26/04/2011

José e Mariazinha em Campo Mourão


 
Gracias a la Vida


José Carlos Ferreira - o Médico

“Em 1950 viemos rumo a Campo Mourão em busca de dias melhores, na época dos “picaretas” e “jacus”. A região era vasta, despovoada e não oferecia conforto além da promessa de dias melhores aos bravos pioneiros que tiveram a coragem de enfrentar o sertão. Nunca mais sai de Campo Mourão. Aqui nasceu meu casal de filhos e vivo feliz, sem um inimigo e milhares de amigos”


José Carlos Ferreira nasceu em Soledade (RS), dia 19 de novembro de 1919. Filho do farmacêutico e coletor federal, João Ferreira Dias e de Julieta Loureiro Ferreira.. “A minha infância foi feliz, empinava papagaio, pescava no Poço Redondo e brincava com pedras coloridas, que existem em quantidade onde nasci. São ágatas. Estava com oito anos. Um dia quebrando as pedras grandes com martelo, uma lasca atingiu meu olho esquerdo e com o tempo perdi esta visão. Tenho uma destas pedras cristalizadas, que guardo como lembrança de Soledade”, mostra.


Familiares - “Nossa família é grande e unida (foto). Meus pais nos dedicaram muito carinho, atenções e estudos. Tenho sete irmãos: Talita, Sarita, Leopoldino, Gabriel, João, Júlio e Gilberto. Conclui o curso primário no Colégio Santa Inês das freiras, o ginasial em Passo Fundo, estudei em Santa Maria da Boca do Monte com irmãos Maristas, depois no Colégio Anchieta de Porto Alegre onde terminei o ginasial. Fiz o curso de pré-médico no Colégio Júlio de Castilhos, também em Porto Alegre”, detalha.


José Carlos Ferreira médico de Campo Mourão

Médico – “Me formei em Medicina (foto), dia 18 de dezembro de 1947, pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre”, explica. “Durante o curso conheci o médico Osvaldo Silveira, amigo da minha família em Soledade, proprietário de hospital em Concórdia (SC). Me especializei em obstetrícia, pediatria, enfermaria e clínica geral. A doutora que me ensinou pediatria, amava crianças, era dedicada e exigente .Aprendi muito com ela, principalmente o segredo da hidratação com soro, que naquele tempo era novidade. Você sabe que criança adoece em bloco - toda ela - e o segredo para salvá-la é a hidratação”, revela.

Ciumeira – “Em 1947 eu, recém formado, o doutor Silveira levou um tiro no ombro esquerdo e ficou impossibilitado de clinicar. Ele era “valiente”, brigão, se meteu em encrenca e levou um balaço. Era um excelente cirurgião. Me pediu para atender o seu hospital enquanto se recuperava. Foram seis meses, e imagine a minha responsabilidade. Eu era inexperiente, mas enfrentei com amor à minha profissão e às pessoas. Tive sucesso. Nos seis meses que fiquei no hospital não morreu ninguém. A disenteria (gastrointerite) matava muitas crianças e com a técnica da hidratação via soro, salvei todas, o que me valeu a confiança, principalmente, da Colônia Italiana de Concórdia, onde havia maior incidência de casos. O médico voltou e pensei que ia me deixar continuar. A comunidade estava contente com meu trabalho, mas ele simplesmente me dispensou. Temia talvez, perder a clientela, ou teve ciuminho do meu trabalho”, conta rindo.

Namoro – “Em 1949 fui convidado e assumi, sozinho, um dos hospitais de Tangará. Depois levei meu irmão Leopoldino, também médico, para trabalhar e morar comigo. Nesta cidade residia minha futura namorada e esposa, Lygia Maria Piccoli (Mariazinha), nascida dia 25 de março de 1929, filha do comerciante Gualtiero Reynaldo Piccoli e Adelaíde Möeller Piccoli que, além dela, tiveram Beatriz, Tila e Gualtiero Filho. Uma tarde estava eu jogando ping-pong (tênis de mesa) com amigos e vi aquela moça parada me olhando fixamente. Modéstia à parte, eu jogava bem. Pensei que admirava minha habilidade. Frequentávamos o mesmo Clube Social de Tangará. Conversávamos. Soube que ela estava noiva, mas havia terminado o compromisso. Estava de olho em mim, e eu nela”, risos. 

 
Lygia Maria Picolli orgulho de Campo Mourão/PR

“De família boa, Mariazinha era uma moça prendada, diplomada em Contabilidade pela Escola de Cruz Alta”, elogia. 
Já em Campo Mourão, com os filhos ainda pequenos, Lygia Maria (Mariazinha) concluiu o curso de professora na Escola Normal João d’Oliveira Gomes, formou-se Psicóloga na Faculdade de Mandaguari/PR, exerceu as funções de orientadora educacional da Escola Normal e a de diretora da Fecilcam - Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, onde sua imagem destaca-se na Galeria de Ex-Presidentes.


Lygia Maria de Almeida Picoli e José Carlos Ferreira 
matrimônio antes de Campo Mourão

Casamento - Da amizade nasceu o namoro. “Casamos dia 28 de julho de 1949 na igreja matriz de Tangará (foto). Temos um casal de filhos nascidos em Campo Mourão: João Carlos Piccoli Ferreira, médico cardiologista em Curitiba, casado com Lygia Maria de Almeida, médica veterinária que leciona na Faculdade de Veterinária de Curitiba. Minha filha Wanda Maria Ferreira Di Migueli é psicóloga em Florianópolis, esposa do médico Ulisses Veras Di Migueli. Até agora tenho nove netos e espero ter mais: José Henrique, Alexandra, Pedro, Bruno, Victor, Maria, Joana, Rosa e Sebastião”, sorri feliz. “Campo Mourão me deu esta felicidade de manter minha família com dignidade, investir no bem estar e nos estudos da minha esposa e dos meus filhos. Graças a Deus”, enfatiza.


"Mariazinha e nosso casal de filhos" em Campo Mourão

Colonização - “Do Norte do Paraná até Campo Mourão as cidades nasciam e se desenvolviam rapidamente graças a terra boa para lavoura, especialmente café. A Cia Melhoramentos Norte do Paraná (Cianorte) loteava as cidades. Quem vendia terra era chamado “picareta” e quem comprava, “jacu”. Lotes de cem alqueires eram vendidos aos fazendeiros, a maioria de São Paulo e lotes de trinta alqueires aos empregados dos “coronéis”, explica.

Por acaso - Em Campo Mourão a Inspetoria de Terras, da Secretaria de Estado da Agricultura, tinha a missão de vender, porém sem medidas. Foi o período de ocupação, entre 1950 e 1960, que mais se matou gente na vasta região de Campo Mourão, por causa das brigas pela posse da terra. “Aqui existiam: donos de enormes áreas de terra, os posseiros, os grileiros e os jagunços (matadores)”, explica José Carlos Ferreira. 
“Os picaretas rodavam, de kombi, as cidades dos estados de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul em busca dos "jacus" que transportavam até Londrina para negócios com a companhia de colonização. Muitas pessoas não queria nem conversa porque sabiam que por aqui faltava de tudo. Até médico. 
Certa feita um desses "picaretas" passou por Tangará, conversou com meu mano Leopoldino e lhe ofereceu perspectivas de trabalhar como médico na região que se abria com mil e uma dificuldades. Em Campo Mourão a kombi parou. O pessoal se hospedou no Hotel Central. Ali estava o inspetor de terra, advogado Homero Quadros de Oliveira. Soube que meu mano Leopoldino era médico e o convidou para trabalhar na Colônia Mourão.

Meu mano Leopoldino Ferreira foi médico em Campo Mourão

Concorrência brava - "Lá em Tangará, cidade pequena, não víamos muito futuro e a concorrência era brava. Tinha outro hospital e mais dois médicos hostis, da família Teixeira Pinto. Eu e o Leopoldino fazíamos planos de mudar para um local mais promissor. Ele ficou muito amigo do doutor Homero. Abriram uma salinha de madeira onde foi escritório do Sady Parigot de Souza, imediações da antiga Santa Casa de Misericódia, na Rua Brasil. O inspetor Homero ganhava dinheiro que nem água e gastava bem também. Meu mano viajava muito com ele. Eram dois boêmios. Naquela época o presidente Eurico Gaspar Dutra fechou os cassinos e muitas mulheres vieram para a região nova do Paraná, também aventurar, ganhar dinheiro. Surgiram as zonas (zbm) e as boates. Deu no que o doutor Homero gostava e meu mano também. Era solteiro e eu casado. Numa dessas o Leopoldino recebeu a oferta de tocar um hospital aparelhado em Cambé/PR. Aceitou e me convidou para tomar conta da salinha no vilarejo de Campo Mourão. Ele elogiou muito o lugar e me garantiu que eu me daria bem aqui”, explica.


Moramos na rua Brasil, em frente a Prefeitura de Campo Mourão

Campo Mourão – “No início de 1950 conversei com a Mariazinha, ela topou e viemos com a mudança em cima de um caminhão. Uma viagem penosa e demorada. Estradas ruins e quando chovia, a gente parava. Aqui nos hospedamos em uma casa (foto) do Sady Parigot, que depois adquiri, na Rua Brasil, defronte onde está a Prefeitura e trabalhava um pouco acima onde era a salinha médica. Aqui chovia direto por causa das florestas. Depois eu comprei um automóvel Aéro-Willys. Cansei de encalhar no barro vermelho, em frente da minha casa e ali ficava atolado. Quando secava era um poeirão, o terror das donas-de-casa”, sorri.

Hospital – “Pouco tempo depois o doutor Werneck Batista, secretário da Agricultura, autorizou a construção de um pequeno barracão de madeira, com quartos, para ser o Hospital de Campo Mourão, ali mesmo onde tinha a salinha médica. O médico Manoel Andrade e a professora Leony já moravam aqui.Vieram um pouco antes de nós. O hospital estava sempre cheio. Então convidei o doutor Manoel e ele aceitou trabalharmos juntos. Morria muita gente de malária e febre amarela, picadas de mosquitos que proliferavam no Rio Ivaí e nos afluentes da região de Campo Mourão. O “hospital” improvisado pelo Estado era completamente desaparelhado, de madeira. Atendíamos de tudo e a todos: partos, baleados, cortados, leprosos, maleitosos, tudo que você possa imaginar, com ínfimo grau de mortalidade. Nosso negócio não era ganhar dinheiro e sim, salvar vidas. Sempre cobramos o justo de quem podia pagar. A maioria não podia, mas atendíamos com a mesma dedicação”, narra.


'O Dr Manoel Andrade - primeiro à direita comendo melancia 
- foi meu maior companheiro em Campo Mourão'

Casos – “Logo que cheguei a Campo Mourão, meu primeiro caso grave foi um rapaz de Pinhalão (Farol) vítima de apendicite rota (peritonite aguda). Apêndice estourada. Entende? Fui chamado às pressas. Sai de Campo Mourão às 16 horas e cheguei lá às 04 horas da madrugada. Chovia. Tive que trazê-lo, com todo sofrimento, até o hospitalzinho. A Mariazinha me ajudou a operar. Liguei uma lâmpada de 500 velas em cima e operei. Fiz o dreno. Retirei o apêndice e ele sobreviveu. Passados trinta anos nos encontramos. Me deu um abraço gostoso. Outro dia estava em casa. Me chamaram. Vi um rapaz de uns 15 anos estirado no assoalho do hospital, com enorme rombo no abdome causado por um tiro de cartucheira (espingarda chumbeira) de matar onça. O doutor Manoel Andrade ajudou a fazer a cirurgia. Retiramos 93 centímetros do intestino delgado e suturamos. Foi uma beleza a operação. Esse menino tinha um bocó (sacolinha a tiracolo) feita de couro de onça. Na caçada, mata fechada, o pai viu aquele pedaço de pelugem malhada e atirou. Era o filho que salvamos”, conta emocionado. 
“A nossa sorte é que os corpos tinham os organismos virgens de antibióticos, ao contrário de hoje. Basicamente usávamos nas curas infecciosas: penicilina, estreptomicina; a sulfa como cicatrizante e no tratamento da lepra”, revela doutor José.


Mosquito era praga na região de Campo Mourão

Malária – “O mais grave aqui era a malária (mosquito anofelino) e a febre amarela (aedes egypti). De cada cinqüenta internos morria a metade. A situação chegou a tal ponto que pedi à Mariazinha e as crianças irem para Tangará, morar com os pais dela. Inclusive de Tangará, no verão podia-se ir ao litoral, pegar uma praia numa boa, como fomos várias vezes. 


 
José Carlos Ferreira e Mariazinha de Campo Mourão

O Manoel e eu não fugimos, arriscamos e ficamos. Eu queria aprender a vencer aquelas febres. Sobrevivi e consegui. Um moço de família forte chegou morrendo. Eu disse que não podia fazer nada. Levaram-no a São Paulo, de avião. Perto de Londrina agravou-se. Pararam e ele morreu. 
Dois médicos, da Fundação Rockefeller-USA, souberam e vieram até Campo Mourão tomar pé da epidemia, mas não descobrimos a causa. Me pediram um pedaço de fígado de vítima da malária para biópsia em São Paulo. Um dia antes, um senhor de Guarapuava, atacado de malária pediu-me para escrever e enviar uma carta à sua família. Fiz e mandei. No outro dia amanheceu morto e me entristeceu muito. O pedaço de fígado que mandei era dele e a causa foi descoberta. Para cá veio uma equipe de vinte a trinta homens do Ministério da Saúde a fim de vacinar a população mourãoense em massa, contra a febre amarela. Quem tinha jeep ajudou a transportá-los e cessou o efeito. Acabou. Contra a malária não tem vacina. Tem que matar o mosquito anofelino. Os casos de febre amarela eram horrorosos, mas o resultado final foi fantástico. Vencemos a epidemia”, fala contente da sua luta.

Hospital São Pedro
Av Manoel Mendes de Camargo x R. Curitiba (atual R. Roberto Brzezinski)

Investimentos – “Construímos o Hospital São Pedro (foto) na Avenida Manoel Mendes de Camargo esquina com a Rua Roberto Brzezinski, no início de madeira e depois em alvenaria, que está ali até hoje. Sempre gostei da terra. Tive um sítio com quarenta mil covas de café em Pinhalzinho (Janiópolis). Depois plantei cento e quarenta mil covas de café na Fazenda Soledade, arredores de Barbosa Ferraz”, conta.


Lygya Maria de Almeida Picoli Ferreira
Professora e diretora da Facilcam de Campo Mourão.

Morre Mariazinha – “Foi lá que a Mariazinha caiu do cavalo e morreu duas horas depois. No dia 18 de setembro de 1991. Ela montou para dar uma volta, como sempre fazia, porque gostava e cuidava dos animais. O cavalo era ligeiro. Dado momento, assustou, disparou e estaqueou de chofre. A Mariazinha voou por cima da cabeça do animal, caiu de ponta-cabeça e teve traumatismo craniano. Entrou em coma. Duas horas depois faleceu aqui, no Hospital São Marcos e está sepultada em solo mourãoense (Cemitério São Judas Tadeu)”, conta entristecido, com os olhos marejados de lágrimas.

 
José Carlos Ferreira, Antonio Teodoro de Oliveira e Manoel Andrade, 
receberam títulos de 'Cidadão Honorário' de Campo Mourão/PR

Contente – Sou feliz por estar em Campo Mourão desde 1950. Nunca me afastei daqui. Trabalhei até novembro de 1999, quando me aposentei aos 80 anos de idade. Participei de muitos momentos importantes da cidade. Sou apolítico. Fundamos o Country Clube e o Clube 10 de Outubro do qual sou sócio remido. Creio que nas minhas mãos nasceram mais de cinco mil crianças da primeira geração mourãoense. 
Inimigo? Se tenho não sei! Só recebo carinho e gratidão dos que me visitam ou me cercam nas ruas de Campo Mourão. Fiz minha parte, tenho certeza. O Município reconheceu nosso trabalho e outorgou ao doutor Manoel Andrade, ao ex-prefeito Antonio Teodoro de Oliveira e à minha modesta pessoa, o Título de Cidadão Honorário. Ao completar o jubileu de ouro, na qualidade de médico sem máculas na profissão, recebi o Diploma de Honra ao Mérito da Associação Médica, o que muito me envaidece”, mostra os quadros na parede. Aqui concretizei meu objetivo: salvar vidas!



Terezinha – Viúvo, sozinho, hoje adoentado, José Carlos Ferreira, contraiu o segundo casamento dia 11 de novembro de 1994, com a professora de Geografia e aposentada, Terezinha Elvira Valezi, que a maior parte da sua vida cuidou dos pais, já falecidos, José Valezi e Angela Girardi Valezi. Terezinha nasceu dia 11 de dezembro de 1943, em Barretos (SP). “A escolha não poderia ser melhor. É uma excelente companheira”, enaltece doutor José. “Sou feliz. Tenho uma família maravilhosa e moro numa bela cidade, crescente e de um grande futuro”, concluiu José Carlos Ferreira.