
A Pitanga do Campo
Dia 16 de novembro de 1950, nosso primeiro dia em Campo do Mourão. Amanheceu claro, quente e sufocante. À quem vivia no clima variado mais tendencioso ao frio de Curitiba, foi um choque térmico violento. Mesmo assim, o dia estava bonito, com poucas nuvens no céu.
Meu irmão Rubens e eu acordamos cedo depois de dois dias
de viagem em jardineira, com acentos duros de madeira (Curitiba a Campo do Mourão) e uma
noite mal dormida em cima de cadeiras pretas almofadadas adquiridas da Moveis
Cimo, cheirando verniz, no salão de júri do casarão do Fórum da recém criada Comarca. Era a única construção que tinha janelas com vidraças (sem venezianas) e cobertura com telhas Santa Terezinha, de Irati-PR.
As duas salas da frente eram reservadas ao Juiz e ao Promotor. O Cartório ficava na porta dos fundos. Na frente tinha uma plaquinha preta com letras brancas escrito FÓRUM de viés, e um mastro verde-amarelo de hastear bandeira.
As duas salas da frente eram reservadas ao Juiz e ao Promotor. O Cartório ficava na porta dos fundos. Na frente tinha uma plaquinha preta com letras brancas escrito FÓRUM de viés, e um mastro verde-amarelo de hastear bandeira.
1950 - Fórum de Campo Mourão e Rubens Bathke
Foto: Rogério Prado
Assim como entramos na noite anterior, saímos pela segunda janela
envidraçada de erguer. Pulamos e perto, uma cerca de ripas, sem portão, separava o imóvel da
justiça de um terreno vago na esquina da Av Irmãos Pereira com a Rua Francisco
Albuquerque, ali abandonado por muitos anos, edificado a bem pouco tempo.
O Rubens pulou a cerca, eu o acompanhei e, nisso, nos
deparamos com algumas frutinhas atraentes, vermelhas, alaranjadas, verdes em plantas quase
rasteiras porém robustas, espalhadas pela área toda no meio da vegetação
diversa de carrascais. Era uma quiçaça comum do cerrado.
Catei uma bem graúda, de um vermelho escuro intenso, macia, e perguntei
ao mano: será que dá pra comer?
A gente não conhecia, e ele respondeu:
Provei, comi umas, gostei e ele foi no embalo. Viu que não morri, devorou. Nos empanturramos – entremeio tinha muitas gabirobas verdinhas e madurinhas mais doces que pitangas - que estalavam na boca... plóc.
Aproveitamos para conhecer a ‘cidade’ que nada mais era que algumas casas esparramadas feitas de madeiras, cobertas com tabuinhas lascadas de pinho, portas e janelas do mesmo material fechadas com trancas fixadas com um prego ou tramelas, por dentro. A delegacia, a prefeitura, a cadeia eram desse jeito. Os presos entravam e saiam a hora que queriam, mas eram 'proibidos' de fugir e se acaso o fizessem a polícia ia na captura não para prender e sim para matar. Aí o medo falava mais alto, ou cuspia chumbo o treisoitão.
Energia elétrica não tinha. Pavimentação não existia. Água encanada também não.
-Pó e formiga saúva?
-Tinha demais !!
Casa Iracema, Pensão Bom Jesus, Sapataria Paulista, Hotel Central
e Bicicletaria do Doni Leal e auto-falante em cima, logo após o Fórum
e Bicicletaria do Doni Leal e auto-falante em cima, logo após o Fórum
Andamos cerca de meia hora e vimos tudo. Não tinha 20 casas - era menos - além da Igreja igualmente inteira de madeira que se arvorava no ponto mais elevado da topografia e é o centro referencial de tudo.
Destacavam-se os armazéns e os bares, uma pensão e três hotéis simples. As ruas e avenidas largas não pavimentadas chamaram nossa atenção pelas suas amplitudes, planejadas para uma futura cidade grande. A futura praça ocupava duas quadras, entre as ruas Araruna e Harrison José Borges (antiga Ceara) e as avenidas Irmãos Pereira e Índio Bandeira, cortada ao meio pela Rua Francisco Albuquerque (antiga Paraná) que passava perto de um grande e majestoso bosque de Copaibeiras, enquanto a escola isolada, prefeitura e câmara funcionavam de parede e meia em uma casa só na Av. Índio Bandeira quase na esquina da Rua Brasil. Onde está o Ed. Mourão era o pátio e almoxarifado municipal que possuía um Caminhão Ford, uma Motoniveladora Caterpílar e um Trator de Esteiras com grande lâmina na frente para terraplenagem, derrubada das árvores e abertura das vias públicas.
Destacavam-se os armazéns e os bares, uma pensão e três hotéis simples. As ruas e avenidas largas não pavimentadas chamaram nossa atenção pelas suas amplitudes, planejadas para uma futura cidade grande. A futura praça ocupava duas quadras, entre as ruas Araruna e Harrison José Borges (antiga Ceara) e as avenidas Irmãos Pereira e Índio Bandeira, cortada ao meio pela Rua Francisco Albuquerque (antiga Paraná) que passava perto de um grande e majestoso bosque de Copaibeiras, enquanto a escola isolada, prefeitura e câmara funcionavam de parede e meia em uma casa só na Av. Índio Bandeira quase na esquina da Rua Brasil. Onde está o Ed. Mourão era o pátio e almoxarifado municipal que possuía um Caminhão Ford, uma Motoniveladora Caterpílar e um Trator de Esteiras com grande lâmina na frente para terraplenagem, derrubada das árvores e abertura das vias públicas.
Os poucos carros (autos) que circulavam, em intervalos demorados - a maioria dos anos 40/50 - deixavam para trás nuvens
de poeira que, na velocidade, levantavam da terra castigada pela seca e sumiam no meio dela.
BR-158 - Roncador/Campo Mourão adiante da Vila Guarujá
e Horto Municipal
e Horto Municipal
Nesse curto reconhecimento paramos para
conhecer a casa da tia Anita e do tio Chico, que alguém nos indicou, na
antiga rua Paraná, atual Francisco Albuquerque, esquina da Av Índio
Bandeira, oportunidade que conhecemos os primos e primas da família Albuquerque,
sobrinhada da nossa avó Idalina, irmã de Francisco Ferreira Albuquerque, que
ela o chamava de Cuta, ambos nascidos na Lapa - PR.
Foi aí que ficamos sabendo que a frutinha vermelha chama-se
Pitanga e a verde Gabirova entremeadas ao Juá espinhento e vermelhinho, a Capota peludinha verde,
Ariticum cascudo e a Cereja do campo rochinha igual de árvore, a maioria extinta ou rara, ceifadas pela
urbanização.

Cereja do campo e de árvore se parecem
Estas frutas do campo, além das que dão em árvores, foram alimentos das famílias de tribos nativas, dos animais e aves que povoavam abundantemente o cerrado mourãoense e as matas primitivas em seu entorno, em toda extensão dos pinheirais e madeiras nobres, do imenso Vale do Ivaí ao Piquiri.

Diz a lenda que só nasce pitanga e gabirova onde tem lagarto e lagartixa -verde. Na época tinha bastante. Hoje, raramente, são avistados e as plantinhas das frutinhas, da mesma maneira, estão desaparecendo quase que por completo.
Lagartixa do cerrado ligeira qual um raio
PITANGA
GABIROVA
PITANGA
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