02/08/2017

CAMPO MOURÃO NA HISTÓRIA DO BRASIL

 Situação Histórica



É antiguíssima a história territorial de Campo Mourão, tanto que se confunde com a do Brasil, pois, sua área de 766.4 km2, faz parte do imenso território nacional.
O traçado urbano e rural está desenhado sobre região quase plana com suaves declínios que se debruçam diretamente aos dois regulares mananciais que a circundam, ricos em vertentes de água natural. O magnífico espigão, sobre o qual se fixa o quadro urbano, está localizado no terceiro planalto paranaense a 24º02'38'' de Latitude Sul e 52º22'40'' de Longitude Oeste do Meridiano de Greenwich, a uma altitude média de 630 metros acima do nível do Oceano Atlântico com características únicas no planeta Terra, entre as férteis várzeas do Rio do Campo e do Ribeirão 119, que deságuam no Rio Mourão, tributário do Rio Ivai que, por sua calha,  despeja sua água corrente no caudaloso Rio Paraná, e daí, no Oceano Atlântico.



O terreno primitivo, elevado e imune a enchentes, está sobreposto a um rico solo basáltico coberto por gramíneas e capins típicos, entremeados a uma vegetação de centenas de espécies que se destacam em um imenso cerrado de arbustos, árvores e palmeiras de pequeno porte, resistentes ao calor, a maioria retorcida, de grossas cascas medicinais e diferentes frutíferas, que abrigam rica flora e fauna.
Abaixo do subsolo e da imensa laje basáltica, a cerca de mil metros de profundidade média, encontra-se água pura e cristalina do imenso Aqüífero Guarani ou Mar de Botucatu.
O território central, em seu conjunto todo, forma um cerrado emaranhado de campos e pequeno bosques onde predominam árvores de Copaíba, Angico do Campo, Cereja campestre, Ipê Amarelo, Gabirova, Pitanga, Piqui, Barbatimão, Ariticum, Capota e etc. Este raro ecossistema, localizado no Centro Oeste do Paraná, era cercado por três tipos de florestas bem distintas: a de Araucárias (pinheirais, erva-mate e outras madeiras nobres de clima frio) desde o norte de Santa Catarina até a margem direita do Rio do Campo: a Tropical (clima temperado) desde o sul de São Paulo até a margem direita do Rio do Campo e a do Arenito do Caiua (madeiras nobres e palmitais) desde o sul de Mato Grosso até a margem esquerda do Ribeirão 119. Esta última destacava-se pela enorme quantidade de perobas branca e rosa, pau-marfim, óleo pardo e abundantes palmitos, em solo arenoso de clima úmido e quente elevado.

Tudo a ver com Campo Mourão


Em Abril de 1500, quando o explorador português, Pedro Álvares Cabral, ancorou ao largo de Porto Seguro, no sul da Bahia, com 10 caravelas, retornou com todas elas carregadas de Pau Brasil e várias especiarias extraídas da Mata Atlântica povoada por nativos  facilmente conquistados com bugigangas e quinquilharias que lhes foram oferecidas, e habitado por centenas de milhares de aves e animais nunca vistos pelos europeus. 
Antes de Cabral iniciar a extração da riqueza do Pau Brasil, já se tinham notícias de outras frotas de caravelas chegadas ao continente sul-americano, dentre elas a do navegador italiano Cristóvão Colombo, em 1492, que ancorou nas Antilhas da América Central, e a de João Dias de Solis, navegador espanhol, em 1516, que cruzou toda a costa brasileira rumo a Bacia do Rio da Prata a fim de estabelecer um porto destinado à segurança das naus espanholas na Bacia do Rio da Prata. 
Porém, antes de completar a viagem traçada, resolveu fundear sua nau e visitar tribos de índios Carios (Carijós) que avistou em terra firme do continente desconhecido. Ao desembarcar na praia, Solis e dezenas de marujos que o acompanhavam, foram atacados e impiedosamente mortos pelos nativos.
Os 11 marinheiros que ficaram a bordo do navio assistiram o massacre e, apavorados, embarcaram em um único escaler (pequeno bote) e remaram desesperadamente de volta em direção a Ilha de Santa Catarina sobre mar revolto, borrascas e ventos cortantes. Quase próximo ao território catarinense o bote virou sob o impacto das violentas ondas, mas os marinheiros, com muito esforço, conseguiram chegar a praia, a nado, em local também habitado por índios, porém de índole pacífica, que os acolheram e abrigaram. Este trecho de areia firme ficou conhecido como Praia dos Naufragados, no litoral catarinense.

Descoberta do ouro Inca

Dentre os tripulantes espanhóis havia um astuto marinheiro português de nome Aleixo Garcia, que depois casou com uma nativa e teve um filho de nome Diogo Garcia. 

Havia também um negro (José Pacheco) e nove espanhóis.
Nas reuniões da tribo, Aleixo Garcia e seus companheiros, ouviam os nativos contar histórias sobre as reluzentes montanhas do Sol e da Lua que resplandeciam ao sol e ao luar, nos distantes sertões continente a dentro, e que podiam ser atingidas depois de longa caminhada pela trilha primitiva do “Pê abê i u” (caminho antigo de ir e vir). Aleixo Garcia, o mais arrojado dos náufragos, ficou convencido que as ditas montanhas eram de ouro (sol) e de prata (lua). Nas mesmas narrativas ouviu falar do Império Ínca ou Império do Sol, onde utensílios e adornos eram de ouro, estanho e prata (até então os povos sul-americanos desconheciam o ferro).
Em 1523, Garcia convidou seus companheiros a fazer parte desta cega aventura, mas apenas dois toparam. Justamente o negro e um espanhol. A pedido de Garcia, a tribo formou um exército com cerca de 2 mil flecheiros dos temidos carijós e com eles foram sua mulher e seu filho, cientes dos perigos, dificuldades e tribos hostis que iriam confrontar ao longo do estreito caminho de aproximadamente 5 mil quilômetros, a pé. Munidos de armas e alimentos primitivos e naturais, seguiram Pêabeiu afora e continente adentro a partir da Praia dos Naufragados. Na divisa de Santa Catarina/Paraná atravessaram os rios Santo Antonio e Iguaçu. Em 1524 atingiram a região dos Campos, as margens dos rios Tibagi e Cantu, atravessaram a região do Cerrado onde está Campo Mourão, cruzaram o Rio Paraná e estabeleceram a Vila de Nuestra Senhora de Assumpcion, onde construíram abrigos e plantaram roças de subsistência. Uns poucos ficaram enquanto o grosso da expedição de Garcia seguiu em frente.  Em 1525 avistaram terras povoadas nas proximidades de Cuzco (capital do Império Inca). Fizeram rápidos contatos com alguns moradores, trocaram presentes e conseguiram 25 quilos de peças artesanais em ouro puro.
Avisados que soldados incas foram alertados da presença de invasores brancos e de índios desconhecidos, vinham em seu encalço, Garcia deu ordem de retirada e regressou pelo mesmo caminho. Na volta, próximo de Assunção (Vila São Pedro/Garcia Coé), na travessia do Rio Monday, foi atacado por índios Paiaguás que, praticamente, exterminaram o exército Carijó e, entre os mortos, tombou Aleixo Garcia.
Seus dois amigos marujos e algumas dezenas de índios aliados conseguiram escapar do massacre, com parte do ouro. Retornaram à Santa Catarina e a notícia do Império do Sol espalhou-se rapidamente entre espanhóis e portugueses e daí em diante formaram-se muitas caravanas, registrando-se intensos avanços em busca do ouro e da prata que mais tarde foi encontrada em Potossi (Bolívia), a 150 km de onde passou a caravana de Garcia.
Desta forma, Aleixo Garcia foi o primeiro comandante branco a cruzar pela região de Campo Mourão e a descobrir a nação Inca, através do caminho e trilhas do milenar Peabeiu.

Em 1541, o comandante militar espanhol, Alvar Nuñes Cabeza de Vacca, foi designado ‘adelantado’ militar de Assunção e da Província Del Guairá (hoje oeste do Estado do Paraná que tinha como ponto central a região conhecida como Campos (Campo Mourão) onde situava-se o grosso da nação Guarani, com mais de 250 mil nativos. Cabeza de Vacca e seu pequeno exército de 230 arcabuzeiros (atiradores)) e cerca de 20 cavalos foi o segundo comandante branco a passar pela região de Campo Mourão. Guiado pelos índios seguiu, praticamente, a mesma trilha do Pêabeiu até aqui, utilizada por Aleixo Garcia. Cabeza de Vacca apenas derivou sua rota a Oeste e deparou-se com as belezas das Cataratas do Iguaçu e dali atravessou o Rio Paraná, de onde alcançou Assunción - Paraguai.

Destruição das Missões 



O domínio espanhol na região terminou a partir de 1630 com invasão e ataque intermitente de bandeirantes paulistas às missões jesuítas, na caçada de índios para trabalho escravo e busca de riquezas fáceis.
No desespero de salvar os nativos catecúmenos, que sobreviveram aos primeiros massacres nas missões da Província Del Guairá, os jesuítas castelhanos encabeçaram uma dramática fuga, de cerca de 12 mil índios do Paraná, em 1631, conduzidos além das barrancas do Rio Paraná por cerca de 1500 km a pé, que se refugiaram nas cercanias das Cataratas do Iguaçu, em vasta terra paraguaia e Argentina, onde começaram tudo de novo, inclusive denominando as novas reduções, com nomes das destruídas em terra brasileira.


Nota - (Assista essa invasão bandeirante no excelente filme: “Missão”, com Roberto Del Niro). 

Wille Bathke Junior - Campo Mourão - Pr, 11 de Janeiro de 2015