24/03/2011

MAMBORÊ Fruto da Erva Mate




“Haamam-Amburê” surgiu da ganância, trabalho escravo e violência
no império da erva-mate.


Breve cronograma:
Paraná foi criado em 1853.
Paranaguá em 29/07/1648.
Curitiba em 29/03/1693.
Castro em 24/09/1788.
Guarapuava em 17/07/1852.
Pitanga em 30/12/1943.
Campo Mourão em 10/10/1947.
Mamborê desmembrou de CM em 28/07/1960.

Começo - As primeiras explorações na vasta região de Campo Mourão começaram por volta de 1918 por paraguaios e argentinos, em virtude da abundante erva-mate por aqui.
As maiores reservas ficavam em Porto Mendes, Cascavel e Campo Mourão.
Os aventureiros penetravam a mata por caminhos nativos ou abriam “picadas”.
Na região de Guarapuava e Laranjeiras havia a Companhia Mate Laranjeira, enquanto que na região de Alto Paraná, Porto Mendes, Porto Allica, quem explorava a erva-mate era a Companhia Allica que instalava acampamentos a partir do Rio Piquiri até a região de Campo Mourão.

Império - O argentino Dom Júlio Thomas Allica, proprietário da companhia, foi o principal explorador e exportador de erva-mate na grande região de Campo Mourão, hoje formada pelos 25 da Comcam Comunidade da Região de Campo Mourão. A mão-de-obra nos ervais era paga com baixos salários, apesar da companhia Allica ser rica e poderosa. Os trabalhadores, em regime de escravidão, eram chamados “mensus”, porque recebiam minguados salários mensais. Nos casos de fuga, os trabalhadores eram punidos com a morte, pelo carrasco Santa Cruz, cunhado e capataz do poderoso Allica.
Com o intenso trabalho das companhias, vários acampamentos surgiram: Memória, Lupái, Boicai, Santa Cruz e Porto Piquiri. Do outro lado do Rio Piquiri surgiram outros povoamentos: Ronquita, Catatumba, Inhampecê, Pensamento, Don Canuto, Sununu e Natividad (atual Mamborê).
Natividad era uma espécie de Capital. Detinha o acampamento principal, com armazém, víveres, armas, barracão e um número maior de ranchos que localizava-se na atual Praça das Flores, no centro da Cidade de Mamborê. Deste ponto saiam as picadas em direção aos demais acampamentos de colheita da cobiçada erva nativa

Violência - A localidade conhecida como Campina do Amoral, na época era chamada de Tapera de Sinhá Ana Coita (nome de uma moradora do local). Havia uma picada de Natividad a essa localidade e, a partir daí, era possível seguir as vilas de Pitanga ou de Campo Mourão.
Os catadores de erva-mate, tendo maior contato com moradores de Campo Mourão que vinham a Natividad vender seus produtos, tomaram conhecimento da existência do caminho via Tapera de Sinhá Ana Coita. Devido aos maus tratos e a situação de miséria em que viviam, decidiram fugir. Após se organizarem, foram até Tapera de Sinhá Ana Coita. A maioria debandou na direção de Campo Mourão e não foi alcançada pela patrulha do carrasco Santa Cruz, enquanto a minoria fugiu em direção a Pitanga. Foram alcançados e mortos violentamente pelos asseclas do sanguinário Santa Cruz. O local ficou conhecido como “Las Cruces” e os corpos abandonados, depois sepultados por brasileiros que os encontraram aos pedaços, vários dias depois.


Origem de Mamborê - O Acampamento Natividad ficou um período abandonado pelas fugas e falta de nova força trabalhadora devido as notícias ruins e dos maltratos da Companhia Allica, que se espalharam por todos os lugares. No trabalho do carrasco Santa Cruz, na busca de trabalhadores nos arredores de Alto Paraná, ele fazia promessas que não seriam cumpridas e até usava de violência para trazer os homens e, assim, o acampamento foi reativado.
Para "esquecer" Natividad e apagar a fama de lugar ruim, Dom Júlio Allica, trocou o nome para “Haamam-Amburê” que, no dialeto Guarani, “Haamam” significa “lugar distante” e “Amburê” quer dizer “reunião de pessoas” que, com o tempo abreviou-se: Mamborê.

Início do fim - Na Revolução de 1924 as tropas Legalistas de Arthur Bernardes se defrontam com as tropas da Resistência rebelde comandadas pelo general Izidro Dias Lopes e pelo tenente João Cabanas. Uma das ferozes batalhas aconteceu na Serra dos Medeiros, entre Cascavel e Laranjeiras do Sul, onde as tropas da Resistência foram derrotadas.
O tenente Cabanas e seus homens fugiram pelos acampamentos Santa Cruz, Pensamento e Haamam Amburê na tentativa de chegar a Campo Mourão e seguir para Mato Grosso, através da Estrada Boiadeira.
Mas, o plano fracassou quando, antes de chegarem ao povoado de Campo Mourão, foram surpreendidos pelas forças do governo, que os cercaram pelo Picadão de Pitanga.
O tenente Cabanas mandou dar meia volta, retornou a “Haamam Amburê” e seguiu rumo ao Paraguai pela foz do Rio Iguaçu. Com ele e a tropa militar foram os fugitivos dos acampamentos da Companhia Allica.
Na fuga, destruíram pontes e afundaram balsas e canoas, afim de evitar qualquer perseguição por parte das forças legalistas. Ferramentas, armas, ranchos, depósitos abarrotados de erva-mate ficaram abandonados.

Fim da Allica - Após vários anos de exploração, Dom Júlio Allica abandonou a região. Os vestígios de seus acampamemtos e das lutas militares são muitos e bem visiveis na área do Município de Mamborê.  Até recentemente encontrava-se munições e armas, bem como buracos na terra (trincheiras) em vários lugares. Na região do Gavião, até poucos anos, havia sinais da existência de um “carijo”, instrumento de processamento das folhas da erva-mate.
O império de Allica desmoronou com Revolução no Brasil e pelo triste fim do seu capataz Santa Cruz, assassinado em Quatro Pontes, um lugar !qualquer" na região.

Trecho da História de Mamborê

Copilado por Wille Bathke Jr