18/04/2011

Campo Mourão: Morrer ou Matar?!



 
Em Campo Mourão a novidade do dia era quando se dizia-Poxa, hoje não morreu ninguém!! 
- Nãoo??



Nas décadas de 30/50 o vale  fértil entre os rios Ivaí e Piquiri era habitado por poucos corajosos pioneiros e posseiros que ganhavam concessões do governo do Paraná.
"Nem as intervenções e alertas de punições severas de Manoel Ribas – o Zé do Facão – intimidavam os grileiros e jagunços que semeavam ameaças, morte, terror e não respeitavam a autoridade do governo."


Quando Guarapuava abriu o Picadão até a Fazenda Velha Brasileira (Paranavaí) a vasta região guarapuavana, que ia até à margem esquerda do rio Paraná, foi abandonada por grande parte dos esparsos moradores, e os pioneiros de bem, teimosamente, não arredaram pé do chão onde buscavam chances de trabalhar no que era seu e vida melhor,
Contudo grileiros, mercenários e jagunços contratados faziam qualquer tipo de serviço sujo afim de tomar conta da terra e dos povoados, nesta imensa faixa paranaense, que incluía Pitanga e Campos do Mourão, também patrimônios de Guarapuava.

"Em 1935/36  engrossou a chegada de posseiros (contemplados com doações de terra devoluta do governo). Atrás vieram grileiros (ladrões) e jagunços (bandidos) de toda parte." Havia poucos colonos e famílias fixadas em suas áres de terra pois, "tinha-se que ter muita coragem de vir e tentar morar pelos sertões, onde só tinha duas opões: morrer ou matar."


Era a "lei" que a melícia estadual não tinha meios de garantir pela posse pacífica, almejada pelo governo. "Posseiros e grileiros trocavam ameaças sem se importar com quem estava por perto... ia ou vinha pelos caminhos e carreadores."

"Quando o Governo do Estado deu prazo de uns 90 dias afim dos  grileiros desocuparem as áreas invadidas, a situação estava totalmente fora de controle porque ninguém trocava mais ameaças. Chegavam e já atiravam, matavam e queimavam os ranchos. Simplesmente grileiros, jagunços e posseiros se matavam junto às famílias, mulheres e crianças."


"A luz do dia ou a noite era comum ouvir tiros de todas as direções vindos da mata  e nos povoados."

A maioria dos cadáveres dos desafetos jamais foi encontrada e poucos matadores eram presos, por não serem denunciados por tetemunhas que temiam serem mortas também. "Quando alguém ferido agonizava e pedia ajuda, as pessoas que passavam por ali davam voltas e malmente olhavam em direção à vítima caída ao chão."


Esses corpos sumiam por decomposição, jogados em rios, no meio da mata comidos por formigas, aves e animais, ou encobertos por matagais espessos e folhas em quantidade que caiam das árvores. "Simplesmente desapareciam sem deixar nem rastro."


"Nessa época andar sem revólver ou faca na cinta era o mesmo que andar sem camisa ou sem calça hoje. A arma fazia parte da vestimenta."

"Na década de 50 ainda era assim, até o governo instalar inspetorias de terra nos distritos e nas pequenas vilas que se formavam com sacrifícios enormes." 

Entre 1950/60, praticamente, as disputas e mortandades foram cessando diante das concessões de titulos definitivos de propriedade dados aos posseiros que conseguiram realizar benefeitorias em sua área, registrar em cartórios de imóveis e vencer jagunços e grileiros.

Segundo relatos de pioneiros ao Projeto Raízes, na Tribuna e neste blog, na região de Campo Mourão, "o rio Piquiri era o maior 'cemitério' de corpos abatidos na guerra pela terra. Em toda sua extensão os corpos eram despejados e alimentavam os peixes, animais e aves aquáticas."


Obs:
Em quase todos os relatos os entrevistados citaram nomes de bandidos, mas impuseram uma condição: "não divulgue", com aquele medo, arraigado dos velhos tempos  de represálias, que lembram e temem ainda hoje. 

De Campo Mourão Tio Chico e tia Nita em Curitiba

Conclusão feliz:

Campo Mourão começou a ganhar fama de terra prometida a partir de 1935/36, principalmente com a chegada de Francisco Ferreira Albuquerque e sua corajosa mulher Anita Gaspari Albuquerque. Ele era um homem de paz, cavalheiro, dedicado anfitrião e hábil político, que logo fez amizades com as famílias Custódio, Pereira e outras, além de desfrutar da confiança do governador Moysés Lupion que o nomeou presidente do Partido Social Democrático - PSD, no então Campo do Mourão. Seu idealismo era ver a cidade crescer e doava terrenos, casas e dava pensão de graça aos que vinham bem intencionados em se estabelecer e trabalhar na vila mourãoense. Assim começou a aparecer uma cidade que hoje é a capital do Município Modelo do Estado do Paraná.


A paz veio em definitivo após 1947 com a emancipação da Microrregião-12 sediada por Campo Mourão, que ganhou inspetoria de terra, cartórios, força policial e autoridade judicial.