25/06/2011

Tiros e Sangue na Poeira de CM

 

Tiros e Sangue na Poeira de CM 
Conta Amélia de Almeida Hruschka

"Sabe...  entre 1950/60 Campo Mourão era um farvestão melhor que filme americano. Era tudo ao vivo, real e a cores. Matavam muito, todo dia pelos sertões e até na cidade. Uma das vítimas desse bang-bang mourãoense foi o pai de uma amiga minha. Mataram ele dentro de uma churrascaria. Pedi ao meu pai se deixava eu ir no velório com ela?! Ele não deixou, de jeito nenhum. É que acreditava que nesses velórios de gente 'matada' dava muitos bandidos que marcavam as pessoas testemunhas, e depois as matavam" - (queima de arquivo).
Tinha um tal de Pedro Candinho, que matou até a mulher. Esse pistoleiro era piolho de velório. Ele atocaiava (se escondia) no caminho que a pessoa passava, e matava a traição (pelas costas). Á noite ele ia no velório só pra escutar os comentários e ouvir se alguém falava da 'coragem' e da 'fama' dele. Era sádico.
Uma certa manhã eu eu vi que mataram um tal de Dutra (não o soldado, esse era outro), na rua Araruna, pouco abaixo do antigo Hotel Brasil, da dona Dalva. Não sei porque cargas d'água, me chamaram a fim de cuidar do corpo ali estendido no pó. Campo Mourão não tinha funerária. Pegamos o homem, todo melecado de sangue misturado com poeira e o tiramos do meio da rua... levamos pra uma casa ali perto. Estava tirando aquele roupa imunda dele, e parei na cueca. Pedi que algum homem a tirasse... pra mulher não pegava bem fazer isso. A casa lotou de curiosos e parentes... sei lá!! Mas ninguém quis tirar. Aí chamei um policial presente, apelei pra autoridade dele, e ele me ajudou. Dei banho no corpo. A água ficou mais cor de sangue e barro de pó, do que água. Pedi e me deram uma camisa e uma calça... vesti ele (sem cueca), descalço e o pusemos em cima da mesa, esticadão. Tinha vários balaços pelo corpo e um tiro no meio da testa, que não parava de verter sangue. Entupi o buraco com algodão, mas não estancava. Peguei uns palitos de fósforo e calquei bem o algodão, tipo uma rolha, daí parou... fazer o quê?
Arrumei o velório e fui pra casa fazer almoço. Nem comentei nada com meu marido (Alfonso Hruschka). Estávamos comendo... eu usava uma aliança larga, de ouro, cravejada de diamantes... -Naquele tempo podia, né? -Não tinha assaltantes como hoje!.. rindo.
Fui dar uma ajeitada na aliança, que estava meio virada, olhei e vi...(écaa)... estava cheia de sangue encalacrado, assim por baixo, sabe?.. disfarcei... abaixei a mão e limpei no vestido, em cima da coxa... olhei de novo, estava limpinha e continuei almoçando!

Um outro dia fui procurar a Lucila Traple, que era sócia da boutique A Triunfal, do Beno Nadolne, na Irmãos Pereira. Era ao lado do antigo Armarinhos Continental. Em frente da loja vi uma vaga. Estava manobrando meu fusca vermelho... tinha um carro preto na frente e um jeep cinza atrás. O Celso e a Greice eram pequenos e estavam sentadinhos no banco traseiro... aí ouvi uns tiros bem pertinho de mim, quase no meu ouvido esquerdo... olhei e vi um tal de Manézinho do Pinhalzinho (Janiópolis) com o revólver na mão, fumegando. -Atirou e matou o rapaz que estava sentado no jeep... morreu na hora, de cara sobre o volante.
Rapidinho juntou gente por ali. Teve alguém que me disse: -some daqui dona, senão vai sobrar pra senhora! - Me mandei e até esqueci o que eu tinha pra falar com a Lucila.

Mas, entre 1950 e 1960 isso parecia normal em Campo Mourão. Teve um mês de dezembro, entre o Natal e Ano Novo, que ocorerram 36 mortes - seguidinhas - por facas e tiros, só na cidade. No mato não sei.

Em 1950/51, quando a gente vinha com papai e amigas minhas de Londrina, em direção à nossa fazenda em Goioerê, eu falava pras meninas: agora todo mundo se abaixa... estamos passando por Campo Mourão!! 
Elas se encolhiam, assustadas, e perguntavam: porr quêê isso Améélinha?? E, eu dizia: é por causa dos tiros, aqui sai bala pra todo lado, toda hora!!

Moço, coloca aí The End, igual dos filmes de bang bang, tá?!"


Narrativas de Amélia de Almeida