29/04/2011

Francisco F. Albuquerque Lider de Campo Mourão



Anita Gaspari e Francisco Albuquerque em Curitiba

Francisco Ferreira Albuquerque - Tio Chico - nasceu dia 10 de Outubro de 1901 (data do Aniversário de Campo Mourão - coincidência ou não) na histórica cidade da Lapa - PR. Filho de Ana e Manoel Ferreira Albuquerque. Irmão de César, Idalina, Olímpio, Sebastiana e Joaquina. Aos 14 anos começou a trabalhar na Rede Viação Paraná Santa Catarina - RVPSC, que unia os dois estados sulinos por estrada de ferro. Foi agente responsável pela Estação da Lapa e rádio-telegrafista.

Retrato da histórica  Lapa do Paraná

Andanças - Sempre na busca de um lugar ideal e bom à sua família, começou as andanças e a procura incansável, com breves passagens por localidades pequenas, tais como: São José do Paranapanema/PR, Marcelino Ramos/RS, Paulo Frontim/SC, Quatiguá/PR e, finalmente, Campo do Mourão, após uma longa e dura jornada encetada entre 1934 e 1935.

Casamento - Conheceu Anita Gaspari na cidade vizinha de Porto União -SC e casaram dia 8 de junho de 1920. A destemida e fiél companheira de lutas, que também pegava no pesado, foi parteira, cabeleireira e Cidadã Honorária do Paraná por indicação do ex-deputado Namir Piacentini (depois que a Câmara de Vereadores de Campo Mourão lhe negou essa honraria)

Proíbida - Dona Anita foi 'proibida' pelo Bispo Dom Elizeu de prosseguir na atividade de parteira porque, segundo ele, 'constava que realizou cerca de mil partos e tinha igual número de afilhados(as) em Campo Mourão e na falta dos pais deles, não daria conta de os cuidar, na qualidade de mãe-segunda (madrinha - mãezinha)'.  O mesmo ocorreu com dona Zuleica Teodoro de Oliveira, que aprendeu a missão de fazer partos com a comadre Anita.

Filhos - Do enlace - Francisco e Anita - nasceram: Newton (eleito vereador da primeira legislatura de Campo Mourão), Tito, Moacir, Dalmo, Joel, Everaldo, Edson e as filhas: Cacilda, Eunice, Adalbrair, Adélia e Rosemari.

Em 1926 demitiu-se da empresa ferroviária mais famosa e conceituada da época, e fixou residência no patrimônio de Palmeirinha, distrito de Pitanga, no então Município de Guarapuava,  onde foi safrista de porcos, com pecuária e agricultura em menor escala.
Sua irmã Sebastiana Albuquerque (Tiana) já morava em Borboletinha, outro patrimônio de Pitanga, relativamente próximo a Palmeirinha. Ela, certa vez, lhe falou das oportunidades que a região oferecia aos homens trabalhadores e fez um convite a fim de retribuir a visita e conhecer as belezas de que ela lhe contou. Veio, viu, gostou, adquiriu terra, desbravou e iniciou a luta coroada de êxito.

1936 - Bem sucedido em Pitanga, criava e comprava safras de porcos em diversos patrimônios, dentre eles no de Campo do Mourão onde fez amizades. Formava  safras (engordas) em roças de milho e uma vez por ano vendia a porcada gorda aos principais compradores de Guarapuava, mais tarde, de Apucarana.
Das várias visitas que trocava com os conhecidos e, principalmente, com o amigo e compadre José Teodoro de Oliveira, pioneiro de Campo Mourão desde 1910 (patriarca das famílias Teodoro Custódio de Oliveira).
Foi em um destes encontros em sua casa, que Francisco Albuquerque (Tio Chico) recebeu um convincente convite (quase uma intimação do compadre) e optou morar no promissor Campo do Mourão, onde chegou de mudança com a família, em meados de 1936.

Campo Mourão - Anteriormente já havia adquirido uma faixa de terra que ia da rua Santos Dumont até a Lage Grande próxima a Serraria de Teodoro Metchko, que depois vendeu a João Baptista Perdoncine. Perto da Lage existia uma mina de água e a 'venda' do conhecido Léo Guimarães, que ao saber da posse propôs e vendeu a casa de comércio a Francisco Albuquerque, que em seguida abriu a Fazenda Figueira, entre Engenheiro Beltrão e Terra Boa, onde concentrou sua principal fonte de renda, inicialmente na cultura de café e depois agricultura diversificada, sem abandonar sua origem de safrista de porcos.

Casa Comercial de Francisco Albuquerque na Lage Grande

De Tudo - A casa de comércio da Família Albuquerque era e tinha de tudo. Secos e molhados, tecidos, artigos domésticos, ferramentas, chumbo e pólvora, além de pensão e hospedaria às autoridades, viajantes e aventureiros que passavam ou se fixavam em Campo Mourão. Anita fornecia cama, comida e roupa que ela mesma lavava, e lhe pagava quem podia. Todo hospede em que Chico Albuquerque via boa índole, falava das vantagens e os convidava a se fixarem em Campo Mourão. Oferecia terra e casa de madeira de início, até que o novo morador andasse com seus próprios recursos.

Casa de Chico Albuquerque na Cidade de Campo Mourão

1940 - Francisco Albuquerque foi um dos primeiros moradores no recém traçado quadro urbano da cidade de Campo Mourão, concluído pelo agrimensor Eugênio Zaleski e aprovado pelo Estado em 1940. Construiu residência de madeira bem acabada, com vidraças e sótão. Ao lado anexou uma nova casa comercial melhor, na avenida Capitão Índio Bandeira X rua Paraná (atual rua Francisco Albuquerque).


Pioneiros de Campo Mourão - 1940
clique, amplie e leia os nomes anotados pela Adalbrair

Apolítico - Tanto lá como cá foi um dos maiores propagadores e relações públicas voluntário em nome de Campo Mourão o que lhe valeu convite do governador Moysés Lupion e veio a ser presidente e líder político na região, filiado ao PSD - Partido Social Democrático,  porém recusou todos os convites a disputar  ou ocupar cargos públicos ou políticos.

1947 - A cidade e a zona rural de Campo Mourão crescia a olhos vistos pela fama da boa terra e hospitalidade dos Albuquerque, que o município ganhou. Em sua casa tinha um dos poucos rádios-receptores, enerzigizado a bateria (não havia eletrecidade). Tio Chico não perdia os noticiários das rádios Nacional do Rio de Janeiro (Repórter Esso que informava sobre a II Guerra Mundial)  e a Rádio Clube Paranaense-PRB2 de Curitiba (Jornal Matinal) que informava tudo sobre o Paraná e o Governo.

Bommbaa - Foi assim que soube que o governador Moysés Lupion - seu amigo - estava implantado dezenas de municípiosos através requerimentos da Assembléia Legislativa do Estado. Ouviu, levantou rápido, desligou, avisou Anita que ia até a casa do Pedro Parigot, apelido de Pedro Viriato de Souza Filho, também amigo do Governador, pois Francisco tinha que contar da 'bomba' a êle. Montou um burro preto marchador (seu preferido), bem encilhado, e foi no galope. Chegou, apeou, o amigo (que também era safrista de porco) foi recebê-lo e Chico Albuquerque malmente o cumprimentou e disse: "Você tem que ir a Curitiba urgente, falar com o Moysés e cavar a emancipação de Campo Mourão. Se arrume e vá amanhã, sem demora". Seu Pedro concordou e foi. Teve audiência com o Governador e fez o pedido. Lupion respondeu: 'tudo bem Pedro, desde que você seja o candidato a prefeito'. Acordo feito, Pedro voltou, deu a boa nova ao amigo Chico Albuquerque e falou das condições impostas por Lupion. "Conte comigo, Pedro!"

Moysés Lupion, Pedro Viriato de Souza Filho e Adalbrair ao centro

1947 - Dia 10 de Outubro, Moyses Wille Lupion de Troia, assinou várias leis emancipatórias e a de Campo Mourão foi uma das primeiras, a de n°2, publicada no Diário Oficial do Estado, dia 11 de Outubro de 1947 e logo em seguida saiu a nomeação do dentista José Antonio dos Santos - prefeito provisório - encarregado de conduzir o processo eletivo do primeiro prefeito e vereadores do recém criado Município de Campo Mourão.

Francisco Ferreira Albuquerque, primeiro à esquerda
 - ligação da energia elétrica

Eleição - Dia 15 de Novembro de 1947, Pedro Viriato de Souza Filho - candidato único pelo PSD - foi eleito com 230 votos. No dia 5 de Dezembro, no casarão da Prefeitura defronte a Praça Getulio Vargas, foi empossado pela primeira Câmara de Vereadores de Campo Mourão e inciou seu curto mandato, pois renunciou sob alegação de que sua mulher estava muito enferma em Curitiba. Vendeu tudo e se foi. A mulher dele nunca foi vista em Campo Mourão.

1953 - Morre Tio Chico - Estava em Curitiba com seu genro Lázaro Mendes (delegado de polícia de Campo Mourão, casado com Cacilda Albuquerque - Zizinha)  a convite do governador que marcou audiência com os mandatários do PSD, com tema sobre as próximas eleições e continuidade de Moysés Lupion, que disse ser candidato a reeleição.
Quando seu Chico e Lázaro se dirigiam de lotação (ônibus) ao Palácio do Governo, na altura do Passeio Publico uma turma de obreiros do futuro Centro Cívico embarcou e começou a bagunçar dentro do coletivo. Fumavam e a fumaça incomodava. Seu Chico e Lázaro sentados no mesmo banco. O delegado de Campo Mourão 'pediu' que apagassem os cigarros e parassem com aquela 'zona'... que estavam perturbando os passageiros. Começaram a discutir e vieram as ameaças de agressão. Lázaro puxou o revólver e atirou. A bala ricocheteou em um cano pega-mão e atingiu a barriga do Tio Chico.
Ferido, desceu do coletivo, telefonou ao Palácio, justificou sua ausência, pegaram um táxi e foram ao hospital. O fato já havia chegado ao conhecimento de Lupion. O táxi parou e uma grande junta médica, designada pelo governador, o esperava na entrada do Hospital da Cruz Vermelha. Seu Chico foi caminhando e dizia que estava tudo bem.
Ficou internado e se constatou perfurações nos intestinos. Os médicos foram indicados pelo Governador. Mas apesar de todos os cuidados Francisco Ferreira Albuquerque, faleceu dia 1° de Maio de 1953, conversando, com a cabeça recostada no colo da filha Adalbrair.

Adalbrair Albuquerque e Joaquim Xavier do Rego -
Matris de São José - CM

Grande Perda - "Eu falava com papai sobre meu casamento com o Joaquim (Joaquim Xavier do Rego) que seria no dia que ele morreu. Eu estava dizendo a ele que tinhamos adiado o casamento por um mês, que até lá ele estaria são e a presença dele era muito importante a mim. Aí vi que ele não respondeu mais. Parecia estar dormindo. Estava morto. Morreu sereno, sem um gemido. A comoção abalou o Palácio, a Cidade de Campo Mourão e deixou nossa família arrasada, por tudo que ele representava na condição de pai, amigo e o grande líder de nosso Município."  concluiu Adalbrair Albuquerque do Rego, com lágrimas nos olhos.

Sepultamento -Francisco Ferreira Albuquerque foi sepultado em Curitiba, onde morava sua irmã Joaquina Albuquerque (tia Quinita) e mais tarde seus restos mortais foram trazidos e velados na Câmara Municipal, na rua Francisco Albuquerque e, depois da homenagem póstuma, depositados para sempre no jazigo da Família Albuquerque, no Cemitério Municipal São Judas Tadeu de Campo Mourão. Anita Gaspari Albuquerque, hoje repousa ao seu lado.

Perdeu - Na eleição seguinte Moysés Lupion (PSD) não se reelegeu. Deu Bento Munhoz da Rocha Neto (PDC). Com a morte de Tio Chico e a derrota de Lupion, Campo Mourão perdeu o apoio constante que recebia do Estado e a cidade estagnou por muitos anos.

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