28/03/2011

Briga de Carnaval e Tiroteio...


Narrativas de Adelaide Teodoro de Oliveira e Rubens Bathke:

O entrevero entre os irmãos Moacir e Newton Albuquerque e a Polícia Militar na madrugada do Carnaval de fevereiro de 1951, com o maior fuzilamento que se viu em Campo Mourão, foi assim:

 
Adelaide Teodoro de Oliveira


"A renúncia de Pedro Viriato de Souza Filho, primeiro prefeito eleito de Campo Mourão (1947), não ficou bem contada. Ele tinha uma chácara muito boa aqui e criava porcos. Mas ninguém nunca viu a mulher dele aqui no Campo. Diziam que ela era doente e ficava em Curitiba. Seu Pedro – também conhecido por Pedro Parigot, sobrenome da mãe - era irmão do Edilberto (Distribuidor Público) e do Sady Parigot de Souza (Registro de Imóveis). O seu Pedro, foi prefeito (candidato único do PSD) por exigência do Moyses Lupion (governador do Paraná). Disse que foi embora porque Lupion o convidou prá coordenar os municípios do Paraná. No ano seguinte o Bento Munhoz da Rocha Neto - do Partido Republicano (PR) - ganhou a eleição e deu uma reviravolta política em Campo Mourão e Peabiru”, narra Adelaide. Devete de Paula Xavier, primeiro presidente da Câmara de Vereadores, assumiu o cargo de prefeito no lugar de Pedro Viriato de Souza Filho. “Foi quando aconteceu a Briga do Carnaval e a tal da Guerra do Rádio, mas essa é outra história”, registra Adelaide, rindo muito.

Reviravolta: Foi nessa virada que a Policia Militar, numa noite de Carnaval (fevereiro de 1951), fuzilou a casa dos Albuquerque, ali onde estava até pouco tempo. “Derrubaram cerca. Picaram a casa de balas. Eles (os Albuquerque) fugiram descalços, quase sem roupas, pois estavam dormindo. Correram pelos fundos, que ainda era mato (Av. Manoel Mendes de Camargo). Dona Anita chegou na casa do seu Devete sangrando muito, com um corte feio no pé, por causa de um pontaço de sabre. As crianças apavoradas... com espinhos e machucados nos pés.

Medo?? - O seu Devete morava prá lá do Jardim Tropical, pra cima da água do Rio 19. Eles (os Albuquerque) foram a pé pelo meio do mato”, conta. O Delegado (calça curta) era José Pereira Carneiro (Zé Mineiro) adversário político do PSD – Partido Social Democrático. Foi um rolo!! - Seu Devete, no outro dia cedinho, veio a cavalo em nossa casa e disse pro meu pai (Joaquim Teodoro de Oliveira): não posso esconder os Albuquerque e aquelas crianças dão muito trabalho”.
O Devete estava meio cismado. Era prefeito do PSD. Tinha pretensões políticas e não quis se envolver”, deduz Adelaide. “Daí eles foram prá nossa casa e ficaram uns dez dias, escondidos e morando com a gente, no fim da Rua Brasil, perto da estradinha que ia pro Barreiro das Frutas.

"Foi bom êles ficarem na nossa casa. As crianças eram uns amores. Brincavam o dia inteiro. A Adalbrair já era moça e agente conversava muito. A Adélia era mocinha. A Rosemari e o Edson pequenos e a Marião (empregada da família) cuidava deles com muito cuidado. O Joel, o Dalmo, o Everaldo... todos meninos bons!!" lembra Adelaide, com carinho.

“O Moacir e o Newton Albuquerque (vereador) é que tinham brigado com a policia antes do tiroteio. No dia seguinte meu pai os colocou num avião e foram pra Curitiba. Ficaram na casa do primo Ville (Bathke) que já estava aqui no Campo. Depois papai falou com o Delegado e pediu licença pra entrar na casa dos Albuquerque. Pegou e trouxe roupas e calçados prá eles. Lembro que seu Chico gostava de comer pão molhado no café com leite, numa tijelinha. Nesse dia ele tremia. Estava assustado, preocupado com a sorte da família. Mas era um homem inteligente, de fibra e valente, sem ser brigão. Era um diplomata, igual meu pai. Dois pacificadores”, elogia Adelaide. “Depois eles (os Albuquerque) voltaram prá casa. Tiveram que reformar tudo. Mas, foi feio o estrago!!
Isso era tudo rixa do PSD com o PR do Bento, mas principalmente porque o Moacir e o Newton pegaram dois policias pelo pescoço e bateram neles, naquele baile”, recorda Adelaide do seu tempo de mocinha e vendedora de leite, na chácara dos Teodoro: Fiado??... Nem pensar!!... rindo muito.


 
Rubens Bathke

“Me lembro bem que esse episódio aconteceu de madrugada. Ouvia-se o tiroteio na cidadezinha toda. Parecia uma guerra. Um pelotão da Policia Militar estava acampado perto do Rio do Campo (região do Jardim Araucária), no terreno de um criador de porcos, aguardando ordens para invadir a Fazenda da Sinop (hoje Ubiratã) devido aos desmandos e mortes freqüentes que aconteciam lá, por causa das posses de terra. O reforço de tropa policial foi solicitado pelo Juiz de Direito (titular), doutor Joaquim Euzébio de Figueiredo, que estava de férias forenses".

"O Newton tinha chegado naquela noite de Carnaval, com um caminhão (Ford Marta Rocha) zero quilômetro, que o Tio Chico mandou ele comprar em Curitiba. No retorno foi com seu mano Moacir nesse Grito de Carnaval, no barracão vazio da máquina de arroz do Teodoro Metchko, na esquina da Av Índio Bandeira com a rua São Paulo, onde depois tinha o Bamerindus comprado agora pelo HSBC".
"Se desentenderam com alguns policiais que estavam por ali e foram às vias de fato. Brigaram pra valer. Os agredidos correram, chamaram os companheiros de farda e subiram pra praça, armados até os dentes. Era um pelotão em formação de ataque, sob o comando de um tenente, atacaram, atirando sem parar contra a casa de madeira dos Albuquerque, que ficava na frente da Praça Getúlio Vargas, na Av. Índio Bandeira, esquina com a antiga Rua Paraná (hoje Francisco Ferreira Albuquerque). Os agressores derrubaram a cerca e fuzilaram a casa do Tio Chico e a casa do filho dele, o Tito, na Rua Araruna (em frente a PC Bicicletas)".

"Por volta das 2... 3 horas da madrugada, meu pai (Ville Bathke), que era Escrivão do Crime, foi acordado pelo Oficial de Justiça, Avelino Bueno, chamado com urgência pelo Juiz Substituto, doutor Sinval Reis. Só os três se dirigiram ao local, desarmados. O doutor Sinval deu voz de prisão ao tenente e ao pelotão. Todos os policiais ficaram detidos até amanhecer o dia, presos no salão do Fórum (em frente a extinta Telepar), que lotou de meganhas (policias). Entre as 9... 10 horas encostou uma fila de jeeps fretados pelo Juiz, em frente do Fórum. "Os policiais desarmados, foram embarcados, transportados pelos jeeps, recolhidos e presos no quartel do Exército (Cavalaria) em Guarapuava", detalha Rubens Bathke, Escrevente Juramentado e depois Oficial Maior do Cartório do Registro Civil da Comarca de Campo Mourão, filho do Escrivão do Crime e Oficial Vitalício do Cartório de Registro Civil, Ville Bathke, que chegou a Campo Mourão em 1949 e faleceu em 1991.

“Naquela barulhenta madrugada do tiroteio eu dormia numa meia água, com meu irmão Vilinho (Wille Bathke Júnior). Eu ouvi tudo, mas ele nem acordou”, (risos). “A gente morava sozinhos na Av. José Custódio de Oliveira, em frente do seu Aldo Casali. Nossa mãe já havia falecido, em Curitiba. Eu e o Vilinho quase sempre dormíamos no sótão da casa da Tia Anita (Gaspari Albuquerque), que cuidava de nós. Por sorte naquela noite estávamos na meia-água improvisada, que papai havia construído no fundo do terreno recém comprado da Prefeitura de Campo Mourão, onde moramos definitivamente depois, com nossos avós Germano Francisco Rodolfo Bathke e Idalina Ferreira Albuquerque - irmã do tio Chico Albuquerque - com minhas irmãs Vilma e Roseli e com o irmão caçula, Fernando Rodolfo Bathke”, concluiu Rubens.


17/11/01 às  08:41:06    wille bathke júnior  – no  programa anísio morais    rádio colmeia  -  CM