amada, com quem veio se casar logo que baixou a poeira do pai Luiz, que tava tiririca da vida.
Não passou nem um ano desse acontecido, o segundo filho mais velho do Tio Chico deu um repeteco com o Picaço. O jeito dado foi bem parecido com do seu irmão: de noite, com chuva forte e tudo. Só mudou o nome da moça. Essa era sinhá Rosa. O pai dela, apelidado de Italiano, tinha serraria perto da Lage Grande. Embrabeceu de um jeito que, além do apaixonado da moça, queria matar o inocente burro, também.
Aí, pra evitar enguiço, pois tinha mais quatro filhos se formando em tamanho e vontades, Tio Chico decidiu vender o burrão que ele tanto gostava de ter e montar.
Quem conhece Figueira sabe que fica lá perto de Terra Boa, à esquerda de Sertãozinho, meio longe do Campo.
Pois não há de ver que o Picaço fugia e vinha parar direitinho na casa do Tio Chico, sôh?!
Não foi uma nem duas. Foram muitas vezes!
Compadre Manoel, novo dono do burro preto, cansado de vir buscar o animal, jurou que se ele fugisse mais uma vez, era um burro morto: "vai virar mortadela", esbravejou.
"Pois não há de ver que o burro preto fugiu dessa vez também? Mas não veio pra casa do Tio Chico, não. Ele ouviu a prosa e simplesmente sumiu, pois burro era só de nascença. 
Tomou outros rumos e até hoje vaga por aí, pelas estradas de terra e carreadores, belo e formoso, com medo de virar embutido.
  De vez em quando a gente vê o Picaço, que chega ser azulão de tão preto que é, mas quando percebe que é reconhecido e vai ser pego, regala os olhos, estica as orelhonas e se alonga de novo naquela sua marchinha rápida e elegante. 
E assim ele vive por aí. Aparece e desaparece onde menos se espera.
Se, por acaso, vosmecê ver um burro preto marchador pelas quebradas, avise que a gente gratifica depois,  com cinco quilos de mortadela macia, dele!"

 
Burro Preto virou lenda em Campo Mourão


NA: A história é verdadeira e os nomes das moças também. 
Só omiti os nomes dos moços, mas não o apelido do pai deles e do de uma delas.