27/03/2011

Tribuna Entrevista Wille em Campo Mourão


Ana Botafogo primeira bailarina do Teatro Municipal de São Paulo
entrevistada por Wille Bathke Junior 

TRIBUNA – Como foi a experiência de escrever esta série de reportagens sobre os pioneiros da cidade?


Wille – Sou apaixonado por História da Humanidade e das Civilizações, principalmente pelos fatos e personagens de Campo Mourão. Digamos que não foi uma experiência e sim uma oportunidade rara que me foi dada, de mergulhar fundo na realidade da vida dos desbravadores, pioneiros e personagens mais recentes que são páginas vivas, algumas já amareladas, do grande livro não escrito sobre a história de Campo Mourão.


TRIBUNA – Você já havia feito algum trabalho nesse sentido?


Wille – Já sim, porém não impresso. As palavras voam e a escrita fica imutável, com erros e acertos. Antes do inesperado convite da Tribuna para escrever Raízes fui obrigado a me internar na UTI de bibliotecas e museus quando designado pela Prefeitura, para contar a verdadeira história de Campo Mourão nas escolas públicas durante a Semana do Jubileu de Ouro do Município. Mais de 23 mil estudantes, professoras e professores, mesmo não querendo, me viram e ouviram. Tive a felicidade de rebuscar documentos quinhentistas que ensejaram discorrer sobre a História de Campo Mourão desde o “descobrimento” da América. Passo por Pedro Àlvares Cabral, passeio pela Província del Guayrá, viajo pelo Caminho do Peabiru até chegar ao Tauillo Tezelli, o qual entrou na história mourãoense como primeiro prefeito eleito e nascido em Campo Mourão, assim como os seus vices: Márcio Fernando Nunes e Getúlio Ferrari Júnior. O Tauillo é o culpado de eu ter aprendido tanto sobre Campo Mourão. O Tauillo – que foi meu aluno em Educação Física - colocou-me nesta fria super quente, inclusive é o “padrinho” do meu nome ao indicar-me ao diretor Nery José Thomé. Garoto bom taí, só falta trato! Como diz o amigo Jorge, do Bar Aparecida, na sua entrevista: O Tauillo é gente muito da boa!


TRIBUNA – Foi difícil conseguir os personagens?


Wille – Tive algumas dificuldades, mas a maioria facilitou as entrevistas. Quanto mais antigo o personagem são mais difíceis as fotografias. Algumas fotos eu demorei dias para refaze-las no escaner. Os entraves que supunha-se existirem, a direção da Tribuna resolveu de pronto, como os casos das onerosas viagens à Curitiba, Guarapuava, Pitanga e outras cidades, com a finalidade de buscar testemunhos, provas e documentos, como no caso do primeiro morador dos Campos do Mourão, Jozé Luiz Pereira e sua prole. Tal Campos era tido por ele como “a terra da promissão”. O sertanejo Jozé Luiz, me faz lembrar Moisés nos 40 anos na busca da “terra prometida”. Só que Jozé Luiz Pereira levou quatro anos andando diuturnamente, até encontrar o sonhado Campo, pelo qual atravessou Alejo Garcia em 1524 e Alvar Nuñes Cabeza de Vacca em 1541, o mesmo que os jesuítas se referiam antes de 1600 como “El Campo és un camino mui peligroso aunque ai mui índios ferozes e carniceros”. Ledo engano. Os Guarany – mais de 250 mil que por aqui habitavam, chefiados pelo cacique Coaracyberá, eram ingênuos e pacíficos. Hoje Campo Mourão tem cerca de 80 mil caras-pálidas e nenhum nativo".


TRIBUNA – Ficou alguém de fora, que mereceria ter entrado?


Wille – Digo com certeza que centenas – isso mesmo: centenas de pessoas que escreveram histórias não lidas e não sabidas não couberam em apenas 54 edições do Projeto Raízes. A História de Campo Mourão é rica e sem fim. Lamento apenas que estas páginas vivas estejam fenecendo sem serem auscultadas a tempo. É triste isso, sabe?!


TRIBUNA – Como foi feito o trabalho de pesquisa?


Wille – Minha arma é a agenda e a pontualidade uma forma de respeito ao entrevistado. Sempre trabalhei boca-a-boca e olhos nos olhos. A entrevista que durou menos tempo foi de um dia de conversas. Minhas ferramentas são: prancheta, papel sulfíte à vontade, gravador de bolso, pilhas recarregáveis, mini fitas K7 e canetas timbradas – brindes da Tribuna – que geralmente as entrego aos entrevistados após concluir a coleta de fotos e informações. Teve gente (Milton Luiz Pereira) que disse que “uma canetinha desta vale mais do que ouro” pelo valor sentimental, o que também não deixa de ser histórica para quem recebeu e deu a caneta de plástico, para mim, tão valiosa quanto uma Parker 51 com pena de ouro.


TRIBUNA – Qual a reportagem mais demorada, da coleta de dados à elaboração final do texto?


Wille – Pelo menos três relatos me custaram mais de sete dias. A busca da saga de Jozé Luiz Pereira, desde Guarapuava, Pitanga até os Campos do Mourão. Mas, onde eu menos esperava, encontrei a história do Velho Sertanejo: em alfarrábios do advogado Nelson Bittencourt Prado, que me foram emprestados – não sem mil recomendações - pela Vó Pequena. A outra foi com Alfredo Ferrari. Eu perguntava uma coisa e ele respondia outra devido a surdês. Interessante que ele lia sem óculos, os rabiscos que eu escrevia como perguntas, só que divagava ao responder. Nesta entrevista me foram valiosas as presenças da filha Gentíla e do neto Marcelo. Eu perguntava – meio gritandinho - por exemplo: Qual a sua cidade? E ele respondia: Minha idade? Tenho 94 anos! Daí perguntei: Quando o senhor nasceu e qual sua idade? Ele respondeu: minha cidade? É Carazinho! A do Tony Nishimura também foi demorada. Ele é meticuloso, um perfeccionista. Tomou muito cuidado para não atingir ninguém, a exemplo do que fez José Pochapski, que guarda as mágoas para si. Desabafou durante dois dias. Contou-me tudo, escrevi, mas não deixou publicar. O Tony Nishimura, o Pedro da Veiga nunca haviam teclado um computador. Estrearam no meu. O Fraterno também pegou num computador pela primeira vez, para revisar seu próprio depoimento. Quando pedi a ele pra sentar e operar a máquina, me olhou desconfiado e disse: “Cara... isso aqui pra mim é um dinossauro... não é verdade?! Mas só aprenderam manusear duas teclas: as de subir e abaixar o texto. Foi um barato. Eu saia de perto pra não perturbar a concentração e deixava eles se batendo sozinhos. De vez em quando escutava uns berros: Wiilleee... enroscou o trem aqui!


TRIBUNA – E a mais rápida?


Wille - A mais rápida foi a do Egydio Martelo. Entregou-me uma biografia pronta, tipo bolo. Eu só coloquei o recheio. Tava tão fácil que errei em dois dados e omiti um. Errei quando escrevi que ele foi trazido pelo Milton Luiz Pereira e na realidade foi Belim Carollo. Esqueci de colocar que ele é patrono da Biblioteca Municipal de Campo Mourão e errei a data da inauguração da Estação Rodoviária, quando foi cantado o Hino de Campo Mourão pela primeira vez em público. Ele me cobra essas falhas sempre que me vê. Tento me esconder do Martelo, mas não dá tempo. Para piorar, sempre que vou à Curitiba me hospedo no hotel que ele mora. Aroldo Tissot e o Pedro da Veiga me facilitaram por demais o trabalho e foram vapt-vupt. Também pudera, né?! Cobra não engole cobra.


TRIBUNA – Poderia citar algum caso pitoresco nesta série de entrevistas?


Wille - Os causos acontecidos, hilários, mentiras cabeludas e verdades não publicadas, a pedido dos entrevistados, dão um livro à parte. Durante a entrevista com o Pachequinho (João Pacheco Gomes), das 14 às 22 horas no apartamento dele, em Curitiba, me chamou o tempo todo de Pedro Veiga e eu, de um ponto em diante o chamava de Seu Zé, para ver se caia a ficha, mas não teve jeito. A bela história da dona Amelinha (Amélia de Almeida Hruschka) saiu pela metade porque não coube em uma página da Tribuna. Foi omitido o caso do tiroteio da policia contra a família Albuquerque, que depois a dona Dalva Boss narrou. Outro causo que não publiquei é da dona Santa (Justilina), sobre o curador José Paula. Ela conta que quando você chegava na Vila Rica do Espirito Santo, só a cavalo naquele tempo, picado de cobra, o ermitão ia logo te chamando pelo nome sem nunca ter visto a pessoa. Isso me foi comprovado como verdade, depois. Mas, quando você não sabia qual tipo de cobra que te picou, então ele chamava as cobras do mato. “Elas vinham meneando – conta dona Santa - de cabeças eretas e paravam em volta do Zé Paula. Aí ele perguntava: quem foi que mordeu o fulano aqui? Daí, a cobra (a espécie) que picou, baixava a cabeça até o chão e as outras ficavam empinadinhas. Sabedor da origem do veneno, Zé Paula receitava o remédio e curava”, afirma dona Santa. O seu Alfredo e o seu Silvestre segredaram que foram vergonhosamente roubados por grileiros de pinheiros e dono de empresa de ônibus, mas pediram para não publicar nomes, visto que alguns ainda continuam “vivos”, as famílias estão por ai e não devem saber quem foram e como agiam seus pais. A dona Aurora, por exemplo, pediu para não publicar quem era o dono das charretes de aluguel que faziam ponto na zona do meretrício: “eram os táxis da putada”, disse. Revelou nomes de “gentes boas” que “se amigaram” e até casaram com “belas mulheres da zona e constituíram excelentes famílias”, elogia dona Aurora.


TRIBUNA – Alguns pioneiros entrevistados faleceram pouco tempo depois. Quantos foram e como você vê essa experiência?


Wille – Tenho sentimentos, mas me considero um homem “frio”. Nada me assusta ou me abala. Vejo tudo com naturalidade. Sou realista. Mas eu senti demais e fiquei down quando soube dos falecimentos de Alcyr Costa Schen que estava agendado, do Álvaro Gomes que nem chegou a ler a sua história, a do seu Alfredo Ferrari com o qual trabalhei 22 anos e o da esposa do Chiquinho. Ele pediu um tempo para se refazer e depois ser entrevistado, mas não foi. Eu respeito o sentimento humano. Se por um lado me dói estes passamentos, por outro fico feliz de ter registrado as suas histórias para sempre e deixado exemplos, imortais, de vida às gerações.


TRIBUNA – Você já pensou em escrever um livro sobre a história de Campo Mourão?


Wille – De Campo Mourão, sua terra e seu povo dá pra escrever dezenas de ótimos livros. Penso, mas estou sem coragem, porque custa dinheiro e eu não o tenho para isso. Tempo, vontade e paciência tenho bastante. Estão quase prontos: “Memórias de Campo Mourão”, “A Saga do Velho Sertanejo”, “O Sagrado Caminho Peabiru de São Thomé”, “O Faroeste Mourãoense”, “Encontros e Desencontros da Net”, “A Cartilha de Campo Mourão”, e outros dois que estou pensando ainda: “Origem dos Nomes das Ruas” e “Cronologia Histórica de Campo Mourão - Passo a Passo”. Mas, acho que isso tudo vai ficar no HD do meu computador e não vai virar livro nenhum. Outra coisa, como bem diz o Pedro da Veiga: “em Campo Mourão você escreve para poucos. A maioria não está nem aí com a paçoca”. Campo Mourão ainda não tem a tradição da leitura, nem amor pelas suas coisas e muito menos bairrismo ou como diz a poetisa e minha comadre Cida Freitas: "falta brasilidade!" Infelizmente é a realidade mourãoense.


TRIBUNA – Recebeu crítica a respeito de alguma reportagem?


Wille – A crítica sempre existe, basta você se espor, mas não ouvi nenhuma. Se alguém criticou é porque queria aparecer ou ser entrevistado e não foi. Não me ligo a elogios que me soam como bajulação. Sei o que faço e me garanto. A crítica, pelo prazer de criticar, eu a recebo como o aplauso do incompetente e, a mim, soa como elogio porque alguém quer fazer o que eu faço e não tem coragem ou capacidade. A crítica construtiva ajuda e esta eu acato. Se me serve, aplico. Caso contrário ignoro. Somos mestres de nós mesmos! Das 54 edições do Projeto Raízes, só recebi elogios. Creio que tentei fazer bem feito e não fui além do que cumprir com a minha obrigação. Se aplausos existem os divido com a equipe e diretores da Tribuna e, principalmente, com os depoentes. Eu não escrevi nada. Na realidade eu transcrevi, até o modo das pessoas falarem. Tentei ser fiel às raízes e quase consegui. Veja bem: não criticaram tanto o Felipão? No entanto o Brasil é penta campeão! Os mesmos que o criticaram, hoje o estão endeusando, desdizendo o que disseram antes. Isso se chama incoerência e falta de personalidade de quem fala pelos cotovelos e acaba dando boa-tarde a cavalo!


TRIBUNA – Algum pioneiro procurado se recusou a dar entrevista?


Wille – Recusaram sim. Alguns na cara dura e outros de forma gentil. Alegaram motivos. Os compreendi, mas fiz de conta que não os entendi, porém os respeito. Tem gente que se envergonha do passado e esquece que só não tem saudades quem não tem passado. Quem não tem passado, não tem tradição. E quem não tem tradição morre a cada geração. Está frase citava nas palestras do Jubileu de Ouro de Campo Mourão, nas escolas. Mas, os que negaram seu legado ao povo, azar deles. Que me perdoe a periferia! Não fui pra morder e não mordi ninguém porque a Tribuna me paga bem e em dia. Foi-se o tempo da “imprensa marronzista”, como diz Odorico Paraguassú.


TRIBUNA – Apesar de ser um conhecedor da história de Campo Mourão, houve alguma informação dos entrevistados que lhe surpreendeu?


Wille – Eu descobri que não sei quase nada da história de Campo Mourão e continuo aprendendo. Nenhuma narrativa me surpreendeu porque foram honestas e merecedoras de fé. Eu as conhecia superficialmente. Na verdade eu tive 12 meses e 54 dias de verdadeiras aulas catedráticas sobre a rica história de Campo Mourão. Aprendi muito e continuo sabendo pouco. Isso me lembra Sócrates: tudo que sei, é que nada sei! A vida é um eterno aprendizado e morro não sabendo nada.


TRIBUNA – Que tipo de “mentiras” contaram os pioneiros?


Wille – Me nego a responder! Oh, Valdir??... quem não mente, mesmo que seja por amor? É muito feio chamar o outro de mentiroso. Mas que teve, teve! Foram "“mintirinhas descomprometedoras” que até enriquecem o folclore mourãoense, tão pobre ainda. Um dia, talvez, eu coloque em livro estas “Santas Mentiras”. Você já ouviu dizer que: quem conta um conto, aumenta um ponto? Pois é! Foram mentirinhas assim, como se diz: “pra enfeitar o rabo do pavão” e tornar a história mais interessante. Só que não foram editadas. A história tem compromisso com a verdade e a nossa ética, reza assim. Temos que matar a cobra e mostrar a cobra morta, e não o pau que você pode catar qualquer um e dizer: foi com este!


Quer agradecer??!!

Quero!... rendo aqui minhas homenagens e agradecimentos, em especial, aos entrevistados que guardo na lembrança com imenso carinho. Ao “pai” do Projeto Raízes, meu mestre Egydio Martello. À agitada e crítica Dorlly Thomé e ao tranqüilo e incentivador Nery José Thomé, que abraçaram, bancaram está causa nobre e “não mexem em time que está ganhando”. Ao Tauillo por indicar meu modesto nome, sem exigir nada em troca. Aos colegas responsáveis pela editoração e diagramação das páginas, Valdir Bonete, Diogo e Hermes, extremamente dedicados, jovens ainda, mas que pegam bem e com facilidade o espirito de cooperação, com enorme senso de responsabilidade. Sabemos que um andorinho só não faz verão, ou melhor, não faz jornal. Certo?"


Entrevista Valdir Bonete - Campo Mourão/PR