16/04/2011

Laura Pereira a Vó Pequena de Campo Mourão



 
Sabe por quê sou Vó Pequena??...
Não seja tão curioso menino, depois se me lembre, te conto!

“Quando a gente chegou aqui, Campo Mourão era um vilarejo. O transporte era carroça e tropas de mulas por picadas e rios sem pontes pelo meio da mata fechada. Meu avô Jozé Luis Pereira descobriu aqui e os Pereira começaram a povoar a região. Uma parte das quadras ali do Bradesco, das Pernambucanas e a da Policlínica era da minha família. Nem sei mais onde fica a chácara que agente morou perto do Rio 19, agora tem o Jardim Santa Cruz por ali, eu creio. Campo Mourão cresceu muito e tá tudo desmudado”, narra dona Laura.

Laura (Vó Pequena) Pereira Trochmann nasceu no Distrito de Palmeirinha, Município de Guarapuava, em 05 de maio de 1921. Neta do sertanejo Jozé Luis Pereira. Filha de Eulália (Dona Nêzinha) Carneiro de Campos e Manoel Silvério Pereira. “Meu pai era carpinteiro, marceneiro e foi Oficial de Justiça de Campo Mourão. Minha mãe lecionou como professora estadual em Palmeirinha e depois foi transferida para Campo Mourão, a primeira efetiva daqui”, registra dona Laura.

Os pais de Vó Pequena

Genealogia - Meus avós paternos eram Maria Silvéria Pereira e Jozé Luiz Pereira, e pelo lado da mãe, Brasiliana Moreira de Campos e Evaristo Antunes Carneiro. “Vó Pequena” é irmã de José (Zé Mineiro) casado com Odila. Ortolino (marido da Laurinda), Maria do Espírito Santo (casada com Alceu), Oliva, Manoel de Jesus (Nene Mineiro) casado com Luíza, Leonor (esposa de Dorvaívo), João Maria (com Luíza Marcinco) e Tércio (casado com a Cleusa). “Meus irmãos José e Manoel de Jesus trabalharam muito a favor de Campo Mourão, foram delegado, vereador e líderes políticos”, orgulha-se.


Aprendizado – “Em a Palmeirinha, meu lugar preferido de brincar era no pátio do grupo escolar, onde estudei com mamãe, pertinho de casa. Os bichinhos de brincadeira - boizinhos e porquinhos - a gente fazia de porunguinhos (cabaças) do mato. A única bruxinha (bonequinha) de pano que ganhei foi da tia Maria Isabel (Marica), que era costureira e morava no Capão Bonito, perto de Palmeirinha. Um dia eu tava perto do chiqueiro, a bonequinha caiu e os porcos comeram. Chorei muito. A tia Marica me ensinou a costurar calções e camisas para as crianças. Era uma máquina manual, de manivelinha. Um dia achei um resto de peça de tecido azul, fiz roupinhas para meus irmãos, com medo da mamãe brigar comigo. No fim ela me elogiou e disse que as roupas estavam bem feitas”, conta feliz pelo incentivo recebido.


Caseira – “Nunca fui de ir em festas. Até hoje não sei dançar. A mais dançadeira era a Santinha (Maria do Espirito Santo), apesar do nome”, risos. Sempre fui religiosa. Ia na Missa uma vez por mês e participava de novenas. Estudei até o terceiro ano do primário. Fomos muito bem educados e com respeito”, referindo-se à família.

Sempre que dá certo a nossa família se reúne, somos bastante unidos

Casa nova – Laura nasceu num rancho de pau a pique, chão batido e pequeno. “Minha irmandade casou, saiu de casa e o espaço aumentou. Depois papai construi uma casa maior, bem feita, coberta de telhas, assoalhada e forrada com todo conforto. Nós mocinhas fazia todos os trabalhos de casa. Sempre tinha umas meninas, dos sítios e fazendas de longe, que se hospedavam no nosso ranchinho, pra estudar. Como “pagamento” do pouso e da bóia, elas ajudavam a lavar roupa, arrumar as camas e limpar a casa mas nunca foram tratadas como empregadas. Eram nossas amiguinhas”, diz com carinho.

Meu marido era o homem maior de Campo Mourão

Casamento – Paulo Gonçalves Trochmann, nasceu dia 25 de janeiro de 1917, em Guarapuava. O pai José Gonçalves Siqueira, casado com Luíza Trochmann, era curtidor de couros e dono de sapataria. “Eu estava com 15 anos. O Paulo vizinhava nossa casa e a gente trocava olhares. Eu namorava ele da janela, de longe, ou por cima da cerca”, conta rindo dona Laura. Namoraram cerca de 18 meses, noivaram e em três meses casaram-se no dia 27 de março de 1938, em Palmeirinha. “Quem fez nosso casório foi o tio e escrivão Isauro Carneiro de Campos”, sorriu. Moraram um ano com os pais de Laura e nasceu a primeira filha, Angélica. Paulo trabalhou no Curtume e na Sapataria Karan e depois comprou uma parte da chácara do patrão, “e lá construiu nossa casinha”, lembra com saudade de Palmeirinha.

"Meu marido foi Delegado em Campo Mourão e meu irmão José Pereira Carneiro (Zé Mineiro) também, só que o Paulo era calminho e o Zé era esquentadinho"

Prole - Depois da Angélica (casada com Joaquim de Oliveira), nasceram: Clodoaldo, Eurico (Rosângela), Adilson (Margarida), Iolanda (Júlio Sentiuk), Ivani (solteira), José Maria e Maria. Três morreram pequenos. Os filhos já lhe deram 14 netos e 18 bisnetos. “Foi um filho atrás do outro. Eu não tinha tempo pra mais nada. Só pra família. Teve época que dava de mama no seio pra um e tratava os outros na boca, igual choca rodeada de pintinhos (pintainhos)”, gargalhadas. “Mas eu nunca tive dores e nem fiquei doente. A única dor, que nem me lembro mais como é, foi a dor dos nove partos”, diz satisfeita e agradecida a Deus.

"A minha filha Angélica (blusa branca) foi a primeira aluna matriculada no Colégio Santa Cruz pela madre superiora, irmã Marta Kleina"

Campo Mourão - A família Pereira Trochmann passou a morar em Campo Mourão em 1942, no auge da II Guerra Mundial. “Meu marido trocou o sobrenome pra Siqueira, com medo de represálias”, revela dona Laura. “Papai sempre estava por aqui, porque o parentesco Pereira é grande. Eu já conhecia tudo isso antes de mudar... de tanto ouvir falar no tal do Campo do Mourão, que meu avô começou a desbravar por volta de 1903”, recorda das histórias que ouvia ao tempo de menina-moça. No início, Vó Pequena, morou com o irmão José (Zé Mineiro). “Depois compramos uma chácara no Km 123 do Francisco Diurza, que se mudou e foi um dos primeiros moradores de Araruna”, lembra da chegada a Campo Mourão.

"Quando a gente e os vizinhos tinha muita roça pra cuidar, o povo se junatava e fazia mutirão de ajuda um do outro, só que a bóia era por conta  de quem chamava"

Picadas - Campo Mourão na década de 40 ligava-se a Guarapuava, Pitanga e Araruna por picadas, “estreitas e mal feitas pelo meio do mato, sem pontes nos rios”. Em 1945, Paulo Trochmann, abriu uma picada desde a chácara do Km 123 até à esquina da Rua São Paulo com a Avenida Capitão Índio Bandeira, “onde morava minha mãe (nos lotes atuais do Bar Aparecida, Relojoaria Fuchs e Casas Pernambucanas)”. Essa picada hoje é denominada Rua São Paulo. “Ninguém se preocupa em dar o nome àquela rua de Paulo Trochman. É só trocar o santo”, reclama dona Laura.


 
Bem aqui está a Casas Pernambucanas de Campo Mourão.
"Olha aí toda a família quando chegamos, e mais os que já estavam aqui"

Vilarejo – “Quando chegamos de carroças e a tropa, Campo Mourão não tinha cidade. Nenhuma diversão, nem médico ou farmácia. Tudo era difícil. As casas onde é o centro dava pra contar nos dedos. Onde está a Catedral de São José construíram duas capelas e depois uma igreja de madeira coberta de tabuinhas em 1942, quando veio o primeiro padre (Aloísio Jacobi) morar aqui. Na esquina da Rua Brasil e Avenida Irmãos Pereira tinha uma venda (Casa Iracema de Jocelino Araújo). Perto da casa da minha mãe era a padaria do seo Juca Padeiro (Farmácia Catedral). Em frente tinha a máquina de arroz do Teodoro Metchko (HSBC) que também projetava uns filminhos preto e branco, bem surradinhos, no depósito de sacaria da máquina. A tela era um lençol. Ali foi o primeiro cinema. Depois ele construiu o Cine Mourão com frente de material (nos fundos onde está o Banco Itau). “Nossa família tinha uma casa grande e uma pequena onde o Paulo chegou com a picada. Mamãe alugava portas comerciais. Naquelas salinhas se instalaram: o primeiro advogado daqui, Nelson Bittencourt Prado (três salas), o João Barbeiro e a relojoaria do seu Fuchs”, relembra.

"Antes de ter igreja no centro era tudo na Santa Cruz onde padre aparecia de ano em ano e quem tava juntado ele já casava e batizava os filhos deles, tudo juntos"

Pioneiro – “O Paulo era curtidor de couros de bois e instalou o primeiro curtume. Depois a primeira sapataria e mais tarde a primeira olaria de tijolos batidos, em Campo Mourão. O barro era sovado dentro de um picadeiro de madeiras e os cavalos rodavam aquela pá grande, o dia todo. O José Pedro era o oleiro. Isso tudo numa chácara bonita que compramos no fim da Rua Guarapuava, na beira do Ribeirão 119”, rememora Vó Pequena. “Esses dias andei por lá pra ver se lembrava onde ficava a chácara e não achei nada. Está tudo desmudado”, diz admirada do progresso de Campo Mourão.

 
Primeiro curtume de Campo Mourão foi o nosso

Curtume – “Lembro bem que o Paulo fez umas bicas quadradas (caixas) de tábuas e instalou uma baita roda d’água para tocar os monjolos e as moendas de amassar as cascas de Angico do Campo que confundem com o Barbatimão. Depois de trituradas, as cascas eram colocadas em camadas sobre os couros, para curtir. “Era assim, óóóó... uma camada de casca, um couro... outra camada de casca... outro couro”, explica gesticulando. “Ele usava esse mesmo Angico que tinha tanto aqui no Campo. Ainda tem uns poucos por aí mas o povo tá matando porque não sabe tirar a casca da árvore”, critica. O curtume produzia solas e vaqueta que é um tipo de couro fino e macio.


Campo Mourão tem Angico e Barbatimão que as pessoas confundem

Sapataria - Com a matéria prima do curtume Paulo Trochmann instalou a primeira sapataria de Campo Mourão, na Avenida Capitão Índio Bandeira, “onde, depois, tinha casa do doutor Manoel Andrade e o Dom Kichopp”, aponta dona Laura. Paulo Trochmann confeccionava e consertava calçados manualmente. “Fazia botas ponto-a-ponto (a torno com cravos de madeira na sola), as mais bonitas e procuradas da época, com costura embutida debaixo do couro e não entrava água”. Também fazia tamancos, chinelos e “bardanas” (sobre cela) enfeitadas pra segurar os pelegos sobre a cela das montarias. “Cavaleiro que usava bardana no arreio, era chique”, ensina rindo Vó Pequena. “As mocinhas mais velhas dos Perdoncini e dos Albuquerque levavam calçados velhos pra consertar. Uma vez as Perdoncini levaram uns retalhos de capa de boiadeiro (espécie de poncho de lã maciça) e daquilo o Paulo fez chinelinhos enfeitadinhos pra todas as crianças do seu João (Italiano) Baptista Perdoncini”, recorda.


Apuros – “Ainda lá em Palmeirinha, teve uns tempos que meu pai comprava e vendia animais pelo Paraná afora. Mamãe ganhava pouco do Estado. Numa dessas viagens meu pai sumiu por uns seis meses. Em casa começou a faltar recursos (dinheiro). Sorte que ele tinha feito uma roça e dali mamãe tirava boa parte da nossa comida”. Ainda não existiam as facilidades do telefone, telegrama e Internet. A comunicação era só por carta, que demorava dias ou meses para chegar. “Foi bem assim mesmo que papai avisou a mamãe, que estava por perto de Apucarana e... vivo”, conta apreensiva.


Colheitas – “Hoje você vê as colhedeiras (colheitadeiras) nas lavouras que perdem um monte de grãos. Quando a gente colhia o feijão era tudo na mão. Batia e separava a palha das sementes. Não se perdia uma sementinha. O que sobrava depois da varrição, era catado um por um, com os dedos”, explica. Da horta, dos porcos e das galinhas se aproveitava tudo, “até as penas mais macias para fazer travesseiros e acolchoados. Nada desses corta-febre que tem hoje por ai, tudo caro. Eu aprendi a costurar os acolchoados pra não amontoar as penas. Os colchões a gente mesma fazia. Comprava o pano, enchia de palha de milho desfiada e costurava. Dava gosto se afundar neles e se cobrir daquele jeito. Era tudo fofinho”, diz com satisfação.


Escola – A primeira escola de uma sala só foi instalada na casa de madeira da prefeitura em frente da Praça Getúlio Vargas. “Mamãe foi a primeira professora designada pelo Estado, para lecionar ali. Era uma porta, uma janela, meia dúzia de bancos toscos, uma mesinha e uma cadeira com acento de palha trançada pra a professora sentar. O quadro era uma tábua lisa (lousa) pintada de preto. A maioria dos estudantes do primário vinha a pé e alguns a cavalo. Os primeiros prefeitos vinham tudo a cavalo (José Antonio dos Santos, Pedro Viriato de Souza Filho, Devete de Paula Xavier e o Daniel Portela)”, recorda a ordem sucessória, com precisão.

"Minha mãe era uma esposa e professora muito organizada. Fazia relatório e controle do que meus pais recebiam e gastavam. Era uma espécie de guarda-livro manual"


Cadeia – “Mais pro lado da prefeitura, pros lados do posto de saúde (Museu Municipal), tinha um quadrado de madeira, de uns dois metros por dois, com gradinhas altas, um cômodo só onde colocavam os presos tudo amontoado. Tinha só um polícia para vigiar. Antes de 1950, fizeram a cadeia de madeira, coberta de tabuinhas, com portas e grades de pau e uma cozinha igual, ali na Avenida Irmãos Pereira, quase na esquina da Rua Araruna, ao lado do Cartório de Registro Civil e do Fórum velho (em frente onde era a Telepar)”, situa-se Vó Pequena.


A primeira coisa que se fazia em Campo Mourão, era rancho.

1949 – Paulo Trochmann vendeu a chácara pro Luiz Silvestre e a sapataria pro Durval Ivo e levou a família morar em Sertãozinho (Engenheiro Beltrão) onde montou um alambique e produzia cachaça, melado, rapadura e açúcar mascavo. “No começo ficamos num ranchinho a beira chão do compadre Ambrósio Berger. Fizemos nosso rancho de lascas de palmito, coberto de folhas de palmeiras e chão socado. As camas eram de paus do mato, colchões de palhas de milho rasgadas e travesseiros de pano cheios de paina, que tinha muita por ali”, descreve.


Destilaria de cana de açúcar no começo de Campo Mourão

Pinga – O comércio de cachaça deu certo. No começo o alambique era de cochos de madeira e a serpentina (filtro) do engenho era aquecida com fogo de lenha. “Padilha & Siqueira” (rótulo da pinga) vendia tudo que produzia. “O Paulo prosperou, comprou um motor a óleo diesel que tinha até buzina (sirene) para avisar os camaradas (empregados) às seis, às doze e às dezoito horas, para entrar e sair do serviço”. Depois foram instalados grandes toneis metálicos adquiridos em Ponta Grossa. “Um dos maiores compradores de pinga era o seu Francisco Albuquerque, mas o comércio forte mesmo, era em Maringá”, conta dona Laura.


Herança - “Meu acolchoado de penas é o mesmo que minha mãe me deu de presente no casamento e tenho até hoje, surradinho mas bonzinho”. Está com minha neta Denise. “Fiz umas três reforminhas no pano mas as penas são as mesmas. Só que a neta gostou tanto dele que não quer mais me devolver”, risos.

Viana – “Nós vimos Engenheiro Beltrão nascer, rodeado de imensos cafezais. O velho Joaquim Viana Pereira, era o “médico” do lugar. Receitava remédios baseado no livro denominado “Autor de Medicinas”. A maioria se tratava com curadores e benzedores. “Eu mesma nunca fiquei doente. A medicina que uso é a do mato: Falapa, casca de Pau-pra-tudo que dá um chá amarelinho e amarrrgooo... Guiné pra mau olhado colhida na Sexta-feira Santa e curtida no álcool; casca de Angico, folhas de Arnica e Carqueja do campo. Isso tudo dava muito aqui e é remédio, sem contra-indicação”, garante Vó Pequena.


Fim – “O alambique deu tanto dinheiro que construímos uma casa boa, aumentamos as propriedades. Um belo dia o Paulo me volta de Maringá com um cheba (caminhão GMC – Chevrolet), preto, novinho, que fez sucesso na região”. Com o caminhão aumentaram as vendas e barateou o transporte. “Depois o Paulo vendeu tudo, fiquei com essa casa aqui atrás do Carreira. Ele foi trabalhar de carpinteiro, deu de beber e morreu com câncer no estômago, no dia 7 de fevereiro de 1974”. Está sepultado na Capela da Família Pereira, no Cemitério São Judas Tadeu de Campo Mourão, “ao lado da minha avó, Maria Silvéria Pereira, a primeira pessoa a ser enterrada naquele campo santo, ao pé de uma árvore de cedro, que brotou e está ali até hoje”, concluiu dona Laura Pereira Trochmann, carinhosamente chamada Vó Pequena, uma pessoa alegre e feliz.

- Heyy!!  “Peraííí moço... (???) - Você sabe por quê uma neta me apelidou de Vó Pequena?? - É que eu sempre fui baixinha... passava por baixo do sovaco do Paulo e, de uns tempos pra cá, estou encolhendo... ficando cada vez menorzinha!!... volte aqui, daqui um mês, pra você conferir"...  gargalhadas.



A grande Vó Pequena de Campo Mourão hoje é Saudade


Dona Laura (Vó Pequena) faleceu lúcida, de causa natural, dia 21 de outubro de 2013, com 92 anos de idade. Está sepultada no primeiro túmulo da família pioneira dos Pereira, no Cemitério Municipal São Judas Tadeu, em Campo Mourão – PR.