24/05/2011

Joaquim Xavier, Adalbrair e mortes de seus pais



Joaquim e Adalbrair casaram-se em Campo Mourão

Joaquim Xavier do Rego - Nasceu na Fazenda Agroindústria, Distrito de Palmeirinha, Município de Pitanga, em 18 de novembro de 1929, numa propriedade de seu pai.
”Sou filho de Verônica Malanski e Elias Xavier do Rego, que depois se separaram. Quando meu pai mudou a Campo Mourão já estava só e com os filhos, que cuidou muito bem. Éramos em seis: Olinda, Ivone, Aristóteles, eu (Joaquim), Rivas e Albari”, recorda Joaquim.
“A Agroindústria era empreiteira que construiu muitas pontes e prédios públicos, contratada por licitações abertas pelo Estado, desde a gestão do interventor Manoel Ribas.”
“Ninguém queria e nem se habilitava nestes processos porque o Estado demorava, em média, dois anos a efetuar os pagamentos”. Seo Elias, pela confiança demonstrada, foi presenteado com um automóvel que lhe foi entregue (pessoalmente) por Manoel Ribas.
Joaquim com o governador Ney Braga

1948 - Elias Xavier do Rego foi pioneiro no serviço de transporte coletivo de passageiros. Fundou o Expresso Oeste, com dois micro- ônibus (jardineiras) de 15 lugares cada um, que transportava os passageiros de Campo Mourão a Pitanga, e vice versa. Iam sempre lotados. “No principio os motoristas eram eu e meu irmão Aristóteles Xavier do Rego (Tóte). A garagem era no quintal da frente da nossa casa, na rua Brasil esquina com a Índio Bandeira, de onde partíamos nas viagens, todo dia, às 6hs da manhã. Depois, trabalharam conosco, os hábeis motoristas: Lauro Pereira e João Stalman."
“Na Estiva meu pai montou uma serraria e uma fábrica de indústria de madeiras que produzia esquadrias (portas e janelas) em Maringá, associado a Valdomiro Verneck."

Clementino - “Quem conhece bem essa história e muitas outras, é o amigo Clementino Farago, que trabalhou, praticamente, a vida inteira na prefeitura de Campo Mourão e gostava de uma boa pescaria...” revela Joaquim.

Estudos - “Até meus 12 anos moramos em Palmeirinha. Ia à escola a pé, e estudei até o 4° ano primário com a professora Landola. A Agroindústria foi vendida pelo meu pai que se estabeleceu em outra fazenda por mais três anos, na região de Pitanga. Com 15 anos de idade fomos morar em Guarapuava, onde estudei História e Matemática, durante três anos, com aulas particulares ministradas pelo sábio professor Horácio Bastos.”

Primeiro salário - “Aos 17 anos fui á Curitiba e lá fiquei. Meu primeiro emprego e salário foi na firma suíça Ruffer que fabricava e vendia máquinas de escrever (datilografia), calculadoras manuais e todo tipo de material de escritório. Me dediquei à especialização e manutenção dessas máquinas e me tornei um Assistente Técnico habilitado pela empresa.”

Joaquim iniciou na Aeronáutica em Curitiba. 
Encerrou no Rio de Janeiro e regressou a Campo Mourão

Patriota - “Com 18 anos me alistei no Exército Brasileiro. Minha opção era a Marinha, mas fui incorporado pela Aeronáutica na Base Aérea do Bacacheri – em Curitiba. Em maio de 1947 fiz o curso e passei a ‘pronto’. Junto com mais 30 colegas de farda, pedimos transferência ao Rio de Janeiro a fim de cursar a Escola Técnica de Aviação. Mas não concluí porque meu pai me chamou. Precisava da minha ajuda em seus negócios no Paraná, que se avolumaram em Campo Mourão, Maringá e Guarapuava.”

  
O transporte coletivo em Campo Mourão começou com valentes 'jardineiras'

1948 – “Um desses negócios era o Expresso Oeste. Nos mandou a Campo Mourão – eu e o Tóte – e fomos os primeiros motoristas dos dois ônibus da empresa pioneira. Eu vinha de lá pra cá e ele ia daqui pra lá. Chova ou faça sol. A gente se encontrava na Serra dos Macacos, almoçávamos e fazíamos a baldeação (troca de ônibus). Eu morava em Pitanga e o Tóte – recém casado com dona Olívia – residia em Campo Mourão. Ele voltava pra cá e eu pra lá. Nós tínhamos hora de partida (6 hs), mas não tínhamos previsão de chegada. A estrada (BR-158) era precária e ponto de alimento era difícil. A gente comia pescada em lata (sardinha), cebola, pão caseiro e tomava cerveja quente, pra engolir o rango.”


Nossa casa e garagem do Expresso Oeste era aqui, na esquina da rua Brasil/av Indio Bandeira, em Campo Mourão. Hoje é o Edifício Alvorada

Frota - Os dois primeiros ônibus levavam de 12 a 15 passageiros. Depois foi comprado um terceiro carro que cabia 20 pessoas. A frota era de dois Ford-F3 e um F-F5. Eram Ford importados dos Estados Unidos, robustos, um motor que assoviava bonito e dava poucos problemas de mecânica. Eram muito potentes.”, elogia.

1950 – “No final de 1950 o senhor Vassílio Boiko, que morava em Roncador, plantador de repolhos, safrista de porcos e que trabalha com transportes pesados em carroças, veio a Campo Mourão, negociou com meu pai e assumiu a empresa de coletivos, a qual ‘batizou’ de Expresso Nordeste.”

1951 – “Assumi a Serraria Estiva, uma área de produção de madeiras, com 12 alqueires, que compramos de José Carneiro. O Tóte permaneceu em Campo Mourão onde adquiriu terra e chácaras que até hoje dona Olívia cuida.”

Morre Elias - “Meu pai era procurador da família de Jorge Walter. Era ele quem administrava todos seus bens e a Gleba Sem Passo, do famoso pioneiro, apelidado de O Russo.

Perdidos - “Com a prematura e trágica morte brutal de meu pai, em 1951, a família caiu no maior caos e minha mãe veio morar comigo. Estávamos todos chocados pela dor da perda, descontrolados nos negócios e em tempos críticos do governo Bento Munhoz da Rocha Neto, que estava de olho na terra de Jorge Walter, pela qual meu pai demandou contra o Estado, até quando foi assassinado, na época do delegado militar tenente Taulli. Não temos dúvidas que o assassinato do meu pai foi mandado por ‘encomenda”, denuncia Joaquim. Nessa luta, pelos direitos legítimos de Jorge Walter, seo Elias foi assassinado por Gaspar Negreiro e seu filho, em plena luz do dia, na poeirenta av. Capitão Indio Bandeira, em frente à Inspetoria de Terras, onde hoje está o escritório da Sanepar. 

Casamento de Joaquim e Adalbrair na Matriz de São José - Campo Mourão

1954 – “Casei com a linda mourãoense Adalbrair Ferreira Albuquerque. Moramos um ano e meio na Estiva. Vendemos a serraria e nos mudamos a Cascavel. Abrimos outra fazenda e a Indústria de Madeiras Xavier Moreira Lindsmaer & Cia Ltda, em sociedade com Manoel Fernandes Moreira, lá.”

1958 – Neste ano recebeu convite e procurações com a missão de regularizar a situação dos posseiros daquela região, quando então, mudou-se com a família, a Curitiba. “Assumi a enorme responsabilidade burocrática pela legalização da terra de toda aquela gente espalhada em lotes, pelos 1.400 alqueires da Gleba Centenário, onde começou Cascavel.”

Joaquim na Gleba Centenário
Esse velho índio que conheci no Rio da Várzea dizia chamar-se Capitão Bandeira
 e cobrava pedágio de quem passava entre os dois mourões, na sua terra

Reforma agrária - Joaquim conseguiu a titulação geral da imensa área, no governo Moysés Lupion, o qual foi convidado e fez a entrega – pessoalmente - da documentação quitada. “Desta forma – enfatiza Joaquim – Moysés Lupion realizou a primeira solenidade de Reforma Agrária, que se tem notícia no Brasil.”


1959 – Fixou residência em Curitiba e montou o Sistema de Transporte Rodoviário, com quatro caminhões largamente utilizados nas conduções de alimentos, materiais de construção, mercadorias em geral, destinadas às empreiteiras que contruíam Brasília-DF, a Nova Cap do Brasil, inaugurada em 1960 pelo presidente JK.

Sempre nos reunimos com a familia, aqui e em Campo Mourão. À esquerda: meu filho Jorge Luiz, Anita Albuquerque, Cacilda (Zizinha), a filha  Veronita e o Irã Mendes. Aqui na direita: Adalbrair, Joaquim, a amiga Marcia Traple e Ilian Mendes  

1962 – “Abri mão e vendi minha cota da Serraria de Cascavel e investi na Transportadora, em Curitiba. Mesmo assim, sempre venho a Campo Mourão, visitar amigos e a família da Adalbrair Albuquerque. Ainda possuo sete chácaras nos arredores da cidade, que na época, me foram cedidas sem ônus, com aval titulado do Estado.”

1971 – “Vendi a Transportadora e trabalhei com produtos agrícolas e na área da construção civil, o que faço até hoje.”


"Estou aposentado e tranqüilo, com minha família em Curitiba, sem jamais esquecer a nossa querida Campo Mourão."

Joaquim e a filha Veronita, no Baile das Debutantes


Adalbrair mourãoense - sucesso em Curitiba

“Você sabe que meu pai era contra esse casamento, né? – atalha Adalbrair – “naquele tempo casal separado não era bem visto. Mas o Joaquim convenceu meu pai e marcamos a data do casamento no mês de maio. Nesse meio tempo meu pai foi baleado e morreu em Curitiba. Então escolhemos a data de 31 de Julho. Ficamos de luto, mas vesti branco quando casamos, conforme vontade da minha mãe Anita Albuquerque.”
“Temos 2 filhos – mostra Adalbrair – a Veronita e o Jorge Luiz, que nos deram três netos, até agora. Espero que venham mais”, rindo.
“Moramos aqui, em Itupava, perto do centro de Curitiba, e trabalhamos om Alta Costura durante 25 anos. Nosso Ateliê estava na Rua Buenos Aires. Se vestiram conosco: a esposa e a filha do Aroldo Galissini, quando a linda garota foi debutante. Também vestimos a Adelaide Salvadori (esposa do Rosalino), a dona Niva - mulher do Aníbal Khoury, a empresária Loreti Tacla e a simpática esposa do Dr. Milton Luiz Pereira.”
“Mais recentemente fundei a Escola de Mergulho “Foca Sub”, com meu filho e o amigo Luiz Rebello (instrutores). Eu mesma participo das aulas, treino e já consigo mergulhar até 30 metros de profundidade no mar”, revela Adalbrair, toda faceira.

Adalbrair Rainha do Carnaval do Clube 1° de Maio em Campo Mourão - 1951.
O primeiro Rei Momo foi Nelson Bittencourt Prado

Tive a honra de ser eleita Rainha do Carnaval por três anos em Campo Mourão, e no último carnaval desfilei em carro aberto em Goioerê, com o Rei Momo do meu tempo, Fuad Kfuri, várias vezes prefeito eleito daquela hospitaleira cidade das águas claras, que vi nascer. Mas um dos meus maiores orgulhos é ser mourãoense de verdade”, encerra Adalbrair, com um sorriso largo e feliz.

A Rainha Adalbrair com o Reio Momo de 1953 - Fuad Kffuri - Goioerê