15/01/2015

HISTÓRIA DE CAMPO MOURÃO ANTIGA


CAMPO MOURÃO ANTES DA HISTÓRIA

É antiga a história de Campo Mourão que confunde-se com a do Brasil, pois sua área de 766,4 km2 faz parte do imenso território nacional.
O atual traçado urbano e rural está desenhado sobre região quase plana com suaves declínios em direção aos dois pequenos rios que a circundam.
Este magnífico espigão está localizado no terceiro planalto paranaense a 24º’02'38'' de Latitude Sul e 52º22'40'' de Longitude Oeste do Meridiano de Greenwich, a uma altitude média de 630 metros acima do nível do Oceano Atlântico com características únicas no planeta Terra, entre o Rio do Campo e o Ribeirão 119, que deságuam no Rio Mourão, afluente do Rio Ivai que despeja suas águas no caudaloso Rio Paraná.
A região primitiva bem elevada e imune a enchentes, com características únicas, está sobreposta em rico solo basáltico coberto por gramíneas e capins típicos entremeados a uma vegetação de centenas de espécies que se destacam em um imenso cerrado de arbustos, árvores e palmeiras de pequeno porte, resistentes ao calor (seca), a maioria retorcida, de grossas cascas medicinais e diferentes frutíferas que abrigam rica flora e fauna. Abaixo do subsolo e da imensa laje basáltica, a cerca de 1000 metros de profundidade, encontram-se as águas puras e cristalinas do imenso Aqüífero Guarani ou Mar de Botucatu.
O conjunto forma um cerrado emaranhado de campos e pequenos bosques onde predominam árvores de Copaíba, Angico do Campo, Ipê Amarelo, Guavirova, Pitanga, Piqui, Barbatimão, etc. Este raro ecossistema localizado no Centro Oeste do Estado do Paraná, era cercado por três tipos de florestas bem distintas: a das Araucárias (pinheirais, erva-mate e outras madeiras nobres de clima frio) desde o norte de Santa Catarina até a margem direita do Rio do Campo: a Tropical (clima temperado) desde o sul de São Paulo até a margem direita do Rio do Campo e a do Arenito do Caiua (madeiras de lei) desde o sul de Mato Grosso até a margem esquerda do Ribeirão 119. Esta última destacava-se pela enorme quantidade de perobas branca e rosa, pau-marfim, óleo pardo e palmitos, em solo arenoso e clima quente elevado.
Em Abril de 1500, quando o explorador português, Pedro Álvares Cabral, ancorou ao largo de Porto Seguro, ao sul da Bahia, com 10 caravelas, retornou com todas elas carregadas de Pau Brasil e várias especiarias extraídas da Mata Atlântica povoada por nativos facilmente conquistados com quinquilharias que lhes foram oferecidas e habitada por centenas de milhares de aves e animais nunca vistos pelos europeus.
Antes de Cabral começar a extrair riquezas do Brasil já se tinham notícias de outras frotas de caravelas chegadas ao continente centro e sul-americano, dentre elas a do navegador italiano Cristóvão Colombo em 1492 que ancorou nas Antilhas da América Central, e a de Juan Dias de Solis, navegador espanhol, em 1496, que cruzou a costa brasileira rumo a Bacia do Rio da Prata a fim de estabelecer um porto destinado à segurança das naus espanholas na Bacia do Rio da Prata. Antes de completar a viagem traçada, resolveu fundear sua nau e visitar tribos de índios Carijós (Carios) que avistou em terra firme do continente desconhecido. Ao desembarcar dos botes na praia, Solis e dezenas de marujos que o acompanhavam, foram atacados e mortos rapidamente pelos nativos.
Os 11 marinheiros que ficaram a bordo do navio assistiram o massacre e, apavorados, embarcaram em um único escaler (pequeno bote) e remaram desesperadamente de volta em direção a Ilha de Santa Catarina, sobre mar revolto, fortes borrascas e ventos cortantes. Quase próximo ao território catarinense o bote virou sob o impacto das violentas ondas, mas os marinheiros, com muito esforço, conseguiram chegar a praia a nado, em local também habitado por índios Carijós, porém de índole pacífica, que os salvaram e os abrigaram. Este trecho de terra firme ficou conhecido como Praia dos Naufragados, no litoral catarinense.
Dentre os tripulantes espanhóis havia um marinheiro português de nome Aleixo Garcia, que depois casou com uma nativa e teve um filho de nome Diogo Garcia. Havia também um negro (José Pacheco) e um espanhol que mais tarde foi escrivão da expedição de Alvar Nuñes Cabeza de Vacca governante de Assunção (Paraguai).
Nas reuniões da tribo, Aleixo Garcia e seus companheiros ouviam os nativos contar histórias sobre as reluzentes montanhas do Sol e da Lua a céu aberto, que ficavam nos distantes sertões, continente a dentro, e que podiam ser atingidas depois de longa caminhada pela trilha primitiva conhecida como: “Pê abê i u” (caminho antigo de ir e vir).
Aleixo Garcia, o mais arrojado dos náufragos, ficou convencido que as ditas montanhas eram de ouro (sol) e de prata (lua). Nas mesmas narrativas ouviu falarem do Império Ínca ou Império do Sol onde utensílios e adornos eram de ouro, estanho e prata (até então os povos sul-americanos desconheciam o ferro).
Em 1523, Garcia convidou seus companheiros a fazer parte desta cega aventura, mas apenas dois toparam. Justamente o negro e o espanhol. A pedido de Garcia, a tribo formou um exército com cerca de 2 mil guerreiros-flexeiros dos temidos carijós e com eles foram sua mulher e seu filho, cientes dos perigos, dificuldades e tribos hostis que iriam confrontar ao longo do estreito caminho de aproximadamente 1.200 léguas, a pé. Munidos de armas e alimentos primitivos e naturais, seguiram Pêabeiu afora e continente adentro a partir da Praia dos Naufragados. Na divisa de Santa Catarina/Paraná atravessaram os rios Santo Antonio e Iguaçu.
Em 1524 atingiram a região dos Campos, as margens dos rios Tibagi e Cantu, atravessaram a região do Cerrado onde está Campo Mourão, cruzaram o Rio Paraná e fundaram Assunção (Vila de Nuestra Senhora de Assumpcion) onde construíram abrigos e plantaram roças de subsistência. Uns poucos ficaram enquanto o grosso da expedição de Garcia seguiu em frente. 
Em 1525 avistaram terras povoadas nas proximidades de Cuzco (capital do Império Inca). Fizeram rápidos contatos com alguns moradores e conseguiram 25 quilos de peças artesanais de ouro.
Avisados que soldados incas foram alertados da presença de invasores brancos e de índios desconhecidos e que vinham em seu encalço, Garcia deu ordem de retirada e regresso pelo mesmo caminho.
Na volta, próximo de Assunção (Vila São Pedro/Garcia Corá), na travessia do Rio Añemby foram atacados por índios Paiaguás que praticamente exterminaram o exército Carijó e entre os mortos tombou Aleixo Garcia. Seus dois amigos marujos e algumas dezenas de índios aliados conseguiram escapar do massacre, com parte do ouro. Retornaram à Santa Catarina dois anos depois e a notícia do Império do Sol espalhou-se rapidamente entre os espanhóis e portugueses e daí em diante formaram muitas caravanas, registrando-se intensos avanços em busca do ouro e da prata que mais tarde foi encontrada em Potossi (Bolívia).
Desta forma, Aleixo Garcia foi o primeiro homem branco a cruzar pela região de Campo Mourão e a descobrir a nação Inca, através do caminho e trilhas do milenar Peabeiu.
O Segundo
Em 1541, o adelantado (governador espanhol) Alvar Nuñes Cabeza de Vacca foi designado a tomar posse da governança de Assunção Paraguai) e da Província Del Guairá (hoje Estado do Paraná que tinha como ponto central a região conhecida como Campos (Campo Mourão) onde situava-se o forte da nação Guarani, com mais de 250 mil nativos.
Cabeza de Vacca e seu pequeno exército de 230 arcabuzeiros (atiradores)) e cerca de 20 cavalos foi o segundo comandante branco a passar pela região de Campo Mourão. Guiado pelos índios seguiu, praticamente, a mesma trilha do Pêabeiu utilizada por Aleixo Garcia.
Cabeza de Vacca derivou a Oeste e ‘descobriu’ as Cataratas do Iguaçu e dali atravessou o Rio Paraná e se estabeleceu na governança de Assunción-Paraguai. (Assista esta invasão espanhola no excelente filme: “Missão”, com Roberto Del Niro).

Wille Bathke Junior

Campo Mourão, PR, 11 de Janeiro de 2015