28/03/2011

Josef Anton Fuchs em Campo Mourão




José Fuchs, primeiro ourives da região, conheceu Campo Mourão de bicicleta. O menino Josef, veio da Áustria com a família rumo ao Paraguai, mas seu pai optou pelo Brasil. Eram tempos de guerras mundiais. Sobreviver foi difícil. Ouviu falar de Peabiru. Veio, viu, gostou e, em Campo Mourão, venceu, acompanhou e ajudou a cidade crescer. Tudo que ganhou está em Campo Mourão, onde seu corpo, da esposa e do filho mourãoense, repousam para sempre.

José Antonio Fuchs batizado Josef Anton Fuchs, apelidado Opa (avô) pelos netos, nasceu em Imst, Estado Tirol, na Áustria, dia 2 de abril de 1923. Filho de Catarina e do sapateiro Engelbert Fuchs. É o segundo filho de uma prole de cinco, todos tiroleses: Catarina, Josef, Tereza, Brigïta e Engelbert.

José Fuchs casou duas vezes. Pai de dois filhos e avô de cinco netos. O primeiro matrimônio foi com Vitória, filha do casal de argentinos Pierina Santin e Artur Perret, ela descendente de imigrantes italianos e ele de origem francesa. Dona Vitória nasceu em Getúlio Vargas (RS), dia 26 de novembro de 1928 e faleceu em Campo Mourão, dia 12 de abril de 1994, vítima de câncer. Com a segunda mulher, Lení Garrido, uniu-se em 1997, conviveram nove meses e não tiveram filhos. Seu Fuchs faleceu dia 7 de março de 1998, abatido por enfarto agudo do miocárdio, mesma causa mortis do filho, José Alberto, que morreu em 27 de outubro de 1999.


Descendência - De Vitória e José Fuchs, nasceram: o catarinense Engelbert (Nêne) casado com Clecí Brinhoni, e José Alberto (Táita) nascido em Campo Mourão, casado com Rosa Ruy. Também adotaram a recém nascida Romilda Ana. que aos 18 anos deixou a família Fuchs e passou a morar em São Paulo. Nêne e Clecí são pais de Engelbert (agrônomo), Janaína (arquiteta) e Marcos Augusto (engenharia mecânica). Táita e Rose têm Cristiane (odontóloga) e José Alexandre (tecnologia em eletricidade).


Fuga - Na Áustria, o pai de Josef, jovem e solteiro, combateu e sofreu os horrores da I Guerra Mundial de 1914/1918. Casou com Catarina em tempo de paz, no Tirol. Diante dos fortes rumores de que a Alemanha de Adolf Hitler iria invadir os países vizinhos, na eminência da II Guerra Mundial Engelbert e Catarina tementes das conseqüências funestas contra os filhos, imigraram, de navio, rumo à América do Sul, com destino ao Paraguai.

Brasil - Em 1934, a família Perret/Fuchs, desembarcou no porto da cidade de Rio Grande (RS) de onde seguiriam ao Paraguai. “Porém meu avô sabia que no Brasil existia uma grande colônia de tiroleses e decidiu ficar. De trem, viajaram até Joaçaba (SC) e dali foi colono em Trezetilhas (treze vigas), fundada por imigrantes austríacos, desembarcados anteriormente de quatro navios”, revela Nêne.

Tradição - “Cada leva de imigrantes era acompanhada de uma freira, um padre e um médico, também austríacos, que preservavam a união das famílias, a educação pátria e as tradições de origem. Junto com o menino Josef, de pouco mais de 11 anos, e as crianças tirolesas, veio a Irmã Cássia, que educava e cuidava da petizada enquanto os pais trabalhavam. Jovem ainda, Irmã Cássia, era a “mãe” de todos. Os embarques na Áustria eram organizados por uma espécie de “gato”, que fazia a propaganda positiva do Brasil, formava os grupos de imigrantes e cuidava dos detalhes das longas viagens marítimas transcontinentais.


Vacas magras - A vida no Brasil foi difícil para a família Fuchs, que tirava da terra, malmente, o seu sustento. O pouco que sobrava, comercializava sem muito retorno financeiro. Josef, com os irmãos, ajudava o pai na lavoura. Seus estudos primários foram prejudicados na Áustria por causa das guerras e no Brasil pelo trabalho de lavrador. Em 1939 eclodiu a II Guerra Mundial e as conseqüências afetaram o Brasil. A família passou épocas apertadas e lutou muito para sobreviver. “O terreno que meu avô ocupou era pequeno, não conseguiu concretizar a compra, e mais tarde os filhos é que pagaram a escritura, em Trezetilhas”, registra Nêne.

Relógios - Com 19 anos, José Fuchs, foi de Trezetilhas à Joaçaba aprender o ofício de relojoeiro, na Relojoaria Cagliari. Seu pai assinou contrato para pagar dois anos de aprendizado. Quitou o primeiro ano e, no segundo, o mestre Ernesto Cagliari disse: não mais precisa pagar, porque meu aprendiz já produz bem e dá lucro!!! - “Meu pai além de aprender o ofício, à tarde picava montes de lenha para o fogão e bombeava água para encher a caixa de reserva da casa do patrão, tudo manualmente”, explica Nêne.

Ourivesaria – Aos 23 anos, José Fuchs, morou em Caçador (SC). Aprendeu o ofício de ourives, manipular ouro e fabricar jóias. artesanalmente. Em Caçador tinha um amigo de juventude, aprendiz de alfaiate, por nome Estefano Domanski. Em bailes e festas conheceu Vitória Perret. Namoraram e noivaram, tudo dentro dos conformes. Casamento era sinônimo de casa.

Enlace – José Fuchs, construiu residência de madeira e casou com Vitória, dia 6 de agosto de 1948, em Caçador. Pronto para exercer os ofícios de ourives e relojoeiro abriu um ponto comercial. A concorrência era grande e a praça ruim de serviço, porque os grandes engoliam os pequenos. Por um ano tentou a sorte em Marcelino Ramos (SC), mas também não deu certo. Em meio às dificuldades em Caçador, no dia 5 de outubro de 1949, nasceu o primogênito, Engelbert. Depois, entre as benesses de Campo Mourão, nasceu José Alberto, dia 28 de abril de 1953.


Peabiru - Dada as dificuldades de sobreviver em Caçador, José Fuchs, queria um lugar para ganhar dinheiro e crescer. Ouvia falar em Peabiru (PR), onde tinha um amigo e compatriota, o caminhoneiro Ernesto Neymeier, que o convidou a conhecer a região. “Meu pai veio ver se valia a pena tal aventura”, observa Nêne. No final de 1951 seo Fuchs deixou a mulher grávida, com um filho em Caçador. Hospede do motorista Ernesto, conheceu Peabiru. Sondou as possibilidades de se estabelecer por aqui.

Campo Mourão - Em Peabiru soube que o amigo Estefano Domanski, morava em Campo Mourão e se deu bem com alfaiataria. “No início da década de 50, a cidade de Peabiru era bem mais movimentada que Campo Mourão”, lembra Nêne. Peabiru tinha, praticamente, de tudo, inclusive cinema (Cine Vera). Campo Mourão tinha quase nada. Muito pó, lama e dificuldades de vias de comunicação. Nem ponte havia entre Peabiru e Campo Mourão. Naquele tempo os poucos moradores e estabelecimentos comerciais de Campo Mourão dependiam de Peabiru, Maringá, Londrina e quando não, Ponta Grossa ou Curitiba. Nesse tempo o quadro urbano não tinha mais do que 30 casas de madeira, cobertas de tabuinhas e o comércio era fraco.


Domanski - Foi esta imagem que José Fuchs viu num belo dia em que resolveu visitar o amigo Estefano. “Meu pai veio numa bicicleta emprestada, de Peabiru até aqui. Quando viu o Estefano Domanski, ficou feliz. Depois de um pouco de conversa, seo Estefano mostrou a casa que tinha construído, as pilhas de tábuas e tijolos, na esquina da Rua São Paulo com a Avenida Irmãos Pereira, que ia usar em nova construção. “Seu Estefano elogiou muito o lugar, prometeu dar apoio e convenceu meu pai a vir morar em Campo Mourão”, registra Nêne.

Primeiro - Em novembro 1952, José Fuchs trouxe de Caçador, em cima de um caminhão, apenas uns poucos móveis e as ferramentas de consertar relógios e fazer jóias. Montou a Relojoaria Omega. Abriu uma porta comercial (atual Casa das Tintas) ao lado do famoso Bar São João (ex Unibanco). O primeiro cliente foi Expedito Cilião de Araújo, marido da Nice Albuquerque, que morava ali perto. Curioso, foi saber o que estava saindo ali. Seu Fuchs disse: uma relojoaria!... Expedito tirou do bolso um relógio e pediu: então conserta esse daqui pra mim, que está estragado!! - “Hoje os relógios são fáceis e baratos de comprar. É brinquedo de criança. Tudo eletrônico, miniaturizados. “Antigamente relógio era artigo de luxo e só gente da alta é que possuía”, recorda Nêne.


Status - “Importante na década de 50, e antes disso, era quem tinha relógios de bolso, de parede ou carrilhões movidos à corda (mola de tensão). Se não desse corda o relógio parava. Existia um curioso relógio de parede, o Cuco (um passarinho que sai e diz as horas cheias) que hoje só se adquire por encomenda. A partir de 1950 os relógios de pulso foram a grande novidade. Os mais famosos eram os de aço ou metais preciosos (ouro ou prata) produzidos na Suíça. Os mais disputados pelos compradores eram os das marcas Omega e Cyma”, relata Nêne.

Pioneiro - Em fevereiro de 1953, José Fuchs foi o primeiro ourives e o segundo relojoeiro a se fixar em Campo Mourão. O relojoeiro anterior, parente de João (Janguito) Durski, havia ido embora. Seu Fuchs sentiu segurança pelos bons resultados da Relojoaria Omega. Voltou a Caçador e vendeu a casa. Trouxe o filho Engelbert e a esposa Vitória. Na chegada alugou uma residência de fundo, propriedade do seu Benone, do outro lado da Avenida Capitão Índio Bandeira (atual Dipar Som).
Propriedade - Entre o Bar do Ernesto (atual Auto Peças Cometa) e o antigo Hotel Bandeirantes, seo Fuchs adquiriu um terreno de mil metros quadrados (20 x 50 m). Construiu, na metade, uma sala de duas portas. Uma a Relojoaria Omega. A outra alugou a Nelson Guimarães Monteiro, que abriu a Sul América Seguros. Atrás fez a residência que ampliou depois, tudo de madeira. Safou-se dos alugueis. Hoje no mesmo local está um prédio de três pavimentos, construído pelo seo Fuchs, com oito apartamentos alugados e três salas comerciais ocupadas pela Discolândia, Shima Modas e Salão de Beleza. Logo depois adquiriu uma camioneta e uma chácara próxima ao atual Hospital Regional Santa Casa, onde “matava” a saudade do tempo de colono em Trezetilhas.


Rombo – Em 1955 os bandidos, Carne Seca e Diabo Loiro, na calada da noite, arrombaram e roubaram tudo que havia de valioso na Relojoaria Omega. O Vitório Galo, dormia nos fundos, ouviu tudo, mas não enfrentou os marginais porque estava desarmado. “Se encarasse, era morte certa do Vitório”, justifica Nêne, pelo alto grau de periculosidade dos ladrões. José Fuchs perdeu todo seu capital mas honrou suas dividas. Falido, recolheu-se, triste, à chácara, por dois anos.

Do nada - Em 1957 decidiu tentar a sorte novamente como ourives e relojoeiro. Sempre primou pela honradez, honestidade e nunca atrasou pagamento. Viajou a São Paulo. Expôs a situação aos seus antigos fornecedores e foi prontamente atendido, mesmo sem dinheiro. Comprou tudo que precisava, na base do fiado, com um ano para pagar. “Meu pai estava quebrado, mas não tinha dívidas, e conseguiu se reerguer!.. orgulha-se o filho Nêne.

Joãozinho – Em 1960, antes disso, João Klieber – conhecido como Joãozinho Relojoeiro – também filho de imigrantes tiroleses, nascido em Trezetilhas, foi trazido de Paiçandu (PR) para Campo Mourão pelo seo Fuchs, que lhe ensinou o ofício. Joãozinho tinha ao lado do Bar Aparecida, a Relojoaria Suissa, perto da antiga Tipografia do advogado e promotor, José Dutra de Almeida Lira, editor do jornal A Verdade – órgão oficial do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).


1962 - O terreno onde atualmente está a Relojoaria Fuchs, foi adquirido de José Pereira Carneiro (Zé Mineiro). Ficava entre a Farmácia Santo Antonio de Antonio Lourival Borba e a Relojoaria Suissa. O Joãozinho tinha um Jeep Willys. Decidiu ser taxista. Vendeu o estoque ao amigo José Fuchs que, ali onde está até hoje, iniciou a construção da primeira laje, instalou a loja e a residência no fundo do terreno.


Vencedor – José Fuchs superou todas as dificuldades. Cresceu junto com Campo Mourão. Ensinou o ofício aos filhos que deram seqüência aos seus negócios. Engelbert diplomou-se em Ótica. Tudo que a família Fuchs ganhou, investiu em Campo Mourão. José Fuchs foi um cidadão atuante, mas não gostava de aparecer. No anonimato, contribuiu com as obras assistenciais e sociais. Participou financeiramente da construção do Clube 10 de Outubro, Catedral de São José, Ginásio Campo Mourão, Hospital e Maternidade São José, dentre outros empreendimentos da iniciativa privada, sem nunca pedir ou cobrar nada em troca. Fazia de bom grado pelo prazer de ajudar e, de certa forma, retribuir à cidade os benefícios que recebeu pela sua luta e trabalho. “Meu pai sempre falava: o que a mão direita dá, a esquerda não precisa saber”, enfatiza o filho Engelbert Fuchs, carinhosamente conhecido pelo apelido de Nêne.

Orgulho - “Quando me chamam de Engelbert, custo um pouco a responder. Gosto do meu apelido e, como toda minha família, nos orgulhamos de sermos mourãoenses, assim como meu finado pai, que adotou essa terra abençoada como se fosse a sua cidade natal”, concluiu, emocionado, o seo Nêne.

A contabilidade e as taxações fiscais sobre pedras e metais preciosos é muito minuciosa e requer atenção especial. Seo Fuchs precisava urgente de um “guarda-livro” e ofereceu sociedade ao contador Vitório Galo, para que administrasse a parte fiscal, compras e vendas da Relojoaria Omega. Confiou seus negócios ao sócio e passou a se dedicar à terra da chácara: horta, pomar, galinhas, porcos e umas vaquinhas. “Eu vinha a cavalo. estudar e vender leite na cidade”, recorda Nêne. 



Wille Bathke Jr
Campo Mourão