27/03/2011

Aurora Camargo, Campo Mourão de tudo um pouco


Campo Mourão
No tempo das Charretes do Jeep, do pó e da lama



Aurora Leite Camargo conta: "Me apavorei quando o Valdemar me disse que a gente vinha morar num tal de Campo do Mourão. Eu tinha do bom e do melhor. De repente me vi num lugar onde a chuva parecia tinta e o barro parecia cola. Depois me empolguei porque eu via a luta do Valdemar, o amor que ele tinha por este lugar. Incentivou muita gente a vir prá cá e dizia que Campo Mourão era o melhor lugar do mundo. Mas foi morto cedo e os sonhos dele se apagaram e a família desmoronou”, lamenta dona Aurora.

Amor por Campo Mourão - “O que mais orgulha nossa família é o amor que o Valdemar tinha por Campo Mourão. Quando falavam mal do lugar, se zangava e até brigava. Meus filhos aprenderam a ter esta dedicação. O Carlinhos sempre fala: precisamos erguer a bandeira de Campo Mourão, falar bem alto e ter orgulho de sermos mourãoenses”. Dona Aurora se recorda que quando a família estava vindo, pararam em Cambé para almoçar. “Meus filhos e meu enteado, o Valdemarzinho, estavam cansados e com muita fome”.


Embrabeceu - “O dono do restaurante e a mulher dele nos receberam muito bem. Fizeram muitas perguntas, do tipo: de onde vem?.. para onde vão?! - Serviram uma mesa farta.. Tinha frango e tudo mais. O dono do bar continuava falando que Cambé é que era cidade boa e começou a criticar Campo Mourão. Em certa altura da prosa o barzeiro disse, que as mulheres daqui eram mal faladas e que nenhuma passava pela peneira. O Valdemar levantou, bufou, xingou e disse: larguem tudo, vamos embora daqui, já!! – O Valdemarzinho chorou e pediu prá levar uma coxa de frango. O pai não deixou. Nós nem tinha começado a comer. Entramos no carro e ele tocou prá Campo Mourão, ficou fechado e de cara feia o tempo todo, magoado com o que tinha ouvido a respeito das mourãoenses”, lembra dona Aurora.

Pioneiros paulistas – “Meus avós e pais eram grandes fazendeiros, por tradição, na região de Catanduva (SP)”. Aurora, filha de Madalena Dias e Fortunato Venâncio Leite, nasceu no dia 03 de setembro de 1921, na Fazenda “Póla Vieira”, perto do Córrego do Zé Dias Leite, que até hoje tem esse nome no mapa, “onde criavam grandes rebanhos de gado de corte e produziam bastante leite”, lembra. “Meus avós maternos, José Dias Cavalheiros e Mariana Dias de Andrade, foram pioneiros de Catanduva, que antes se chamava Vila Adolfo. Meus avós paternos eram, João Gerônimo e Maria Rita de Jesus, que também desbravaram e abriram fazenda de gado, na região”, registra dona Aurora.

Vida de Princesa - “Quando criança e mocinha, sempre tive do bom e do melhor. Meu avô comprou um casal de escravos alforriados (livres), que tiveram muitos filhos negrinhos e se criaram por ali. Eles é que vigiavam e cuidavam das crianças do dono da fazenda. Onde a gente fosse, um negrinho ia e até brincava junto. Eu tinha um cavalo branco, bonito, bem arreado que se chamava Cheroso... montava nele e andava por tudo. Nós, meninas, brincava de casinha e com bonecas, na área e dentro da casa grande, principalmente quando chovia. Eu gostava muito de brincar na água quando nos ia no engenho da Fazenda Santana, dos meus pais. Ali tinha o riacho, um monjolo e moenda de cana. O transporte mais importante naquele tempo eram os carros-de-bois, tocados pelos negrinhos”, recorda.

Calçola de babados - As moças e mulheres montavam de lado num sela especial. Vestiam saias longas e calças justas, compridas, por baixo, de algodãozinho macio, que tinham babadinhos, rendas e um lacinho nas canelas...(risos). Os pais e os maridos ajudavam a subir na sela... eram diferentes e bem arreadas... duas barrigueiras prá firmar a sela em cima do cavalo. As moças e as mulheres sempre montavam os cavalos ensinados... mais mansos e obedientes. A gente tocava no passo, no trote e no galope conforme a pressa... se firmava bem e não caia. Nossa sela tinha apoios pra mão e uma pra perna. Um estribo só, que mais parecia um chinelinho, fechado na ponta, pro pé não escapar”, descreve.


Cinema mudo – “Quando eu tinha uns 15... 16 anos... veio o cinema prá cidade. Os filmes eram mudos... preto e branco. Vi muitos far-west do Tom Mix e do Bob Starret. A gente torcia pros mocinhos. Davam muitos tiros e nunca carregavam o revólver. Batiam e apanhavam mas o chapéu não caia da cabeça” (risos). “Tinha a sessão das crianças e mais jovens, às três horas da tarde, chamada de matinê, só aos domingos. Quando passava filme com cena de beijo daí era proibido para menores e mulheres. Passava de noite e só os homens assistiam. Moça ir ao cinema sozinha??? - Nunquinha!!! - Ou ia com os pais ou irmãos. Até prá sair de casa, em qualquer lugar, a gente era muito vigiada”, revela dona Aurora.


Namoro – “Comecei namorar com 22 anos e casei em três meses. Me apaixonei pelo Valdemar, um tipo de homem bonito, bem vestido, que montava um cavalão branco. Só podia namorar em casa, na sala, junto com meus pais. Os dias de visita do namorado eram: quinta-feira, sábado e domingo, só até às nove e meia da noite. Ele sentava láááá, e eu aaaqui! - A conversa era de negócios, políticas... mas só ele e papai conversavam. Eu e mamãe só ficava ouvindo. Nós não podia conversar e nem participar. Ficava encolhidinha, com as mãos postas no colo...igual estátua”, (rindo muito). “Prá você ver como eram as coisas. Hoje tá tudo virado!!, observa.


Valdemar e Aurora tiveram seis filhos: Luiz Antonio (casado com Sueli), Cecília (solteira), José Alberto (Dolores) e Sônia Maria (Gilmar) que nasceram em São Paulo. Os dois últimos nasceram em Campo Mourão: Elza Regina (solteira) e Carlos Roberto (Vera Ilce). “Tenho sete netos e dois bisnetos”.

Valdemar Alves Camargo, nasceu em Pirassununga (SP), dia 17 de novembro de 1909. Filho de Marieta Lafane (italiana) e João Lourenço Alves. “Casamos no dia 12 de maio de 1946, logo depois da II Guerra. Ele ficou viuvo com cinco filhos. Só meu enteado, o Valdemarzinho, foi morar com a gente e veio prá cá, quando mudamos”. Valdemar Camargo era administrador da Fazenda Agrícola de São José do Rio Preto, onde estava a Escola Prática de Agricultura. “Ali os estudantes plantavam e colhiam de tudo. Me lembro da plantação de girassol... era linda quando florescia!! O Valdemar ganhava bem. Tinha duas empregadas e casa por conta do governo. Moramos ali quatro anos”, recorda saudosa, dona Aurora.

Medo do Jânio – “Quem nomeou meu marido prá trabalhar de funcionário público, foi o governador de São Paulo, Ademar de Barros, que sempre falava: ”Fé em Deus e pé na táboa”... (risos). “Ele queria dizer com isso: Acelerar o crescimento de São Paulo. O Valdemar sempre falava bem do Paraná e de um lugar chamado Campo Mourão. Quando o Jânio Quadros ganhou a eleição, meu marido pediu as contas (demissão). Ele pensava que o Jânio era comunista... por causa das arrogâncias dele e da vassoura que usava na campanha. Falava que ia fazer uma varredura em São Paulo e acabar com o pessoal do governo anterior”, lembra.

Campo Mourão – “Em 1950 meu marido veio prá cá sozinho. Comprou terras e alugou uma casa. Depois de dois meses foi buscar a família e a mudança. Viajamos num pé-de-bode (Ford) verde, com detalhes brancos, quatro portas, com capota conversível. O carro era nosso e muito bonito. Chique na época. Um dos melhores. A mudança veio na frente, em cima de um caminhão. As cadeiras chegaram com os braços quebrados e estragou muita coisa. As roupas ficou imunda. Não pegamos chuva mas a poeira era de matar. As crianças choraram e sofreram muito na viagem. Não tinha um palmo de asfalto. De Maringá até aqui, então, foi um Deus nos acuda. Nem ponte tinha. A estrada poeirenta era cheia de buracos. O carro pulava e dava socos. Ninguém parava nos bancos, parecia liquidificador”.. (rindo muito).

Desespero – “Quando ele veio prá cá primeiro, fiquei na casa de meus pais porque ele tinha saído do emprego. Eu chorava todo dia e não queria vir. Eu sabia que ia deixar o conforto prá morar no mato. Mas meu pai dizia que a mulher tem que acompanhar o marido. Mulher casada que fica sozinha é mal falada e você sabe que ele é um homem muito ciumento e pode ficar violento. No dia que ele chegou com o carro, encostou na frente da casa de papai, eu tremia e chorei mais ainda. Ele falou: vamos prá Campo Mourão, já tá tudo arrumado lá. A Cecília correu e foi a primeira a entrar no carro. Aquilo me animou. Abracei meus pais, chorando, embarcamos e viemos embora. Papai veio umas vezes prá cá, mas a mamãe vinha sempre nos visitar. Nossa família era muito unida e amada”, diz dona Aurora. “Antes, pra me agradar, o Valdemar, que era muito amoroso, me deu um litro de perfume que ele mandou fabricar e um óculos rayban que usei na viagem”, lembra.

Sujeira danada – “Na primeira noite que chegamos, dormimos no Hotel Central. A casa alugada, de madeira, era a melhor da cidade, na Rua Santa Catarina, quase em frente da Copel. Não tinha asfalto, nem luz e nem água encanada. Tirava água do poço da vizinha, mas ela redicava (negava). Quando chovia o barro e a água viravam tinta. Sujava e grudava igual cola. Encardia o corpo e as roupas. As crianças ficavam que nem porquinhos. Quando andava na cidade, com sol quente enterrava o pé na poeira solta, e quando chovia afundava na lama. O calor era insuportável. Faltava ar prá respirar”, relembra a chegada.

Quitanda Avenida, hoje Likes de Campo Mourão

Lembranças – “Me lembro bem da Casa Portuguesa (Luiz de Matos) atrás da Igreja... da Casa Nossa Senhora Aparecida (Nicolau Assad) pra lá do Edifício Likes... do Hotel Bandeirante (Augusto Cavalcante) na Índio Bandeira quase na esquina da Rua Santa Catarina... da Quitanda Avenida onde está o Likes... do Instituto Santa Cruz onde meus filhos estudaram... dos taxissistas que tinham ponto na contra mão, ali na Rua Brasil, esquina da Avenida Capitão Índio Bandeira, em frente do antigo colégio das irmãs... tinha uns automóveis pretos, bege... Mercury da Ford... dos motoristas de taxi.. seo Merinze (pai do Divo) que construiu o Hotel Mundos, o Ricardo Zaleski filho do dono do Hotel Central (Eugênio Zaleski)... o Martini... o Balabinha... seo Gino João Manoel e do filho dele, o Antoninho (da Sônia) que tinha um Jeep e o Zé Cascavel matou ele, lá no samambaial (próximo onde hoje está a Santa Casa), perto da zona da Sofia”, relata dona Aurora.

Desbravador – “Meu marido veio prá cá e sempre acreditou em Campo Mourão. Comprou terras e abriu fazendas. Plantou e formou muito café na região de Boa Esperança, Alto Palmital, Jaracatiá e Goioerê, que ainda era tudo mato fechado. Teve muitas encrencas com grileiros e jagunços. Prá não brigar, matar ou morrer, ele vendeu tudo, comprou um Ford Mercury/47, depois um Jeep Willys Overland, quatro portas, e fez ponto na praça, com aqueles amigos taxissistas que já falei. Com o dinheiro das terras ele tinha planos de investir na cidade, mas não deu tempo. De repente a família perdeu tudo. Mataram meu marido”, lamenta dona Aurora.

Latrocínio – Valdemar Camargo foi assassinado na noite de 05 de agosto de 1969. “Nós morava perto do Estádio Municipal (Roberto Brzezinski), na entrada do Lar Paraná. Uma tarde ele pegou uns dinheiro, assinou um cheque prá tirar 25 milhões de cruzeiros, do banco, e pagar a primeira prestação do Jeep. Um amigo ligou com pressa e disse que precisava de uma corrida urgente prá Maringá. Ele disse que ia ao banco. O amigo falou: não vai... amanhã você deposita mais com o dinheiro que vou te pagar hoje. E ele foi. À noite quando retornava de Maringá, pela estrada velha, passava perto da zona do Ceguinho e pela frente do Cemitério. Ele estava com o passageiro. Dois rapazes deram sinal e fizeram ele parar. Um disse, que estava com a mãe morrendo e precisava de uma corrida urgente. Meu marido respondeu que ia levar o amigo em casa e já voltava. Voltou. Os dois entraram no Jeep e, ali por perto do cemitério, deram dois tiros na cabeça do Valdemar. Fugiram com o Jeep e roubaram tudo. Jogaram o corpo no meio de um capinzal, que foi achado no dia seguinte, às dez horas da manhã. Aí o mundo desabou sobre mim. Eu amava meu marido. A cidade ficou revoltada. Os amigos dele juraram vingança. O enterro foi uma fila que não acabava mais.


Depenado - "Uns oito dias depois o Zamir José Teixeira, que foi quase tudo, vereador e até candidato a presidente da República, sobrevoou a região e achou o Jeep, desmontado, lá perto de Janiópolis... entre Boa Esperança... no meio do mato, sem pneus, todo depenado. Recuperamos o que deu, tivemos que pagar as prestações porque não tinha seguro e honrar os compromissos do Valdemar. Reformamos o Jeep, compramos pneus na Hermes Macedo e vendemos”, conta revoltada com o crime.


Prefeitos – Eu vi muitos políticos passarem por Campo Mourão, na Câmara e na Prefeitura. A maioria ninguém nem se lembra quem foi porque não fizeram nada. Mas tem dois prefeitos que eu admiro demais pelo bem e pelo muito que fizeram pela cidade e pelo povo de Campo Mourão. Um é o advogado doutor Milton Luiz Pereira, que hoje é Ministro em Brasília. O doutor Milton nunca se esqueceu da gente daqui. O outro é um menino que vi crescer e se formar. É o Tauillo Tezelli, um prefeito muito bom que já fez muitas coisas. O Tauillo sempre vem nos visitar, quando pode ou tem uma folguinha”, orgulha-se dona Aurora.



Hoje – “Daí prá cá a vida foi dura. Recebi muitas propostas de casamento até de rapazes mais novos. Mas me dediquei à família e me mantive fiel ao meu marido, porque nós se amava muito. Eu fazia artesanato prá vender. Meu filho Luiz Antonio, começou trabalhar e sustentar a casa. Comprou essa aqui onde moro até hoje. Só a Cecília, uma neta, um neto e um bisneto estão comigo. Vivo de minhas saudades e lembranças. Os filhos, dois morreram (Valdemarzinho e Luiz) e os outros mudaram. As amizades parece que esqueceram de mim. Quase não saio. Cuido das minhas plantinhas e assim vou vivendo a vida que entreguei à minha família e a Campo Mourão. Dedico ao povo a morte e o amor que meu marido teve por esta cidade, que juntos vimos e ajudamos a crescer”, concluiu, melancólica, Aurora Leite Camargo.


Retrato da Época: ZBM


– “O que nunca esqueço é das charretes de pneus, com toldinhas, que transportavam só as mulheres da zona (prostitutas). Era lá em baixo.. na Rua Santa Catarina e...elas passavam na frente da minha casa... as vezes com uns filhinhos, atrás, numa espécie de porta mala... (risos). “Eram mulheres bem vestidas e maquiadas. Muitas usavam slacks coloridos (calça comprida justa) que mostrava tudo. Noossaa.. naquele tempo era um escândalo mulher andar de calça comprida, ainda mais agarrada no corpo!!... hoje é moda”, (rindo muito). “Eu acho que era dessas mulheres que aquele homem falou lá em Cambé e o Valdemar se doeu... mas várias delas foram tiradas da zona por homens de bem e se revelaram excelentes mães e donas de casa.", elogia, cita nomes, mas pede para não revelar. "Engraçado também era o ponto de táxi no qual o Valdemar ficava.


Era na contra-mão da Rua Brasil na esquina da Avenida Capitão Índio Bandeira, na frente do Instituto Santa Cruz”, concluiu dona Aurora, sorridente.

 
Famliares e filhos de Aurora Leite Camargo



Wille Bathke Jr
Campo Mourão