02/10/2014

A Dona Fifi de Campo Mourão

Josephina Wendling Nunes 




 
Foto clássica da pioneira Josefina Wendling, quando solteira, 
antes de se fixar em Campo Mourão, onde aportou em 1952.  

Dia 21 de Setembro de 1910 nasceu, na fria cidade de Castro-PR, a filha de Izaurina Rocha e de José Bonifácio Wendling, casal oriundo de famílias castrenses pioneiras e tradicionais. José Bonifácio era Coletor Federal, cargo de alto escalão na época. Além de Josephina (Fifi) tiveram mais 10 filhos: Sebastião, Nelson, Jairo, Wilson, Hilton, José (tio Zezé), Ariovaldo, Josauro, Lilina e Niva.


  
Josephina Wendling e José de Mello Nunes, pioneiros de Campo Mourão-PR

Casamento - Dia 15 de abril de 1942, Josephina Wendling, casou com José de Mello Nunes (Juquinha), em plena II Guerra Mundial, na igreja matriz, de uma torre só, no topo da antiga Estrada dos Tropeiros. Ele nasceu, também, em Castro-PR, dia 26 de maio de 1913, filho de Anália de Mello e Fraterno Nunes de Marins e irmão de quatro filhas do casal: Marianinha, Aparecida, Conceição e Maria. Serviu o Exército Brasileiro e foi comerciante de secos e molhados, em sua terra natal.

Prole - Fifi e Juquinha tiveram seis filhos, todos nascidos em Castro-PR: José Tadeu casado com Arlete Kloster, pais de Marcio Fernando (casado com Maria de Fátima Claro); Cezar Alexandre (falecido) e José Tadeu Nunes Filho (casado com Rosiliana de Andrade Aranha); Antônio Fernando (Antoninho coletor) casado com Valdete Sestak, pais de Antônio Fernando Nunes Junior, Keila Josephina e Adriana. Ana Isaura casada com Godofredo Antonio de Lima, pais de Andréa, Marcelo Fernando e Alessandra; Fraterno Maria que teve como consorte Rosimery Kffuri, pais de Carolina e Carla; Margarida Maria casada com Tarcísio Detoni, pais de Leandro e Juliano; Conceição Aparecida esposa de Paulo Merlin Ribas, pais de Sandro, Flávia e Leonardo. Os nomes dados à sua prole comprovam o alto grau de religiosidade de Josephina Wendling e José de Mello Nunes, católicos apostólicos romanos, devotos da Sagrada Família: Jesus, Maria, José. Dona Fifi foi educada em Colégio de Freiras, concluiu os cursos ginasial e científico, com noções de escrita e prosa em Latim, Francês e Inglês. Por tradição de família era leitora assídua de livros de vários autores, que era seu passa tempo preferido e que lia em voz alta aos seus filhos, principalmente à noite no aconchego do seu lar, onde reinava paz, harmonia e muito carinho.

Torrefação – Em 1952 a família castrense veio de camionete do amigo e compadre, Ênio Camargo Queiroz, e se fixou na sonhada e promissora Campo Mourão-PR. Ambos plantaram café em Goioerê, mas a lavoura não vingou, castigada pela baixa temperatura invernal. Cerca de um mês depois veio a mudança. Residiram em casa de madeira, alugada de Aldo Casali, na então Rua Ceará, pouco abaixo do Posto do Cunhado, proximidade do Escritório Lux, na Rua Harrison José Borges (homenagem ao tabelião de notas, seu Pitico, que faleceu em acidente de automóvel em companhia de Roberto Brzezinski, durante campanha eleitoral a prefeito de Campo Mourão). Além da moradia, seu Juquinha montou a Torrefação e Moagem de Café Planeta no terreiro, com tambores de latão suspensos na horizontal, com capacidade de 60 a 80 quilos de grãos cada um, que rodavam com eixos de ferro movidos por polias de madeira e correias de couro acionadas por um motor elétrico. Os tambores rodavam sob fogo a lenha, numa espécie de forno, onde torrava os grãos de café, depois moia em pedras de moinho, empacotava e comercializava o Café Planeta, com ajuda dos filhos e filhas. Era tudo manual e familiar. O sistema produtivo era mantido por Alfredo Ferrari e seus filhos, gaúcho de Carazinho-RS, um excelente profissional tipo ‘faz tudo’.

Água na boca - O cheiro gostoso da ‘fumacinha’ branca, que exalava dos grãos de café enquanto torrava, se espalhava pela pequena cidade que surgia em torno da Praça Getúlio Vargas e da Igreja Matriz de São José. A ‘febre’ pelo cultivo do café estava no auge, com abundantes produções da rubiácea em grande parte dos novos municípios do norte, noroeste e centro-oeste do Paraná. Mas, em Campo Mourão, a cultura não se deu bem por causa das geadas negras, e começou o ciclo econômico da madeira, com dezenas de serrarias e derrubadas devastadoras das imensas e centenárias florestas de pinheiros e madeiras de lei. A densa mata nativa, com sua rica fauna e flora, foi extinta em cerca de 20 anos. O rico solo devastado, hoje está transformado em agricultura mecanizada, pouco diversificada, nas mãos de médios latifundiários. 

Confeiteira - Dona Fifi era quituteira, especialista em lindos e saborosos bolos de aniversário e casamento. Gostava de ajudar as pessoas carentes que batiam no seu portão em busca de um copo de água, uma refeição ou uma roupa. Ela se comovia quando via pessoas com necessidades básicas, principalmente crianças. Era muito amorosa e caridosa pelos seus princípios cristãos.

Adeus Juquinha – Dia 29 de Outubro de 1956, com 43 anos de idade e apenas quatro de Campo Mourão, José de Mello Nunes sucumbiu ao câncer na boca, que o maltratou por anos. O corpo foi velado na Loja Maçônica Luz do Oriente à qual pertencia e ajudou a fundar. Está sepultado no Cemitério Municipal ‘São Judas Tadeu’. O filho mais velho tinha 12 anos e a caçula, 2. Dona Fifi tentou levar a torrefação adiante, mas o serviço era muito pesado e acabou vendendo. Sozinha lutou pela sobrevivência e educação dos filhos. Fazia e vendia bolos e pastéis, além de peças de tricô. Os filhos começaram a procurar trabalho. José Tadeu com 12 para 13 anos foi empregado na Selaria de Modesto Três e logo em seguida foi admitido como auxiliar de escritório na Madeireira Trombini, a convite do amigo da família Ermenegildo Dolci, onde cresceu, evoluiu e chegou a diretor da empresa, por 28 anos trabalhados.


 
José de Mello Nunes (Juquinha) era maçon e um dos fundadores da 
Loja Maçônica Luz do Oriente de Campo Mourão

Creche Sagrada Família - Mesmo sem ter condição financeira, Dona Fifi fundou a pioneira Cresche Sagrada Família, com a finalidade de abrigar e educar crianças de mães que precisavam trabalhar fora de casa. Conversou com amigas, senhoras da sociedade e, logo, congregou um grupo de provedoras que a ajudaram na empreitada, dentre elas: Lady Amaral, Lucila Traple, Áurea Carneiro, Lourdes Marmontel, Lourdes Pinto Gomes, Amélia de Almeida Hruschka, dentre outras voluntárias que auxiliavam na realização de festas beneficentes e na arrecadação de recursos junto a comunidade de maiores posses. As amigas a elegeram a primeira presidente da entidade cuidadora infantil.
A primeira sede, improvisada em casa de madeira, era na R. Harrison José Borges X Av. Afonso Botelho, mais tarde transferida para a sede própria, em confortável casa de alvenaria, onde situa-se até hoje, na mesma avenida, mas na esquina da R. Brasil.


 
Lucila Traple e amigas na Creche Sagrada Família de Campo Mourão-PR

Homenagens – Na instalação da creche em sede própria, Dona Fifi recebeu o Título de Senhora do Ano, conferido por indicação da sociedade mourãoense. Os poderes municipais do Legislativo e do Executivo aprovaram seu nome, que está gravado em placas de rua entre os Jardins Laura e Lourdes, e no marco inaugural da Escola Especial Josephina Wendling Nunes, no pátio da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE de Campo Mourão-PR.


 
Natal das Crianças de Campo Mourão

Falecimento – Josephina Wendling Nunes, despediu-se da família, amizades e de suas obras beneméritas, com 64 anos de idade, dia 26 de junho de 1974, sepultada ao lado do companheiro José de Mello Nunes, no Cemitério Municipal São Judas Tadeu, em Campo Mourão-PR. 

 
1965 - Josefina Wendling Nunes (Dona Fifi) no centro, de vestido estampado, fundadora e primeira presidente da Creche Sagrada Família de Campo Mourão, durante visita do prefeito Augustinho Vecchi e sua esposa Samira Simão Vecchi. À esquerda a filha Margarida Maria.