23/03/2011

Moysés Wille Lupion de Tróia


Empresário e Governador do Estado do Paraná
1947-1951 e 1956-1961


 Moysés Lupion nasceu em 25 de março de 1908, na cidade de Jaguariaíva (PR). Filho do padeiro espanhol João Lupion de Tróia e Carolina Wille Lupion, teve uma infância pobre, ajudava a família vendendo amendoim na estação da estrada de ferro de Jaguariaíva, sua cidade natal.
Em 1924 concluiu os cursos primário e ginasial na Escola "Duílio Calderari", no Ginásio Paranaense e (à noite) o de contador (guarda-livros) com o professor Raul Gomes, em Curitiba.
Aos 16 anos foi para São Paulo e começou a trabalhar na firma Ribeiro & Sguario e estudou Economia (à noite) na Escola “Álvares Penteado”. Posteriormente foi admitido na firma A. E. Carvalho, que operava com serrarias e exportações de madeiras, da qual foi gerente e sócio.

Em 1930, Lupion casou em Piraí do Sul - PR, com Hermínia, filha de Pedro Rolim de Moura e Joana Hilário Borba. Hermínia era neta do sertanista Telêmaco Borba, pai de sua mãe.

Moysés e seus irmãos construíram o império Lupion, que administrava 47 empresas espalhadas pelas regiões Sul do Brasil, a maioria no ramo madeireiro, além de siderurgia, fabril, transportes, colonização, agricultura, pecuária, mineração, navegação, assistência técnica contábil e jurídica, tudo sob a coordenação de Moysés Lupion, desde o escritório central, no Edifício Sulacap (Sulamérica Capitalização), sede central do Grupo Lupion, na esquina da Rua XV de Novembro x Av Barão do Rio Branco, no coração de Curitiba.


Irmãos Lupion

Interventor Manoel Ribas - As atividades empresariais, e o poder econômico de Moysés Lupion o aproximou do interventor Manoel Ribas que o convidou a entrar na vida pública. Foi o primeiro governador paranaense eleito duas vezes pelo voto direto. Lupion assumiu publicamente a missão de transformar um estado imberbe em uma das potências federativas do Brasil. As pessoas do seu convívio destacavam a sua dedicação ao trabalho e o apego ao Paraná, como perfil político e pessoal de Lupion, que governou o estado, durante uma fase conturbada do Paraná.

Primeiro Governo 1947-51 - Moysés Lupion foi eleito Governador e tomou posse em 12/03/1947. Foi um dos pioneiros do Paraná que compreendeu a grandeza potencial do interior. Assumiu o compromisso de fazer o Paraná crescer. Como governador construiu rodovias que melhoraram as condições de transportes de safras dos produtores rurais paranaenses. Lupion governou vivenciando os ciclos econômicos da erva-mate, da madeira, do café e da agropecuária. O Paraná era um imenso território inexplorado, apenas parte de suas terras era ocupada e as diferentes regiões não se integravam. O Paraná se resumia, praticamente, a região Sul do estado e Curitiba.
O governo Lupion integrou a geografia e os povos do estado, abrindo estradas e as fronteiras das terras roxas do Norte novo. O paranaense que às vezes levava dez dias para atingir um povoado, porque não tinha transportes e nem estradas começou a ter a vida facilitada para o escoamento da produção para os centros de consumo.


Lupion na visita de Juscelino Kubistchek - revista às tropas

As obras urgentes de infra-estrutura possibilitaram rendas indispensáveis para o desenvolvimento do Paraná. Prevendo a etapa econômica da industrialização, Lupion implantou o primeiro plano energético do estado.

Lupion criou municípios e abriu estradas no Oeste e Norte do Paraná.
Foto em Campo Mourão, com Francisco Albuquerque (centro) e pref. Devete de Paula Xavier (dir)


Segundo Governo 1956-61

Lupion cumprimenta o povo no dia da posse, em 31 de janeiro de 1956

Após percorrer o estado inteiro em campanha, Lupion se reelegeu pelo voto direto, em outubro de 1955. Assumiu o governo em 31 de janeiro de 1956, eleito pelo Partido Social Democrático - PSD - (mesmo partido do presidente da república Juscelino Kubitschek de Oliveira) com a intenção de finalizar as obras de infra-estrutura empreendidas em seu primeiro mandato. As obras das áreas rodoviária, elétrica e portuária foram retomadas. A colonização do estado continuou, agora as novas fronteiras eram as do sudoeste paranaense.

Um processo semelhante a do noroeste paranaense se deu no extremo oeste por controle de companhias colonizadoras (a CITLA - Clevelândia Industrial e Territorial Ltda) que manejavam com agricultores, colonos, posseiros, jagunços que se serviram de extensas áreas férteis, ainda sem a presença de uma burocracia pública montada, para o desenvolvimento paranaense.

Discurso de Moysés Lupion - posse de 1956:

" Agradeço, Excelentíssimo Senhor Governador Adolpho de Oliveira Franco, as atenções e as palavras de Vossa Excelência para comigo nesta oportunidade. Considero uma honra sucede-lo no Governo do Estado, suceder a sua dignidade e à sua inteligência. Não posso deixar de considerar como obrigação minha dizer ao Paraná o meu pensamento e os meus sentimentos a respeito dos encargos cívicos que assumo. E preciso multiplica por tantas vezes quantas for possível, as possibilidades dos homens que ocupam o comando na função pública, para informarem ao povo dos seus objetivos, dos seus planos e das suas ações. E um direito de cada cidadão do Paraná, neste momento do meu pensamento político e do meu pensamento administrativo. Considero uma obrigação vital manter expressas e claras as minhas intenções diretoras. Os discursos da natureza do presente não podem ser discursos formais, se eles não querem ser uma traição ou uma injustificável negligência ou esquecimento. Hão de ser oporem idade de dar satisfações ao colégio democrático do Estado.
Antes, porém de fazê-lo, permita-se-me aproveitar a ocasião para um gesto de sentido puramente íntimo. Quero agradecer o entusiasmo com que, em nossa campanha eleitoral, fomos cercados e animados por todo o Paraná, Município por Município. Distrito por Distrito.
Quero agradecer fundamente, quero abraçar daqui em agradecimento cada um daqueles homens, mulheres ou crianças, que, naquele momento tiveram uma vibração nobre, cujos olhos se animaram ou mesmo choraram ou mesmo riram de entusiasmo.
Quero agradecer também os que estavam silenciosos, mas em sua consciência esperavam em nós.
Quero agradecer a todos esses que, pensando no Paraná, com a sua consciência, silenciosa ou animadamente, o colocaram em nossas mãos.
Que Deus me conserve por todos os dias do Governo, a extrema fidelidade, a pureza da emoção cívica dos homens sinceros que pensando no Paraná puseram em nossas mãos esta parte substancial do destino do nosso Estado. Tanto quanto pode valer a fragilidade dos compromissos humanos, eu lhes prometo essa fidelidade.

A posse de Lupion - 31/01/ 1956 - teve, ao seu lado, o Presidente da Assembléia, Antonio Anibelli, no conhecido Palácio Rio Branco, em seguida discursou no Palácio do Iguaçu, sede dos Poderes Executivo e Legislativo do Paraná no Centro Cívico de Curitiba.

Entrevista com a Imprensa após a posse

Após percorrer o estado inteiro em campanha, Lupion se reelegeu pelo voto direto, em outubro de 1955. Assumiu o governo em 31 de janeiro de 1956, eleito pelo Partido Social Democrático - PSD - (mesmo partido do presidente da república Juscelino Kubitschek de Oliveira com a intenção de finalizar as obras de infra-estrutura empreendidas em seu primeiro mandato.
As obras das áreas rodoviária, elétrica e portuária foram retomadas. A colonização do estado continuou, agora as novas fronteiras eram as do sudoeste paranaense. Um processo semelhante a do noroeste paranaense se deu no extremo oeste por controle de companhias colonizadoras (a CITLA - Clevelândia Industrial e Territorial Ltda) que manejavam com agricultores, colonos, posseiros, jagunços que se serviram de extensas áreas férteis, ainda sem a presença de uma burocracia pública montada, para o desenvolvimento paranaense.



Lupion e a Usina de Campo Mourão

Na foto de 1949, Lupion  lançou a pedra fundamental da usina hidrelétrica de Salto São João, no rio São João, em Campo Mourão, região noroeste do estado. A placa continha o seguinte letreiro: Plano Hidro-elétrico Moises Lupion.
O governador foi um pioneiro no desbravamento dos sertões paranaenses. As suas empresas abriram caminhos para o sudoeste e o seu governo colonizou o norte novo do Paraná. O povoamento paranaense nos 1940-50 marcou-se pela diversidade. O Paraná possuía uma faixa litorânea ocupada pelos primeiros povoadores; o 1º planalto, influenciado pelas culturas da colonização italiana, alemã a polonesa; O 2º planalto, os Campos Gerais, de Guarapuava, descendo para o sul,- uma região madeireira e criadora de gado - até Palmas, com um tipo de civilização em que predominava a influência do tipos de economia a que se dedicava a indústria extrativa e o gado; o norte pioneiro já a mostrar o início da influência paulista e mineira e com uma cultura de café implantada ha alguns anos.
E por fim, o norte novo e noroeste, influenciado pela colonização migrante de São Paulo e Minas Gerais e imigrantes oriundos do Japão.

Uma das serrarias do complexo Lupion - com estrada de ferro propria

Após vender a sua parte da firma Carvalho, nos inícios dos anos 30, Moyses Lupion conseguiu reunir dinheiro suficiente para entrar no ramo madeireiro, em sociedade com José Possato, em Cachoeirinha (Arapoti-Pr). As duas serrarias que foram instaladas - Rio do Peixe e outra no Rio Lambedor, de água sulfurosa - impulsionaram os negócios de Lupion, que pôde em 1933, convidar seu irmão David Lupion (com quem convivera em São Paulo) para dirigir uma terceira serraria, a de Capão Bonito, na Lapa. A firma expandiu com filiais nas cidades de São Paulo e no Rio de Janeiro, onde comprou a Destilaria Corumbá (Guaraná Maué).

Moysés Lupion se diferenciou como empresário por ser um pioneiro em empreendimentos de grande alcance econômico. Frutos da rentabilidade do ramo madereiro, o Banco Bamerindus, a indústria do papel de Jaguariaíva, sua cidade natal, a PISA - Papel de Imprensa S.A., o Jornal "O Dia", adquirido em concorrência pública em 1946, As empresas do Grupo Lupion, a Auto Comercial Ltda - concessionária Chevrolet; Postos de Serviço "Energia"; Mineração de Carvão Norte do Paraná Ltda., com escritórios em Curitiba, Rio e São Paulo; Indústrias Reunidas "Cacique" S.A. - fabricantes de ferragens para construções, com distribuição para todo o Brasil; Serrarias Reunidas Santisi S.A.; Indústrias Lupion Ltda - indústria e exportação de madeira, navegação e colonização; Brasil Reflorestamento e Celulose Ltda. - "Celubrás"; Universal S/A - Representação, Importação e Exportação; S.A Vita Matte, Indústria & Comércio, empresas que influenciaram a economia não apenas do Paraná, mas de boa parte do Sul do Brasil, do Paraguai, Argentina e Uruguai. Diversificação de empresas e atividades, Lupion construiu-a antes de assumir a governança do Paraná, em 1947.

Lupion conhecia os riscos de ser responsável de um estado como o Paraná e suas dificuldades. Em relatório apresentado à Assémbléia em 1957 discorreu que "(...) O poder público nem sempre pode e talvez muitas vezes, de fato, não deve resistir àquela pressão (atender à demanda por empregos no estado). Essa é uma questão complexa. E é nesse sentido que dizíamos de início que prestações de contas com a presente devem criar um novo tipo de diálogo entre os governantes e a opinião pública, para melhor orientação dos governantes. O poder público nem sempre pode resistir àquelas pressões. Será culpa disso, em grande parte, a própria imaturidade política do ambiente, pelo qual os governantes não são responsáveis. Poderiam sobrepor-se à imaturidade política do ambiente se estivessem num regime ditatorial, mas todos estamos de acordo em que tal remédio, sem curar a doença, antes retardando cada vez mais a sua cura, é, além disso, pior do que a própria doença". Em 1950, os servidores públicos do Estado eram 13.000, em 1956, o corpo de funcionários do Estado atingiu 32.000.
A campanha Seu Talão Vale um Milhão teve no episódio da Guerra do Pente, em dezembro de 1959, um fator de protesto público com a situação sócio-econômica do estado.
Fonte: Revista Divulgação Paranaense, julho, 1960


Obras no Palácio do Iguaçu. Lupion deu andamento às obras do Centro Cívico,
de acordo com os planos iniciais do governador Bento Munhoz da Rocha Neto (1951-56).

Lupion assinou contrato de financiamento da continuação das obras da Utelfa, Usina de Figueira, fundamental para a ampliação do sistema elétrico do Paraná, em 1960.
Inauguraou em 1960, o Hospital das Clínicas, uma das grandes obras iniciadas no governo Lupion.


Lupion e Juscelino ouvem o reitor da UFPR Flávio Suplicy durante a inauguração dos prédios da reitoria, em 26-04-1956, durante jantar de recepção.
Neste mesmo ano Inaugurou trecho pavimentado da Rodovia do Café entre Apucarana e Ortigueira.
Importou ambulância dos EUA para atender os rodoviários e o DER criou uma Cooperativa que prestava assistência hospitalar, radiológica, dentária, escolar, recreativa e jurídica, além da produção e venda de mantimentos a um preço mais acessível aos associados

Fim de Lupion
Veio a fase política que culminou com uma "feroz campanha de difamação, e que serviu de base para a dilapidação de seus bens", conta por sua vez o advogado Otélio Renato Baroni. "Apossaram-se de tudo e nunca prestaram contas de nada, incluindo importâncias em dinheiro, jóias e outros bens arrolados no inventário de D. Hermínia Rolim Lupion. Nomearam interventores designados pelo Serviço do Patrimônio da União, que se auto-intitularam diretores das empresas controladas pelo grupo Lupion, e passaram a vender e alienar sem respeitar os direitos legítimos dos acionistas. As interventorias foram constituídas por decisão do então Ministro da Fazenda António Delfim Netto e o confisco de bens pelo então Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid". "Em Arapoti, conforme vistoria judicial em nosso poder, havia 5,8 milhões de árvores plantadas sendo a maioria representada por araucárias. A interventoria promoveu uma devastação avassaladora e a área está sendo loteada pelo Incra, para reassentar os desapropriados de Itaipu. Até agora, 430 famílias já foram ali instaladas, enquanto o governo tenta vender a Indústrias Brasileiras de Papel, como parte do programa de "desestatização" do Presidente Figueiredo". (Tribuna do Paraná, 15/03/82).
Moysés, que havia entrado na política como um dos homens mais ricos do País, sairia da política alguns anos mais tarde, como o Paraná todo sabe, pobre vilipendiado, passando a lutar para salvar o patrimônio que ainda sobrara da sanha devoradora de amigos de ontem transformados nos credores de hoje.

Moysés Lupion, faleceu aos 83 anos, em 1991, pobre como o garoto de Jaguariaíva,
depois de ser o empresário que construiu - antes de ser eleito governador em 1947 -
uma das cinco maiores fortunas do Brasil.

Mesmo pessoas ligadas a partidos políticos contrários ao Partido Social Democrático (PSD) presidido então por Lupion, o admiravam e respeitavam.
Era tido como estadista de grande visão estratégica e ousado.

Estranhamente - o autor da Lei que criou o Município de Campo Mourão - não é lembrado por placas ou em prédios públicos, em logradouro nenhum da Cidade. O Posto de Saúde que hoje hospeda o Museu Municipal é mais uma de suas obras pioneiras em Campo Mourão.

Wille Bathke Jr