31/03/2011

Raízes de Campo Mourão na Ótica de Gilmar Cardoso

AS RAÍZES SEGUNDO WILLE BATHKE JÚNIOR

Filha da memória, sobrinha do tempo – nascida do testemunho de homense mulheres destemidos – a História é símbolo de permanência e avanço.

Ciente de que tudo aquilo que não se compartilha, se perde e através dos versos contidos na “Cantiga de Recordar”, da poetisa maior, Helena Kolody: Doce lembrança orvalhada / de madrugadas antigas./ Fumaça de chaminé / subindo na manhã fria. / Florescida malva-rosa / debruçada no jardim. / Uma revoada de sonhos / na vida que amanhecia. / Cantiga de recordar... / Ai, que saudade de mim! 
Procurei interpretar o real sentido da palavra “raiz” e pude observar que dentre outros significados, traduz “a parte oculta de qualquer coisa enterrada, cravada, embutida ou fixada em outra; o germe, o princípio, a origem; a ligação moral, o vínculo, o liame”. Então, compreendi a intenção do nosso talentoso contador de causos, exímio narrador e exemplar tradutor de emoções; o também pioneiro mourãoense, Wille Bathke Júnior.
Ao embrenhar-se na árdua tarefa de trazer à público as reminiscências daqueles que ajudaram a construir a História de Campo Mourão, o jornalista Wille Bathke Jr, assume um compromisso com a própria cidade, de não deixar esvair-se com a chegada do progresso natural, aquilo que ela tem de mais sagrado que é a sua própria memória. 
Tudo na vida é memória, momento ou esperança, aquilo que se pretende eterno precisa ser no mesmo tempo e no mesmo espaço, memória, momento e esperança. 
Informativo diário das microrregiões de Campo Mourão, Pitanga e Vale do Ivaí, o Jornal TRIBUNA, comemorou seus 33 anos de idade, atingindo a meta a que se propôs, com maturidade, eficiência, credibilidade e acima de tudo, brindando seus leitores com um jornalismo sério, imparcial, dinâmico e objetivo; aos mourãoenses, que aqui nasceram ou escolheram viver, em especial, agiu com duplo acerto, primeiro ao eleger o projeto editorial “Raízes”, que está sendo publicado com sucesso nas edições de Domingo, onde resgata a história dos pioneiros através de seus próprios depoimentos.
Depois, ao escolher alguém que pudesse estar à altura dessa honrosa tarefa, com uma pena leve, um texto gostoso de se ler, que sabe do que está falando, por também fazer parte dessa plêiade. 
Como um verdadeiro púlpito, onde todas as opiniões são veiculadas com liberdade, sem censura, a TRIBUNA, através de seus Diretores Nery José Thomé e Dorlly Benthien Thomé, mensura doçura e rigidez, habilidade e eficiência, e demonstra-nos a todos, que definitivamente, qualidade se faz com pessoas.
“Verba volant, scripta manent” – as palavras voam, os escritos ficam – na exata tradução do provérbio latino, desenha-se a intenção de relatar a História, por escrito, para que não se perca no tempo. É sabido que a partir do crepúsculo da Pré-História e da aurora da história registrada, civilizações nasceram, floresceram e declinaram, tendo sua influência ficado estritamente limitada pelos fatos geográficos.
Todos os grupos, todas as instituições se sentem obrigadas a escrever sua própria história, não apenas a que já transcorreu, mas a que passa diante de nossos olhos, uma história presente. Daí, a importância dessa obra, para percebermos a evolução da nossa história, de sua diversidade cultural e nos darmos conta da síntese que nossos antepassados representam. Ninguém ama aquilo que não conhece.
Não sabe o que está perdendo, quem ainda não assistiu a ilustrativa palestra proferida pelo Wille Bathke Jr, onde faz um resumo histórico de Campo Mourão, uma viagem onde insere-a num contexto global dos 500 anos do descobrimento do Brasil... Uma aula!.. Recorda-nos, por exemplo, que os exploradores espanhóis utilizaram-se um trecho milenar denominado ‘Caminho de Peaberu”, freqüentemente percorrido pelos mais diferentes povos indígenas, que iam de São Vicente (litoral paulista) até a região de Assunção, dali seguindo até os contrafortes andinos e vice-versa. Este caminho, mais tarde conhecido por “Caminho de São Tomé”, passava exatamente onde hoje se situa a cidade de Campo Mourão, explica em tom professoral.Wille Bathke Júnior, afirma ser importante que se registrea ação humana, no ontem e no hoje, como agente do processo histórico onde o povo é seu verdadeiro criador. Não tem a História como uma descrição de fatos e personagens isolados de seu tempo e de sua sociedade. Não!
A História, para ele, não pode ser apenas composta de nomes e de cronologia. É a presença e a atuação de homens e mulheres na vida social, agindo e transformando o mundo. 
Buscando as “Raízes”, explica-nos que o topônimo “Campo Mourão” trata-se de uma homenagem ao Morgado de Matheus, D. Luiz Antônio de Souza Botelho Mourão, governador da Capitania de São Paulo no período de 1765 - 1776. 
Na dependência genealógica, conta-nos que Campo Mourão desmembrou-se em 10.10.1947 de Pitanga, que em 30.12.1943 originou-se de Guarapuava, que emancipou-se em 17.07.1852 de Castro, que desmembrou-se em 24.09.1788 de Curitiba, que em 29.03.1693 se originou de Paranaguá, criado por Carta Régia em 29.07.1648. 
O resgate histórico através do projeto “Raízes” representa a fé na cultura e tradição de um povo. Revela a inesgotável dimensão das esperanças no grande futuro do Brasil a partir da reconstituição de nossa história, para que todos possam desenvolver ampla consciência da cidadania. 
Sugiro publicamente aos editores, para que acrescentem mais uma página às 57 previstas inicialmente, para que seja destinada à contar a história do próprio contador e sua família, que aliás, se confunde com o próprio surgimento da querida Campo Mourão, com um marco de religiosidade na região do Jardim Santa Cruz e com o aparecimento dos primeiros programas de rádio local.
Com as bênçãos do Padroeiro São José, parabéns aos pioneiros que estão sendo magistralmente retratados nessa obra de arte; parabéns ao Jornal TRIBUNA, visionário e futurista sem esquecer-se do passado; e por fim, parabéns ao Wille Bathke Júnior, que sabe tal qual Fernando Pessoa, que todo aquele que deseja ser universal, deve antes cantar alto a sua aldeia.

* Gilmar Aparecido Cardoso, advogado, poeta, membro da Academia Mourãoense de Letras e da Academia de Letras do Paraná