26/03/2011

Pedro da Veiga fala e escreve

"Esta é a Radio Colmeia de Campo Mourão operando em caráter experimental" anunciava a voz de Hans Ravache


 

Meu pai numa boa caçada de pacas

Visão de futuro – “Desde que avistei Campo Mourão - um vilarejo de poucas casas que se resumia ao miolo da praça - me impressionou o traçado da cidade despovoada. Tive certeza que aqui seria um verdadeiro Centro de Progresso, pela posição estratégica na geografia do Paraná. Esse slogan foi escolhido pela comunidade na década de 70, no auge da economia do café, da madeira e início da agricultura mecanizada. Nesse período Campo Mourão expandiu-se rapidamente e, nos últimos anos deu uma parada. Faltam mais empresas e mercado de trabalho”, observa Pedro.

Educação e trabalho – Com residência fixa em Campo Mourão, Pedro da Veiga voltou aos folguedos, estudar e trabalhar. “Sempre gostei de banho de rio. Com meus amigos nadávamos perto da Laje Grande (bica) e na voltinha do Rio do Campo. Fui orador da segunda gestão do Grêmio Lítero Esportivo Barão do Cerro Azul (GLECA) presidido por Wille Bathke Júnior e presidente da Turma Brasília, a segunda de formandos do Ginásio Campo Mourão, propriedade do professor Ephigênio José Carneiro, perto do Estádio Municipal”, relembra. Estudou com pioneiros do ensino ginasial de Campo Mourão: “Egydio Martello, Nicon Kopko, Áurea Margarida Carneiro, Nilton Bussi, Hains Ravache e Iran Martins Sanches”, nomina. Em 1956 trabalhou na Casa Nossa Senhora Aparecida de Nicolau e Nabi Assad, uma casa de madeira perto do Bar Aparecida. “Fiquei só três dias. Me colocaram em um depósito fechado a fim de espanar a poeira das mercadorias. Quase morri afogado de tanta poeira e saí fora”, risos.

Alto-falantes – O primeiro alto-falante (caixinha de som) instalado em Campo Mourão no início de 1950, ficava no alto da porta do Bar Estrela de Pedro Gênero – hoje Drogaminas - na esquina da Rua Brasil/Avenida Irmãos Pereira. Só se ouvia músicas caipiras. O segundo, com locução e músicas, foi o da Bicicletaria Central, no terreno vago que existe até hoje na esquina da Avenida Irmãos Pereira/Rua Francisco Ferreira Albuquerque. O terceiro era “A Voz Amiga da Cidade” do Cine Mourão, de Teodoro Methcko, e o quarto o do Cine Império de Chafic Bader Maluf. “Até 1958 não existia a Rádio Difusora Colmeia”, justifica. Os serviços de alto-falantes operavam cerca de duas horas por dia: no horário de almoço e no final da tarde, com anúncios comerciais, músicas populares, programação e síntese dos filmes em cartaz. “A convite do Theodoro Metchko, fui locutor da Voz Amiga da Cidade e o Danúbio Vieira do Cine Império. Depois passei a trabalhar nos dois cinemas”, conta da concorrência. “Não tinha salário. Investia em discos e meu lucro era a sobra da venda dos comerciais”, sorri.


Com Luiz Gonçalves no início da Rádio Colmeia

Rádio Colmeia – Na primeira semana de agosto de 1958 a Rádio Colmeia foi ao ar em caráter experimental. A primeira voz ouvida foi a do professor Hains Ravache, que falava desde a casa do transmissor e da antena, em frente ao antigo almoxarifado municipal. A primeira música transmitida foi Cu-cu-ru-cu-cu Paloma, cantada pelo mexicano Miguel Aceves Mejias. “Oficialmente, a Rádio Colmeia inaugurou dia 2 de agosto de 1959”, registra Pedro da Veiga, primeiro locutor assalariado, contratado pelo diretor Otávio Rottili. “Fizeram parte da primeira equipe de funcionários: Elza Brisola Maciel (discotecária), Aroldo Tissot (locução geral), o gerente J. Ambrósio Neto (locutor esportivo e comercial), Natália Domanski (secretária), Raimundo Spacki e Osvaldo Morais (técnicos de som). A Rádio Colmeia foi instalada ali, no Edifício Gênero da Rua Brasil”, aponta Pedro da Veiga.


Com Lupion, e... Pedro na 'latinha'

Jornalismo – O primeiro jornal falado da Rádio Colmeia chamava-se “O Mundo em Foco”, inicialmente apresentado por Pedro da Veiga e J. Ambrósio Neto e depois com Aroldo Tissot. “Por muitos anos continuei como âncora do Mundo em Foco. As notícias eram quentes, captadas pelo telegrafista Carlos Mareck, que eu buscava, de bicicleta, no Correio da Rua Harrison José Borges, onde antigamente tinha a CAFE do Paraná pouco acima da Móveis Rio Grande e depois na casa do Odilon Jofre Tayer, na esquina da Rua Brasil/Avenida Goioerê, perto do Colégio Marechal Rondon. Muitas vezes furamos o famoso Repórter Esso, apresentado por Heron Domingues, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro”, conta vitorioso. “A primeira agente do Correio em Campo Mourão foi Jovita Messias Marques e o segundo, Carlos Mareck, ambos de fundamental importância aos noticiosos da Rádio Colmeia. O único problema era traduzir os telegramas cifrados, porque não dava tempo de redigir os artigos, pontos e vírgulas. Felizmente sempre me sai bem nas leituras”, sorri realizado.

Ephigênio José Carneiro, Paulo Pimentel, Ubirajara Messias, Augustinho Vechi e Pedro na 'latinha'

Imprensa escrita - Em 1962, Pedro da Veiga, deixou a Rádio Colmeia. Trabalhou como chefe de escritório da Casa Rosa, contratado pelo gerente Laurindo Rosa Gameiro. “A Casa Rosa, filial de Apucarana, propriedade de José de Oliveira Rosa, vendia materiais de construção e confecções. Abriu o primeiro supermercado na cidade, na Rua Mato Grosso, ali mesmo no Edifício Rosa. Depois ampliou e se instalou onde é o Daimaru”, localiza Pedro da Veiga. Em sociedade com Getúlio Ferrari e Wille Bathke Júnior comprou e foi editor do jornal Folha de Campo Mourão, fundada pelo londrinense José Marcelino Monteiro. Escreviam para a Folha: José Egídio Quintal (sociedade), Adinor Cordeiro (Jibóia), Osvaldo Broza (estudante) e Deodato Veiga (colunista). “Fazer jornal na época era idealismo. Raras empresas investiam em propaganda. A montagem era tipográfica, letra por letra, artesanalmente impresso em uma plaina gigantesca, difícil de acertar o nível da tinta para compor o papel. Gráfico em jornal tinha que ser artista”, brinca. “Deixei a Folha para trabalhar na Prefeitura, nomeado pelo prefeito Horácio Amaral e, em meu lugar na Folha, entrou o Celso Romualdo Ferrari. O jornalista Maurino de Souza, respondia pelas matérias publicadas. A Folha de Campo Mourão ficava no térreo do Edifício Leila, esquina da Rua São Paulo/Avenida Manoel Mendes de Camargo, hoje farmácia do Val”, recorda

Folha do Campo nas mãos da Rainha do Carnaval

Servidor - De 1º de abril de 1971 a fevereiro de 1993, Pedro da Veiga, foi diretor e secretário administrativo da Prefeitura de Campo Mourão. Inicialmente, nomeado Diretor do Departamento Agropecuário (Portaria 17/71) por Horácio Amaral e empossado pelo prefeito em exercício Getúlio Ferrari, então presidente da Câmara Municipal. “Tive a honra de trabalhar como secretário e mestre de cerimônias dos prefeitos Horácio Amaral, Renato Fernandes Silva, José Pochapski e nas duas últimas gestões de Augustinho Vecchi. Me aposentei por tempo de serviço, no início da gestão do Rubens Bueno”, relata.

Conquistas - “Por onde passei deixei minha contribuição. Sempre vesti a camisa das empresas onde trabalhei. Na prefeitura não foi diferente. Em 1975 fundamos e presidimos a Associação dos Servidores Municipais e a Cooperativa de Consumo 1º de Maio. Implantamos o organograma das secretarias, com atribuições a cada cargo. Implantamos o Regime Único dos Servidores. Elaboramos o Sistema de Avanços de Carreira. Organizamos a Previdência Municipal (Previscam) dirigida pelo doutor Roberto Pedro Ribeiro de Castro, ao qual sucedi. Durante o período de Secretário Administrativo mantivemos o teto de vinte salários mínimos ao primeiro escalão e o salário mínimo municipal acrescido de pelo menos quinze por cento a mais que o piso nacional. Foi o prefeito Augustinho Vecchi, quem legalizou todas estas melhorias”, elogia Pedro da Veiga.

Na posse do primeiro Bispo e no primeiro Cursilho em Campo Mourão

Diocese – “Fato marcante para mim, foi a criação da Diocese e a posse do Bispo Dom Eliseu Simões Mendes, dia 23 de abril de 1960, quando a Catedral de São José estava edificada pela metade, lotada de fiéis. Depois a sagração de Dom Virgílio de Pauli, na Catedral de São Carlos (SP) em 1982 e a sua posse na Catedral de São José, em cerimônia presidida pelo núncio apostólico de Roma no Brasil, Dom Carlo Furno. Solenidades que tive o privilégio de transmitir pela Rádio Colmeia. Colaborei por vários anos com Dom Eliseu, nos Cursilhos da Cristandade e atuei na qualidade de Ministro da Eucaristia junto aos fiéis de Campo Mourão”, enfatiza.

 
Com Ramos Delgado do Santos FC, no RB

Esporte – “A equipe de esportes da Rádio Colmeia entre 1964 e 1976 era espetacular pela qualidade e profissionalismo: Anísio Morais (narrador), Wille Bathke Júnior (comentarista), Manoel Rodrigues Correia (técnico de apoio) e Pedro da Veiga (repórter de campo). Transmitimos todos os jogos da Associação Esportiva e Recreativa Mourãoense desde a primeirona até a 1ª divisão do futebol paranaense. Entrevistei craques famosos como Pepe, Ramos Delgado e Negreiros do Santos F.C; Djalma Santos e Luiz Chevrolet da S.E. Palmeiras, dentre outros. Fundamos a primeira Comissão Municipal de Esportes de Campo Mourão ao lado de Alcyr Costa Schen, Wille Bathke Júnior, Vicente Piazza, Álvaro Gomes e José Aladic, criada pelo prefeito Renato Fernandes Silva, que realizou a memorável 30ª Edição dos Jogos Abertos do Paraná em 1976, oportunidade em que inaugurou o Ginasião BC e o Ginasinho JK, construídos na sua gestão. Transmiti a abertura e os Japs pela Rádio Colmeia e o Wille pela TV Tibagi ao lado de Fiori Luiz. Na imprensa, nosso maior interesse sempre foi o de divulgar o nome de Campo Mourão, sem receber nada em troca”, recorda eufórico.

Comissão Municipal na primeira edição dos JAPs disputados em Campo Mourão

Política - “Como servidor público fui neutro em política. Atendia as pessoas sem discriminação partidária. Participei da fundação do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e do Partido Popular (PP). Fui conselheiro e tesoureiro da Fundação de Ensino Superior de Campo Mourão (Fundescam) na presidência de Dom Eliseu, na dura batalha que precedeu a implantação da Faculdade de Ciências e Letras de Campo Mourão (Facilcam). Desempenhei cargos de secretário, coordenador de campanha eleitoral e delegado partidário, mas nunca aceitei concorrer a cargo eletivo”, descarta Pedro da Veiga.

Pedro na inauguração da Fundescam com Horácio Amaral - prefeito, Bento Munhoz da Rocha Neto -governador, Renato Fernandes Silva -futuro prefeito, e Ephigênio José Carneiro -vereador

Na Sociedade - “Atuei como diretor da avenida de comunicação do Rotary Club na gestão de Aiton Dezan. Tive a honra de transmitir desfiles de misses e shows dos cantores Jorge Goulart, Nora Nei, Agnaldo Raiol, Mazaropi e Agostinho dos Santos. Narramos dezenas de apurações de resultados eleitorais e desfiles cívicos nas datas festivas de Campo Mourão, ao lado de importantes autoridades como Moisés Lupion, Paulo Pimentel, Ney Braga, Jayme Canet Júnior, deputados e secretários de Estado, inclusive, entrevistados por mim, através da Rádio Colmeia”, registra Pedro da Veiga.

Casamento – Com Vilma Bathke, filha de Maria da Conceição e do cartorário Ville Bathke, casou-se no dia 30 de maio de 1963, depois de sete anos de namoro. Pedro da Veiga é pai do empresário Adriano, casado com Cristina Matsumi; do advogado Adalberto, esposo de Aparecida Simohigashi; Andrea (assistente social), Alessandra (economista) e Alexander (músico e radialista). “Tenho quatro netas mesticinhas, lindas: Marcela, Débora, Kristine e Karine”, conta orgulhoso. Divorciado, hoje tem como companheira Geni Berbet (servidora municipal). 

Folclore – “A famosa zona do meretrício, as “damas” e as charretinhas que só à elas serviam; a Boite Sorriso da dona Lucrécia, as canjas de galinhas das madrugadas nos bares do Mineirão (na zbm), Caiçara e Aparecida no centro de Campo Mourão; os suculentos sanduíches de pão francês com pernil de porco no Bar do Verdadeiro ao lado do Posto do Tanaka, retratam a época dos coronéis, gigolôs e boêmios de Campo Mourão. A cidade sempre teve figuras folclóricas, carinhosamente adotadas pela população. Nas décadas de 40 e 50 era o temperamental e meigo “mudo” Emílio, com apenas um dente de ouro na boca, andar pesado, chapéu grande desabado na cabeça, arcado e mãos cruzadas nas costas. Contemporâneo do Mudo, havia o famoso Adão - Filósofo Perebinha - que pontuava num canto do balcão do Bar Estrela e a todos que entravam oferecia um verso sem rima, a troco de uma pinguinha. Adão de Tal, tinha estatura pequena, esquálido, cabelos de índio e pele cor de cuia. O Macuco, “malandro” carioca, batuqueiro, massagista do Madrugada FC, foi trazido pelo advogado sindicalista Wilson Brandão e trabalhava em seu escritório. O elegante e polêmico Orlandinho, ex-goleiro da Portuguesa de Desportos, que quando não estava “mamado”, era prestativo e trabalhava aqui e ali. Seu Flor, o mestre dos jardins, com sua filosofia própria sobre a natureza, plantas, tipos de grama e flores, que defendia tenazmente. Hoje vemos a briguenta e xingadora dona Dolores e o andarilho Vardo (Sujinho), que corre pelas ruas, descalço, não conversa, pede café nos portões, limpa as ruas de fora pra dentro, jogando as sujeirinhas nos quintais particulares. Isso pode parecer nada, mas são marcas registradas de uma cidade”, rindo muito das simpáticas figuras.

Hoje – “Vivo a vida que pedi a Deus. Dei minha contribuição a Campo Mourão. Editei o livro histórico e documentário, “Campo Mourão Centro do Progresso”, revisado por Egydio Martelo e prefaciado por Milton Luiz Pereira, à venda na Livraria Roma ou pelo telefone 525-7611. Continuo garimpando nossa história e pretendo lançar outras edições, se encontrar respaldo. Dá muito trabalho, mas eu gosto. Pena que a maioria da população não tem o hábito da leitura e poucos se ligam à nossa história e tradições”, lamenta Pedro da Veiga, ao elogiar o Projeto Raízes, “corajosa e feliz iniciativa da Tribuna do Interior”, concluiu.

 
Pedro, Alvaro Gomes e Irineu no lançamento ao Projeto Raízes

Minha homenagem a Pedro da Veiga - Dom Diego

Wille Bathke Júnior
Campo Mourão - PR