14/04/2011

O Desbravador Silvestre Staniszewski


Silvestre Staniszewski - um desbravador
 
  
Família Staniszewski em São Mateus do Sul - PR,
 antes de enfrentar os sertões

“Desbravamos a região do Pinhalão (Farol) e boa parte da Chapada dos Guimarães - MS. A vinda pra cá foi uma aventura perigosa. Não tinha recursos. Corria muito sangue pela posse da terra. Vi a região crescer. Tudo que ganhamos, com lutas e sacrifícios, investimos em Campo Mourão, onde nasceu a maioria dos meus filhos e todos meus netos. Para mim é uma cidade de bom tamanho onde gostamos de viver”.


 
Brasão – Staniszewski é nome de nobreza na Polônia. “Por volta de 1300, um meu ancestral era fidalgo do Rei, na Prússia. Por algum ato de bravura foi condecorado com este símbolo que só 71 famílias da nossa casta têm em todo o Mundo. O mérito deve ter ocorrido em alguma caçada ou alguma guerra, em que o Rei foi salvo. Vemos um cão Galgo com a correia arrebentada, o símbolo da Cavalaria (ferradura) e a Cruz de Ferro de Cristo. O original está em uma capela da Polônia e nós temos uma replica entalhada em madeira”, explica orgulhoso, seu Silvestre.

Silvestre Staniszewski nasceu dia 30 de dezembro de 1931, em São Mateus do Sul. Filho de Apolônia Glinski e Pedro Staniszewski. “Meus avós paternos vieram da Polônia. Meu pai era lavrador. Também trabalhava de carpinteiro e marceneiro. Depois montou um curtume na cidade e uma selaria. Em 1940 adquiriu a serraria de Gugelmim & Di Stéfano. Em 1946 veio pro sertão, requerer terra de pinhal. Pesquisou Londrina, Pitanga e gostou de Campo Mourão. Andou por isso tudo de carroça, junto com o tio José Glinski e o amigo Estanislau Levandoski”, recorda seu Silvestre, que tem sete irmãos: Natália, Cassemiro, Dionísio, Segismundo, Afonso, Eduardo e Lídia.

Família – Silvestre é casado com Nilza. Têm seis filhos: Luiz Alberto (Márcia Silveira Pinto), Rita de Cássia (Luiz Carlos Gonçalves da Silva), Sílvio Roberto (Magali Trevisan), Renato, Silvestre Dímas e Celso (falecido). Têm uma neta e quatro netos.



Grilo - “Em 1946 requeremos, do governo Moysés Lupion, quatro mil e quinhentos hectares de terra na Gleba 10, região do Pinhalzinho (Janiópolis). Perdemos tudo por causa de um rolista, no tempo do governador Bento Munhoz da Rocha Neto, que comprou nossos documentos de posse e direito de exploração da terra. Deu uma entrada e não pagou mais nada. Albino Gugelmim (avô do piloto de carro, Maurício Gugelmim) e João Scheder (deputado constituinte), também foram vítimas do mesmo grileiro” conta, indignado, seu Silvestre, que cita o nome do grileiro de Campo Mourão, mas pede para não divulgar.

A cavalo - Nessa época dava para ir de jipe ou caminhão, de Campo Mourão até o Alto Alegre (Vila Brzezinski). “Dali pra frente só montado em cavalgaduras. Os cavalos e burros eram alugados pelo tropeiro, Joaquim Fonseca. Depois abrimos, no facão e na enxada, 14 quilômetros de estrada para chegar na Serraria Vitória”, conta seu Silvestre.



"Olha meu pai ali, de chapéu preto e camisa (social) branca"

Campo Mourão – “Aprendi a guiar com 12 para 13 anos num Studbacker, adaptado para camionetinha, que eu ia buscar folhas de palmeiras, a fim de alimentar os animais. Em 1948, peguei o pé-de-bode, um Ford/29. Vim conhecer nossa terra em Campo Mourão. O centro da cidade era um vilarejo de umas dez casas, a maioria comércio. A praça era um capão de mato com um morro feito pelas saúvas. Estrada daqui pra frente, nem pensar. Na esperança de um dia receber o dinheiro da venda dos direitos de ocupação da terra, meu pai adquiriu área de pinhal, de Manoel Tonet, dos irmãos José e João Leite, Oscar Wolff, depois a Fazenda Ronquita do Benedito Renaux, no Barreirão do Oeste (Boa Esperança) e mais adiante comprou a Serraria do Vicente Frare”, relata.

"Meu primeiro caminhão foi um Studbacker"

Epopéia – “Em 1948 o transporte do maquinário, casa desmontada, vigamento, uma junta de bois de canga, cruzetas e telhas da cobertura, trouxemos da antiga serraria de São Mateus do Sul, em cima de cinco caminhões. Dois International D-30/Ano 38, dois Ford/46 à gasolina e um Ford/46 a óleo diesel. Não podíamos correr o risco de quebrar. Se enguiçasse, o caminhão ficava na estrada. Atravessamos uma dezena de rios, por dentro. Não existiam pontes. Subimos e descemos várias serras. A mais difícil foi a do Mosquiteiro, perto de Roncador. Lá de cima se avistava um mar de copas de pinheiros, que se perdia de vista. Viemos por estradas e pirambeiras, que mais pareciam carreadores (BR-158)”, narra.
"A Internacional do capô vermellho e 'cara' branca, do Itibrê da Cunha, teve uma revenda ali onde era a Marília Calçados (Center Calçados) e conheci o Picoli, irmão da dona Mariquinha, esposa do doutor José Ferreira, e um rapaz que vendia peças lá, um tal de Wille Bathke Junior, conhece?"... rindo muito.



Internacional Haverst era o bicho!!!  (Silvestre)
Travessia – “Do Rio do Campo subimos em diagonal até a Avenida Irmãos Pereira, por uma estradinha que cortava o traçado urbano de Campo Mourão. Virava à esquerda (Rua Araruna), ali por perto da PC Bicicletas, passava por onde está a Igreja Adventísta do Sétimo Dia e cortava todo o Lar Paraná. Passamos por Barras e Pinhalão (Farol), até chegarmos onde montamos a Serraria Vitória. De Barras pra frente, fomos abrindo caminho até chegar na nossa propriedade. Desde São Mateus, nosso comboio saia de madrugadinha e parava à noite. Nessa velocidade demoramos dois dias, sem parar, pra chegar em Campo Mourão”, descreve seu Silvestre.

Serraria Vitória – “Em 1950 começamos a montar a Serraria Vitória, no Pinhalão (Farol), que naquele tempo era só uma estrada arenosa e algumas casas de madeira dos lados. Em março de 1951 iniciamos o corte de toras de pinheiros e outras espécies de lei. A família progrediu. As lutas foram difíceis, as dificuldades muitas, a falta de recursos foi grande, tudo dependia de comprar em outras cidades, mas vencemos os desafios e tivemos a honra de ajudar e ver Campo Mourão crescer”, diz Silvestre, com muita satisfação.

A Banda – No dia 15 de Agosto de 1959 foram inauguradas a Escola e a Capela de Nossa Senhora das Graças, construídas pela família Staniszewski, no terreno da Serraria Vitória, que na época era uma colônia de casas com dezenas de empregados e famílias. Compareceu a comitiva de autoridades, o padre celebrante João Asmann e o prefeito Roberto Brzezinski. Juntos foi a Banda Marcial e seu fundador, Alberto Nogarolli. “Trata-se da primeira vez que a Banda de Campo Mourão tocou publicamente e estreou o uniforme dos músicos”, registra faceiro, seu Silvestre.

"Roberto Brzezinski esteve lá"
Banda Municipal dirigida por Alberto Nogaroli, nas inaugurações

O Peaberu – “Quando abrimos a Serraria Vitória, no meio da mata fechada, era nítido o Caminho do Peaberu. Cansei de ver o trecho e a gente o usava. Era meio fundo de tanto ser pisado, com uns dois metros de largura. Essa relíquia indígena, que ninguém sabia do seu valor histórico, perdeu-se no meio das lavouras, soterrada pela mecanização”, lamenta seu Silvestre.




Estudante – “Em 1938, quando mudamos pra Cidade, estudei até o quinto ano primário no Grupo Escolar de São Mateus do Sul. Era diretor o professor Osvaldo Raimundo e minha professora era, Ady Tramujas Sanvais. Rodei (reprovou) um ano porque me atacou a apendicite. Me curou o médico Paulo Fortes (pai do advogado Paulo Vinício Fortes), com aplicações de bolsa com gelo, durante três meses. Sarei totalmente. Terminei de estudar em 1944 em plena II Guerra Mundial, com carência de tudo. Quem concluía o quinto ano, podia lecionar, mas nunca fui professor”, explica seu Silvestre.


Expedicionários - Silvestre Staniszewski entrou como soldado e saiu cabo-mecânico de tanques de guerra. Serviu o Exército Brasileiro no Quartel do Boqueirão (Curitiba). "Os tanques usavam motores recuperados de aviões Douglas DC-3, do tempo da II Guerra Mundial, tipo radial de cinco cilindros, em forma de estrela”, explica. “Meu tio Cassemiro Staniszewski é expedicionário do Batalhão Sampaio, que tomou o Monte Castelo, na Itália. Lutou contra os alemães na II Guerra Mundial, além dos meus conterrâneos Antonio Grudinski e Ludovico Kwiatkoski, herois de guerra, que honram São Mateus do Sul”, ufana-se  Silvestre.


Nilza e Silvestre

Casamento – “Namorei a Nilza um ano e noivamos mais um. Casamos dia 17 de setembro de 1955, na Igreja Matriz de São Matheus”, anota seu Silvestre. Nilza Nadolny nasceu dia 26 de junho de 1938, em São Mateus do Sul. É filha de Eunice Machiavelli e Henrique Nadolny. Nilza tem cinco irmãos: Nelcí, Renê, Renato, Rení e Noeli. “Meus filhos: Rita, Renato, Silvestre, Celso e todos meus netos são mourãoenses”, diz envaidecida. “Enfrentei todas as dificuldades ao lado do meu marido sem medo. O mais triste, que me marcou, era quando ia ganhar nenê, praticamente no meio do mato. Era arriscado e sofrido. Só em mãos de parteira. Mais tarde traziam as mulheres gravidas, de jeep, aos solavancos, pra ter filhos em Campo Mourão e, mesmo assim era um sofrimento. A gente quase morria de tanta dor.”, recorda dona Nilza.


Farol - No antigo Pinhalão d'Oeste só tinha moradores na beira da estrada. Os pioneiros que se estabeleceram por ali, além da família Staniszweski, foram os comerciantes Silvino Schumoski, Manoel de Lima (avô de Mário Lima), Manoel Tonet, Miroslau Widerski (farmácia), José Wlubeski, Elias Semiguem, Antonio Guilherme Dutra (bar), Francisco Gabriel (agricultor), Roque Pinto (cafeicultor e pecuarista), João Merenciano que tinha só filhas, muito trabalhador e morreu numa emboscada. “Me lembro também, dos lavradores João Bento, Antonio Ferreira e João Domingos, que compraram pequenos lotes de terra e formaram uma colônia, onde uma das mulheres fazia uma farinha de milho, no monjolo, muito gostosa”, registra seu Silvestre.



"A gente ia no Pé de Bode do pai"

Caçadas – A região de Campo Mourão tinha muita caça que servia de alimento. “Meu pai fez um criame de pacas, na Serraria Vitória. Comi muita carne de jacutinga e uru, melhores que galinha. Capivara e anta tinha muitas nas beiras dos rios. Nos cerrados se encontrava muitos veados. Meu pai gostava de caçar e pescar. Eu só topo uma boa pescaria”, brinca seu Silvestre.


Patriarca Pedro Stanisziweski e seu Ford 29

Empreendimentos - Da Serraria Vitória, em 1953 surgiu a firma Pedro Staniszewski Filhos e Cia em sociedade com Euvaldo Cordeiro, dono de um grande pinhal. Em 1959 a empresa incorporou a Serraria Ronquita, no Barreirão do Oeste (Boa Esperança). “Tivemos serrarias em Marechal Rondon e Pitanga, beneficiamento de madeiras na Rua Interventor Manoel Ribas na esquina da Avenida João Bento, que foi do Carine, Piana e Zanela, completamente destelhado quando a chuva de granizo 'descobriu' Campo Mourão, em setembro de 1971. Sofremos um grande incêndio na Serraria Vitória também, com enormes prejuízos.Tivemos ainda, a fábrica de carrocerias e comércio de materiais de construções na Avenida Goioerê”, registra seu Silvestre.


Viação Mourãoense – “Em 1968, no tempo da poeira e da lama, fundei e fui sócio majoritário da Viação Mourãoense. A cidade crescia e precisava de transporte coletivo urbano. O logotipo da empresa (VM) é meu filho Renato, quem desenhou. O Ricardo Gurginski foi meu sócio, dono da antiga Transportes Central. Em 1977 eu e meus filhos inauguramos a Emotur – Empresa Mourãoense de Turismo, com escritório na anterior Estação Rodoviária, na praça Getúlio Vargas. Em 1980 deixei a Viação Mourãoense. Hoje temos uma frota de mais de setenta ônibus, que faz transporte escolar nas cidades de Irati, Lapa, São Mateus do Sul e Ponta Grossa”, comenta satisfeito, Silvestre.
"Viação Mourãoense, no início só servia o Lar Paraná"

Fundador – Em Campo Mourão, Silvestre Staniszewski é fundador pioneiro do Country Club, dos clubes 10 de Outubro e Mourãoense, da Sociedade Mourãoense de Teledifusão e da Sauna Pajuçara. Contribuiu na edificação da Catedral de São José e instalação do Recreio Iporã, conhecido com Piscina do Bispo. “Sempre contribui na Creche Sagrada Família, desde a presidência da dona Fifi (Josephina Wendling Nunes). Fomos proprietários do Cine Mourão, adquirido do Teodoro Metchko e o nosso gerente era o Tangará (Alcindo Monkolski)”, recorda seu Silvestre.

"A Nilza e eu ajudamos fundar clubes sociais aqui"

No Centro – “Compramos aqueles terrenos e tive a honra de residir na casa que foi do pioneiro Teodoro Metchko, na Avenida Irmão Pereira. Além do Cine Mourão, estavam localizados na nossa propriedade, o Banco Comercial (Leniro Linhares e Doracy Scorssato), o Bar Pingüim (Eloi Leão), a Alfaiataria do Alcídes de Castro, o Escritório de Contabilidade do Alfonso Germano Hruschka e do Pedro Avelino Straub, o Barzinho do Raimundo Spack e uma sala que era a Câmara de Vereadores já na esquina da Rua São Paulo, por ali onde está a Loja Inox, no Edifício Vitória da minha irmã”, conta seu Silvestre.


"Tacuru e alí a Chapada"

Desbravador – “Abrimos Tacuru, no Mato Grosso do Sul. Ajudamos a desbravar 36 mil alqueires na Chapada dos Guimarães, no Norte de Mato Grosso". Com a família Staniszewski foram os Trombini, Carolo, Ferri, Salvadori, Perdoncini e Caldas. “Eu vi surgirem, naquela região, os municípios de Alta Floresta, Sinop, Cláudia e Vera”, testemunha Silvestre.

Bang-bang – Na década de 50, Campo Mourão, que compreendia a região entre os rios Piquiri e Ivaí, foi marcada com muito derramamento de sangue na guerra dos posseiros contra os jagunços e grileiros de terra. ‘Eu vi a morte do Octávio Rocha quase na entrada do Hotel Brasil quando subia a Rua Araruna para levar meus filhos no Instituto Santa Cruz, que ficava ao lado da Igreja de São José. Cheguei quase na hora, no dia que o Gaspar Negreiro matou o Elias Xavier do Rego, em frente da Inspetoria de Terras (hoje Sanepar). Isso acontecia de dia, com sol quente. Era cena de bang-bang puro. De longe você via a fumacinha dos tiros e, uns segundinhos depois, escutava os estampidos”, observa Silvestre.

Ubiratã – Onde é Ubiratã hoje, existia a Gleba Sinop. “Ali se entrasse só saia morto. Uma vez fomos pescar no Piquiri, perto daquela terra. No escuro, nosso acampamento foi atacado. Levaram nossas armas e ainda me obrigaram a dirigir o carro pra conduzir a jagunçada e os pistoleiros até a sede da fazenda. Eles pensaram que a gente estava invadindo a terra. Só fomos pescar e mais nada. Eles chegaram a cortar o cabo de aço e deixaram rodar a balsa do Porto 2, que ligava a Tapejara, pra que ninguém atravessasse o rio Piquiri, e entrasse na Sinop”, conta Silvestre do apuro que passou.

Hoje – "Campo Mourão é uma cidade boa, tranqüila e excelente pra se morar. O nível de ensino é um dos melhores do Paraná. Aqui só tenho amigos. Nos últimos cinco anos saio pouco de casa. Fico entre Curitiba e Campo Mourão, tratando minha saúde. Meu maior orgulho é ter uma família que sempre foi super unida, desde o meu pai Pedro. Tratamos todo mundo com carinho e respeito. Investimos em um monte de lugares, mas tudo que ganhamos, aplicamos em Campo Mourão. O que precisa crescer em Campo Mourão é o setor de indústrias, para gerar empregos. O desemprego está demais. Isso gera pobreza e crimes, não só aqui, mas no Brasil. Presenciei as administrações municipais desde o doutor Daniel Portella até o Tauillo Tezelli. Algumas fizeram mais, outras menos, cada uma a seu tempo. Para mim a cidade está de bom tamanho e me honra muito ser mourãoense”, concluiu o pioneiro e desbravador, Silvestre Staniszewski.

Silvestre Staniszewski confere sua narrativa em Raízes, da Tribuna