07/04/2011

Ville Bathke, o Escrivão de Campo Mourão




Ville Bathke (senior)

 

Polêmico e defensor da justiça humana e social, Ville Bathke – pai e avô amoroso - foi vítima de tramas de simpatizantes do Governo Militar. Chegou a Campo Mourão em 1950 e aqui viveu, com dignidade até aos 81 anos, a maior parte de sua vida. Gostava de ajudar as pessoas carentes e não cobrava custas ou certidões de quem não podia pagar. Investiu e sempre acreditou no potencial da região. Resgatou o cruzeiro e o local do primeiro marco da fé cristã, construindo a gruta de Santa Cruz, no jardim que fundou e vendeu em lotes às famílias de baixa renda. Sua história de pioneiro é sintetizada hoje, no Projeto Raízes da Tribuna do Interior, pelos filhos: Rubens e Vilma Bathke.


Ville Bathke nasceu em 26 de junho de 1909, no antigo Distrito de João Eugênio, atual cidade de Balsa Nova, que pertencia ao Município de Campo Largo (PR). 
Filho de Idalina Ferreira Albuquerque (irmã de Francisco Ferreira Albuquerque) e do colono, lenhador e açougueiro Germano Francisco Rodolfo Bathke descendente de imigrantes alemães da antiga Pomerania. “Meu pai - narra o filho Rubens Bathke - foi criado em sítio e estudou o primário. Meus avós paternos tiveram dezesseis filhos, dos quais sobreviveram: Ville, Antonio Lourival (Lolo), Nair e Áurea (Lala). A maioria foi vítima da febre tifóide, peste que ceifou muitas vidas naqueles tempos”.

 
Família Bathke reunida no Gabirobal do Rio 19

Curitiba – Ville Bathke sempre gostou de se vestir elegantemente, de bailes e sociedade. Teve uma infância humilde, ajudava os pais nos afazeres de cortar lenha para a Rede Viação Paraná Santa Catarina, transportes em carroça, trabalhava no açougue e ajudava na roça a produzir o alimento de subsistência da família. “Aos doze anos, sem avisar ninguém, embarcou no trem de Balsa Nova e foi morar em Curitiba, tentar uma vida melhor. Foi acolhido pela tia, Joaquina Ferreira Albuquerque (Quinita), que tinha uma grande criação de gatos abandonados, que ela encontrava nas ruas e levava para casa”, narra Rubens.

Trabalho – Ville Bathke começou a trabalhar aos 12 anos como pacoteiro e depois vendedor da Casas Pernambucanas, na Praça Tiradentes. Foi vendedor de tecidos finos de porta em porta, e agente de seguros da Cia Sul América Capitalização. 
Nesse meio tempo teve várias namoradas, mas elegeu Maria da Conceição Vera a sua esposa. Casado, foi representante das máquinas de costura Singer, importadas da Alemanha, na cidade de Irati.
“A empresa acabou falindo por causa da II Guerra Mundial e meu pai retornou à Curitiba, morar na casa do sogro, meu avô espanhol, Fernando Vera Luque. 
O Brasil, vítima de ataques de submarinos na costa do Oceano Atlântico declarou e entrou na guerra contra os países do Eixo: Itália, Alemanha e Japão. Com isso toda a família sofreu as terríveis consequências da guerra e nosso pai fez o que podia, para a gente sobreviver numa época de carências e racionamento. Me lembro que tínhamos que entrar em filas enormes na Avenida Sete de Setembro, nas proximidades da antiga estação de trem, para recebermos algumas gramas de alimentos básicos. O café era adoçado com balas confeitadas de vários sabores. Durante mais de cinco anos comia-se pouco e muito mal”, recorda Rubens.

Núpcias de Ville Bathke e Maria Conceição
no Clube das Margaridas em Curitiba

Família – Ville Bathke casou com Maria Conceição Vera, em 1929, na cidade de Curitiba. “Conceição, como era conhecida nossa mãe, é filha de Santina Perli, filha de imigrantes italianos e do motorneiro (condutor) de bondes, Fernando Vera Luque, espanhol de Málaga, que chegou ao Brasil com seis anos de idade, no tempo da 2ª República”, detalha Rubens, irmão de Santina, Glauco, Wille Junior, Vilma, Roseli e Fernando Rodolfo.
“Os dois primeiros faleceram ainda crianças. Nascemos em Curitiba, na Rua Francisco Torres, 367, numa casa de madeira com sótão, a maioria durante a guerra. Em 1942 a Vilma nasceu em Irati. A partir de 1946 residíamos no Alto Cajuru, onde nossa mãe faleceu em 1949, vítima de câncer uterino e passamos a ser cuidados pelos avós paternos.
Meus pais, se vivos, hoje teriam vinte netos: Rodolfo César, Carlos Henrique, Fátima Cristina, Wille Wilson, Victor, Luciana, Rubens Júnior, Juliano, Fabiano, Adriano, Adalberto, Andréia, Alexsandra, Alexsandro, Sílvia, Vlademir, Fabiana, Poliana, Diogo e Dayane, além de 25 bisnetos e outros por vir”, descreve Rubens.


Ville Bathke em família, com filhos, irmão e seus pais

Campo Mourão – Durante a guerra e o pós-guerra a maioria da população curitibana atravessou grandes dificuldades para sobrevier. Ville Bathke então foi feirante, vendedor ambulante, cobrador, vendedor de lenha picada e guarda de trânsito do DST. Em 1949, numa destas ocasiões, Ville Bathke encontrou-se com seu tio Francisco Ferreira Albuquerque que lhe falou do promissor Campo do Mourão. “Mais tarde Tio Chico visitou a irmã Idalina, mãe do nosso pai, no Alto Cajuru. Soube das dificuldades da família e convidou meu pai a prestar concurso e a trabalhar de cartorário em Campo Mourão, que foi elevado a Comarca”. Dia 10 de março de 1950 Ville Bathke, sozinho, veio conhecer “o fim do mundo” como diziam da vila de Campo do Mourão. Foi bem recebido pela família Albuquerque, tios e primos. Ficou e assumiu, interinamente, o cargo de Escrivão da Policia e, depois, a Escrivania do Crime da recém criada Comarca e o Cartório de Registro Civil, que na época estava, provisoriamente, atendido por Arthur Moreira de Castilho.

1950 - Chegada a Campo Mourão 
com os filhos Rubens e Wille Bathke Jr

Pioneiros da Justiça – “Em 1950 eram Oficiais de Justiça: Avelino Bueno e Manoel de Jesus Pereira. Juiz de Direito Substituto, Sinval Reis e Promotor de Justiça, Rui Dirceu Saldanha Gomes, os pioneiros da Justiça mourãoense, a exemplo de Ville Bathke o primeiro Escrivão do Crime, que passou a morar e trabalhar no casarão do Fórum de madeira, vidraças e coberto de telhas, onde foi realizada a primeira sessão do Tribunal do Júri, em 2 de abril de 1952 e o primeiro sorteio do corpo de jurados, feito pelo menino Wille Bathke Júnior (12 anos de idade). O casarão era uma das poucas construções bem acabadas no começo da povoação da cidade que se resumia em volta do quadrilátero das quadras onde estão a Praça Getúlio Vargas, o terminal e a velha rodoviária, o Colégio Santa Cruz, a extinta Telepar e o Shopping Cidade. No início os documentos e certidões eram manuscritos e Ville Bathke era dono de uma bela caligrafia, assinatura e escrevia muito bem”, descreve Rubens.

A Cidade - "Em outubro de 1950, estabilizado, Ville Bathke retornou à Curitiba. No dia 10 de outubro daquele ano trouxe consigo os filhos Rubens Bathke e Wille Bathke Júnior. Um a fim de o auxiliar no Cartório e o segundo, nosso cozinheiro. 
A viagem, de ônibus cor de abóbora, durou dois dias”, recorda Rubens. “A mim e meu mano Wille foi a maior aventura. Tudo era novidade. Drasticamente diferente de Curitiba. Até o clima. A gente sufocava e coçava tudo, por causa da poeira e do calor que castigava nossa pele".

Viajamos de Curitiba a Campo Mourão de jardineira

"Colocamos a mala no bagageiro, em cima daquele ônibus, e partimos de madrugadinha (6 hs) da Praça Tiradentes. Pernoitamos em Apucarana. No outro dia almoçamos na poeirenta Maringá e às 21 horas da noite seguinte desembarcamos ao lado da praça, onde hoje é o Ponto de Táxi 1. Atravessamos a escuridão entre capoeiras, em diagonal, e chegamos ao Fórum. O pai ergueu umas das vidraças, pulamos dentro, ele juntou as cadeiras, umas de frente às outras, tipo cama, dormimos, quer dizer, desmaiamos pelo cansaço da viagem. No dia seguinte mal o sol nasceu, eu e o Wille saímos. Nem sabíamos onde era o portão, pulamos a mesma janela, a cerca na data vazia que estava ali vaga até pouco tempo, na Avenida Irmãos Pereira esquina com a Rua Francisco Ferreira Albuquerque. O Wille viu uma pitanga madurinha e perguntou a mim 'o que é isso?' Eu disse: Prove! Se for boa, quero também! Fomos conhecer a cidade. Contamos cerca de trinta casebres de madeiras, cobertas de tabuinhas. Tinha a Casa Iracema, O Bar e Restaurante Estrela, o Açougue São Pedro, o Hotel Central, o Bar do Zé Mineiro onde fomos chupar sorvete. Pedimos um sorvete e nos perguntaram: casquinha ou palito? A gente pedia gasosa (refrigerante) e aqui não sabiam o que era. Isqueiro aqui era palavrão, conhecido como binga. Visitamos a Tia Anita Albuquerque, conhecemos os primos Joel, Dalmo, Everaldo e Adélia. A Adalbrair já era moça e muito bonita. A Nice, a Zizinha, o Moacir, o Newton e o Tito já eram adultos. A Rosemari e o Edson eram crianças. A Tia Anita tinha a Marião que cuidava da casa e o mudo Emilio que era uma figura engraçada, com um único dente de ouro na gengiva. 
Nosso primeiro trabalho foi ajudarmos meu pai e seu Avelino Bueno a montar os móveis novinhos da Cimo enviados pelo Estado ao Fórum”, registra Rubens.

Quando chegamos, Campo Mourão era assim, pó e lama

Mulher brava - No hotel onde almoçamos em Maringá, um homem todo gessado, apoiado em muletas, explicava a um amigo: 'Foi uma jardinera que me quebrou!'... O Wille olhou pra mim admirado e comentou baixinho: -"Que mulher 'braba', hein  Rubens?... Ele não sabia que jardineira era ônibus"... rindo muito.



Futebol – “O Instituto Santa Cruz estava em fase de construção ao lado da Igreja São José, tudo de madeira. Entre a igreja e o Instituto, improvisamos um campinho de futebol e trouxemos a primeira bola de capotão oficial. Dentro tinha uma bexiga de borracha vermelha que a gente soprava e enchia com a boca, colocava o bico dentro da bola de couro e depois passava um tento de couro fino por fora, fechava aí íamos chutar.

Em 1951 nas passeatas da campanha do Daniel Portela a prefeito, uma tarde estávamos jogando bola na praça, onde fizeram o primeiro campo de futebol terraplenado, em frente da igreja. A bola foi parar no meio da avenida Irmãos Pereira e um caminhão, cheio de gente que gritava o nome Portela, passou por cima e estourou o capotão. Ficamos mais de um mês sem bola até trazer outra de Curitiba. Aqui não tinha. 
A avenida mais longa da cidade era a Capitão Índio Bandeira que ia da Rua Araruna até a Rua Santa Catarina, saída da estrada velha à Maringá, que passava em frente ao Cemitério São Judas Tadeu e da fábrica de farinha que tínhamos no Guaviroval do Rio 19. 
Ali onde está o Posto Samurai tinha a casa do Expedito Medeiros de Araújo casado com a Nice Albuquerque; e o escritório da Companhia Força e Luz do Paraná chefiado por Alcides Bergamini, na quadra que pertence hoje, à Copel”, descreve Rubens.


Cartório de Ville Bathke

Vitalício – Em 1952 Ville Bathke prestou concurso e foi nomeado oficial vitalício dos cartórios do Crime e Registro Civil da Comarca de Campo Mourão que abrangia todo o Vale do Ivaí ao Piquiri. Foi quando trouxe seus pais e as filhas (Vilma e Roseli) de Curitiba. Exerceu as funções até 1964 quando foi vítima de complô de simpatizantes da Revolução Militar.

Horácio Amaral, em Curitiba - terno branco e chapéu

Ville Bathke denunciou irregularidades cometidas no Fórum. Outros cartorários, com medo, se reuniram e levantaram falso testemunho. “Armaram contra meu pai. Eu era Oficial Maior do cartório e sabia de tudo o que tramavam”, revela Rubens. 
“Certa manhã de 1964, antes das oito horas, em casa, meu pai tomava chimarrão com meu avô, foi detido e conduzido à delegacia de polícia e depois escoltado até Curitiba onde foi mantido em prisão domiciliar na Provisória do Ahú. 
A rodoviária provisória era em frente a Móveis Rio Grande, enquanto construíam a nova na praça. Fui junto com meu pai até o ônibus. Os dois policiais eram amigos e estavam constrangidos. A toda hora pediam desculpas. Me lembro que as únicas pessoas solidárias que tiveram a coragem de se despedir do meu pai, foram Joaquim Paulino Slompo e os irmãos Oscar e Aldo Casali. No Ahú, nosso pai dava expediente no setor de direção e à tarde ia para sua casa no Alto Cajuru, por intervenção do Deputado Estadual, seu amigo, Paulo Poli”, conta Vilma Bathke.

Absolvição – “Em 1965 meu pai recebeu a visita do ex-prefeito e advogado Horácio Amaral que o indicou ao competente colega, advogado, René Dotti. O recurso foi apresentado e o Tribunal de Justiça o absolveu por unanimidade. Foi indenizado por danos morais e aposentado compulsoriamente. 
Nesse ínterim eu passei a cuidar da família e continuei trabalhando como Oficial Maior do Cartório, auxiliado pela Escrevente Juramentada, Ana Maria Coledan. 
Assumiu o lugar do Juiz de Direito Augusto Massareto, um juiz enviado pelo governo militar, Sérgio Mattioli, que ao chegar, foi logo dizendo que: por debaixo da toga tinha uma espada! referindo-se ao exercício da justiça que praticava em nome da ditadura. Eu comecei a ser perseguido e pressionado. O Doutor Massareto aconselhou a afastar-me e pedir demissão. Apresentei meu pedido em caráter irrevogável ao juiz Mattioli. Ele não aceitou o termo irrevogável. Respondi: fica a seu critério! Sai e nunca mais retornei ao Fórum. Logo em seguida assumiu João Pacheco Gomes”, relata Rubens Bathke.


Tribunal do Juri em Campo Mourão: Nilton Bussi (promotor), Augusto Massareto (juiz) 
e Rubens Bathke (escrivão ad-hoc)

Wille bocudo - "Quando o Fórum mudou onde foi a Câmara de Vereadores, na Francisco Albuquerque, esse mesmo juiz convocou meu irmão Wille ao júri porque ele pertence ao Corpo de Jurados. O juiz quis fazer média, apontou e disse ao Wille, sala lotada: -"Seu pai instruiu esse processo. O senhor não pode participar. O motivo o senhor sabe! Pode se retirar! 
O Wille se levantou - a sessão não permitia manifesetações - e respondeu: -'O senhor já sabia disso antecipamente, então por quê essa palhaçada de me convocar... que prazer o senhor tem de dar vexame na frente de todo mundo? Bonito pra sua cara, né!? 
Meu irmão virou as costas e saiu do Fórum, pisando duro. Nem raciocinou que podia ser preso por desacato. Ele não me contou nada, os amigos contaram e eu vibrei com essa atitude do mano." (risos)

 
Família Bathke de Campo Mourão - PR

O Retorno - “Refeito da injustiça, certo do dever cumprido, meu pai retornou a Campo Mourão e ao convívio da família. Residimos muitos anos na Avenida José Custódio de Oliveira. Na volta passou a morar no sobrado do Jardim Modelo para melhor administrar as vendas dos lotes do Jardim Santa Cruz, de sua propriedade. 
Ville Bathke recuperou o cruzeiro queimado da primeira capelinha de Santa Cruz e o preservou na gruta construída naquele loteamento. 
Fundador e secretário administrativo do primeiro clube social de Campo Mourão, Clube Recreativo 1º de Maio, onde está a Seicho no ie. 
Investiu na primeira fábrica de artefatos de cimento e na de farinha de mandioca do Ribeirão 19, posteriormente vendida a Deoclécio Teixeira, que deu origem à Farinha Pinduca de Araruna. 
Fundou o primeiro correio particular de Campo Mourão até sua instalação oficial. Confeccionou malotes de lona para transportar correspondências desde Maringá e Pitanga aos destinatários locais”, concluiu Rubens. 

Em pé, os filhos Rubens, Wilma, Roseli e Wille Jr

Falecimento – Ville Bathke casou novamente em 1954 com Therezinha Menezes, com a qual conviveu até 15 de novembro de 1990, quando faleceu, vítima de insuficiência respiratória, na Policlínica de Campo Mourão. Está sepultado no Cemitério São Judas Tadeu. 
Quando em vida sempre acreditou em Campo Mourão e tudo que ganhou investiu na cidade que o recebeu de braços abertos. É onde nasceram seus netos e a maioria dos bisnetos, que para ele era motivo de orgulho, ter plantado raízes em solo fértil e promissor.

Palmas no aniversário da primeira neta, 
Fatima Cristina Bathke

Ville Bathke na última visita a parentes, em Campo Largo
1985



Fotos: acervo Rubens Bathke