03/04/2011

Nicolau Macowski




Nicolau Macowski i - amor por Campo Mourão

“Meu começo de vida foi de muita pobreza. Andava descalço na neve prá ir na escola. Dividia um ovo prá comer em quatro pessoas. Cresci e venci sozinho. Hoje vivo em paz com minha família, dividido entre Campo Mourão e Xapuri no Acre, que também ajudamos a desbravar. Minha mania é fazer mel, voar e caçar”, conta seu Nicolau.

No dia 10 de Outubro de 1921, em Erechim (RS), nasceu Nicolau Macowski, filho de pais imigrantes: José Makowski (polonês) e Weronika Ziejewski Makowski. Musiel (alemã).
“Meu pai casou três vezes. No primeiro casamento não teve filho. Da segunda mulher teve o Estanislau e enviuvou. Com minha mãe teve: Leocádia, Ceslau, Mariano, Nicolau, Leonardo, Wenceslau e Helena”. Lembra que moravam na Colônia Dourados, sete quilômetros da cidade, onde o pai recebeu 10 alqueires de terra do governo, “e pagou tudo direitinho”. Plantavam cereais, criavam porcos, fabricavam banha e vendiam o excedente para sobrevir. Seu pai também era “ótimo” açougueiro e carpinteiro.

Meus pais e irmãos em Erechim

quando adultos em Peabiru - depois Campo Mourão

Inventor – Desde criança Nicolau foi atraído pelo funcionamento de engrenagens, máquinas e motores, que via nos moinhos onde levava trigo e milho para beneficiar. “Desviei uma valetinha do rio, encanei a água com talos de mamão que eu ocava (furava), montei uma turbina e depois uma miniatura de serraria. Fiz uma serra circular de lata e as toras eram pedaços de mandioca... (risos). Vinha gente de toda parte ver minhas engenhocas e todo mundo ficava admirado e, eu, todo faceiro!!!.. (rindo).

Escola – Nicolau estudou até o terceiro ano em escolas polonesa, italiana e brasileira, “que ficavam a quatro... seis quilômetros de casa e eu ia a pé, descalço, com qualquer tempo, mesmo quando nevava”, conta das dificuldades, “voltava e ajudava na roça”. Quando veio morar em Quatiguá (PR), repetiu o terceiro ano, “reforçado”, com o professor Carlos de Oliveira Franco, “que também me deu aulas, meio escondidas, de Geometria, porque isso não se ensinava no primário, mas eu queria aprender a cubar (calcular) toras de madeiras e esquadriar (medir) a terra”, revela.

1935 no PR - Com 14 anos veio com seu pai ao Paraná. Venderam o que tinham em Erechim. “Mamãe e meus irmãos ficaram na casa de um tio”. Rumaram, a cavalo até Volta Grande (SC) onde embarcaram no trem. A primeira parada foi em Jaguariaiva (PR). “Ficamos ali quatro dias e papai não gostou da terra”. Seguiram até Quatiguá, próximo à divisa com São Paulo. “Ai papai comprou oito alqueires de terra. Havia um plantio de café abandonado por causa da geada. Recuperamos e começamos a plantar cereais, inclusive algodão e criar porcos”. Sua mãe foi avisada por carta e veio de trem. “Prá trás ficaram o Estanislau e a Leocádia em Porto Alegre, casados.

Vacas magras - Mas a lavoura não ia bem, seu pai entrou em crise, abandonou tudo e voltou morar com o filho em Erechim. “Se já estava difícil com ele, foi muito pior sem ele. Deixou até dívidas no comércio. Eu estava com 16 anos. Tomei a frente do sítio e sempre respeitei a autoridade da minha mãe, que batalhou e economizou como nunca. Meus irmãos eram pequenos. E com muita luta conseguimos equilibrar as coisas”, narra com ar de vitorioso.

Saber mais – Entre os 16 e 17 anos Nicolau trabalhava “duro” na lavoura. “Nunca peguei na enxada depois do sol nascer e nem larguei antes do escurecer. Começava de madrugadinha e largava do trabalho na boca da noite”. Estudava o terceiro ano “puxado” no Grupo Escolar de Quatiguá, “que ficava uns dois... três quilômetros de casa”. Sua mãe já deixava o cavalo encilhado, comendo no cocho, com a barrigueira solta. “Eu vinha, me lavava no riacho, trocava a roupa, apertava os arreios e, sem janta, saia no galope prá a escola”. Estudava das 20 às 22 horas. “Nunca faltei um dia e até o professor me elogiou diante dos estudantes que faltavam e não justificavam. Aquilo me deixou muito orgulhoso e com vontade de me aplicar e aprender cada vez mais”, enfatiza seo Nicolau.

Acidente – A cidade não tinha luz elétrica e nem no sitio. Uma noite desabou uma tempestade violenta. “Eu preocupado com a família e com pressa de ir embora, montei e sai na disparada. De repente o cavalo bateu.. tunnhhff.... ajoelhou na velocidade e deslizou na lama. Me firmei na chincha e o cavalo aprumou. Relampeava muito. Dei uma olhada mal-e-mal, vi uma bicicleta e um homem caído, mas logo se levantou. Percebi que estava tudo bem e toquei em frente. O cavalo conhecia o caminho no escuro. Cheguei esbaforido em casa e o cavalo bufafa alto. Soltei ele, entrei, me troquei e fui jantar.. - Eu sempre jantava depois da escola”, diz aliviado. Dormia e na madrugada seguinte, antes do sol nascer estava nas lides com os animais e na roça. “A vida foi dura mas valeu a pena. A pobreza era tanta que as vezes a gente dividia um ovo cozido em quatro. Comia arroz, feijão e farinha, quando tinha”, recorda os tempos difíceis.

A volta – Nesse meio tempo o irmão Mariano terminou o exército e foi morar com a mãe e ajudar o Nicolau que já estava com seus 21 anos. “Nossa situação equilibrou e meu pai voltou depois de cinco anos. Não se envolveu mais e deixou os negócios por nossa conta”, relembra. A lavoura e os animais iam bem, mas não tinhamos arado. “Conseguimos um emprestado do vizinho e aí a produção aumentou. Trabalhar era comigo mesmo e até hoje trabalho no pesado com meus filhos lá no Acre”, garante seu Nicolau.

Casamento – Em 30 de maio de 1946 casou com Miroslava, filha de Bruna e Estanislau Musiel. “Namoramos dois anos”. Se encontravam somente quinta-feira, sábado e domingo. “No começo ela e eu ia nos bailes junto com o pai. Depois ele enjoou e eu ia com as três irmãs. Minha namorada era a do meio, portanto ia bem escoltado e vigiado”.. (risos). Casados, moraram no sitio. “Lá também tinha uma serraria que meu pai montou e a gente serrava as toras e tirava a madeira tudo no braço. Depois montei uma serra Tissot vertical”, mais conhecida como pica-pau, fazia dormentes com o Vasco (Wenceslau) e vendia muito para a estrada de ferro, em Joaquim Távora. Desta união nasceram: Edwin (casado com Maria do Socorro Bandeira), Leoní (João Marcos Durski), Edmundo (Edicléia Basso), Ervin (Ana Soares) e Leila. “Meus três filhos são pilotos de avião comercial e agricultores no Acre. A Leila tem dois brevês de piloto: avião e planador. A Leila nasceu aqui (Campo Mourão) e é pioneira na aviação mourãoense”, diz com orgulho.

Campo Mourão - Conheci, namorei Miroslava e casamos

Vacas gordas - “Eu estava casado e me dividia entre a lavoura e a cidade”. As finanças progrediram. “Com a volta do pai montamos uma carpintaria e quase não vencia os serviços, porque as construções eram bem feitas. Com meu irmão montei uma ferraria e fábrica de carroças, ferramentas e arados, que foi super bem. Em seguida montamos uma oficina de torno e solda industrial e fomos donos do Posto Atlantic”, recorda do progresso e das vitórias da família em Quatiguá.


Fim da guerra – No tempo da II Guerra Mundial acabou o fornecimento de gasolina e centenas de veículos automotores foram abandonados “onde acabou o combustível”, lembra. Compraram muitos destes automóveis deixados nas ruas, nas casas e até debaixo de árvores. “Desmontava tudo e aproveita a ferragem e as placas de aço como matéria prima na forja da ferraria”, explica. Lembra que o primeiro carro que tiveram foi uma “Baratinha”, 1924, Modelo “T” da Ford, com três pedais, duas marchas à frente e uma ré. ‘Normalmente pegava uns 30 quilômetros mas, na descida com vento a favor, chegava a uns 50 quilômetros por hora”, brinca, sorrindo, Nicolau. “Essa barata era fácil de manter. Era de um italiano, João Olívio, que entendia de ferramentas e nos ensinou todas as técnicas de fabricação. Já estava velho, meio cego, tinha abandonado a profissão e nos vendeu a sua oficina, com tudo”, fala com carinho seu Nicolau.

Ford T-29 

Não entendi ?! – Na serraria de Quatiguá “fabricava” dormentes (vigas) de eucalipto para a estrada de ferro. “Aprendi com meus pais que, o que é dos outros não se pega. Quero dizer: temos que ganhar, sem roubar”, explica Nicolau sobre honestidade. O “mestre” Galvão era encarregado de receber os dormentes e pagar. Um dia Nicolau foi descarregar o caminhão com o irmão Vasco. O “mestre” tinha tomado umas “pinguinhas e tava falando demais”. Primeiro elogiou os Macowski e disse: “Desse jeito não dá!!! - Uma carga dessa é prá ser vendida umas quinhentas vezes, e não só uma”. Nicolau, na hora não entendeu direito mas depois compreendeu. “O homem tava me propondo roubar a ferrovia. Acabou com a minha alegria. Saí fora prá não entrar na dele. Até parei de serrar dormentes”, lamenta. “Eu já tinha planos de me mudar e essa foi a gota d’água”, revela.

1951 - Os três filhos mais velhos nasceram em Quatiguá. Os mais novos em Campo Mourão. “Eu tomei gosto por serraria e viajei em busca de terra que tivesse bastante pinheiro”. Embarcou em um caminhão – Chevrolet Gigante/ Ano 47 - que fazia venda de farinha de trigo. “Vim de carona com mais oito aventureiros, na carroçaria coberta de lona”. Ali comiam e dormia nas beiras de estradas, sem destino certo. Rodaram Maringá, Paranavaí, Nova Esperança, “outras cidades por perto”.

Campo Mourão – Na volta prá Maringá, com o vendedor de farinha e os “aventureiros”, encontrou o amigo Angelin, “conhecido de Quatiguá” que morava “num tal” de Campo do Mourão. “Falei prá ele dos meus planos e me disse que aqui era o lugar certo. Me animei e vim. Demoramos seis dias até chegar aqui. Gostei tanto que me estabeleci. Depois trouxe a família e fiquei até hoje”, diz satisfeito.

Aventura - Chegar até Campo Mourão era uma epopéia. “Existiam uns arremedos de estradas. Muita poeira. O barro era terrível. Se formavam desvios e a viagem se tornava mais longa e cansativa. Vi muitos caminhões e automóveis enterrados e abandonados nas estradas, que viraram sucata porque os motoristas não conseguiam desatolar, acabava os recursos e iam embora”, relembra a situação precárias das vias de comunicação entre Maringá e Campo Mourão na década de 50. Nicolau Macowiski chegou no início de 51 e em maio trouxe a mudança. “Veio tudo em dois caminhões, até a serraria desmontada. Era pequena”. Se estabeleceu em Peabiru com o irmão Vasco, na Água da Lagoa, na região da Pedreira. Represou o Rio da Lagoa e montou a Serraria do Norte, movida à roda d’água.


Tive serraria em Campo Mourão

Na cidade - Construiu a primeira casa de residência na R. São José, entre as avenidas Manoel Mendes de Camargo e Goioerê, “uma das primeiras coberta de telhas de barro”, observa. A cidade estava se formando. “Água era de poço e coloquei uma bomba de sucção”.

Luz política – “A energia elétrica era gerada por um motorzão diesel, de submarino, que o Moysés Lupion mandou reformar e instalar na Usina. Tinha hora prá ligar e prá desligar”, recorda. “Era a chamada luz política”, criticou. “O maquinário sucateado foi tirado de um ferro velho. O governador mandou dar uma guaribada prá garantir votos. O técnico que instalou garantiu que ia funcionar por vinte dias. Durou um pouco mais: fundiu em vinte e dois dias e ficamos sem luz”... (rindo muito).

Em Luiziana - Quando o mano Vasco casou - (faleceu agora dia 04/01/2002) – acabou a sociedade. “Montei outra serraria, já com uma serra fita Scheaffer, cara, comprada em Ponta Grossa, que demorei mas paguei”. Se estabeleceu entre Bourbônia e Luiziana, próximo a uma queda de água de 15 metros do Rio Depositozinho. “O começo foi difícil. O dinheiro acabou e eu empregava doze famílias na serraria. Em cinco anos aprumei”. Vendia a produção para os Ferrari, Luciano Marmontel, Arno Goetz e Dal Paschoale.

Brasília - Os madeireiros ganharam muito dinheiro na construção de Brasília (DF) que começou em 1960 com o presidente da República, Juscelino Kubistchek de Oliveira (JK). “A roubalheira comia solta. Os compradores exigiam nota fiscal em dobro do que pagavam. Quem não fizesse, não vendia. Tive que fazer. Era o tal do superfaturamento que já se praticava naquele tempo e na época que eu vendia dormentes”, lamenta. “As falcatruas maiores eram em Brasília. Caminhão carregado entrava por um portão, saia das obras e entrava por outros portões, umas cinco a dez vezes, e cada entrada era paga”, denuncia. “Isso eu ví porque se não fizesse eu não vendia”, diz chateado.

Ladroagem e picarets - No Depozitozinho comprou terras do Pedro Cândido dos Santos (conhecido como Pedro Sanfona e Pedro Mentira). “Paguei e quando fui verificar na Inspetoria de Terras, o Pedro Mentira não tinha requerido e nem pago nada”. Aí foi um Deus nos acuda. “O doutor Rubens, que era chefe da inspetoria me pediu quarenta milhões de cruzeiros da época, prá regularizar minha terra. Embolsou e não fez nada. Fez isso com muita gente”. Nicolau estava com medo de perder tudo e a família passar necessidades. “Voltei várias vezes e a resposta era a mesma: está difícil, estou vendo, dizia o doutor Rubens e o Gumercindo (de Paula Xavier) que trabalhavam ali”. Um advogado de Peabiru, almofadinha, de certa idade, que tirava o chapéu ao cumprimentar as pessoas, todo galante, “me intimou três vezes para ir falar com ele, porque se dizia dono da terra que eu comprei do Pedro Mentira. Na terceira vez eu disse que não ia nunca e que se ele quisesse se acertar era prá me procurar. Mandei recado: venha com conversa séria. Nunca briguei e nem matei ninguém. Venha com honestidade senão acabo com você e com o feijão que você come. Não é assim que iam roubar meu suor e nem o pão dos meus filhos. O hominho não me perturbou mais, porém nada de registro da terra aqui na Inspetoria. Era tudo politicagem e carta marcada. Nunca fui político e não tinha pistolão. Por minha conta fui a Curitiba. Dinheiro no bolso. Imagine um caipira na Capital. Achei a Inspetoria do Estado na avenida Barão do Rio Branco. Andei igual tonto nos três andares e só via gente mal atenciosa e mal intencionada. Cochichavam e faziam os acertos. Vi lá o Miguel Balabuche, que era daqui, tomando chimarrão com os homens. Subi prá falar com o presidente mas um policial, deste tamanho ó, mandou em voltar. Desci e vi um homem, numa salinha, sozinho. Não tinha patota ali. Bati no vidro e o chamei. Contei minha história inteirinha. Ele consultou um livro e me disse: que não estava nada perdido e que eu tinha que dar uma certa quantia de dinheiro a ele que arrumava tudo. Pensei: lá se vai meu dinheiro de novo, mas arrisquei. Ele mandou eu descer, enrolar o dinheiro escondido num papel e, entreguei a ele. Parece milagre. Dali uma semana o Vinício Vecchi, da Casa Catarinense, me chamou em Peabiru . Me entregou um envelope daquele senhor e dentro tava o Título da minha terra. Finalmente fui dono e minha paz voltou. Trabalhei dobrado e feliz”... (risos).

Acreditei sempre - “Tudo que ganhei investi aqui e ajudei meus filhos a comprar aviões e terra em Xapuri (Acre), onde conheci o Chico Mendes, que era pau mandado dos americanos. Ganhava em dólar e foi matado pelo Jaci aqui do Paraná. Conheci o Jaci e o filho dele também. O Jaci até vendeu uma fazenda pro Bruno Ghering. Eram pessoas boas, mas pistoleiros.

Mania de voar - Primeiro compramos um Cesna 170 e depois um Cesna 180. Meus filhos tentaram o garimpo, taxi aéreo e até transportavam gente da Eletro-Acre. Ai o governo proibiu os brasileiros de explorar minerais e deram tudo pros americanos. O gringo que ficou com o garimpo dos meus filhos entrou lá com um avião DC-3 (Douglas bimotor) e eles saíram fora e se dedicam à pecuária e estão muito bem e voando por prazer”, conta satisfeito.


Aeoroporto - Campo Mourão

Vida tranqüila – Nicolau Macowski vive em paz entre Campo Mourão e Xapuri. Investiu em construções e até hoje tem o Edifício Leila na rua São Paulo esquina com a Av. Manoel Mendes de Camargo. Onde está sua bela residência, onde convive com a esposa, filhos e netos, foi o Hospital do doutor Odilon. “Era um médico meio estranho mas tinha boa clientela”, lembra seo Nicolau. “Ele colecionava armas antigas e até vendi prá ela uma pistola belga, de duas balas, que não quebrava prá baixo. Abria o cano do lado”, detalha. Além de investir em Campo Mourão, “cidade que gosto demais e onde tenho muitas amizades”, seo Nicolau nunca freqüentou mas é sócio fundador e contribuiu sempre com os clubes Mourãoense, 10 de Outubro e Country Clube e é um dos primeiros associados da Coamo.

Campo Mourão: Nicolau apicultor, caçador...

Também gosto de criar patos e porcos - Campo Mourão

Seus hobbies são voar, criar abelhas, criar animais e caçar. “Voar virou epidemia na familia.
Fazer mel é tradição desde a polônia, e mato onça só quando vão na fazenda comer nosso gado.
Já matei de duas numa vez, duas vezes, e de uma só, perdi a conta”. conclue com um sorriso largo.

Cesna 180