10/04/2011

Jozé Luis Pereira - Raízes

JOZÉ LUIS PEREIRA

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O velho e destemido sertanejo, Jozé Luis Pereira, iniciou a povoação de Campo Mourão

O primeiro homem que galopou o chão do antigo Campos do Mourão e pisou o chão do Cerrado Mourãoense foi o sertanejo e desbravador de sertões, Jozé Luis Pereira. A primeira família que fixou residência e começou a povoar Campo Mourão foi a dos Pereira. Foram três tentativas frustradas para atingir a terra sonhada mas, o desânimo nunca tomou conta da fibra deste homem destemido. Há mais de 100 anos encontrou o tão sonhado Campos do Mourão e dia 16 de setembro de 1903 chegou de Pitanga, com sua família e se fixou na beira do Ribeirão 19, região do Jardim Santa Cruz, onde nada tinha e a cidade, que ali começou, hoje tudo tem.



Na beira do Rio 119 de Campo Mourão, onde se fixou, havia muitas vertentes e abundância de água

A saga do Bravo Sertanejo que tentamos resgatar em partes, contada pelo seu filho, em depoimento dado, na década de 50, ao pioneiro advogado e editor do primeiro jornal de Campo Mourão, Nelson Bittencourt Prado, cujos documentos originais foram resgatados pela Tribuna - Projeto Raízes, guardados a sete chaves pela família da Vó Pequena que também, acrescentou fatos a esse breve relato histórico.

A chegada da Família Pereira, em 16 de setembro de 1903  completou o 1º Centenário de sua fixação e o início da povoação de Campo Mourão em 2003, e passou em brancas nuvens sem qualquer comemoração das autoridades e setores culturais do município do qual é padrinho. Seu nome não é visto em nenhum ponto importante da cidade, a não ser uma vaga lembrança dos Irmão Pereira dado a uma  das avenidas da cidade.

Jozé Luiz Pereira - Nasceu em  1857. Deixou a Fazenda Cachoeira (Ilha Grande - SP) em 1897, a cavalo e carros-de-bois, rumo ao Paraná, em busca do “Campos do Mourão” do qual ouvia falar muito. Vendeu parte da fazenda onde viveu 40 anos, herança do falecido pai José Luiz Correa Dutra, e seguiu rumo ao desconhecido em busca de um sonho que, pela persistência, tornou realidade.


De Ilha Grande a Campo Mourão foram anos de busca constante

Travessias - No dia 13 de abril de 1897, Jozé Luiz Pereira, chegou a região de Guarapuava (Vila Atalaia) em companhia da esposa Maria Silvério Pereira. Da mãe e viúva, Maria Teodora Pereira. Dos irmãos Antonio Luiz Pereira e da filha Maria Luíza Pereira, casada com José Martins de Oliveira Melo, além dos filhos: José Cândido Pereira, Pedro Ovídio Pereira, José Barnabé Pereira, Antonio Almonia Pereira, junto com os cunhados: Luiz Pereira Silvério, Manoel Silvério Pereira e Sebastiana Silvério Pereira.

Guarapuava - A primeira parada efetiva dos Pereira, a partir de Ilha Grande, foi em Guarapuava, quando estava sendo constrída a ferrovia Paraná/Santa Catarina.
Depois Jozé Luiz Pereira morou na região de Pitanga. Durante cinco anos - 16 de setembro de 1903 até dezembro de 1908 - residiu em Campos do Mourão, também conhecido em Guarapuava, segundo João Rodrigues Monteiro (João Bento), como Campo do Abarrancamento do qual o Índio Bandeira fazia propaganda e tentava atrair os “caraíbas” (homens brancos) para que ali viessem morar no atual Campo Bandeira.

Guarapuava 

Saga - Depois de seis anos (1897/1903) e duas expedições frustradas pelas cheias das chuvas, parou mas não acreditou. Percorreu antigas trilhas e abriu novos caminhos na mata densa, a facão e foice. Atravessou florestas, rios e picadas antigas, muitas delas abertas por ele e seus companheiros e perdidas no tempo. Com tenacidade, Jozé Luis Pereira, encontrou o 'eldorado verde' do Campos do Mourão, avistado primeiro pelo filho Barnabé, ao subir em uma árvore na região onde está a Vila Guarujá.

Lavorista - Jozé Luis Pereira sobrevivia do trabalho em fazendas. Juntava dinheiro, se preparava e partia em busca do legendário Campos do Mourão ou Campo do Abarrancamento. Ele imaginava que um dos dois era falso. Queria o verdadeiro. O que ele não sabia é que ambos eram um só. Tanto duvidava que ao estar no local exato, aventurou-se até a margem esquerda do Rio Ivai, por picadas, em busca do Campo que imaginava.

Pistas - Na primeira tentativa de busca veio através de trilhas estreitas, abandonadas pelos revolucionários de 1893 e pelas marcas, praticamente apagadas, das primeiras expedições do “amansador” de índios “comendador” Marcondes (Norberto Mendes Cordeiro), Jorge Walter (o Russo), “coronel” Guilherme de Paula Xavier e outros requerentes – “da posse mansa e pacífica” - de 60.000 hectares de terra devoluta, divididos em 30 lotes de 2.000 hectares cada um, conforme registro apontado no Cartório de Imóveis de Guarapuava no dia 25 de setembro de 1893. Os requerentes declararam: “possuímos por posse mansa e pacífica desde o ano de 1880, uma área de campos de criar no lugar denominado Campo Mourão, neste Município (Guarapuava), onde existem casas de moradias e mais benfeitorias, assim como certo número de cabeças de gado vacum e cavalar, cuja área tem aproximadamente a extensão de 60.000 hectares....”. Seguem-se 25 assinaturas, dentre as quais, as de: Lauriana de Paula Marcondes, Rozendo Moreira Bahls, Hygino Honorato de Bittencourt, Norberto Mendes Cordeiro (comendador) e Guilherme de Paula Xavier (coronel). Esses posseiros não se fixaram, na época, em Campo Mourão. Utilizavam a área como ponto de parada, repouso das tropas e das boiadas que negociavam ao Sul do Estado de Mato Grosso e vice versa. Tropeavam pela picada que deu origem à Estrada Boiadeira (BR-487). Guilherme de Paula Xavier ia e vinha, até que em 1916 abriu a fazenda que denominou Santa Maria (região da Cama Patente) no seu quinhão de terra, perto de um rio que “batizou” de Ranchinho. Perseguido, refugiou-se ali da revolução imperial/republicana da qual participou entre 1893/1889.

Lento e rangedor, mas chegou a Campo Mourão

Sem rumo - Na primeira aventura rumo ao Centro-Oeste do Paraná, o Sertanejo atravessou o Rio Cantú e em certo ponto as trilhas sumiam. Nesta tentativa a comitiva perdeu o rumo e saiu na Campina do Votorin (região de Campina da Lagoa). Sem saber para onde ir, voltou à Guarapuava debaixo de fortes chuvas. No retorno mandou atravessar as perigosas e barrentas àguas da cheia do Cantú, tocou o primeiro  burro com toda a tralha afim de testar a produndidade das águas. O animal, obediente, entrou na água violenta, com toda a carga, rodou correnteza abaixo e nada foi recuperado. O animal morreu afogado

Jozé Luis Pereira fazia qualquer sacrifício a fim de encontrar Campo Mourão

Engano - Neste meio tempo (1900) o filho João Barnabé Pereira foi contratado no ofício de “carneador” pelo Batalhão de Engenharia do Estado do Paraná. A milícia era comandada pelo Capitão Caetano Albuquerque, organizada naquele ano para demarcar um traçado desde Guarapuava até o Noroeste do Estado (Fazenda Velha Bandeira - hoje Paranavaí) e tentar atingir a margem esquerda do Rio Paraná. Barnabé viu umas campinas (Amoral e da Lizeta) onde o Batalhão acantonou. Escreveu e contou ao pai. Pensou que tinha avistado o “Campos do Mourão”. O que ele não sabia é que estava bem próximo. Com a carta do filho - que pediu que alguém lesse, pois já não esta bem das vistas - Jozé Luiz Pereira recomeçou a incansável busca do “Campos do Mourão”.

O facão - Na segunda tentativa atingiu as campinas de capoeiras e imensos capões de mato, com prevalência de erva-mate, descritas pelo jovem Barnabé. Mas a trilha acabou. Chovia. Como se norteava pelo sol, as nuvens carregadas e o céu totalmente encoberto por vários dias, nada indicavam. Sentiu que estavam perdidos de novo. Ergueu o facão, esticou o braço direito, fechou os olhos e apontou um rumo a esmo. Seguiu. Não sabia pra onde. Mata virgem e fechada. Comitiva na frente. Picada nova rompia espaços para a passagem dos cargueiros. Saíram na margem direita do Rio da Vargem (como foi denominado por Jozé Luis Pereira), atual Rio da Várzea.

Quase - Procuravam o tal do ‘Campo do Abarrancamento”. Sabia ele, “por ouvir dizer”, que lá morava o tal índio Bandeira e sua pequena tribo de Kaigangues (remanescentes da nação Guarani). Temporada de chuva. Se perderam. De tanto rodar em busca de uma saída ou de um ponto final da viagem, saíram na mesma picada aberta há dias atrás.

Índio Bandeira - Nesta viagem foram localizados pelo índio Bandeira - conhecido em Guarapuava como capitão - quando tentavam atravessar o Rio da Várzea, que estava cheio e não tinha ponto de passagem. Astuto e mateiro Bandeira sabia da presença do branco. Jozé Luis pediu ajuda ao chefe índio. Este exigiu “pagamentos” em troca de informações. O pouco que a tropa tinha, estava no fim. Muitos dos alimentos já haviam acabado ou deteriorado com a umidade prolongada. Nada tinham para “trocar”. Bandeira então se “vingou”. Apontou em direção oposta. Enganou Jozé Luis Pereira ao indicar um rumo errado.


Pitanga - A comitiva não sabia que a região do Rio da Várzea e do Barreiro das Frutas era pertinho do “Campo do Abarrancamento” (atual Campo Bandeira) e que logo depois estava o “Campos do Mourão” tão procurado. Enganados pelo Índio Bandeira, alimento escasso, retornaram, desta feita à Pitanga, onde boa parte da família Pereira já morava. Ali Jozé Luiz Pereira, cuidava e explorava uma posse de terra de amigos guarapuavanos. Recuperou-se, abasteceu e partiu pela terceira vez.

Igrejinha, local da atual matriz, onde nasceu Pitanga

Picadão – O traçado do Batalhão de Engenharia resultou no “Picadão” aberto recentemente pelo Estado, a partir de Pitanga (hoje BR 158). Na legenda do Mapa do Paraná lia-se: caminhos não carroçáveis. O Bravo Sertanejo entrou na picada “mais confortável” e seguiu trilhas por ele demarcadas anteriormente. Nesta aventura “mais cômoda” chegou na margem direita do Rio do Campo (altura das Vilas Guarujá e Carolo).

Campo à vista - Contam os descendentes que um de seus filhos subiu em uma árvore alta e avistou o imenso cerrado. Atravessaram o estreito Rio do Campo. Jozé Luis Pereira montado em seu cavalo, feliz, explorou boa parte do lugar no galope. Primeiro, buscou uma boa “aguada”. Água boa para a família e os animais. Apearam e acamparam. Depois ateou fogo no capim e na capoeira para marcar a terra “descoberta” com tantos sacrifícios, idas e vindas frustradas.

Vai e vem - Sem se fixar nos campos do cerrado mourãoense, logo na chegada - dada as dificuldades de sobrevivência no sertão bruto e inóspito - os Pereira, amigos e parentes vinham e voltavam constantemente. Uns de Guarapuava e outros de Pitanga onde Jozé Luiz Pereira, já morava na “posse de terra” dos primos guarapuavanos, Manoel e José de Freitas.


Carroça dos Pereira - décado de 1910 - Campo Mourão

Ajuda - Sentindo o cansaço das aventuras, Jozé Luiz Pereira decidiu se fixar em Campos do Mourão, recomeçar a vida, trabalhar e tomar posse da terra. Pediu ajuda aos amigos fazendeiros de Guarapuava. Conseguiu 61 animais vacum (46 novilhas, 10 vacas, 3 touros e 2 bois), além de 20 cavalos, éguas, burros e mulas. Ganhou também duas sacas de sal grosso.
  
Mudança - Assim começou a vida de primeiro fazendeiro nos Campos do Mourão, onde chegou com a mudança, dia 16 de setembro de 1903. Construiu duas taperas e fixou residência na beira direita do Ribeirão 119 (Jardim Santa Cruz). Construiu um rancho de sapé e depois a primeira casa toda de madeira tosca, chão batido, coberta de tabuinhas, e mais outra. Uma do lado do Campo e outra no Campinho (margem esquerda do Ribeirão 119). A família Pereira tomou posse da terra entre as divisas de Peabiru e Farol até as proximidades de Janiópolis mas, segundo consta, naõ escriturou (registrou) em Cartório.

Primeiro casebre e junta de bois de Jozé Luis Pereira em Campo Mourão

Fixação - A família Pereira começou a plantar e criar animais. Entretanto, um após outro, os irmãos Pereira iam e vinham por estas paragens. Foram se fixando a medida que iam suprindo as necessidades. Entre os migrantes estavam: José Luiz Pereira, Antonio Luiz Pereira, Armando Luiz Pereira, Miguel Luis Pereira, Luiz Pereira da Cruz, o velho soldado-capataz capataz Bento Gonçalves Proença e Cezário Manoel da Costa. Outras pessoas também iam e vinham. Algumas se fixaram no Campo, caso dos primos: Herculano e Joaquim Moreira.
A família Pereira, numerosa, se dividia entre Guarapuava, Pitanga e Campos do Mourão. As dificuldades enfrentadas, eram muitas e grandes. Algumas pessoas ficaram. A maioria nunca mais retornou. Até mesmo Jozé Luís Pereira, não tinha parada. A aventura, a caça e a pesca eram suas preferências prediletas.

 
Família dos irmãos Pereira na primeira casa de madeira, coberta de taboinhas, chão batido construída em Campo Mourão, à margem direita do Ribeirão 119,  entre 1908 e 1920, abaixo do Jardim Santa Cruz. 

Morre o casal Maria e Jozé – Na tardinha do dia 17 de novembro de 1908 sua mulher, Maria Silvério Pereira, reunia o gado leiteiro, e num galope, caiu do cavalo e morreu. Viúvo e desgostoso com o passamento da companheira de lutas, Jozé Luiz Pereira, abandonou tudo em Campo Mourão em dezembro de 1908. Regressou à Guarapuava. Depois a São Paulo, onde visitou os filhos Luis, Sebastiana e Manuel. Deixou grandes posses. A maioria dos seus descendentes passou a residir em Pitanga e em Campo Mourão. Jozé Luis Pereira ajudou a região a se desenvolver de maneira heróica. Em seguida mudou-se para Mato Grosso onde, com idade avançada, casou com dona Ana. Em 1927 - com 70 anos - Jozé Luis Pereira, adoentado, faleceu na Fazenda Monte Alto, de sua propriedade, que abriu no município de Rio Verde (MT) e ali foi sepultado.


Título de Eleitor de Jozé Luiz Pereira
O original e o 'traduzido"


As caçadas de onça e cambutã (veado) rendiam couro de vender e carne de consumo



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