30/06/2011

Campo Mourão Virgem - Era Tudo e Nada


"Quem faz o lugar ser bom ou ruim somos nós. Eu, você. nós, eles.

Imagine chegar em um lugar onde nunca entrou viva alma. A mata virgem, tranquila e cheia de coisas boas e perigosas?!
Pense em um lugar virgem que tem tudo e nada. Pura natureza onde você escuta o som do silêncio, o canto da passarada e a comunicação (urros e gritos) dos animais.

"Campo Mourão tinha muito tigre"

Era isso que os pioneiros encontravam quando chegavam, com suas famílias, nos Campos do Mourão, hoje a bela Campo Mourão que tem de tudo e não falta nada, e ainda tem pessoas ingratas que reclamam."


Quem está conversando conosco é Adelaíde Teodoro, filha de Izabel Luíza de Oliveira e Joaquim Teodoro de Oliveira. Neta dos desbravadores: Almira Lemes da Silva e José Teodoro de Oliveira. Os avós maternos são: Ana Luiza da Conceição e Joaquim Custódio de Oliveira. "Teodoro não era sobrenome. Era o nome do meu avô. O cartorário errou ao registrar meu pai e ficou assim, e ninguém se importou em arrumar."

"Mas você quer que eu conte o quê era o Tudo e o Nada, né?!"
"Calma aí... meus avós, meu pai e tios vieram de Santa Cruz do Rio Pardo-SP e minha mãe era de Pitamga-PR, municipio que abrangia o tal Campos do Mourão até as barrancas dos rios Piquiri, Ivaí e Paranasão.


"Campo Mourão água era sagrada..."

Tudo era a natureza e Nada era o que tinha que fazer, se quisesse morar e sobreviver aqui no sertão, longe de tudo, toda vida... entendeu?
A primeira coisa era encontrar água, descarregar as tralhas dos cargueiros e do carro de bois, descansar os animais estropiados e já começar a armar um rancho com paus e folhas cortados a machado, na foice e no facão... começar logo a fazer roça, engordar os porquinhos, criar galinhas, os animais de leite, de montaria, de cargas e ter uns cachorros bons de guarda que não deixam os bichos atacar a gente e nem estranhos se apoximar.

 
"Campo Mourão derrubava depois plantava..."

A família toda trabalhava sem parar. Cada pessoa tinha uma função. Até as crianças. O pai dava as ordens e trabalhava junto. Parecia um formigueiro... (risos)
Enquanto uns construiam o rancho, outro fazia o fogão de barro e demarcavam os comodos em cozinha, sala e quartos. Só banheiro não se fazia, tinha bastante mato... (gargalhadas).
Não demorava muito e logo tinhamos um lugar pra cada coisa e cada coisa em seu lugar, entende?

  
"Campo Mourão era tudo rancho assim, no começo"

Tinha que fazer, também, três gamelões, tipo bacionas, farquejadas em toras de madeira. Mediam mais de metro de comprimento e quase meio metro de largura. Uma gamela éra pra tomar banho, outra pra lavar louça e a terceira pra preparar comida e fazer bolo de polvilho. Pão? Nem pensar. Não tinha trigo.


Campo Mourão, bacias de paus

A banha era de porco e a carne, no início, era de caça, que tinha muita por aqui. O sabão de limpeza e higiene se fazia com a coalha da cinza e barrigadas de animais abatidos. A coalha agia igual soda cáustica e dava um bom sabão firme e macio, que a gente cortava em pedaços e usava pra lavar roupa, tomar banho e limpar tudo. As panelas se areava com bonecas de palha. Até o chão batido brilhava, areado assim.  
  
Feito isso, o rancho pronto, começava-se as derrubadas, queimadas e os grandes plantios de cana-de-açúcar pra fazer melado, açúcar mascavo e rapadura; plantava o feijão. arroz,  milho, muita batata-doce e principalmente as sementinhas de café, nosso tesouro verde. Salada de verduras, nem pensar. Não tinha horta.

"Campo Mourão transporte só de mulas..."   

Esperavamos a colheita e o que dava, vendia ou trocava em Guarapuava, levadas em cargueiros de mulas. Um mês pra ir e voltar por carreadores e picadas pelo meio da mata. Quando chovia, parava a jornada. Os rios enchiam demais.

A medida que a situação melhorava, vinham as benfeitorias, tipo casa de madeira serrada, cobertas com tabuinhas lascadas de pinho e assoalhadas. As vigas e tábuas eram serradas com traçadores, uma a uma, por profissionais, a maioria carpinteiros, que às vezes apareciam por aqui. O tio Camilo era especialista nessa lida de serrar tábuas no muque.


O Tudo nasceu do Nada, viu?
A terra de nossa propriedade era imensa, no Barreiro das Frutas, antes conhecido como Campina dos Teodoros que ia lá do rio da várzea até o rio do Campo, aqui perto da cidade. 

"Assim surgiu Campo Mourão, lentamente..."
As casas de seu Chico e da Zizinha Albuquerque na praça de Campo Mourão
 

Depois chegaram outras famílias, surgiram as casas, aqui e ali, e devagar formou-se a Cidade de Campo Mourão!!" concluiu Adelaide Teodoro de Oliveira, com ares de professora.