23/06/2011

Amélia Hruschka a Mãe de Campo Mourão





  

Amélia de Almeida Hruschka

Dona Amélinha.

  
Cheguei a Campo Mourão com 23 anos

Amélia de Almeida Hruscchka (Amélinha) nasceu em Lins (SP), dia 19 de fevereiro de 1933. Filha de Maria Gonçalves e do agricultor José Marques de Almeida. É a terceira filha entre  sete irmãos: Eliza, Gil, Amélia, Elídio, Lands (falecido), Luíza e Benedita (Ditinha). "Ainda menina, em Lins, eu gostava de ouvir o Fiori Gigliotti, na rádio local", referência ao mais famoso narrador esportivo do Brasil, também linense, "que inclusive, compareceu e foi homenageado em Campo Mourão." Faleceu logo depois, aos 77 anos, na madrugada do dia 8 de junho de 2006, vítima de câncer de próstata, e está sepultado no cemitério do Morumbi, em São Paulo.
 
"Fiori foi homenageado em Campo Mourão"

1949 - "Papai vendeu a terra de Cafelândia (SP) e em 1949 veio conhecer Campo Mourão e comprou a Fazenda Santa Cruz, em Goioerê. Plantou 250 mil pés de café. Era uma plantação linda de se ver", lembra Amélinha.

1950 - "De início ele veio sozinho e deixou a família, que amava, em Londrina. Aqui era perigoso de se morar.... um baita farvestão" comenta. Mas logo ele construiu uma casa na Rua Santa Catarina e trouxe a família. "Era difícil a ele ficar aqui sozinho, entende?... o que eu vi na chegada, era um miolinho de poucas casas, a maioria uns ranchos, e em volta capoeira e mato cerrado... foram tempos difíceis, mas bons" ressalta. "Todo mundo logo se conhecia, fazia amizade rapidinho, uma família ajudava a outra, e assim se vivia bem aqui" elogia a hospitalidade dos pioneiros. "Papai perdeu umas três ou quatro safras de café por causa das geadas. Aí ele mudou a lida pra pecuária e criava gado de corte. Até que se deu bem",  relata a fase de crise recuperada.

 
"Cafezal em flor, mas geado, não dá nada. 
Seca e morre" igual em Campo Mourão.

Ladrões de moças - "Papai tinha filhas moças (bonitas), e morar em Goioerê, nemm pensarr!... lá faltava mulher e quando tinha ou aparecia alguma, os jagunços vinham a cavalo, armados até os dentes, invadiam as casas e roubavam as donzelas e se o pai, irmãos ou alguém os enfrentasse, eles matavam!. papai se pelava de medo, que isso acontecesse com nós e, é por isso que nos deixava em Londrina e depois em Campo Mourão. Mas aqui também era violento. Não tanto assim a esse ponto de roubarem mulheres. Não precisavam roubar. Era só descer no fim da Rua Santa Catarina, abaixo da nossa casa, que tinha a mulherada da vida, na zona, e eles iam lá e deixavam as moças de família em paz.".. fala meio assustada. "Ainda temos a fazenda em Goioerê, mas está arrendada, e meus pais já faleceram", lamenta.

 
Padroeiro de Campo Mourão

Santinho no pagamento - "Cheguei a Campo Mourão, com 23 anos, formada professora pela Escola Normal de Lins." Amelinha foi normalista do tempo da blusa branca, saia azul marinho escuro, pregueada; meias soquete brancas e sapato colegial preto brilhante. "As normalistas ficavam charmosas nesta roupa, e eram super paqueradas" diz toda vaidosa.



"O Instituto Santa Cruz abriu uma vaga, me apresentei e fui contratada pela irmã superiora, Marta Kleina, em 1952. Me pagavam Cr$ 300,00 por mês. Uma mixaria que não dava pra nada!.. Aliás, não mudou muito até hoje a situação dos professores, né?!". 
Me lembro que o dinheiro (cruzeiros) vinha dentro de um envelope e, junto, um 'santinho' de São José, nosso padroeiro mourãoense."
"Eu me recordo de alguns alunos meus: Diógenes Teodoro de Oliveira, Ademar Kaul irmão do Aldo, Pedro dal Pasquale e a Maria Enilda Teodoro que depois foi vereadora." nominou.
 

Festa e flertes - "Por falar em São José, as festas do padroeiro ali no galpão, na praça elevada do lado esquerdo da igreja, todo dia 19 de março, são inessquecíveiss... coisa maiss linnda!!! Era muita gente!.. amigos, famílias inteiras. Papai tinha muita amizade com seu Geremias Cilião de Araújo, com o prefeito Roberto Brzezinski, com o tabelião  Pitico (Harrison José Borges), com o advogado Nelson Bittencourt Prado, com o escrivão Ville Bathke que registrou meu casamento... e tantos outros. Se ouvia muita música no alto-falante, que os moços dedicavam pras moças (-fulano dedica para aquela moça  de vermelho, com muito amor... era assim!). As mocinhas iam, pelo meio do povo, com cestinhas e vendiam fitinhas enfiadas num alfinete que espetavam (delicadamente) na lapela ou na camisa dos moços e homens e eles colocavam dinheiro na cestinha. Cada um dava quanto queria ou podia. Era assim que elas angariavam fundos doados à igreja. Tinha bailão e leilão de prendas. Nessa festa a gente aproveitava pra flertar (que hoje falam paquerar) um pouquinho. Era namoro à distancia. Os olhos falavam pela gente (risos). Isso, sempre, com a marcação severa da mãe.. do pai e dos irmãos. O barracão paroquial era todo decorado com fitas e bandeirolas coloridas, de papel, coladas num barbante comprido e penduradas no alto... Eu me lembro de tuudo... me dááa uma sauuudadee", recorda dona Amélinha.

Catada pelo pescoço -  "Quando conheci o Alfonso, eu namorava o advogado Paulo Fortes, que foi vereador e até assumiu o cargo de prefeito. Eu e minha família, sempre moramos na Rua Santa Catarina e o Alfonso residia em frente. A gente flertava, mas nem chegava perto um do outro. Um dia ele se aventurou. Chegou perto da nossa cerca... papai viu... veio e me catou pelo pescoço... me empurrou pra dentro de casa e esbravejou: -'Esse moço tá te desonrando, minha filha!!!.. Isso é uma pouca vergonha!!.. Desse jeito vocês vão ter que se casar!.. E não deu outra (ri Amélinha). Namoramos 11 meses.", relembra do susto.
"Naquele tempo o namoro era curto e tinha que casar logo, senão a moça ficava falada e o rapaz com fama de malandro", explica a pressa. "No dia do meu aniversário noivamos e, no do Alfonso (21 de julho de 1956) casamos na Igreja São José. O Alfonso era suplente de vereador, depois se elegeu por quatro legislaturas.

Briga com o padre - "Masss - de volta ao casamento - o padre era o alemão João Assmann. Nós tinhamos pago e marcado horário da cerimonia.  Eu quis decorar a igreja antes,  mas ele não deixou. Brigou e me xingou!!.. Disse ele, todo enrolado: -Nossa Senhorra já enfeita o igreeja e não perrrcisa desses porcarrias de flóóress!! (espera eu rir)... Bomm, aí entrou outro casamento e foi na nossa frente. Discuti com o padre novamente. Afinal eu tinha pago. Ele retrucou que ia fazer as  duas cerimônias juntas! -Nããoo senhorr... nada disso... paguei e quero a minha separada e, antes desse aí!! respondi enfezada.  Ele fechou a cara e fez nosso casamento bem rapidinho, e disse: 'Você não vai ser feliz porque é muito orgulhosa!! -Ainda bem que a profecia dele não pegou (risos). Fui muiitoo feliz com o Alfonso até a morte dele. Tivemos quatro filhos maravilhosos" conta feliz e lembra que "o lugar mais gostoso pra gente namorar, era na Usina (Lago Azul). Só que a família inteira ia junto!" ri Amélinha. "Eles ficavam sondando. Se pegasse na mão, pronto... tinha que casar!... Eitaa tempo bom, seu moço!!  - Mas eu queria  é, ter nascido nos dias de hoje... é melhor pra namorar... hoje pode tudo... não é mesmo?! (gargalhadas).

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Suborno laranja - "Mas, como te disse, não casei com um vereador meio prefeito. Me casei com um suplente. Na eleição seguinte o Alfonso foi eleito e ocupou uma cadeira na Câmara. Um dia, o padre alemão (aquele birrento do casamento) nos mandou um saco de laranjas, de presente. Na hora não entendi nada. Depois eu soube que na Câmara tramitava um pedido da paróquia de doação do terreno e ajuda da prefeitura a fim de construir o novo Colégio Vicentino Santa Cruz, alí onde está hoje. -Será que foi pra ganhar o voto do Alfonso que ele nos deu o saco de laranjas?? Sei nãoo!! disse pensativa. "Isso, hoje, é chamado de suborno", brincou. "Mas o voto foi favorável - não pelas laranjas do padre - e sim porque a cidade já merecia um ótimo colégio, igual a esse. Muita gente importante estudou e estuda ali", asseverou a ex-professora do antigo Instituto Santa Cruz.


 
O Instituto e o Colégio Santa Cruz - Campo Mourão

Primeiro Natal - "Em dezembro de 1952 fizemos o 1° Natal das Crianças Pobres de Campo Mourão. Lotou de gente graúda e pequena. Tinha até uns riquinhos no meio (risos)... eu lembro deles, mas não vou falar os nomes. Tinha até um que foi namoradinho da minha filha Greice... O Alfonso foi nesse Natal. Ele era meu noivo e foi o Papai Noel... A roupa era bem fechada, ele suaavaa que nem um condenado, tadinho!!.. Como era muita gente acabou os presentes. Na frente do Clube tinha a Casa Nova, do Osman Ribeiro. Fomos rapidinhos lá e arrematamos toda a banca de retalhos. Aí deu pra presentear e agradar todo mundo", relata contente.

 
Primeiro Papai Noel de Campo Mourão, 
Alfonso Hruschka

Acabou os sócios - "Quando ainda estava solteira, formamos o Grêmio de Jovens do Clube 10 de Outubro. Só moças e moços. A finalidade era namorar. Todo domingo, das 14 às 16 hs, tinha baile de matinê... o som era na radiola com aqueles discos duros e pretos (78 rpm)... conversávamos... e desse grupo, só num ano, saíram uns oito casamentos. Daíi, acabou o grêmio porque acabou os sócios", brinca Amélinha, rindo muito.

 
Nossa família. Eu perto de papai, antes de Campo Mourão.

Vocação mesmo - "Desde menina gosto de cuidar de crianças, de doentes e pessoas carentes. Ainda em Lins, tinha matinê no cinema. Mas ao invés de ir ver o filme, me dirigia à Santa Casa de Misericórdia. Tinha os pavilhões dos homens e das mulheres. Eu visitava cama por cama e dava uma palavrinha de conforto, a cada uma das pessoas doentes. Minha mãe ralhava comigo: 'menina, ainda você vai ficar doente... essas doenças são contagiosas... não quero que vá mais lá!!.. Mas eu ia."
"Diziam que quem era operado de apendicite não podia tomar água porque vazava nos intestinos. As pessoas operadas gritavam, choravam por um copo de água, de tanta sede. Aquilo me cortava o coração... Eu dizia: se for só um golinho, eu dou! Pegava água escondida e dava a elas. Olha... não conheço ninguém que morreu por tomar água. De sede eu sei que morre!" assevera. "Antigamente a água era purinha e de graça. Hoje é cheia de droga e temos que pagar.. que mundo, nãoo?!.. criticou Amélinha.

As Bandeirantes - "Depois do Natal, que te falei, comecei atender o povo carente de Campo Mourão. Era muita gente e a cidade não tinha estrutura pra saúde popular. Os abnegados médicos: Manoel Andrade e José Carlos Ferreira faziam o que podiam e até o impossível. Nunca se negaram a atender, mas não davam conta. Era tudo muito difícil. Foi quando criamos a Associação das Bandeirantes da Caridade, com a Leony Prado, Iole Sequetini, Maria Picoli Ferreira, Lucila Traple, Odete Durski e outras voluntárias. O advogado Nelson Prado - um amor de pessoa - redigiu nosso estatuto. Pra arrecadar fundos, fazíamos o Baile da Flanela (em junho); Concurso do Vestido Mais Bonito, eleições das rainhas do Baile e do Comércio, com venda de votos. Eu fui a segunda Rainha do Comércio. A primeira foi a Antoninha Gorri, moça bonita por sinal" elogia Amélinha. 


 

Amélia de Almeida Hruschka foi apelidada de Carmem Miranda, dada a semelhança física e beleza da cantora e artista luso-brasileira. "Quase sempre, nos carnavais, eu ia mesmo fantasiada de Carmem... como você soube disso, hein?!... confirma sorrindo. 

Política por acaso - "Nunca tive interesse por política. Um dia o Alfonso me disse: 'descobri que você é uma máquina de fazer votos. Não  me conhecem, mas todo mundo sabe quem é você.' O Renato Fernandes saiu candidato a prefeito e pediu meu apoio. Gosto muito da Mariazinha, mulher dele, e prometi ajudar. Fui procurada pelo Augustinho Vecchi também, mas já estava comprometida. Não fui candidata. Elegemos o Renato. Vencemos a campanha do 'pé de chinelo', do Augustinho. Na eleição  seguinte sai vereadora e o Agostinho a prefeito. Fui a mais votada na historia, com 2508 votos. Nos comícios em Farol, Luiziana, Piquirivai, nas Barras... eu pedia votos aos candidatos a vereador locais." diz da sua formação democrática. 

 
Campo Mourão: Amélia Hruschka-vereadora. 
Atrás Wille Bathke Jr à direita

Realizações - "Fui vereadora de 1976 a 1982 pela Arena-2, contra o MDB. Nesse período houve  a prorrogação por mais dois anos nos mandatos de prefeitos e vereadores de todo o Brasil. Coisa do governo militar... da ditadura" comenta.  Na Câmara, 99 por cento dos meus projetos beneficiaram a área social. Criamos 45 entidades assistenciais. Uma creche em cada distrito e nas vilas. Fundei o Lar do Menor Dom Bosco no Lar Paraná e o Cemic só para as meninas e moças carentes. Criamos os Clubes dos Engraxates e dos Jornaleiros e fundamos a Guarda-Mirim. Nas entidades sociais cuidávamos das crianças, desde que nasciam até completarem 18 anos. Com a finalidade de fazer triagens, cadastramento e encaminhar e atender famílias pobres, criei o SOS - Serviço de Obras Sociais. Eu sempre acreditei que criança e jovem de barriga cheia, não rouba e não mata. Na minha opinião, todo governo deve cuidar primeiro do Social e depois, do resto" enfatiza Amélinha.
"Eleita deputada estadual, consegui sensibilizar o prefeito Maurício Fruet e fundei a Creche Nossa Senhora Aparecida em Santa Felicidade (Curitiba) porque ali 80 por cento das mães trabalham nos restaurantes" justifica.

 
Deputada Amélinha de Campo Mourão 
ladeada por Tancredo Neves e Irineu Brzezinki

Duas Marias - "Tive duas empregadas, ambas com nome de Maria José Pereira da Silva, que sempre cuidaram dos meus filhos e da casa, quando saia batalhar por Campo Mourão. Confiava muito nelas. Uma trabalhou 16 anos e a outra 14. Mas todos os momentos de recesso e fins de semana, eu vinha de Curitiba e ficava com minha família. Nunca incentivei meus filhos na política. Fui uma mulher de sorte no casamento, na família e na política, graaçass a Deus!"... ergue as mãos e olha o céu.

A Vida é dom  - "Sei que a lã não pesa ao carneiro. Se fosse pesada ele não andava... Quero dizer que nada é difícil e nada é pesado, quando se tem fé e vontade de fazer... sou grata à minha vida. A vida é sublime dom de Deus" diz contrita. "Minha maior gratificação é ter ajudado as pessoas. Estou certa que não vim ao mundo em vão. A minha marca registrada é: amenizar sofrimentos... Minha vida foi sempre serena e tranquila. O Alfonso sempre ponderado e compreensivo. Não guardo nenhuma lembrança ruim e não tenho inimigos... pelo menos que eu saiba!.. Os momentos difíceis - todos nós temos - e os meus os superei com fé em Deus e coragem na vida. Minha vida é uma benção!! Sou felicíssima mesmo viúva."... 
-Ooo quêêê??... Casarr de novo??... Nunca mais, moço... não preciso!!"... sorri feliz.

Currículo - Amélia de Almeida Hruscka é professora normalista e advogada (Faculdade de Direito de São Carlos-SP). Nas década de 70/80 foi vereadora e deputada de dois mandatos. É autora das Leis que emancipou Luiziana e a que instituiu a divulgação Dos Direitos Humanos nas escolas estaduais. Suplente do senador Afonso Camargo Neto (1979-1987). Membro titular do Conselho da Fundação de Ensino Superior e do Colégio Agrícola de Campo Mourão. Em 1986 participou do Seminário da Associação Internacional de Parlamentares da Língua Francesa. Em 1988 presidiu as comemorações do 40° Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Incansável - "Nunca parei de trabalhar na minha vida. Atuei na política do bem comum, de todos, por mais de 20 anos, e, praticamente, a minha vida inteirinha dediquei às pessoas pobres, desde menina", voluntariamente. "Enquanto eu puder falar e andar. quero ajudar a cidade e o povo." enfatizou.
"Antigamente era tudo mais difícil. Hoje vejo Campo Mourão com um grande desenvolvimento."
"Eu penso que ajudar é mais fácil do que pedir. As pessoas que precisam não pedem. Têm vergonha... têm medo de receber um não. Aquelas sementinhas que plantamos hááá anoss atrás, germinaram e estão tendo continuidade até hoje. O serviço social, em Campo Mourão, é muito bom"  elogia Amélinha.

Do contra - "Sou contra a desativação das escolas rurais. Aqui na Vila Rural, próxima a minha chácara, tem 49 famílias e uma centena de crianças sem escola local. Os jovens e crianças de sítios têm dificuldades de estudar na cidade. Eu nunca medi esforços. Eu ia quatro quilômetros a pé, estudar na escola de Lins. Nada é difícil quando a gente quer, mas hoje o governo pode facilitar e deve construir escolas próximas onde os sitiantes moram" sugere.

Vida tranquila - Dona Amélinha mora na Chácara Santa Amélia, numa casa linda e confortável, em sintonia com a natureza nativa, no Km-123, da Rodovia Bento Fernando Dias (Campo Mourão/Araruna). "Gosto de visitas e rever as pessoas amigas, principalmente as que gostam de verdade de Campo Mourão. Nada por interesse. Tudo por amor eee... com amor! Passo horas agradáveis, também, no nosso Pesque-e-pague Águas Claras, empresa de Lazer e Turismo Rural, no Km-5 da Estrada Boiadeira. Todo domingo tem almoço gostoso lá, a base de peixes criados por nós. Apareça lá"" convida Amélinha, sorridente, na nossa despedida. 

 
Eu e Alfonso na festa dos 90 anos de Anita Albuquerque, 
pioneirista de Campo Mourão


Cuidado Moreira

Retrato da Época - 
Campo Mourão anos 50

"Sabe!..  entre 1950/60 Campo Mourão era um farvestão melhor que filme americano. Era tudo ao vivo, real e a cores. Se matavam muito, todo dia pelo sertão e até na cidade. Uma das vítimas desse bang-bang mourãoense foi o pai de uma amiga minha. Mataram ele dentro de uma churrascaria (não revelou o nome por respeito à família). Pedi ao meu pai se deixava eu ir no velório com ela?! Ele não deixou, de jeito nenhum. É que acreditava-se que nesses velórios de gente 'matada' dava muitos bandidos que marcavam as pessoas testemunhas, e depois as matavam por medo de serem reconhecidos e condenados" - (queima de arquivo), revela Amélia Hruschka. 

Sádico – “Tinha um tal de Pedro Cândido (Candinho), que matou até a própria mulher a facão. Esse pistoleiro era piolho de velório. Ele atocaiava (se escondia) no caminho que a vítima passava e matava no tiro, a traição (pelas costas). Á noite ele ia ao velório de suas vítimas,  só pra escutar os comentários e ouvir se alguém falava da ‘coragem’ e da ‘fama’ dele. Era sádico”.

Sangue e pó – “Uma bela manhã ensolarada eu soube que mataram um tal de Otávio Rocha, na rua Araruna, na frente do famoso Hotel Brasil, da querida dona Dalva. O cadáver estava lá, abandonado, ninguém ligou. 
Não sei porque cargas d'água me chamaram a fim de cuidar do corpo ali estendido no pó... Sol quente demais... ardia na pele da gente... Campo Mourão não tinha 'agente funerário'. Na esquina de baixo tinha o hospital do Dr. Odilon (Rua Araruna esq. José Custódio de Oliveira). Pegamos o homem, todo melecado de sangue misturado com poeira, e o tiramos do meio da rua... 
Eu estava tirando aquela roupa imunda dele, com as pontas dos dedos, unhas esmaltadas, mas parei na cueca (faz pose de encabulada). Pedi que algum homem a tirasse... pra mulher não pegava bem fazer isso, sabe? 
A casa lotou de curiosos e parentes... sei lá quem eram!! Mas ninguém quis tirar. Aí chamei um policial presente, enalteci a autoridade dele, e ele tirou com cara de nojo. Me ajudou a segurar o defunto e dei banho, no corpo, numa bacia grande de latão ou zinco, Não lembro.. A água ficou mais cor de sangue e mingau de pó, do que águaDei dois banhos de sabão de cinza no morto, pra ficar, quaaase bem limpo. Pedi e me arranjaram uma camisa e uma calça qualquer... vesti nele (sem cueca, ué... pra que luxo?)), descalço e o pusemos em cima de uma mesa de madeira, esticadão, duro. Tinha vários balaços pelo corpo e um tiro no meio da testa que não parava de verter sanguinho. Entupi o furo com algodão, mas não estancava. Peguei uns palitos de fósforo, quebrei e calquei bem no algodão, tipo uma rolha... daí parou... fazer o quê?

Resultado de imagem para aliança cravejada
Apuro no almoço - Arrumei o velório e fui pra casa preparar almoço. Nem comentei nada com meu marido (Alfonso Germano Hruschka)".
"Estávamos comendo... eu usava uma aliança larga, de ouro, cravejada de diamantes... presente caríssimo de casamento 
-Naquele tempo podia, né? -Não tinha assaltantes abusados como hoje!".. rindo. Fui dar uma ajeitada na aliança que estava meio virada e uma pedrinha cutucando o mindinho, olhei e vi...(ééca)... estava cheia de sangue encalacrado, assim, por baixo das pedrinhas de diamante, sabe?.. disfarcei... fiz cara de paisagem... levei a mão pra baixo da mesa, esfreguei bem a aliança e limpei no vestido, em cima da coxa... olhei de novo, estava limpinha, brilhando e continuei almoçando. Segredo hein !!"

No pé do ouvido – “Um outro dia fui procurar a Lucila Traple (esposa do Dr. Germano) que era sócia da boutique A Triunfal, com Beno Nadolne, na Irmãos Pereira. Era ao lado do antigo Armarinhos Continental, no predinho do Dr. Bronzel. 
Em frente da loja vi uma vaga. Estava manobrando meu fusca vermelho... tinha um carro preto na frente e um jeep cinza, atrás. O Celso e a Greice (filhos) eram pequenos e estavam sentadinhos no banco traseiro... aí ouvi uns tiros bem pertinho de mim, quase no meu ouvido esquerdo que ficou zunindo... olhei e vi um tal de Manézinho do Pinhalzinho (Janiópolis) com o revólver na mão, fumegando. -Atirou na cabeça do rapaz que estava sentado no jeep... morreu na hora, de cara sobre o volante. O Manézinho deu no pé, escafedeu-se.
Rapidinho juntou gente por ali. Teve alguém que me disse: -Some daqui dona, senão vai sobrar pra senhora! 
- Me mandei a mil, preocupada com a segurança dos meus filhos, e até esqueci o que eu tinha pra falar com a Lucila", sorri.


 
"Mas, entre 1950 e 1960 isso parecia normal em Campo Mourão. Teve um mês de dezembro de 60, entre o Natal e Ano Novo, que ocorreram umas 15 mortes - seguidinhas - por facas e tiros, só na cidade. No mato não sei".

Pegadinha - "Em 1950/51, quando a gente vinha com papai e amigas minhas de Londrina, em direção à nossa fazenda de café em Goioerê, eu falava alto pras meninas: agora todo mundo se abaixa... estamos passando por Campo Mourão!! Elas se encolhiam, assustadas, e perguntavam: porr quêê isso Améélinha?? 
E, eu dizia séria: é por causa dos tiros. Aqui sai bala pra todo lado, toda hora!!... e depois caia na gargalhada", diverte-se dona Amélia.


Ladrão de mulher - Em Goioerê e outros lugares pequenos daquele tempo, eram perigosos pras mulheres e moças. Não havia  e os homens, a maioria jagunços e pistoleiros solitários, invadiam as casas, os ranchos e sequestravam - a cavalo - todas que encontravam. Levavam pra servir as necessidades deles. Se alguém se opunha, eles picavam na bala". 

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Depois que vieram as zonas de meretrício, acabaram-se os sequestros, graças a difícil vida das damas-da-noite que supriam a falta que homens sentiam de mulher! Entende?Muitas até casaram com alguns deles e não decepcionaram. As zonas (zbm) eram um mal necessário porque a maioria dos homens vinham aventurar sozinhos pelos sertões e deixavam suas famílias nas cidades de origem, bastante longe";

"Moço, coloca aí The End, igual dos filmes de bang- bang, tá?!... pediu com um largo sorriso, em tom de brincadeira, Amélia de Almeida Hruschka, que em seguida nos ofereceu um cafezinho, tradição na sua casa.  

 

 
Amelinha  no Youtube - em 15 de fev de 2017

 
"A Vida continua... Não para, Não !!"